O Estado que
sonha grande:
Mazzucato e a bússola
do bem comum
Em seu novo livro, a economista ítalo-americana Mariana Mazzucato propõe nada menos que a refundação do capitalismo — colocando metas coletivas, participação cidadã e sustentabilidade no centro da política econômica. O Brasil, com a Nova Indústria Brasil, já ensaia alguns passos nessa direção.
Em junho de 2026, enquanto líderes mundiais ainda digladiavam sobre como conciliar crescimento econômico e crise climática sem sacrificar nenhum dos dois, Mariana Mazzucato lançou The Common Good Economy: A New Compass — obra que chega como uma espécie de manifesto científico e político para o nosso tempo. A economista, professora na University College London (UCL) e fundadora do UCL Institute for Innovation and Public Purpose (IIPP), argumenta que o modelo econômico vigente falhou em suas promessas mais fundamentais e que é hora de reescrevê-lo com outra bússola.1
Diagnóstico: um sistema que falhou
O ponto de partida de Mazzucato não é otimista, mas tampouco é catastrofista. O sistema econômico contemporâneo, ela argumenta, funciona em modo reativo: os governos passam o tempo corrigindo as falhas dos mercados em vez de moldá-los desde o início para produzir os resultados que as sociedades precisam. Em seu artigo seminal publicado no Journal of Economic Policy Reform em 2024 — "Governing the economics of the common good: from correcting market failures to shaping collective goals" — Mazzucato traçou os fundamentos teóricos de uma nova abordagem.2
O diagnóstico é preciso: a crise climática se acelera, a desigualdade aprofunda-se, a confiança pública nas instituições esfacela-se e a riqueza concentra-se nas mãos de poucos enquanto governos tentam remendar o que os mercados não conseguem fazer. Mazzucato não aceita a premissa de que esse cenário é inevitável — e tampouco que a solução seja simplesmente "mais Estado" ou "mais mercado". O debate binário, para ela, é parte do problema.
"O crescimento nunca é em si mesmo uma missão — ele é o resultado da atividade econômica. Se focamos nas missões corretas, o crescimento virá como consequência."— Mariana Mazzucato — Substack Mission Economics, outubro de 2025
A bússola de cinco dimensões
Em seu artigo de 2024 — e desenvolvido com mais profundidade no novo livro — Mazzucato propôs uma "bússola do bem comum" composta por cinco pilares interdependentes. Não se trata de um programa de governo, mas de um arcabouço para orientar relações econômicas entre Estado, empresas e sociedade civil. A novidade está na ênfase no como as metas coletivas são alcançadas — não apenas o que se quer alcançar.3
Propósito e direcionalidade
A economia deve ser orientada por objetivos coletivos deliberadamente escolhidos, não por trajetórias emergentes do mercado.
Co-criação e participação
Políticas públicas precisam ser construídas com cidadãos e comunidades, não apenas para eles — o processo importa tanto quanto o resultado.
Aprendizado coletivo
O conhecimento gerado com investimento público deve circular amplamente, não ser privatizado por poucos atores.
Acesso e partilha de recompensas
Quem financia os riscos coletivos — frequentemente o Estado — deve também colher parte proporcional dos retornos.
Transparência e prestação de contas
Toda a cadeia de decisões sobre investimentos públicos deve ser rastreável, auditável e submetida a avaliação periódica pela sociedade.
Segundo a própria Mazzucato em seu Substack Mission Economics, a bússola não é abstrata — ela emerge da colaboração com governos e comunidades que tentaram aplicar cada elemento na prática.4 Entre 2022 e 2024, por exemplo, ela trabalhou com a primeira-ministra Mia Mottley e o governo de Barbados para desenvolver uma estratégia industrial orientada por missões — um caso que ela cita como demonstração concreta de que é possível colocar cultura e identidade como missão transversal de toda a política econômica.
Do "Estado empreendedor" à economia do bem comum: uma trajetória intelectual
Para entender o peso do novo livro, é preciso situá-lo na trajetória intelectual de Mazzucato. Seu nome ganhou projeção global em 2013, com The Entrepreneurial State — publicado em português como O Estado Empreendedor —, obra em que desmontou empiricamente o mito de que a inovação tecnológica é essencialmente produto do setor privado. Tomando exemplos como a internet, o GPS e os componentes do iPhone, Mazzucato demonstrou que o Estado assumiu os riscos mais radicais e fundamentais da inovação tecnológica — financiando pesquisa básica em etapas de incerteza intransponível para o capital privado — ao passo que as empresas colheram a maior parte dos frutos.5
A crítica central d'O Estado Empreendedor é que essa divisão assimétrica — socialização dos riscos, privatização dos retornos — não é apenas injusta, mas também economicamente ineficiente a longo prazo, porque desestimula o tipo de investimento de longa maturação que gera saltos tecnológicos genuínos. A tese reverberou em círculos acadêmicos e de política pública em todo o mundo, inclusive no Brasil: a Revista Brasileira de Inovação da Unicamp dedicou espaço a analisar as implicações do argumento para a política industrial brasileira, destacando o papel estratégico de bancos de desenvolvimento como o BNDES.6
O novo livro, The Common Good Economy: A New Compass, pode ser lido como a continuação natural dessa trajetória: se O Estado Empreendedor diagnosticou quem cria valor e quem captura valor de forma desproporcional, a nova obra pergunta como reorganizar o sistema para que a criação de valor seja orientada por objetivos coletivos — não apenas por rentabilidade privada de curto prazo. Segundo reportagem do The Guardian, Mazzucato quer que os governos não apenas consigam que as populações tolerem suas políticas, mas que façam as pessoas sonhar — que ofereçam uma narrativa positiva e transformadora, capaz de mobilizar energia jovem e imaginação coletiva para desafios civilizatórios.7
A bússola e o Brasil: missões, BNDES e desindustrialização
O percurso intelectual de Mazzucato encontra um terreno de teste especialmente fértil no Brasil. Em janeiro de 2024, o governo federal lançou a Nova Indústria Brasil (NIB), uma política industrial estruturada em seis missões orientadas por problemas — segurança alimentar, resiliência em saúde, infraestrutura, digitalização, transição energética e soberania em defesa. A arquitetura conceitual da NIB incorpora explicitamente o modelo de missões desenvolvido por Mazzucato, que estabelece que políticas industriais devem estar vinculadas ao desenvolvimento humano e social, resolvendo problemas reais que a população enfrenta.8
O BNDES assume papel central na política: o banco comprometeu R$ 300 bilhões até o final de 2026, operando como ator estratégico de financiamento de longo prazo — exatamente o tipo de papel que Mazzucato descreve n'O Estado Empreendedor para bancos de desenvolvimento. Até maio de 2025, o BNDES já havia investido R$ 205 bilhões sob a NIB, com maior concentração nas missões de Agricultura (R$ 56,2 bi), Infraestrutura (R$ 50,8 bi) e Digital (R$ 49,6 bi).9
Em um relatório de política produzido pelo IIPP de Mazzucato em colaboração com o Ministério da Gestão e Inovação brasileiro — publicado em janeiro de 2025 —, o instituto reconhece que o Brasil já desenvolveu instituições públicas de referência global, como o próprio BNDES, e que pode usar essa base para construir a próxima geração de ferramentas de política orientadas por missões.10 O relatório aponta, contudo, que o desafio não é apenas financeiro, mas de capacidade institucional: o Estado precisa não apenas de dinheiro, mas de competências burocráticas, visão estratégica e habilidades específicas em tecnologia e setores produtivos.
"Não é sobre Estado grande ou pequeno. É sobre um Estado que joga um papel mais inteligente e estratégico na sociedade — proativo, não apenas reativo aos problemas."— Mariana Mazzucato — Rockefeller Foundation, maio de 2026
O sonho como instrumento de política
Há uma dimensão que diferencia o pensamento de Mazzucato do pragmatismo tecnocrático que caracteriza boa parte da literatura de política industrial: sua insistência no papel do imaginário coletivo. Em entrevista ao The Guardian, ela afirmou que o que a mantém esperançosa é a possibilidade de criar uma narrativa feliz para o bem comum — capaz de inspirar os jovens que, segundo ela, "olham para o céu" em busca de algo maior.7 O exemplo que invoca é a missão Artemis — o programa de retorno à Lua da NASA — como modelo de ambição capaz de mobilizar imaginação e investimento ao mesmo tempo.
Esse aspecto do argumento de Mazzucato tem uma dimensão científica reconhecida. A Rockefeller Foundation, que apoiou seu período de residência no Bellagio Center em 2024, onde ela desenvolveu o novo livro, destaca que ameaças coletivas exigem soluções coletivas — e que a dificuldade de mobilizar ação coordenada em escala não é apenas econômica ou política, mas também narrativa.11 Povos e governos não se mobilizam apenas por incentivos racionais; mobilizam-se por visões de futuro que ressoam com suas identidades e aspirações.
O Vaticano, o G20 e a urgência do tempo presente
Em 2024, Mazzucato participou de um diálogo histórico no Vaticano com o então Papa Francisco e a primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley, para apresentar o argumento de uma economia centrada no bem comum. Francisco afirmou na ocasião que "a busca pelo bem comum e pela justiça são essenciais e indispensáveis para a defesa de toda a vida humana, especialmente a mais frágil, e para o respeito de todo o ecossistema que habitamos".11 A aproximação entre o discurso econômico de Mazzucato e a tradição da doutrina social da Igreja — que há séculos emprega o conceito de bem comum — não é coincidência, e aponta para a amplitude da ressonância de suas ideias.
No plano científico, o argumento ganha eco crescente. O paper de 2024 publicado no Journal of Economic Policy Reform — que serviu de alicerce teórico para o livro — propõe superar tanto a noção clássica de bens públicos quanto a tradição dos "comuns" de Ostrom, oferecendo uma concepção renovada do bem comum como orientação para moldar e dirigir a economia, e não apenas corrigir suas falhas.2 A distinção é crucial: uma teoria de falhas de mercado é, por definição, reativa; uma teoria do bem comum é proativa e direcional.
Críticas e limites do modelo
O pensamento de Mazzucato não é isento de controvérsias. A economista Deirdre McCloskey e o cientista político Alberto Mingardi, em seu livro The Myth of the Entrepreneurial State, argumentam que Mazzucato seleciona exemplos de sucesso estatal e ignora os casos — mais numerosos, segundo eles — em que a política industrial falhou. A objeção central é que, dado o aumento exponencial dos gastos públicos desde o século XX, seria surpreendente se nenhum desses recursos financiasse algo tecnologicamente relevante — o que não provaria a tese geral sobre a superioridade do Estado como agente inovador.12
A crítica liberal aponta ainda para os riscos de captura regulatória: governos podem ser cooptados por interesses privados exatamente nas parcerias que Mazzucato celebra. No Brasil, esse é um risco estrutural bem documentado pela literatura em ciência política. A resposta de Mazzucato a essas objeções é que o problema não está na interação Estado-mercado, mas na ausência de condicionalidades claras, prestação de contas transparente e partilha simétrica de riscos e retornos — justamente os elementos que a bússola do bem comum procura sistematizar.
Uma ciência econômica que serve à vida
Seja qual for o grau de concordância com suas propostas, Mazzucato representa algo raro no debate público contemporâneo: uma economista rigorosa que não abandona o ambicioso terreno da teoria por conveniência política, mas tampouco se isola em modelos abstratos desconectados das urgências do mundo real. Seu trabalho circula entre a Comissão Europeia, o G20, a ONU e o Vaticano — e agora também molda a arquitetura da política industrial brasileira. Em um momento de crise sistêmica das democracias e dos ecossistemas, essa capacidade de dialogar com múltiplos atores sem perder o rigor científico é, em si mesma, uma forma de bem comum.
O Brasil que sediou a COP30, que adota o conceito de missões na Nova Indústria Brasil e que debate ativamente como usar o BNDES e a FINEP como instrumentos de transição ecológica e inclusão produtiva está, ainda que de forma inconsistente e fragmentada, navegando pelo tipo de bússola que Mazzucato propõe. O desafio é transformar a ambição normativa em capacidade institucional real — e, como ela insiste, fazer isso de um jeito que as pessoas possam sonhar junto.
Referências e fontes
- UCL Institute for Innovation and Public Purpose (IIPP) — Página institucional de Mariana Mazzucato, University College London.
- MAZZUCATO, M. (2024). "Governing the economics of the common good: from correcting market failures to shaping collective goals." Journal of Economic Policy Reform, 27(1), pp. 1–24.
- UCL Bartlett — Book launch: Common Good Economy: a new compass, junho de 2026.
- MAZZUCATO, M. "The Common Good Economy: a new compass." Mission Economics (Substack), junho de 2026.
- MAZZUCATO, M. O Estado Empreendedor. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2014. (Título original: The Entrepreneurial State: Debunking Public vs. Private Sector Myths, 2013.)
- COSTA, J.O.P.; MENDONÇA, S.; CAMPOS, A.S. "Mariana Mazzucato — The Entrepreneurial State." Revista Brasileira de Inovação, Unicamp, v. 14.
- "Make people dream: the planet-friendly vision for a new economics of the common good." The Guardian, 26 jun. 2026.
- "The reindustrialization of Brazil through the Nova Indústria Brasil plan." Latam FDI, jan. 2025.
- "A Nova Indústria Brasil: the R$300 billion plan." Click Petróleo e Gás, jun. 2025.
- MAZZUCATO, M. (ed.). State Transformation in Brazil — Policy Report. UCL IIPP / Ministério da Gestão e Inovação, jan. 2025.
- "A New Compass: Mariana Mazzucato on the Common Good Economy." Rockefeller Foundation, maio de 2026.
- "O mito do Estado empreendedor." Instituto Liberal, 2021. (Resenha de MCCLOSKEY, D.; MINGARDI, A. The Myth of the Entrepreneurial State.)
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