Em julho e agosto deste ano, brigadas da Unidade Militar de Emergências e da Guardia Civil foram mobilizadas em várias regiões da Espanha para conter incêndios que confinaram milhares de moradores e consumiram parques naturais inteiros1. O episódio reacendeu, do outro lado do Atlântico, uma pergunta que também ronda o debate público brasileiro: quando o fogo avança, quem paga a conta, e por que ela costuma chegar tarde demais.
Um artigo de opinião publicado pelo jornal espanhol El País em 22 de agosto, assinado por Pepe Álvarez, resumiu o paradoxo com uma frase que circula na política ibérica há anos: a ideia de que o dinheiro do cidadão está sempre melhor guardado no próprio bolso do que nas mãos do Estado. O texto argumenta que essa lógica desmorona no momento em que a emergência chega, quando comunidades autônomas que fizeram da redução de impostos uma bandeira eleitoral passam a exigir do governo central mais aviões, mais brigadas e mais tropas1. O caso espanhol, no entanto, está longe de ser isolado. Ele ilumina um dilema que atravessa qualquer país que tenha floresta, seca e um debate fiscal em aberto, o Brasil incluído.
O que aconteceu na Espanha em 2026
Os números da temporada reforçam o alerta. Segundo o sistema europeu de monitoramento por satélite EFFIS, a Cantábria concentrou cerca de 15.500 hectares queimados até julho, um resultado atípico para uma região que historicamente não figura entre as mais castigadas pelo fogo no país, ao contrário de Ourense, Zamora e León2. A Espanha já havia registrado 14 grandes incêndios, com mais de 500 hectares cada, somando 353 grandes ocorrências desde o início do século2. No conjunto da União Europeia, a área queimada em 2026 chegou a ficar cerca de 16% acima da média histórica para o período2. Em nível global, a Rede Mundial de Atribuição estimou que mais de 150 milhões de hectares foram consumidos pelo fogo entre janeiro e abril, uma extensão equivalente a queimar todo o Estado do Amazonas, cerca de 50% acima da média da última década3.
O espelho brasileiro
O Brasil vive uma temporada igualmente tensa. Até meados de agosto, o país já havia registrado 29.618 focos de incêndio em 2026, segundo a plataforma Terra Brasilis, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais4. Mato Grosso lidera o ranking estadual, seguido por Tocantins, Bahia, Maranhão e Pará, estados que juntos concentram mais de 18 mil ocorrências4. Só em junho, o Boletim Infoqueima do INPE contabilizou 14.693 eventos de fogo e uma área queimada estimada em 3,22 milhões de hectares, com 70% dos casos classificados como queimadas de origem antrópica5. O Ministério de Meio Ambiente e Mudança do Clima já alertou que o El Niño deve elevar temperaturas e ampliar o risco de incêndios florestais entre agosto e outubro deste ano4.
A boa notícia é que parte da resposta pública brasileira parece funcionar quando é financiada com antecedência, exatamente o ponto central do debate espanhol. O próprio MMA registrou queda de 39% nas áreas queimadas em 2025 na comparação com 2022, com recuo de 50% na Amazônia e 32% no Cerrado segundo o sistema Prodes6. O resultado foi atribuído à atuação integrada de 246 brigadas florestais federais, ligadas ao Ibama e ao ICMBio, e a repasses como os R$ 405 milhões do Fundo Amazônia destinados aos Corpos de Bombeiros dos nove estados da Amazônia Legal entre 2024 e 2025, além de R$ 150 milhões direcionados pela primeira vez a corporações do Cerrado e do Pantanal6. É a mesma lógica descrita no artigo do El País a respeito da Espanha: a prevenção não gera manchete, não produz dividendo visível e, por isso mesmo, tende a ser a primeira linha de corte quando o orçamento aperta1.
A prevenção não é rentável no sentido de mercado. Ela só aparece nos números quando falha.
O paradoxo da carga tributária recorde
Aqui o caso brasileiro ganha um contorno próprio, e mais complexo do que o espanhol. Enquanto a discussão europeia gira em torno de comunidades que cortaram impostos e depois cobraram socorro do Estado central, o Brasil vive o movimento inverso: a carga tributária bruta bateu recorde histórico em 2025, atingindo 32,4% do PIB, segundo boletim do Tesouro Nacional, o maior patamar da série iniciada em 20107. A arrecadação federal sozinha chegou a 21,6% do PIB, impulsionada pela alta do Imposto de Renda Retido na Fonte e pelo aumento do IOF sobre operações cambiais e de crédito7.
O paradoxo brasileiro, portanto, não é o de um Estado subfinanciado por escolha ideológica, mas o de uma sociedade que já paga uma das cargas tributárias mais altas entre os países emergentes e ainda assim convive com lacunas recorrentes de capacidade operacional em defesa civil, prevenção de incêndios e resposta a desastres7. Isso desloca o debate: não se trata apenas de quanto o Estado arrecada, mas de como esse volume de recursos é convertido em capacidade de resposta antes que a emergência se instale. A reforma tributária, que entrou em fase de testes em janeiro de 2026 com a cobrança simbólica da CBS e do IBS, promete simplificar o sistema até 2033, mas por ora não resolve essa equação entre arrecadação recorde e serviços públicos percebidos como insuficientes em momentos de crise8.
Contraponto: o outro lado do debate
Nem todos os economistas e formuladores de política leem o problema como uma questão de tamanho do Estado. Para correntes fiscais mais liberais, o caso espanhol e o brasileiro provam exatamente o oposto do que sugere o artigo do El País: o problema não seria a falta de arrecadação, mas a má alocação dela. Defensores dessa visão argumentam que o Brasil, com carga tributária de 32,4% do PIB, já arrecada o suficiente para financiar prevenção robusta contra incêndios, e que a repetição de crises indica falha de gestão, não de receita7.
Nessa leitura, a resposta correta não seria elevar ainda mais os tributos, mas redesenhar prioridades orçamentárias, fortalecer mecanismos de fiscalização de gastos e transferir competências para níveis de governo mais próximos do território, como já ocorre parcialmente com o financiamento estadual das brigadas via Fundo Amazônia. O contraste entre as duas visões, gastar mais ou gastar melhor, é o que mantém o debate fiscal aberto tanto em Madri quanto em Brasília.
O que fica da comparação
O artigo do El País termina com uma inversão da frase que abre este texto: o dinheiro do cidadão está no bolso, mas também está protegendo esse bolso quando financia um Estado capaz de responder a grandes riscos1. A comparação com o Brasil sugere uma camada adicional a essa conclusão. Não basta arrecadar mais, é preciso que a arrecadação chegue, de forma estável e antecipada, às estruturas que evitam a emergência antes que ela se torne manchete. Os dados de 2025 mostram que, quando isso acontece, como no caso das brigadas federais e dos repasses do Fundo Amazônia, os resultados aparecem6. Quando não acontece, como sugerem os quase 30 mil focos já registrados em 2026, o país volta a discutir, incêndio após incêndio, que Estado quer ter quando tudo volta a arder4.
Perguntas frequentes
Nesta análise
Em números
Linha do tempo
Glossário
Referências
- Álvarez, P. ¿Qué Estado queremos cuando todo arde? El País, 22 ago. 2026. elpais.com
- Euronews. Forest fire figures in Spain in 2026. 4 jul. 2026. euronews.com
- Observatório do Clima. Incêndios já queimaram 150 milhões de hectares de vegetação no planeta em 2026. oc.eco.br
- Jornal Extra Alagoas. Brasil registra quase 30 mil focos de incêndio em 2026. ojornalextra.com.br
- INPE. Boletim Infoqueima — panorama das queimadas e do risco de fogo no Brasil em junho de 2026. gov.br/inpe
- Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. MMA apresenta queda de 39% nas áreas queimadas no Brasil em 2025. gov.br/mma
- Ministério da Fazenda / Tesouro Nacional. Carga tributária bruta do Governo Geral atinge 32,40% do PIB em 2025. gov.br/fazenda
- Agência Senado. Ano de 2026 marca implementação da reforma tributária. senado.leg.br