Opinião · Geopolítica

O mundo atravessa uma reconfiguração que os mapas ainda não registraram. Três blocos se desenham diante de nós: um formado pelos Estados Unidos e parte da América Latina, outro liderado pela China e ampliado pelos Brics, e um terceiro que a maioria dos analistas insiste em tratar como o mais frágil dos três, a Europa. O diagnóstico do declínio europeu não é infundado. Estagnação demográfica, dependência energética herdada da era pós-soviética, burocracia regulatória pesada e uma indústria de defesa fragmentada em duas dezenas de doutrinas nacionais são problemas reais, documentados e discutidos à exaustão em Bruxelas. Mas existe uma leitura inversa, menos confortável para quem só enxerga o declínio: este pode ser exatamente o momento em que a Europa recupera protagonismo, e o Canadá é a peça que torna esse movimento possível.

O Canadá como eixo, não como coadjuvante

Tratar o Canadá como apêndice geográfico dos Estados Unidos sempre foi um erro de leitura. O país tem reservas de energia e minerais críticos entre as maiores do mundo, um ecossistema de pesquisa em inteligência artificial concentrado em Toronto e Montreal que rivaliza com os polos californianos, indústria aeroespacial consolidada e uma tradição de pesquisa aplicada que poucos países de porte médio conseguem sustentar. O que faltava ao Canadá não era capacidade, era um projeto geopolítico que desse a essa capacidade um destino. A aproximação com a Europa é esse projeto.

O Canadá está deixando de ser um apêndice do G7 ligado aos Estados Unidos para se tornar o elo que costura o Atlântico Norte em torno da Europa.

O acordo de cem anos com a Ucrânia

Na quinta-feira, em Calgary, o primeiro-ministro Mark Carney e o presidente Volodymyr Zelensky assinaram uma declaração para uma parceria de cem anos entre os dois países, apoiada em três pilares: cooperação em defesa, crescimento econômico e reconstrução, e laços entre os povos1. O componente militar é o mais revelador. O Canadá vai construir milhões de drones nos próximos anos, combinando fabricantes canadenses com a indústria ucraniana testada em combate real, além de ampliar a cooperação em tecnologia antidrone, munições e inteligência artificial aplicada à guerra12. Foi anunciado também um novo pacote de aproximadamente 350 milhões de dólares canadenses em interceptores de defesa aérea, viabilizado pelo mecanismo Jumpstart dos Estados Unidos, e a extensão até 2029 da Operação Unifier, que treina forças ucranianas2. Uma joint venture entre a General Dynamics Mission Systems Canada e a empresa ucraniana GreenTech para produção de sistemas não tripulados também foi confirmada no mesmo evento3.

O desenho do acordo inverte a lógica assistencialista que costuma marcar o apoio ocidental a Kiev. Não se trata apenas de o Canadá financiar a reconstrução energética ucraniana, embora isso também esteja no pacote. Trata-se de o Canadá importar da Ucrânia algo que nenhum laboratório de defesa ocidental conseguiu replicar em escala equivalente nos últimos três anos, que é a doutrina de guerra com drones testada sob fogo real. Essa transferência de conhecimento militar é o tipo de ativo que nenhum tratado de livre-comércio tradicional consegue capturar, e é exatamente o tipo de ativo que fortalece a posição do Canadá como fornecedor de segurança para a Europa, não apenas como comprador de segurança americana.

Estrasburgo e o desenho de uma parceria inédita

O calendário da próxima semana confirma que o movimento não é episódico. Carney discursa no Parlamento Europeu em Estrasburgo em 17 de setembro, um dia depois de acompanhar o discurso anual sobre o Estado da União da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen4. A embaixadora da União Europeia no Canadá, Geneviève Tuts, descreveu o formato em construção como algo diferente de qualquer arranjo que o bloco já tenha com outros parceiros, incluindo Suíça, Noruega e Reino Unido5. Um acordo formal não deve sair de Estrasburgo, mas a cúpula recorrente entre União Europeia e Canadá, marcada para 29 e 30 de outubro em território canadense, é o horizonte declarado para consolidar o que hoje ainda está em fase de desenho5.

É esse encadeamento de compromissos, cada um pequeno isoladamente, que constrói um bloco. Um pacto de defesa industrial assinado meses atrás, um acordo de livre-comércio já vigente, uma parceria estratégica em ampliação, e agora conversas para aprofundar segurança e economia com a segunda maior economia do mundo. Carney já havia sinalizado essa direção em agosto, ao afirmar que as discussões com a União Europeia buscariam construir uma parceria de segurança e economia mais forte e mais profunda5.

Por que esse bloco pode ser mais coeso que os outros

O argumento central a favor do eixo Canadá-Europa não é apenas de recursos, é de coesão relativa. O bloco liderado pelos Estados Unidos convive com tensões comerciais abertas com o próprio Canadá e com parceiros latino-americanos que hesitam entre alinhamento e autonomia. O bloco chinês, ampliado pelos Brics, reúne economias com interesses frequentemente divergentes, da Índia à Rússia, unidas mais pela oposição à ordem ocidental do que por um projeto positivo compartilhado. Já a combinação entre Canadá e Europa parte de valores institucionais próximos, sistemas democráticos consolidados, população com alta qualificação técnica e uma complementaridade de recursos que raramente aparece entre blocos geopolíticos. A Europa tem mercado consumidor, capacidade industrial madura e déficit de energia e minerais. O Canadá tem exatamente o inverso.

Contraponto

A tese tem limites que merecem ser ditos com a mesma clareza. A União Europeia ainda decide por consenso entre 27 países com interesses de defesa divergentes, e nenhum acordo com o Canadá resolve essa fragmentação interna. Os gastos militares europeus, mesmo em alta, seguem abaixo do necessário para reduzir a dependência da guarda-chuva americana no curto prazo. Existe também o fator imprevisibilidade: uma mudança de governo em Ottawa ou uma virada na política comercial americana pode reduzir o incentivo canadense a se afastar de Washington. E, em escala absoluta, o bloco China-Brics ainda supera Canadá e Europa somados em população, capacidade industrial manufatureira e reservas cambiais, o que torna a hegemonia projetada para 2050 uma aposta, não uma certeza.

Uma aposta para 2050

Dito isso, minha leitura é que a combinação entre o que o Canadá tem de melhor e o que cada país europeu tem de mais competitivo, energia e minerais canadenses, indústria aeroespacial e de inteligência artificial, pesquisa aplicada em ambos os lados do Atlântico, forma um bloco com potencial de crescimento sustentado nas próximas décadas. Não é uma previsão sem risco, é uma aposta baseada em um padrão que já está visível nos documentos assinados nesta semana e no calendário diplomático dos próximos meses. Se o ritmo atual de acordos se mantiver, e se a Europa souber usar o Canadá como parceiro de segurança sem repetir os erros de fragmentação que a enfraqueceram nas últimas décadas, o bloco Canadá-Europa tem condições reais de se tornar o polo dominante da ordem multipolar até 2050.

Artigo de opinião produzido com base em reportagem original da CBC News sobre a parceria de cem anos entre Canadá e Ucrânia, assinada por Murray Brewster, e em cobertura complementar do Globe and Mail, Bloomberg Opinion e The Canadian Press sobre a aproximação entre Canadá e União Europeia. As opiniões expressas são do autor.