Empresas voltam a valorizar humanidades diante da saturação de cursos técnicos
Durante duas décadas, o conselho para quem queria segurança profissional foi quase unânime: aprenda a programar. Hoje esse conselho já não garante o mesmo retorno. Uma reportagem publicada em 10 de setembro pelo Wall Street Journal descreve como universidades americanas e recrutadores de peso, de investidores a empresas de consultoria em inteligência artificial, passaram a recomendar cursos como antropologia, matemática pura e filosofia a estudantes que querem se diferenciar num mercado saturado de mão de obra técnica e cada vez mais automatizado1.
O argumento não é romântico. É estrutural. Segundo o levantamento, formandos em ciência da computação nos Estados Unidos superam em número as vagas que o setor consegue absorver, um desequilíbrio agravado pela própria IA, que já executa tarefas de programação antes reservadas a juniores. A resposta de parte do mercado americano tem sido buscar candidatos que dominem o que as máquinas ainda fazem mal: interpretar contexto, lidar com ambiguidade e argumentar com rigor diante de problemas mal definidos1.
A saturação que os EUA sentem, o Brasil ainda não sente do mesmo jeito
Transplantar esse diagnóstico para o Brasil sem ajustes seria impreciso. Os dados nacionais desenham um cenário quase oposto ao americano em um ponto central: aqui, a demanda por profissionais de tecnologia segue maior que a oferta qualificada. O setor de tecnologia da informação brasileiro cresceu 18,5% em 2025, acima da média mundial, segundo dados da ABES e da IDC, e associações como a Brasscom continuam apontando déficit de mão de obra especializada em IA, nuvem e engenharia de dados4. O Censo da Educação Superior confirma a tendência de expansão: entre 2022 e 2023, os cursos de computação e tecnologias da informação registraram o maior crescimento proporcional de matrículas entre todas as áreas do ensino superior brasileiro, com alta de 15,1%5.
A leitura brasileira, portanto, não é de excesso de formados em tecnologia, mas de descompasso entre o que se ensina e o que o mercado local e internacional exigem. Relatórios recentes do setor apontam gargalo justamente nas vagas de entrada, com empresas relatando que candidatos recém-formados chegam ao mercado sem base técnica sólida o suficiente para acompanhar a velocidade das mudanças em nuvem, segurança e modelos de IA generativa7. Ou seja, o problema brasileiro não é a existência de programadores demais, e sim de programadores júnior despreparados para um mercado que já mudou de patamar.
O que o argumento americano tem de válido também aqui
Mesmo com essa diferença estrutural, o núcleo do argumento do Wall Street Journal resiste à travessia do Atlântico. A reportagem cita o investidor Alec Litowitz, formado em matemática e antropologia antes de se tornar sócio fundador da gestora Citadel, para quem boa parte do conhecimento técnico adquirido na faculdade já foi ou será comoditizada pela IA. Segundo ele, o retorno mais duradouro vem de formações que treinam pensamento crítico e compreensão profunda das pessoas, exatamente porque essas habilidades resistem à automação1.
O relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, corrobora esse ponto em escala global. O documento projeta forte crescimento de vagas ligadas a IA, cibersegurança e big data, mas reforça que pensamento analítico, criatividade e colaboração seguirão entre as competências mais determinantes para a competitividade profissional até o fim da década, independentemente do setor de atuação2. No Brasil, esse movimento já aparece em levantamentos de plataformas de recrutamento: a habilidade que mais cresce em relevância nos processos seletivos combina estratégia de IA com competências comportamentais, e a maior parte das vagas emergentes de IA no país não exige formação em ciência da computação, e sim capacidade de aplicar a tecnologia com critério dentro de outras áreas4.
Há ainda um detalhe simbólico citado pelo jornal americano: empresas na fronteira da IA, incluindo a própria Anthropic, contratam filósofos para orientar o comportamento e os limites éticos de seus modelos, uma função que não existia há poucos anos e que hoje aparece também em concorrentes como OpenAI e Google1.
O outro lado: humanidades não são garantia de emprego
Contraponto
Vale a cautela contra qualquer leitura que romantize as humanidades como escolha segura. A própria reportagem do Wall Street Journal cita dados do Federal Reserve de Nova York mostrando que recém-formados em filosofia nos EUA, entre 22 e 27 anos, têm taxa de subemprego mais que o dobro da registrada entre formados em ciência da computação, ainda que a taxa de desemprego pura seja menor entre os filósofos1. No Brasil, pesquisas acadêmicas sobre a formação em ciências sociais apontam problema semelhante: currículos ainda muito voltados à docência e à pesquisa acadêmica, com poucas disciplinas eletivas pensadas para um mercado de trabalho mais amplo fora da universidade6. Trocar um diploma técnico saturado por um diploma humanista sem plano de carreira claro tende a substituir um problema por outro.
O que os dados brasileiros sugerem como caminho real
O retrato que emerge da combinação entre a reportagem americana e as fontes nacionais não é de escolha entre exatas e humanas, mas de combinação entre as duas. Estudos do setor de recrutamento mostram que o mercado de IA no Brasil sofre justamente pela escassez de profissionais que reúnam base técnica com capacidade analítica e comunicação, um gargalo que pesquisas da Gupy e da IBM classificam como o principal entrave à expansão do setor no país neste momento3. Especialistas em recrutamento consultados por veículos de tecnologia no Brasil recomendam que estudantes de qualquer área desenvolvam paralelamente alfabetização digital e pensamento crítico, em vez de apostar todas as fichas em um único curso considerado hoje seguro4.
Para o leitor brasileiro em início ou meio de carreira, a lição prática que se extrai do cruzamento dessas fontes não é abandonar a tecnologia, um setor que segue com déficit de mão de obra no país, nem romantizar as humanidades, que carregam desafios próprios de empregabilidade. É reconhecer que, à medida que a IA absorve tarefas técnicas repetitivas, o valor de mercado migra para quem consegue interpretar contexto, argumentar com rigor e tomar decisões em cenários ambíguos, seja qual for o diploma na parede.
Perguntas frequentes
A ciência da computação deixou de valer a pena no Brasil?
Não segundo os dados atuais. Diferentemente dos Estados Unidos, o Brasil registra déficit de profissionais qualificados em tecnologia, com o setor de TI crescendo 18,5% em 2025 acima da média global. O problema relatado por empresas brasileiras é a falta de preparo técnico de parte dos candidatos de entrada, não excesso de formados.
Por que empresas de IA como a Anthropic contratam filósofos?
Segundo reportagem do Wall Street Journal, empresas na fronteira da inteligência artificial contratam filósofos para ajudar a definir parâmetros éticos e de comportamento dos modelos, uma função relativamente nova que também existe em concorrentes como OpenAI e Google.
Formados em humanidades têm mais dificuldade de emprego do que os de tecnologia?
Depende do indicador. Dados do Federal Reserve de Nova York citados pelo Wall Street Journal mostram que formados em filosofia nos EUA têm taxa de subemprego mais alta que os de ciência da computação, mas taxa de desemprego mais baixa. No Brasil, pesquisas acadêmicas também apontam desafios curriculares na empregabilidade de cursos como ciências sociais.
Quais habilidades o mercado brasileiro está priorizando com a expansão da IA?
Levantamentos do setor de recrutamento apontam que a combinação entre estratégia de IA e habilidades comportamentais é a competência que mais ganha relevância no Brasil, e que a maioria das vagas ligadas à IA não exige formação em ciência da computação.