Política · Geopolítica da energia
Em resumoEm 9 de outubro de 2026, Donald Trump anunciou um acordo com Vladimir Putin para colocar até cerca de 4,8 milhões de toneladas de diesel russo no mercado global, e o Tesouro americano suspendeu temporariamente sanções sobre o combustível. A medida busca conter preços recordes antes das eleições de 3 de novembro, mas contradiz uma lei de sanções que o próprio Trump sancionou semanas antes e é contestada por senadores dos dois partidos. Para o Brasil, que importa a maior parte do seu diesel estrangeiro da Rússia, o movimento mexe com preço, oferta e risco diplomático.

Há decisões de política externa que se explicam pela estratégia e outras que só se explicam pelo calendário eleitoral. O acordo anunciado por Donald Trump em 9 de outubro, pelo qual a Rússia passaria a fornecer diesel aos Estados Unidos e ao mercado mundial, pertence à segunda categoria. Segundo a Associated Press, o anúncio representa uma reversão de anos de pressão americana sobre Moscou e foi costurado num telefonema que, em tese, trataria de um caso suspeito de peste na Rússia.2

O historiador Timothy Snyder, professor e autor de obras de referência sobre o leste europeu, publicou nesta quinta-feira no El País uma coluna que trata o episódio como mais um capítulo do que ele chama de "suicídio de uma superpotência".1 O argumento central de Snyder é que a guerra contra o Irã, mal planejada e impopular, gerou a alta dos combustíveis; e que Trump, em vez de assumir o custo, transferiu a culpa para a Ucrânia e usou a crise como pretexto para aliviar a pressão sobre Moscou. Vale examinar o que, nessa tese, se sustenta nos fatos disponíveis, e o que ela significa para quem está do lado de cá do Atlântico.

O que foi acordado entre Trump e Putin

Pelo anúncio de Trump, a Rússia entregaria de imediato mais de 300 mil toneladas de diesel, outras 500 mil em novembro, 1 milhão de toneladas logo em seguida e mais 3 milhões numa fase posterior. Minutos depois, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Tesouro emitiu uma licença geral temporária autorizando a oferta do combustível russo ao mercado global. Segundo a Reuters, a licença vale até 7 de abril, e as 300 mil toneladas iniciais equivalem a algo em torno de 2,25 milhões de barris.3

O pano de fundo é uma crise de preços sem precedentes recentes. O diesel nos Estados Unidos chegou a US$ 6,28 por galão em 8 de outubro, alta de 70% desde que Washington e Israel iniciaram a guerra contra o Irã, em 28 de fevereiro. A Casa Branca não esclareceu quem pagaria pelo combustível nem se as entregas de novembro chegariam antes das eleições de 3 de novembro, segundo a AP.

Há um detalhe que reforça a leitura de Snyder sobre a assimetria entre os dois lados. Oito dias antes do acordo, no Fórum Valdai, Putin havia dito que a Rússia não forneceria diesel aos mercados globais enquanto as sanções não fossem suspensas, conforme relatou o NovaCana.4 Na mesma semana, Moscou prorrogou a proibição de exportação de diesel por produtores até o fim de outubro, sinal de que o abastecimento interno russo também está pressionado. Em outras palavras, o Kremlin anunciou a condição e Washington a cumpriu.

Putin disse que só venderia diesel ao mundo se as sanções caíssem. Oito dias depois, elas caíram.ANÁLISE · O TECIDO

A contradição legal: a lei que Trump assinou em setembro

O ponto mais difícil de defender no acordo é jurídico. Em 18 de setembro, Trump sancionou o Lindsey O. Graham Sanctioning Russia and Iran Act of 2026, aprovado com ampla maioria bipartidária. Segundo análise do escritório Akin Gump, a lei obriga o presidente a impor tarifas de até 100% sobre todos os bens vindos dos cinco maiores importadores de petróleo bruto ou gás russo, ou dos cinco maiores facilitadores da evasão de sanções, além de prever tarifas de até 500% sobre produtos russos.5 A Al Jazeera registrou que o texto homenageia o senador republicano Lindsey Graham, morto em julho, que passou mais de um ano negociando o pacote.6

Três semanas depois, o mesmo governo que ameaça punir terceiros países por comprarem energia russa passou a autorizar que o diesel russo circule no mercado mundial. Há ainda a proibição de importação de energia russa aprovada pelo Congresso em 2022, após a invasão da Ucrânia. Em carta divulgada em 11 de outubro, senadores republicanos e democratas afirmaram que a decisão de permitir importações de diesel russo contraria diretamente essa lei e pediram que a administração revertesse o curso, segundo a TNND.7 O republicano Thom Tillis chegou a dizer que existe um argumento legítimo de que o presidente não está cumprindo a lei.

Snyder enxerga nisso um esvaziamento do Estado de direito como fundamento do poder americano. Mesmo quem rejeita o tom da coluna precisa lidar com um problema prático: sanções valem pela credibilidade de quem as aplica. Uma lei que o próprio signatário contorna em três semanas perde força dissuasória diante de Pequim, Nova Délhi ou Ancara.

A transferência de culpa para a Ucrânia

A narrativa da Casa Branca atribui a escassez de diesel aos ataques ucranianos contra refinarias russas. Em setembro, Trump afirmou ter alertado Volodymyr Zelensky para parar de atingir o abastecimento de diesel na Rússia, segundo a Bloomberg Línea.8 A mesma reportagem, porém, aponta que os preços recordes foram impulsionados pela escassez causada pela guerra no Irã, além do conflito no leste europeu.

Zelensky rebateu que os ataques ucranianos não foram a causa principal da alta e classificou a suspensão unilateral de sanções como injusta. Trump, por sua vez, voltou a dizer que a Ucrânia precisa de um novo presidente. Snyder interpreta essa exigência como um eco da propaganda russa, porque sugere que o invasor, e não o eleitor ucraniano, deve decidir quem governa Kiev.1

A pergunta que interessa ao leitor é se o acordo resolve o problema que alega resolver. Analistas ouvidos pela Reuters e citados pelo Northeast Times foram céticos: o volume prometido é pequeno diante do que a Rússia normalmente exporta quando suas refinarias não estão sob ataque, e o ganho de oferta não compensaria o custo de minar as próprias sanções.9 Os contratos futuros de diesel caíram cerca de 5% após o anúncio, um alívio relevante, mas de duração incerta.

Contraponto: o argumento da Casa Branca

A defesa de Trump se apoia em três pontos. O primeiro é de comparação: em publicação reproduzida pela Ukrainska Pravda, ele lembrou que a União Europeia pagou à Rússia cerca de US$ 250 bilhões por energia desde o início da guerra e disse ter agido em favor do consumidor americano.10 O segundo é de alcance: a licença do Tesouro é temporária e restrita ao diesel, enquanto o restante do aparato de sanções contra bancos, oligarcas e frota paralela continua formalmente em vigor. O terceiro é de resultado: Trump anunciou que Rússia e Ucrânia teriam concordado em suspender ataques à infraestrutura energética uma da outra, o que, se confirmado, reduziria a pressão sobre os preços globais.

Há também uma crítica de fundo à tese de Snyder. Para correntes realistas da política externa americana, aliviar o custo de vida antes de uma eleição e reduzir a escalada em duas guerras simultâneas seria pragmatismo, não capitulação. A coluna do El País é um texto de opinião, assinado por um autor com posição pública conhecida sobre Rússia e Ucrânia, e deve ser lida como tal.

O que muda para o Brasil

Nenhum país latino-americano está tão exposto ao diesel russo quanto o Brasil. Em 2025, quase metade das importações brasileiras do combustível veio da Rússia (47,1%), segundo dados da Petrobras repercutidos pela agência italiana ICE/ANSA; as importações cobrem entre 25% e 30% da demanda nacional.11 Com a guerra no Oriente Médio, a dependência aumentou: em março e abril de 2026, 81,25% do diesel importado veio da Rússia, e só em abril a fatia chegou a 89,84%, conforme dados da Agência Brasil compilados pela Datamar.12

0% 50% 100% 47,1% 81,3% 89,8% 2025 (ano) Mar a Abr 2026 Abr 2026
Participação da Rússia no diesel importado pelo Brasil. Fontes: Petrobras via ICE/ANSA (2025); Agência Brasil via Datamar (2026). Os recortes de período são distintos e servem para indicar tendência.

Essa dependência não é linear. Em junho, depois de ataques a refinarias e terminais russos, as compras brasileiras caíram 65% em relação a maio e foram substituídas por produto americano, segundo o presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), Sérgio Araújo, em entrevista à eixos.13 O Brasil não aderiu às sanções ocidentais, mas as empresas brasileiras negociam dentro do teto de preços.

O acordo Trump-Putin cria três efeitos para o país. O primeiro é potencialmente positivo: se mais diesel russo chegar ao mercado global, a pressão sobre os preços internacionais tende a diminuir, e o Brasil importa a preço internacional. O diesel S10 estava estável em torno de R$ 6,94 por litro na primeira quinzena de outubro, mas acumulava alta de 20,1% desde janeiro, segundo levantamento da TruckPag divulgado pelo Cenário Energia.14 Outubro é mês de plantio de soja, com demanda elevada no campo.

O segundo efeito vai na direção contrária. Snyder sugere que, se a Rússia de fato conseguir entregar diesel aos portos americanos, provavelmente o fará deixando outros parceiros de lado, já que a oferta russa está comprometida pela escassez interna.1 O Brasil é justamente um desses parceiros. Um comprador que paga em dólar e oferece alívio diplomático tende a ter prioridade sobre um cliente comercial.

O terceiro efeito é de risco regulatório. A lei Graham mira os maiores importadores de petróleo bruto e gás russos, categoria em que o Brasil, comprador de derivados, não aparece entre os protagonistas; China e Índia são os alvos mais óbvios. Mas a lei concede ao presidente ampla discricionariedade, inclusive para identificar facilitadores da evasão de sanções. Um governo que trata sanções como moeda de troca torna o ambiente menos previsível para quem depende de energia russa, e o Brasil passou a depender bastante.

A leitura de fundo

A coluna de Snyder carrega um tom deliberadamente contundente, e parte de suas afirmações, como a hipótese de vantagem pessoal para negociadores próximos do presidente, permanece no campo da suspeita. O que os fatos verificáveis sustentam é mais sóbrio, e talvez mais preocupante: uma potência que aprova sanções num mês e as suspende no seguinte, que culpa um aliado agredido por uma crise de preços produzida em outra guerra, e que atende em público a condição pública do adversário.

Para países como o Brasil, que tentam se equilibrar entre Washington, Moscou e o BRICS, a lição prática é de diversificação. Uma matriz de importação concentrada num único fornecedor sancionado, num mundo em que as regras de sanção mudam ao sabor do calendário eleitoral americano, é uma vulnerabilidade de política pública, não apenas de mercado.

Perguntas frequentes

O que é o acordo de diesel entre Trump e Putin?

Anunciado em 9 de outubro de 2026, prevê que a Rússia forneça diesel aos EUA e ao mercado global em etapas: 300 mil toneladas de imediato, 500 mil em novembro, 1 milhão depois e mais 3 milhões numa fase posterior. O Tesouro americano emitiu uma licença temporária suspendendo sanções sobre o combustível russo até 7 de abril de 2027.

Por que o acordo é considerado ilegal por senadores americanos?

Uma lei de 2022 proíbe a importação de energia russa pelos EUA. Senadores republicanos e democratas afirmaram em carta que permitir importações de diesel russo contraria essa lei. O acordo também colide com o espírito da lei Graham, sancionada em setembro de 2026, que endurece sanções contra Moscou.

O acordo vai baixar o preço do diesel?

O efeito tende a ser limitado. Os contratos futuros caíram cerca de 5% após o anúncio, mas analistas apontam que o volume é pequeno e que a Rússia enfrenta escassez interna. A principal causa da alta, segundo a cobertura internacional, é a guerra contra o Irã iniciada em fevereiro de 2026.

Como o acordo afeta o Brasil?

O Brasil importa entre 25% e 30% do diesel que consome, e a Rússia respondeu por quase metade dessas importações em 2025 e por mais de 80% em março e abril de 2026. Mais oferta global pode aliviar preços, mas a disputa pelo diesel russo e a imprevisibilidade das sanções americanas aumentam o risco de abastecimento.

O que Timothy Snyder chama de "suicídio de uma superpotência"?

É a tese, defendida em colunas no El País, de que a política externa de Trump enfraquece os próprios EUA ao combinar decisões estratégicas fracassadas, como a guerra contra o Irã, com concessões à Rússia e erosão do Estado de direito.

Este texto foi elaborado a partir da coluna de Timothy Snyder publicada no El País em 22 de outubro de 2026, sem reproduzi-la ou traduzi-la, e complementado com apuração independente em fontes internacionais e brasileiras. As opiniões de Snyder são atribuídas ao autor.