Caderno Política · Geopolítica da energia
Em menos de 72 horas, a Casa Branca produziu três gestos que o Kremlin perseguia havia meses. Na sexta-feira, 9 de outubro, o presidente Donald Trump anunciou um acordo com Vladimir Putin para liberar diesel russo no mercado americano e global. No sábado, sugeriu publicamente que a Ucrânia troque de presidente. No domingo, declarou um "cessar-fogo energético" que, na prática, exige de Kyiv a suspensão dos ataques a refinarias russas. Em troca, Moscou não ofereceu trégua, negociação nem redução de bombardeios. Como resumiu o correspondente Paul Sonne em reportagem do The New York Times, as concessões vieram em sequência de Washington, e a resposta russa foi mais guerra.1
Este texto examina o que foi concedido, quem ganha com isso, por que a chamada trégua energética é estruturalmente desigual e de que maneira o episódio alcança o Brasil, um dos maiores compradores de diesel russo do mundo nos últimos quatro anos.
O que prevê o acordo de diesel entre Trump e Putin
Segundo a postagem de Trump, a Rússia forneceria de imediato 300 mil toneladas de diesel, mais 500 mil toneladas em novembro e 1 milhão de toneladas em seguida, com a possibilidade de outros 3 milhões de toneladas a depender do estado das refinarias russas, conforme relatou a Straight Arrow News.9 No mesmo dia, o Departamento do Tesouro publicou a Licença Geral 135, que autoriza transações específicas com diesel russo dentro do regime de sanções vigente, como detalhou a análise jurídica do portal Diplomacy and Law.10 Reportagem do Rio Times informa que a licença vale até 7 de abril de 2027.14
Moscou reagiu rápido. A partir de 10 de outubro, o governo russo autorizou a venda de 500 mil toneladas de diesel ao exterior, flexibilizando parcialmente a proibição de exportações que vigorava desde julho em razão dos ataques ucranianos, de acordo com o Kyiv Independent, que cita a agência estatal TASS.4
O argumento oficial da Casa Branca é doméstico: baixar o preço do diesel antes das eleições de meio de mandato. A eficácia da medida, porém, é contestada. Uma análise publicada pela Forbes concluiu que o alívio nas sanções teria efeito limitado sobre os preços nos Estados Unidos.7 O próprio NYT registra avaliações de economistas de que os volumes anunciados são pequenos demais para mover o mercado de forma relevante.1
Por que o "cessar-fogo energético" é desigual
A Ucrânia tem uma posição antiga e pública: suspende os ataques a refinarias russas se a Rússia parar de bombardear a infraestrutura elétrica ucraniana. O anúncio de Trump, no entanto, tratou de outra coisa. Um funcionário da Casa Branca descreveu a proposta ao Axios como uma troca de "refinaria por refinaria".3
O desequilíbrio é aritmético. A Ucrânia dispõe de uma única refinaria de grande porte, que não opera plenamente desde os ataques russos; a Rússia mantém uma vasta rede de refino. Usinas, subestações e linhas de transmissão ucranianas, alvo central da estratégia russa para o inverno, ficariam de fora. Ainda segundo o Axios, horas depois do anúncio a Rússia atingiu usinas na Ucrânia, e Washington chegou a sinalizar a países europeus que poderia interromper a venda de armas via OTAN caso Kyiv mantivesse os ataques às refinarias.3
Volodymyr Zelensky disse que o anúncio era novidade para ele, segundo a AFP, e o Kremlin não comentou.16 A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, foi direta: "This is not the time to ease pressure on Russia, and Europe won't" (não é hora de aliviar a pressão sobre a Rússia, e a Europa não vai fazê-lo), conforme reproduziu a SBS.8
A trégua proposta congela a principal arma econômica de Kyiv e preserva a principal arma militar de Moscou para o inverno.Leitura editorial de O Tecido
A alavanca que Kyiv perderia
Os ataques ucranianos a refinarias se tornaram, em 2026, a ferramenta mais eficaz de Kyiv para encarecer a guerra para Moscou. Provocaram filas em postos dentro da Rússia e forçaram o país a suspender exportações de diesel. De acordo com o NYT, a arrecadação russa com petróleo e gás nos três primeiros trimestres caiu 17% em relação ao mesmo período de 2025, embora a valorização do rublo e subsídios internos também tenham contribuído.1
O contexto global favoreceu Moscou. A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, iniciada em março, levou o barril para acima de US$ 100, depois de um período em torno de US$ 60, e consumiu estoques de mísseis de defesa aérea que poderiam ter ido para a Ucrânia. Analistas ouvidos pelo NYT sustentam que Trump atribui a alta do diesel aos ataques ucranianos, e não ao conflito no Golfo, o que o leva a buscar uma saída negociada justamente com Putin.1 Trump, por sua vez, disse em declaração registrada pela Associated Press que a Ucrânia deveria buscar "a new leader who can make a deal" (um novo líder capaz de fechar um acordo).2
A resposta russa: Zaporizhzhia
Na manhã de 10 de outubro, um dia depois do anúncio do acordo de diesel, a Rússia lançou bombas aéreas guiadas contra um prédio residencial de cinco andares em Zaporizhzhia. O Serviço Estatal de Emergências da Ucrânia elevou o número de mortos para 23, incluindo quatro crianças, segundo o Ukrainska Pravda; o NYT, em sua reportagem, registra 22 mortos.5 Zelensky reagiu dizendo que a Rússia havia "agradecido" o alívio nas sanções com cinco bombas planadoras sobre áreas residenciais.2
O Kremlin, por sua vez, reiterou que não negociará com Kyiv no momento. Analistas citados pelo NYT avaliam que Putin pretende atingir a rede elétrica e o abastecimento de água ucranianos para impor o inverno mais duro da guerra, apostando que os aliados ocidentais cederão antes, seja pela eleição presidencial francesa de 2027, seja pela pressão da extrema direita na Alemanha ou pelo endividamento de Reino Unido e França.1
A reação em Washington
O acordo encontra resistência no Congresso americano. Em 13 de outubro, doze senadores, seis de cada partido, pediram a Trump que revogue a dispensa de sanções, argumentando que a medida trará pouco ou nenhum alívio aos consumidores e contraria o espírito da Lei Graham de Sanções à Rússia e ao Irã de 2026, sancionada pelo próprio presidente, segundo o Washington Times.6 A lei permite tarifas de até 100% sobre grandes compradores de petróleo e gás russos, mas preserva a prerrogativa presidencial de dispensar suas disposições por razões de segurança nacional.
Contraponto
O argumento a favor da estratégia de Trump
Defensores da Casa Branca sustentam que o preço do diesel atinge diretamente agricultores, caminhoneiros e a inflação de alimentos, e que os ataques ucranianos a refinarias de fato retiraram oferta de um mercado global já apertado pela crise no Golfo. Nessa leitura, tirar o diesel russo do limbo é uma medida pragmática de abastecimento, e a pressão sobre Kyiv seria um instrumento para forçar uma negociação que, segundo Trump, Zelensky vem evitando.
Há também um registro factual que matiza a tese de alinhamento total com Moscou: depois da ruptura de março de 2025, Washington retomou o compartilhamento de inteligência com a Ucrânia e intermediou um arranjo para que países europeus comprem armas americanas destinadas a Kyiv. O cientista político russo Fyodor Lukyanov, próximo ao Kremlin, avaliou, segundo o NYT, que Trump dificilmente cortará todo o apoio à Ucrânia, porque uma derrota ucraniana completa não lhe renderia ganhos no establishment político americano.1
O ponto em disputa, portanto, não é se Trump abandonou Kyiv, mas se as concessões feitas agora, sem contrapartida verificável, reduzem ou ampliam o incentivo de Putin para negociar.
O que o acordo significa para o Brasil
O Brasil importa cerca de 30% do diesel que consome e não aderiu às sanções ocidentais contra a Rússia. Desde 2022, isso o transformou em um dos destinos preferenciais do diesel russo vendido com desconto. Em março e abril de 2026, com o Estreito de Ormuz fechado, 81,25% do valor do diesel importado pelo país veio da Rússia, e em abril a fatia chegou a 89,84%, segundo dados do Comex Stat divulgados pela Agência Brasil.11
A inversão veio com os ataques ucranianos. Em junho, as compras de diesel russo caíram 65% em relação a maio, e o produto foi substituído principalmente pelo americano, como mostrou a eixos com base em dados do MDIC.12 Em setembro, segundo a Secex, o Brasil importou apenas 75,2 mil metros cúbicos de diesel russo, queda de 84,3% na comparação anual, enquanto o volume total importado recuou 26,7%, de acordo com a Live Supply Chain.13 No mesmo mês, refinarias americanas responderam por cerca de 80% das compras externas brasileiras, segundo a Abicom, citada pelo O Brasilianista.15
Participação da Rússia no diesel importado pelo Brasil
Fontes: ANP/MDIC via O Brasilianista (2024); Comex Stat via Agência Brasil (mar/abr 2026). *Estimativa de O Tecido: 75,2 mil m³ de diesel russo sobre cerca de 1,3 milhão de m³ importados em setembro (Secex). 2024 e setembro por volume; 2026 mar/abr por valor FOB.
O custo dessa troca aparece no preço. O diesel importado chegou em setembro a R$ 6,10 por litro antes de impostos e margens, contra R$ 4,44 do produto nacional na saída da refinaria, e o subsídio federal está em R$ 2,12 por litro, segundo cálculo do Click Petróleo e Gás com dados do Comex Stat.17
Três efeitos possíveis para o país
Preço. Se o diesel russo voltar a circular com mais volume e com chancela americana, a oferta global se alivia e importadores brasileiros ganham alternativa ao produto dos EUA, o que tende a reduzir a pressão sobre o subsídio federal. A magnitude depende de quanto a Rússia conseguirá de fato exportar com refinarias danificadas.
Risco regulatório. A Licença Geral 135 reduz, ao menos temporariamente, o receio de bancos e tradings de processar pagamentos de diesel russo, um obstáculo que importadores brasileiros relatavam mesmo sem sanções nacionais. O Senado americano, porém, pressiona pela revogação, e a regra pode mudar.
Diplomacia. O Brasil, que sustenta a recusa às sanções unilaterais como princípio, vê Washington adotar na prática a mesma flexibilidade que criticava em parceiros como Índia e Brasil. Isso enfraquece o argumento moral do Ocidente contra os compradores do Sul Global, mas não elimina o fato central: cada litro vendido financia, em alguma medida, a máquina de guerra russa.
Perguntas frequentes
O que é o acordo de diesel entre Trump e Putin?
Anunciado em 9 de outubro de 2026, prevê que a Rússia forneça diesel ao mercado americano e global em lotes de 300 mil, 500 mil e 1 milhão de toneladas, com mais 3 milhões possíveis. O Tesouro dos EUA emitiu a Licença Geral 135 para autorizar essas transações apesar das sanções.
O que é o "cessar-fogo energético" anunciado por Trump?
É a suspensão, proposta por Washington, de ataques a refinarias de petróleo dos dois lados. Não inclui usinas e redes elétricas, alvos principais dos ataques russos à Ucrânia. Kyiv diz não ter sido consultada e Moscou não confirmou adesão.
Por que a trégua é considerada desfavorável à Ucrânia?
Porque a Ucrânia tem apenas uma grande refinaria, já danificada, enquanto a Rússia possui uma ampla rede. A troca congelaria a principal pressão econômica ucraniana sem proteger a infraestrutura elétrica ucraniana no inverno.
Como o acordo afeta o diesel no Brasil?
O Brasil importa cerca de 30% do diesel que consome. Depois de depender da Rússia no primeiro semestre, passou a comprar cerca de 80% do importado dos EUA em setembro. Mais diesel russo no mercado pode ampliar a oferta e aliviar preços, mas o efeito depende dos volumes reais e da manutenção da licença americana.
O Congresso americano pode barrar o acordo?
Doze senadores dos dois partidos pediram a revogação da dispensa. A Lei Graham de 2026 amplia sanções contra a Rússia, mas permite ao presidente dispensá-las por razões de segurança nacional, o que dificulta um bloqueio direto.
Referências
- SONNE, Paul. Trump Hands Victories to Putin, Who Offers More War in Return. The New York Times, 13 out. 2026. nytimes.com
- Associated Press. Trump says Ukraine should get a new president as he blames Zelenskyy for US diesel prices, 10 out. 2026.
- Axios. Trump bears down on Zelensky as Russia keeps up attacks on Ukraine, 11 out. 2026.
- Kyiv Independent. Russia partially lifts ban on diesel exports after Trump-Putin deal, 10 out. 2026.
- Ukrainska Pravda. Death toll after Russian strike on Zaporizhzhia rises to 23, 11 out. 2026.
- Washington Times. Bipartisan senators press Trump to rescind Russian diesel export deal, 13 out. 2026.
- Forbes. Why Russian Sanctions Relief Would Do Little For U.S. Fuel Prices, 10 out. 2026.
- SBS News. 'Get a new president': Trump attacks Zelenskyy over Russian oil deal, out. 2026.
- Straight Arrow News. Trump announces energy ceasefire between Russia, Ukraine, 11 out. 2026.
- Diplomacy and Law. Trump's Russia Diesel Deal: Can the US Import Russian Fuel Despite Sanctions?, out. 2026.
- Agência Brasil. Rússia lidera venda de diesel ao Brasil durante guerra no Irã, maio 2026.
- eixos. Importação de diesel da Rússia despenca e Brasil recorre a EUA e Índia, 7 jul. 2026.
- Live Supply Chain. Importação de diesel cai 26,7% em setembro e Brasil aumenta dependência do combustível americano, out. 2026.
- Rio Times. Brazil Watches as US Clears Russian Diesel, out. 2026.
- O Brasilianista. Rússia ganha espaço no diesel, nos fertilizantes e no urânio do Brasil, 9 out. 2026.
- AFP via Khaleej Times. Trump says Russia and Ukraine agree to 'energy ceasefire', 11 out. 2026.
- Click Petróleo e Gás. R$ 6,10 por litro no diesel importado contra R$ 4,44 nas refinarias, out. 2026.