Caderno Política · Oriente Médio
Enquanto turistas ainda posam para fotos diante das obras suspensas do NEOM, mísseis e drones testam, a poucos quilômetros dali, a outra aposta de Mohammed bin Salman: a de que conseguiria manter as guerras da região do lado de fora das fronteiras sauditas. Essa aposta, que sustentou nove anos de transformação econômica sob o nome de Visão 2030, parece cada vez mais frágil. Um oleoduto vital foi atacado no norte, os houthis avançam pelo litoral do Mar Vermelho ao sul e o conflito entre Estados Unidos e Irã comprometeu o Estreito de Ormuz a leste. O príncipe herdeiro saudita está, segundo analistas ouvidos pelo jornal britânico The Telegraph, cercado por uma geografia de conflitos que ele mesmo jurou manter a distância1.
A reportagem do Telegraph descreve um MBS que telefonou pessoalmente a Donald Trump em busca de intervenção militar americana contra os houthis, sem obter o apoio direto que pedia. Washington ofereceu inteligência e outros tipos de assistência, mas evitou o comprometimento militar mais amplo que a Arábia Saudita buscava. O Reino Unido, segundo a Bloomberg citada na mesma reportagem, enviou apenas assessores militares1.
Uma estratégia construída sobre a paz
A Visão 2030, lançada em 2016, é o projeto que resume o governo de MBS: reduzir a dependência do petróleo, atrair turismo, esportes internacionais e investimento estrangeiro, e erguer cidades futuristas como o NEOM. Toda essa engenharia política e financeira parte de uma premissa simples, mas cada vez mais difícil de sustentar: a de que o Reino poderia se voltar para dentro, focado em sua própria transformação, enquanto o resto da região se incendiava ao redor.
Para especialistas consultados pelo Telegraph, essa premissa está sob ameaça mais séria hoje do que esteve mesmo após o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi em 2018, episódio que isolou temporariamente o príncipe no cenário internacional antes de ele reconstruir pontes com governos e investidores ocidentais1.
"Ele aparentemente percebeu que poderia ser ambicioso dentro de casa ou fora dela, mas não em ambas as frentes ao mesmo tempo."
A frase, atribuída pelo Telegraph ao pesquisador Rob Geist Pinfold, do King's College London, resume o dilema. A intervenção saudita no Iêmen, iniciada em 2015, tornou-se um símbolo dos limites do poder militar de Riad: nem venceu os houthis, nem conseguiu impor o acordo político que desejava. Em 2023, a Arábia Saudita tentou uma via distinta, buscando distensão com o Irã e acomodação com os próprios houthis. Esse arranjo se rompeu em julho, quando o grupo iemenita anunciou o bloqueio a portos sauditas em apoio a Teerã1.
O oleoduto, o petróleo e a conta que sobe
O componente econômico da crise é concreto e mensurável. Segundo a Reuters, os ataques ao oleoduto Leste-Oeste saudita, que permite ao Reino contornar o Estreito de Ormuz, ameaçam interromper até 4% da oferta global de petróleo, e o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, teria estoque suficiente para cobrir apenas de cinco a sete dias de exportação enquanto a estrutura permanece fora de operação2. Em 14 de setembro, o Brent futuro chegou a subir quase 3%, para US$ 107,54 o barril, e o WTI, para US$ 102,932.
O quadro é resultado de meses de escalada. O conflito entre Estados Unidos e Irã, iniciado no fim de fevereiro, já reduziu o fluxo de petróleo bruto pelo Estreito de Ormuz de algo entre 8 e 9 milhões de barris diários para menos de 2 milhões, segundo dados citados pela Reuters, mesmo depois de uma trégua temporária que não se consolidou em paz duradoura3.
NEOM em contração
O aperto financeiro já se manifesta nos próprios projetos que simbolizam a Visão 2030. O NEOM, orçado inicialmente em cerca de US$ 500 bilhões e concebido como vitrine do futuro saudita, vem sendo reformulado desde 2025. The Line, a cidade linear espelhada de 170 quilômetros, teve sua meta populacional para 2030 reduzida de 1,5 milhão para menos de 300 mil habitantes, e a construção está suspensa desde setembro de 2025, segundo análises do setor que acompanham o projeto4. O Fundo de Investimento Público (PIF), que financia o NEOM, já registrou cerca de US$ 8 bilhões em baixas contábeis sobre os megaprojetos, além de cortes de até 60% no orçamento de mais de cem empresas ligadas ao fundo4. A reportagem do Telegraph cita ainda o aporte de mais de US$ 5 bilhões sauditas na LIV Golf, liga que entrou em processo de recuperação judicial (Chapter 11) neste mês, após o PIF suspender o apoio financeiro1.
Analistas da região, porém, discordam sobre o significado desses cortes. Para Ahmed Alkhuzaie, analista de assuntos do Golfo citado pelo Telegraph, reduzir o escopo do The Line e realocar capital do PIF é disciplina financeira, não recuo estratégico: ao lançar planos multibilionários e ambiciosos, um governo precisa se adaptar às realidades de mercado ou corre o risco de quebrar1.
O que isso significa para o Brasil
A crise no Golfo chega ao Brasil por pelo menos duas vias, com efeitos que se cancelam parcialmente. A primeira é comercial: o Brasil é hoje exportador líquido de petróleo e derivados, e a alta do barril tende a favorecer a balança comercial e a arrecadação de royalties. Em análise do início do ano, economistas do BTG Pactual estimaram que, mantido o patamar elevado de preços, o superávit comercial brasileiro poderia crescer cerca de US$ 8,5 bilhões apenas com o efeito do petróleo mais caro5. A Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda chegou a projetar ganho adicional de até 0,36 ponto percentual no PIB em cenário de choque mais intenso, embora reconhecendo pressão inflacionária maior6.
A segunda via é o próprio relacionamento bilateral com Riad. A Arábia Saudita é hoje um dos principais compradores de carne bovina e de frango halal do Brasil, com comércio bilateral que já superou US$ 7 bilhões anuais, e o país árabe vem sinalizando interesse em ampliar investimentos por meio do PIF em setores como mineração, infraestrutura e agronegócio, no âmbito da própria Visão 20307. Um Golfo mais instável, com o Reino às voltas com sua própria crise fiscal e de segurança, tende a desacelerar esse fluxo de capital que Brasília e o setor privado brasileiro vinham cultivando nos últimos anos.
O que vem a seguir
Para Kristian Alexander, analista de segurança do Golfo citado pelo Telegraph, os houthis não precisam de uma vitória militar completa; basta expor a vulnerabilidade saudita. Ataques calibrados, segundo ele, elevam custos econômicos, corroem a confiança na segurança do Reino e pressionam MBS a negociar, sem provocar necessariamente uma resposta em larga escala1. Isso deixa o príncipe herdeiro em posição incômoda: ceder mostraria que mísseis e drones influenciam a política saudita; retomar a guerra reabre um dos capítulos mais custosos de seu governo.
Apesar da pressão, analistas consultados pelo Telegraph avaliam que o risco imediato não é ao trono de MBS. Após quase uma década consolidando poder, o príncipe marginalizou rivais internos e trouxe as instituições de segurança sob seu controle direto; um cenário de ruptura interna, segundo Kristian Alexander, exigiria paralisia das exportações de petróleo, reveses militares sérios e contração econômica aguda, hipótese que ele considera distante1. O risco real, aponta a reportagem, é outro: que o mundo ao redor da Arábia Saudita se torne perigoso e caro demais para sustentar a transformação em que o príncipe apostou seu legado.
Contraponto
Nem todos os analistas leem a crise como sinal de fraqueza estrutural. Para vozes mais próximas da narrativa oficial saudita, os ajustes em projetos como o NEOM refletem maturidade financeira, e não retração, já que poucos governos sustentariam sem revisão orçamentos que somam trilhões de dólares. Da mesma forma, buscar apoio de aliados históricos como Estados Unidos e Reino Unido em momentos de tensão é prática corriqueira de política externa, não evidência de pânico. A avaliação sobre se a Arábia Saudita está de fato isolada, ou apenas recalibrando alianças, seguirá em disputa enquanto o conflito regional não se estabilizar.
Perguntas frequentes
O que é a Visão 2030?
É o plano de transformação econômica lançado por Mohammed bin Salman em 2016 para reduzir a dependência saudita do petróleo, diversificando a economia por meio de turismo, entretenimento, megaprojetos urbanos e investimento estrangeiro.
Por que o oleoduto Leste-Oeste é tão importante?
Ele permite à Arábia Saudita exportar petróleo pelo Mar Vermelho sem depender do Estreito de Ormuz, rota que ficou mais arriscada com o conflito entre Estados Unidos e Irã. Sua paralisação reduz a capacidade saudita de escoar produção com segurança.
Como a crise no Golfo afeta o Brasil?
De um lado, como exportador líquido de petróleo, o Brasil tende a se beneficiar de preços mais altos do barril na balança comercial. De outro, a instabilidade pode desacelerar investimentos sauditas no país e o comércio bilateral, hoje relevante nas áreas de proteína animal e infraestrutura.
MBS corre risco de perder o poder?
Analistas ouvidos pelo Telegraph consideram esse cenário pouco provável no curto e médio prazo, já que o príncipe consolidou controle sobre as instituições de segurança do país. A ameaça atual é mais econômica e estratégica do que política interna.
Este artigo utiliza como referência principal a reportagem "Saudi leader under siege as enemies close in and allies turn away", de Melanie Swan, publicada pelo The Telegraph em 16 de setembro de 2026. Trechos e dados atribuídos a essa reportagem não foram traduzidos ou reproduzidos integralmente, apenas parafraseados e contextualizados com fontes adicionais.
Referências
- Melanie Swan. "Saudi leader under siege as enemies close in and allies turn away". The Telegraph, 16 de setembro de 2026. Disponível em: telegraph.co.uk.
- Reuters, via CNN Brasil. "Petróleo sobe quase 3% após novos ataques ao Estreito de Ormuz", 14 de setembro de 2026.
- EBC Financial Group. "Petróleo Brent vai subir ou cair em setembro de 2026?".
- AGBI e House of Saud. Análises sobre reestruturação do NEOM e cortes orçamentários do PIF, 2026.
- BTG Pactual, via EuQueroInvestir. "4 pontos em que o Brasil ganha (ou perde) com a alta do petróleo", março de 2026.
- Secretaria de Política Econômica, Ministério da Fazenda, via Jornal do Brasil, março de 2026.
- ApexBrasil e Bloomberg Línea. Dados sobre comércio e investimentos entre Brasil e Arábia Saudita.