Caderno Economia — O Tecido

Numa banca de rua em Tbilisi, na Geórgia, uma pintura do tamanho de uma palma custava 300 lari, cerca de 115 dólares. Ao lado dela, mais de uma dúzia de reproduções óbvias de obras famosas, entre elas a Mona Lisa, eram vendidas por um quinto do preço. A cena, relatada pelo pesquisador Wang Huanchao em artigo publicado no China Daily1, resume um fenômeno que a expansão da inteligência artificial generativa tornou econômico e mensurável: quando a cópia se torna abundante e barata, o traço genuinamente humano passa a valer mais.

Economistas e pesquisadores de comportamento do consumidor têm dado nome a esse efeito. Chamam de "desconto do algoritmo" a tendência de consumidores atribuírem menos valor a um produto digital assim que descobrem que ele foi criado por um sistema automatizado, e não por uma pessoa. Um estudo de 2025 publicado na Journal of Management Information Systems, conduzido por Julia Rix e colegas com 41 entrevistas qualitativas e um experimento com 421 respondentes, identificou esse desconto de forma consistente no contexto de notícias digitais2. Segundo os autores, boa parte do efeito vem da crença de que existe esforço e investimento emocional embutido no trabalho feito por humanos, algo que os consumidores presumem ausente quando sabem que um algoritmo gerou o conteúdo.

"Quando a síntese se torna abundante, o original humano se torna raro. É aí que a aura ganha um sentido econômico."

Da têxtil vitoriana ao software gerado por IA

O argumento não é inteiramente novo. A Revolução Industrial tornou têxteis, móveis e utensílios domésticos produzidos em série muito mais baratos, e foi justamente essa abundância que deu origem ao movimento Arts and Crafts, associado a William Morris, que transformou o trabalho artesanal em símbolo de distinção e status. A lógica ainda sustenta boa parte do mercado de luxo atual: escassez, técnica e a presença visível da mão humana.

O filósofo alemão Walter Benjamin descreveu uma versão anterior desse fenômeno em 1935, no célebre ensaio sobre a reprodutibilidade técnica da obra de arte. Ele chamou de aura a presença única de um original ligado a um tempo e um lugar específicos, algo que a fotografia e o cinema já começavam a corroer ao tornar a cópia trivial.

A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica
Walter Benjamin
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A inteligência artificial generativa levou esse argumento a um território que Benjamin não podia prever. Ela não apenas reproduz obras existentes: gera texto, imagem, música e software inéditos a um custo marginal próximo de zero. O resultado não é bem um original nem uma cópia, mas algo mais próximo de uma síntese. E quando a síntese se torna onipresente, o dado escasso deixa de ser a obra e passa a ser a garantia de que uma pessoa esteve por trás dela.

O selo que virou modelo de negócio

O setor editorial oferece o exemplo mais concreto desse novo mercado. Em janeiro de 2025, a Authors Guild, maior associação de escritores publicados dos Estados Unidos, lançou em fase beta a certificação "Human Authored", um selo que autores podem colocar em capas e páginas de direitos autorais para indicar que o texto foi escrito por um humano, permitindo apenas uso mínimo de IA em revisão ortográfica ou gramatical. Em 2026 o programa foi expandido para qualquer autor publicado nos Estados Unidos, com verificação de identidade e taxa de 10 dólares por título para não associados, gratuita para membros da entidade.

O mecanismo de verificação não é infalível. A própria organização reconhece que não existe hoje um teste técnico confiável capaz de detectar com certeza se um texto foi gerado por IA, e que o selo depende de verificação de identidade, contrato de licenciamento e dissuasão via custo, não de uma prova definitiva de autoria. Isso não invalida o modelo. Sugere, na verdade, que o ativo realmente escasso não é o trabalho humano em si, mas a confiança em torno dele.

Contraponto

Nem todo o mercado editorial vê a certificação com entusiasmo. Críticos apontam que, sem um teste técnico de detecção, o selo pode se tornar apenas uma promessa de marketing, e que sua credibilidade tende a se erodir à medida que sistemas de geração de texto ficam mais difíceis de distinguir da escrita humana. Iniciativas concorrentes, como verificações baseadas em pontuação estatística de probabilidade de autoria humana, tentam resolver esse problema por outra via, mas também dependem de métodos ainda imperfeitos. O debate lembra que credenciar autoria é, antes de tudo, um problema de institucionalização de confiança, não apenas de tecnologia.

Assinaturas, freelancers e o mercado em formato de K

Do lado da demanda, os números de plataformas de conteúdo por assinatura sugerem que leitores estão dispostos a pagar por essa garantia de origem. A Substack anunciou em março de 2025 a marca de 5 milhões de assinaturas pagas, um salto que consolidou a plataforma como um espaço relevante para autores que constroem relação direta com o público a partir de voz e reputação próprias, e não de produção em escala.

O outro lado dessa equação é mais desconfortável. Um estudo do Ramp Economics Lab, laboratório de pesquisa aplicada da fintech americana Ramp, analisou o gasto de empresas em plataformas de freelancers, como Upwork e Fiverr, e em provedores de modelos de IA entre 2021 e 2025. A participação de marketplaces de trabalho freelance no gasto total das empresas caiu de 0,66% no quarto trimestre de 2021 para 0,14% no terceiro trimestre de 2025, enquanto o gasto com provedores de IA, praticamente inexistente no início do período, chegou a quase 3%. Mais da metade das empresas que contratavam freelancers em 2022 simplesmente pararam de fazê-lo até 2025, e as que mais gastavam com freelancers foram justamente as que migraram mais rápido para IA.

Essa combinação de dados aponta para uma economia criativa em formato de K: no topo, autores, designers e jornalistas com reputação reconhecível conseguem cobrar prêmios cada vez maiores justamente porque o público identifica a pessoa por trás do trabalho. Na base e no meio, quem produz conteúdo competente mas intercambiável, sem nome ou voz associada, encontra um mercado que se esvazia rapidamente. Competência deixou de ser suficiente quando a cópia competente é gratuita.

A ironia da escassez fabricada

Há uma camada final nesse raciocínio que vale destacar. O prêmio humano só existe porque a produção sintética se tornou abundante. Sem a enxurrada de texto, imagem e música gerados por máquina, o trabalho humano não pareceria subitamente escasso, ele simplesmente seria a norma. O prêmio é, nesse sentido, filho direto da abundância que a própria IA criou. E, como no caso do artesanato após a industrialização, a escassez não desaparece: ela apenas migra para onde a máquina ainda não consegue chegar sozinha.

Perguntas frequentes

O que é o "desconto do algoritmo"?

É o termo usado por pesquisadores para descrever a tendência de consumidores atribuírem menos valor a um produto digital quando sabem que ele foi criado por inteligência artificial em vez de por um humano, conforme identificado em estudo publicado na Journal of Management Information Systems em 2025.

O que é a certificação "Human Authored" da Authors Guild?

É um selo lançado pela Authors Guild em 2025 que autores podem usar em livros para indicar que o texto foi escrito por um humano, com uso apenas mínimo de IA permitido, como correção ortográfica. A certificação envolve verificação de identidade e uma taxa de 10 dólares por título para não associados.

A inteligência artificial está reduzindo o mercado de freelancers?

Dados do Ramp Economics Lab mostram queda acentuada na participação de gastos corporativos com marketplaces de freelancers entre 2021 e 2025, acompanhada de crescimento equivalente em gastos com provedores de modelos de IA, sugerindo substituição em tarefas de escrita, design e programação mais rotineiras.

O que Walter Benjamin quis dizer com "aura" de uma obra de arte?

Benjamin usou o termo para descrever a presença única de uma obra original, ligada a um tempo e lugar específicos, algo que se perde quando a obra pode ser reproduzida mecanicamente em escala.

Referências

  1. Wang Huanchao. "Algorithm discount fuels human premium". China Daily, 7 de setembro de 2026. Disponível em: chinadaily.com.cn
  2. Rix, J., Berger, B., Hess, T., Rzepka, C. "The Algorithm Discount: Explaining Consumers' Valuation of Human- versus Algorithm-Created Digital Products". Journal of Management Information Systems, v. 42, n. 2, 2025.
  3. Authors Guild. Programa de certificação "Human Authored".
  4. Substack. Anúncio de marco de 5 milhões de assinaturas pagas, março de 2025.
  5. Ramp Economics Lab. "Payrolls to Prompts: Firm-Level Evidence on the Substitution of Labor for AI".
  6. Benjamin, Walter. A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica. 1935. Disponível em: link.amazon/B0ivlzsS6

Ewerton Lopes — Curador Editorial