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O crime da dúvida: o que Drauzio Varella ensina sobre certeza, vacina e memória

Em Paraty, o oncologista que atravessou meio século de medicina brasileira relembrou o pulmão de aço e a poliomielite para explicar por que confiar numa vacina exige um tipo de fé que a ciência já provou merecer — e por que o Brasil, em 2026, voltou a testar essa confiança.

CASA FOLHA · FLIP PARATY · 25.07.2026

Ilustração editorial — Casa Folha, Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), 25 de julho de 2026.

No sábado de manhã em que a Festa Literária Internacional de Paraty recebeu Drauzio Varella para uma conversa sobre incertezas, o oncologista de 83 anos guardou sua única certeza inegociável para o fim do encontro. Diante de uma plateia que perguntava sobre o retorno do sarampo e o negacionismo antivacina, ele abandonou por um instante o tom hesitante que havia cultivado durante toda a entrevista. "Eu acho isso um crime", disse, sobre quem lança dúvida pública sobre vacinas. "Não consigo encontrar outra palavra."

A fala aconteceu na manhã de sábado, dia 25 de julho, na programação da Casa Folha na Flip 2026, mediada pela repórter Fernanda Mena. Formado em 1967 pela Faculdade de Medicina da USP, Varella construiu a conversa em torno do argumento central de seu livro de memórias, O Exercício da Incerteza (Companhia das Letras, 2022): a de que a principal virtude de um médico não é a segurança, mas a disposição de desconfiar das próprias certezas. Sobre vacinação, porém, ele foi categórico — e essa aparente contradição é o fio que este texto persegue.

A geração que ouviu os ferrolhos

Antes de qualquer estatística, Varella recorreu à memória sensorial. Contou ter visitado, ainda estudante, a enfermaria de pulmão de aço — cilindros metálicos que succionavam e insuflavam ar para substituir os músculos respiratórios paralisados pela poliomielite. Crianças e adultos passavam ali "o resto da vida", quando conseguiam sobreviver. A cena não é hipérbole retórica: documentos da Fiocruz registram que, em 1980, o Brasil ainda somava 1.290 casos anuais de poliomielite; a doença provocava paralisia motora irreversível e, nos quadros mais graves, insuficiência respiratória fatal.[1][2]

A virada veio com a vacinação em massa. Entre 1980 e 1982, os casos caíram de 1.290 para 42 por ano, e o último isolamento do poliovírus selvagem em território nacional foi registrado em março de 1989, no município de Sousa, na Paraíba — cinco anos antes de o Brasil receber, em 1994, junto ao continente americano, a certificação internacional de erradicação da doença.[1][3] É essa distância entre a lembrança pessoal de Varella e a experiência de gerações mais jovens que, segundo ele, explica parte do problema atual: quem nunca viu uma criança em pulmão de aço tem dificuldade de avaliar o risco de abrir mão da proteção vacinal.

"A vacina é diferente de um tratamento. No tratamento você já está doente. Na vacina, você está ótimo — e tem que confiar que aquilo vai te beneficiar." Drauzio Varella, na Casa Folha, Flip 2026

Esse argumento é o núcleo mais original da fala de Varella: a confiança exigida por uma vacina é estruturalmente diferente da confiança exigida por um remédio. Diante de um diagnóstico, o paciente já sofre e busca alívio ativamente. Diante de uma dose preventiva aplicada em alguém saudável, a adesão depende inteiramente da crença — não na experiência imediata do corpo, mas na promessa estatística de um risco evitado. É esse tipo de fé, disse ele, que o negacionismo corrói ao espalhar histórias de efeitos adversos raros ou fabricados, minando exatamente o elo mais frágil da cadeia de imunização coletiva.

O sarampo que o Brasil tentou esquecer

A fala de Varella em Paraty não foi hipotética. O Brasil recuperou em novembro de 2024 o certificado de eliminação da circulação endêmica do sarampo — status perdido em 2019, quando o país acumulou parte dos mais de 39 mil casos registrados nas Américas entre 2018 e 2022.[4][5] Mas o retorno da doença em escala continental voltou a ameaçar essa conquista: as Américas somaram 7.145 infecções confirmadas nos dois primeiros meses de 2026, quase metade do total registrado em todo o ano de 2025, com surtos ativos e perda de certificação em países vizinhos ou parceiros comerciais, como Canadá, México e Bolívia.[6][7]

Em razão do fluxo de viajantes para a Copa do Mundo de 2026 — sediada nos Estados Unidos, no México e no Canadá, três países com circulação ativa do vírus —, o Ministério da Saúde emitiu nota técnica de alerta epidemiológico, reconhecendo o "risco iminente de reintrodução e disseminação do sarampo no Brasil" após o retorno de viajantes ou a chegada de estrangeiros eventualmente infectados.[6] O primeiro caso do ano foi confirmado em março, numa bebê de seis meses não vacinada, residente em São Paulo, que havia viajado para a Bolívia.[8] Até julho, o estado de São Paulo já somava 13 casos confirmados em 2026, a maioria em bebês de até um ano e adultos entre 20 e 50 anos — perfil que aponta tanto para lacunas na primovacinação infantil quanto para adultos que nunca completaram o esquema.[9]

"Há bolsões de indivíduos suscetíveis, resultantes da hesitação vacinal e de falhas na cobertura vacinal em diversas regiões." Nota técnica do Ministério da Saúde, abril de 2026[6]

O documento do ministério nomeia o problema com uma precisão que ecoa a fala de Varella: o risco não vem apenas da circulação do vírus lá fora, mas da existência de bolsões de pessoas não imunizadas aqui dentro. Segundo o próprio governo, a cobertura da segunda dose da tríplice viral — a que efetivamente fecha o esquema vacinal contra sarampo, caxumba e rubéola — atingiu 78,02% em 2025, com apenas 1.963 municípios brasileiros alcançando a meta de 95% considerada segura para garantir imunidade de rebanho.[6] Como reforço emergencial, estados como São Paulo passaram a recomendar a chamada "dose zero" da tríplice viral para bebês entre 6 e 11 meses em áreas de maior circulação de viajantes.[9]

Uma década de erosão, com sinais recentes de reação

O quadro do sarampo é sintoma de um problema mais amplo. O Anuário VacinaBR 2025, elaborado pelo Instituto Questão de Ciência com apoio da Sociedade Brasileira de Imunizações e do Unicef, documenta uma queda contínua e generalizada nas coberturas vacinais infantis desde 2015, intensificada após 2020. Em 2023, ano mais recente coberto pelo levantamento, nenhuma vacina do calendário nacional infantil atingiu a meta de cobertura em todos os estados brasileiros, e ao menos 80% da população brasileira ainda vivia em municípios que não alcançavam as metas do Programa Nacional de Imunizações (PNI) para a maioria dos imunizantes analisados individualmente.[10][11]

Há, no entanto, sinais de recuperação. Segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde e do Unicef (WUENIC), o número de crianças brasileiras sem nenhuma dose de vacina caiu de 255 mil para 50 mil entre 2024 e 2025 — redução de cerca de 80% em um único ano, atribuída pelo próprio Ministério da Saúde ao trabalho de equipes de enfermagem em todo o país.[12] Ainda assim, especialistas ouvidos pela imprensa nacional apontam a hesitação vacinal — o atraso ou a recusa em vacinar mesmo com a vacina disponível gratuitamente pelo SUS — como um obstáculo que persiste mesmo quando a oferta de doses não é o problema.[13]

Contraponto — o outro lado do debate

O que dizem os críticos da obrigatoriedade vacinal: movimentos e famílias que resistem a certas vacinas costumam argumentar que decisões sobre a saúde do próprio corpo ou dos filhos devem caber, em primeira instância, aos pais e não ao Estado, e que casos raros de eventos adversos — mesmo estatisticamente pequenos, como o risco de 1 em 10 milhões de doses associado à antiga vacina oral contra a pólio no Brasil entre 1995 e 2001[14] — justificariam mais cautela e menos pressão institucional. Parte desse grupo também questiona a transparência de agências regulatórias e defende o direito à recusa informada, sobretudo diante de vacinas mais recentes ou de calendários que consideram extensos.

O que responde a maioria da comunidade científica: autoridades sanitárias e sociedades médicas argumentam que a imunidade de rebanho — o mecanismo que protege até quem não pode ser vacinado, como bebês muito pequenos ou imunossuprimidos — só funciona acima de patamares de cobertura como os 95% definidos como meta pelo PNI para o sarampo, e que abaixo desse limiar o risco deixa de ser individual e passa a ser coletivo.[6] Nessa leitura, a vacinação ocupa uma categoria diferente de outras decisões médicas porque seus efeitos protetores — e seus riscos de omissão — recaem sobre terceiros que não participaram da escolha.

O Tecido registra as duas posições como parte de um debate público real, sem endossar conclusões: a controvérsia sobre até que ponto o Estado pode ou deve condicionar direitos à comprovação vacinal segue em aberto em várias democracias, inclusive no Brasil.

O SUS que Drauzio recusa defender

Ao relembrar sua formação em 1967 — quando 70% da população brasileira vivia no campo e a expectativa de vida ao nascer era de 50 anos —, Varella descreveu um país sem cobertura pediátrica sequer nos bairros operários de São Paulo, onde cresceu. Para ele, a criação do Sistema Único de Saúde em 1988 e o Programa Nacional de Imunizações, hoje com mais de quatro décadas, representam a "mudança mais radical" que testemunhou na medicina brasileira — comparável, disse, à expansão da vacinação infantil a praticamente todo o território nacional, do Alto Rio Negro ao sertão cearense. "O SUS não precisa de defesa", afirmou. "Se não existisse o SUS, seria a barbárie."

Essa avaliação é compatível com o quadro estrutural descrito por pesquisas em saúde coletiva: o Brasil segue como o único país do mundo com mais de 100 milhões de habitantes a operar um sistema de saúde público e universal, herdeiro direto do National Health Service britânico, mas construído em condições de desigualdade regional e social sem paralelo direto com a experiência inglesa do pós-guerra.

A arte de adaptar o conhecimento a cada paciente

Varella também usou a plateia para explicar por que considera a prática médica uma forma de arte — não no sentido de produzir beleza permanente, como uma escultura, mas no de adaptar um corpo de conhecimento estável às circunstâncias particulares de cada pessoa. É essa mesma lógica, aplicada à comunicação em saúde pública, que sustenta seu diagnóstico sobre o papel das redes sociais na crise de confiança vacinal: conselhos regionais de medicina, na avaliação dele, agem com lentidão diante de conteúdo médico não qualificado nas redes, enquanto plataformas digitais lucram com publicidade de saúde não regulamentada — um ponto que ele associou a levantamentos internacionais sobre a monetização de desinformação em saúde nas grandes redes sociais.

O paradoxo que fecha o argumento

Fica, ao final, um paradoxo deliberado. Um médico que passou a manhã inteira defendendo a dúvida como método de trabalho — e que, ao tratar da própria morte, disse não temer o processo natural de adoecimento porque a certeza sobre o desfecho é, para ele, uma forma de alívio — reservou à vacinação o único território onde recusa qualquer relativização. Não por contradição, mas porque, nesse caso específico, a evidência acumulada ao longo de décadas de vigilância epidemiológica converteu uma hipótese em fato estabelecido: vacinas seguras reduzem drasticamente a circulação de doenças que mataram e mutilaram gerações inteiras. Entre a incerteza que ainda anima a prática clínica e a certeza estatística que sustenta a saúde pública, Varella traçou, em Paraty, a fronteira que considera inegociável.

Nota de atribuição editorial: Este artigo é uma reportagem original produzida a partir da transcrição integral da entrevista com Drauzio Varella na programação da Casa Folha, Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada em 25 de julho de 2026, mediada pela jornalista Fernanda Mena. As falas citadas foram verificadas contra a transcrição do evento. Dados epidemiológicos e de cobertura vacinal foram apurados de forma independente junto a fontes oficiais listadas nas referências numeradas ao lado. A programação do evento foi noticiada por veículos como a própria Folha de S.Paulo e a plataforma Casa Folha.
Ewerton Lopes — Curador Editorial, O Tecido
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