Caderno Sustentabilidade · Energia e Clima
Resumo em 30 segundos
- A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta queda de 2,5 milhões de barris por dia na demanda mundial de petróleo em 2026, depois de ter previsto alta em janeiro.
- Pela análise do Carbon Brief, as emissões globais de CO2 de combustíveis fósseis devem recuar cerca de 0,5% no ano, a primeira queda desde 2020.
- O carvão sobe 1,2%, mas não compensa a retração de petróleo e gás natural.
- O debate central é se a chamada destruição de demanda será temporária ou permanente.
- No Brasil, a crise coincide com recordes de produção de petróleo e com os eletrificados passando de 24% das vendas de veículos leves em agosto.
Donald Trump trata a mudança climática como farsa e dedicou boa parte do segundo mandato a desmontar as regras federais criadas para contê-la. Ainda assim, uma decisão do próprio presidente americano está produzindo em 2026 o maior recuo anual das emissões de combustíveis fósseis desde a pandemia de Covid-19. A guerra contra o Irã, iniciada por Estados Unidos e Israel em 28 de fevereiro e agora em seu sétimo mês, estrangulou o Estreito de Ormuz, encareceu petróleo e gás e obrigou o mundo a consumir menos energia fóssil.
A constatação ganhou destaque em reportagem de Evan Halper publicada nesta quinta-feira pelo The Washington Post1, que cruzou as revisões de projeção da IEA com dados da agência ambiental americana. O mesmo resultado aparece, por caminho independente, em análise publicada uma semana antes pelo site britânico Carbon Brief5. As duas contas apontam na mesma direção. O que ainda não está claro é o que sobra desse recuo quando a guerra acabar.
Da previsão de alta ao maior recuo desde 2020
Em janeiro, antes do primeiro míssil, a IEA esperava que o consumo mundial de petróleo crescesse 930 mil barris por dia em 20265. A partir de março, o relatório mensal da agência virou uma sequência de cortes. Em maio, a projeção já indicava contração de 420 mil barris diários3. Em julho, a IEA anunciou a primeira queda anual prevista desde 20203. Em agosto, o recuo estimado chegou a 1,56 milhão de barris por dia4.
O relatório de setembro aprofundou o movimento. A agência passou a projetar queda de 2,5 milhões de barris por dia, 940 mil a mais do que no mês anterior, atribuindo a piora ao impasse nas negociações entre Washington e Teerã, que empurra a normalização dos fluxos para 20272. A demanda global ficaria em cerca de 102,45 milhões de barris diários, e a IEA não espera ver de volta o patamar anterior à guerra, de aproximadamente 106 milhões, antes do fim de 2027. A própria agência descreveu o biênio 2026 e 2027 como um período essencialmente perdido para o crescimento do consumo7.
Do lado da oferta, o quadro é de escassez física. A produção dos países do Golfo está cerca de 10 milhões de barris diários abaixo do nível pré-guerra, e a oferta mundial deve encolher 5,7 milhões de barris por dia no ano7. O Brent do Mar do Norte, referência internacional, saltou para US$ 113,48 em 9 de setembro2. Com barril nesse nível, o consumo cai porque parte das pessoas e das empresas simplesmente deixa de comprar.
Como a IEA reescreveu o ano do petróleo
Variação projetada da demanda mundial de petróleo em 2026 frente a 2025, conforme cada edição do relatório mensal da agência (milhões de barris por dia)
O carvão volta, mas não fecha a conta
A leitura apressada da crise sugeria um retorno ao carvão, e há um fundo de verdade nisso. A atualização de meio de ano da IEA para o mineral, publicada em setembro, passou a prever alta de 1,2% no consumo global de 2026, quando antes esperava leve queda5. O gás mais caro empurrou algumas usinas de volta ao carvão. Mas o Carbon Brief ressalta que boa parte desse aumento tem pouco a ver com Ormuz: um El Niño forte elevou a demanda por refrigeração e reduziu a geração hidrelétrica em mercados importantes, e a China desperdiçou volume crescente de energia eólica e solar por falta de capacidade de absorção da rede5.
No gás natural, a virada também é nítida. A projeção de janeiro indicava crescimento de 2,0% no consumo mundial. Em julho, a IEA já previa queda de 0,6%, e a pressão dos preços só aumentou desde então5. Somados os três combustíveis, o saldo é negativo: as emissões globais de CO2 de origem fóssil devem cair cerca de 0,5% em relação a 2025, segundo o Carbon Brief5.
A análise do Washington Post chega a ordem de grandeza compatível. Pelos cálculos do jornal, as emissões fósseis de 2026 devem ficar cerca de 191 milhões de toneladas de CO2 abaixo das de 2025. Frente ao que a IEA projetava em janeiro, a diferença sobe para 472 milhões de toneladas, o equivalente às emissões anuais de 103 milhões de carros a gasolina. Só o recuo de 2,5% na demanda de petróleo equivaleria a tirar de circulação as emissões de 42 milhões de veículos a combustão1.
Destruição de demanda: hematoma ou cicatriz?
O jargão do setor tem nome para o fenômeno: destruição de demanda. É o consumo que desaparece porque o preço torna a atividade inviável, e não porque alguém decidiu economizar por convicção. A dúvida que divide analistas é se essa perda funciona como um hematoma, que some quando a pressão passa, ou como uma cicatriz, que fica.
O cenário central da IEA ainda aposta no hematoma. A agência prevê que o consumo volte a crescer 2,6 milhões de barris por dia em 2027, o suficiente apenas para neutralizar a queda deste ano2. Isso significa dois anos de demanda praticamente estável, algo que o Carbon Brief considera suficiente para pôr em dúvida a expectativa anterior da própria agência de que o pico do petróleo só viria perto de 20305.
A consultoria norueguesa DNV, que modela a demanda energética mundial, foi além e abandonou o consenso. Em análise assinada no fim de agosto pelo vice-presidente Sverre Alvik, a empresa admitiu que vinha trabalhando com a hipótese de guerra curta e preços normalizados, e que era hora de reconhecer que todos podiam estar errados6. O texto aponta que as vendas de veículos elétricos quase dobraram em julho nos chamados mercados novos, fora de China, Europa e América do Norte, e lembra o precedente europeu de 2022, quando a falta de gás russo acelerou de forma duradoura a troca de energia importada por renováveis6.
"A cada mês que o conflito dura, aumenta a probabilidade de destruição permanente da demanda."Sverre Alvik, vice-presidente da DNV, em análise de agosto de 2026
A lógica econômica por trás dessa hipótese é simples. Comportamento volta atrás com facilidade: quem deixou o carro em casa por causa do preço da gasolina volta a usá-lo quando o preço cai. Estoque de capital não volta. Um carro elétrico comprado hoje roda por mais de uma década; uma bomba de calor instalada numa casa europeia não é desinstalada quando o gás barateia; um país asiático que desistiu de um terminal de gás natural liquefeito não o constrói no ano seguinte. Como observa o Washington Post, economistas tendem a concordar que, quanto mais longa a interrupção, mais permanente a mudança1. O Carbon Brief registra recordes de participação de elétricos em mercados tão distintos quanto Austrália, China, Europa, Indonésia e Tailândia, além de governos asiáticos que reavaliam a dependência de gás importado5.
O Brasil dos dois recordes
O Brasil ocupa uma posição curiosa nessa história, porque está dos dois lados do balcão. Como produtor, o país ganhou com a crise. Em março, primeiro mês da guerra, a produção nacional de petróleo e gás atingiu 5,531 milhões de barris de óleo equivalente por dia, recorde histórico, com o pré-sal respondendo por quase 80% do total8. Em junho, a produção de petróleo chegou a 4,5 milhões de barris diários, alta de 19% em um ano, e as vendas do produto à China dobraram no primeiro semestre, somando US$ 15,1 bilhões segundo o Conselho Empresarial Brasil-China9.
Isso cria um paradoxo contábil que merece atenção. Os barris brasileiros que ocupam o espaço deixado pelo Golfo são queimados em outros países, e as emissões correspondentes entram no inventário de quem consome. O Brasil exporta petróleo num ano em que o mundo consome menos, e parte da queda global de emissões depende, portanto, de que o óleo brasileiro substitua outro, e não se some a ele.
Como consumidor, o país reagiu de forma rápida. Os veículos eletrificados, somando híbridos e elétricos puros, alcançaram 24,3% dos emplacamentos de veículos leves em agosto, com 63.709 unidades, segundo a Bright Consulting10. A Anfavea registrou participação semelhante, de 24,4%11. No acumulado do ano, as vendas de eletrificados crescem 134%, e os elétricos a bateria já respondem sozinhos por 10,5% do mercado de leves10.
O Brasil na crise do petróleo, em três números
Há ainda um amortecedor que poucos países têm: o etanol. A mistura obrigatória na gasolina está em 30% desde agosto de 2025, e o governo estuda elevá-la para 32%12. A Lei do Combustível do Futuro, de 2024, permite chegar a 35%14. Com cerca de 40 milhões de veículos flex em circulação, perto de 85% da frota leve, levantamento da Peers Consulting apontou que, nos primeiros meses do conflito, a gasolina subiu em média 5,4% no país enquanto o etanol caiu 11%, deixando o biocombustível abaixo da paridade de rendimento nos principais mercados13. Para Jacyr Costa, do conselho do agronegócio da Fiesp, a guerra consolidou os biocombustíveis como instrumento de soberania energética, e não apenas como pauta ambiental, embora o alto custo de capital ainda limite investimentos das usinas mais endividadas12.
Contraponto
O que a queda de emissões não significa
Seria um erro ler os números de 2026 como vitória climática. A redução decorre de escassez, e escassez tem distribuição desigual. Em março, o querosene de aviação chegou a US$ 200 o barril na Ásia, e a IEA recomendou a moradores da região que trabalhassem de casa e evitassem voos15. Quem deixa de consumir, nesse cenário, é sobretudo quem não pode pagar.
A guerra também emite. Estudo do Climate and Community Institute estimou que só as duas primeiras semanas de bombardeios liberaram mais de 5 milhões de toneladas de CO2 equivalente, acima das emissões anuais da Islândia16. E a volta parcial ao carvão em países asiáticos pode criar dependências de longo prazo que anulem ganhos futuros.
Por fim, a escala importa. Um recuo de 0,5% está longe do corte anual de cerca de 7,5% que o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente considera necessário até 2030 para manter viva a meta de 1,5 °C17. E a própria IEA ainda projeta retomada do consumo em 2027. Uma queda produzida por um choque, sem política pública por trás, pode se desfazer tão rápido quanto apareceu.
O que acompanhar nos próximos meses
Três indicadores devem dizer se 2026 será lembrado como um soluço estatístico ou como ponto de inflexão. O primeiro é o ritmo de recuperação da demanda nos relatórios mensais da IEA, especialmente quando houver algum acordo entre Washington e Teerã: se o consumo voltar mais devagar do que a oferta, a tese da cicatriz ganha força. O segundo é a composição das vendas de veículos nos mercados emergentes, onde a DNV identificou a aceleração mais forte. O terceiro, para o Brasil, é a decisão sobre a mistura de 32% de etanol e a trajetória dos eletrificados depois que os preços dos combustíveis se acomodarem.
A ironia que abre esta história tem um limite. A política climática desmontada em Washington era desenhada para reduzir emissões de forma previsível e com custo distribuído. O que a guerra entrega é o oposto: uma redução imprevisível, cara e concentrada nos mais vulneráveis. A pergunta útil, portanto, não é se a guerra fez bem ao clima, mas quais investimentos feitos sob pressão continuarão de pé quando a pressão acabar.
Perguntas frequentes
Por que as emissões globais de CO2 devem cair em 2026?
Porque a guerra no Irã, iniciada em fevereiro de 2026, bloqueou grande parte do tráfego pelo Estreito de Ormuz, reduziu a oferta de petróleo e gás e elevou os preços. Com energia fóssil mais cara e escassa, o consumo mundial caiu, e as emissões acompanharam.
De quanto é a queda estimada?
O Carbon Brief estima recuo de cerca de 0,5% nas emissões fósseis globais em relação a 2025. O Washington Post calcula cerca de 191 milhões de toneladas de CO2 a menos, a primeira queda anual desde a pandemia de 2020.
O aumento do uso de carvão não anula esse efeito?
Não em 2026. A IEA prevê alta de 1,2% no consumo de carvão, mas as quedas no petróleo (cerca de 2,4%) e no gás natural superam esse aumento. Parte da alta do carvão também se deve a fatores sem relação com a guerra, como o El Niño.
O que é destruição de demanda e ela será permanente?
É o consumo que desaparece porque o preço torna a atividade inviável. A IEA ainda projeta recuperação em 2027, mas consultorias como a DNV avaliam que, quanto mais longa a crise, maior a chance de parte da queda ser definitiva, sobretudo quando envolve compra de carros elétricos e troca de infraestrutura.
Como o Brasil é afetado?
De duas formas. Como produtor, bateu recordes de extração e exportação de petróleo. Como consumidor, viu os eletrificados passarem de 24% das vendas de veículos leves em agosto de 2026 e ganhou proteção com o etanol, cuja mistura na gasolina é de 30%.
Este artigo tomou como ponto de partida a reportagem "Trump dismantled U.S. climate policy. But his war is cutting emissions.", de Evan Halper, publicada pelo The Washington Post em 24 de setembro de 2026. Os dados atribuídos ao jornal foram creditados ao longo do texto. A análise, o contexto brasileiro e as demais fontes são de responsabilidade de O Tecido.
Referências
- HALPER, Evan. Trump dismantled U.S. climate policy. But his war is cutting emissions. The Washington Post, 24 set. 2026. washingtonpost.com
- AGÊNCIA INTERNACIONAL DE ENERGIA (IEA). Oil Market Report, setembro de 2026.
- IEA. Oil Market Report, maio e julho de 2026 (relatório de julho conforme divulgado pela CNBC, 10 jul. 2026).
- IEA. Oil Market Report, agosto de 2026, conforme divulgado por Oil & Gas Journal e Argus Media.
- EVANS, Simon. Analysis: Global fossil-fuel emissions set to fall in 2026 amid Hormuz crisis. Carbon Brief, 16 set. 2026.
- ALVIK, Sverre. The growing tail of oil demand destruction. DNV Energy Transition Outlook, ago. 2026 (versão também publicada na Forbes, 27 ago. 2026).
- OIL & GAS JOURNAL. IEA sees oil demand decline deepening as Middle East disruptions persist, set. 2026.
- AGÊNCIA BRASIL. Em meio à guerra no Irã, Brasil bate recorde de produção de petróleo, com dados da ANP, 4 maio 2026.
- CONSELHO EMPRESARIAL BRASIL-CHINA. Dados de exportação do primeiro semestre de 2026, conforme repercutidos pela imprensa brasileira, set. 2026.
- AUTOINDÚSTRIA. Veículos eletrificados atingem novo patamar recorde, de 24,3%, com dados da Bright Consulting, 1 set. 2026.
- EIXOS. Carros elétricos registram recorde na participação de vendas no país, com 24% em agosto, diz Anfavea, set. 2026.
- AGRIBRASILIS. Entrevista com Jacyr Costa sobre o setor sucroenergético e a guerra no Oriente Médio, 13 maio 2026.
- PEERS CONSULTING. Preços do etanol 2026: safra recorde, regulação e o que os contratos futuros indicam, 16 jul. 2026.
- BRASIL. Lei nº 14.993, de 8 de outubro de 2024 (Lei do Combustível do Futuro).
- FORTUNE. As the U.S. gears up for a potential ground war in Iran, $100-plus oil threatens demand destruction, 20 mar. 2026.
- LIVE SCIENCE. Iran war has already released a staggering amount of CO2, com base em estudo do Climate and Community Institute, 24 mar. 2026.
- PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O MEIO AMBIENTE (PNUMA). Emissions Gap Report 2024.
Ewerton Lopes — Curador Editorial
O Tecido · Caderno Sustentabilidade