Há poucas semanas, uma startup de São Francisco anunciou um exame de imagem corporal completo vendido diretamente ao consumidor, sem indicação médica. A notícia provocou uma discussão pública entre médicos e entusiastas de tecnologia nos Estados Unidos, reproduzida em detalhe num podcast de opinião do The New York Times, e reacendeu uma pergunta que também atravessa consultórios, laboratórios de análises clínicas e aplicativos de saúde no Brasil: mais dados sobre o próprio corpo tornam alguém, de fato, mais saudável, ou apenas mais ansioso?
No episódio, a médica de atenção primária Rachael Bedard e o colunista David Wallace-Wells discutem por que parte da medicina tornou-se cética quanto à ideia de que conhecer mais sobre o corpo é sempre positivo. A conversa completa, incluindo o relato de Bedard sobre uma semana usando um relógio de monitoramento de sono e um sensor de glicose, está disponível na íntegra no site do jornal americano[1].
O precedente da tireoide
O exemplo mais citado por médicos para explicar o ceticismo vem da Coreia do Sul. A partir do final da década de 1990, clínicas do país passaram a oferecer ultrassonografias de tireoide como parte de check-ups de rotina, mesmo sem que o exame fizesse parte do programa nacional de rastreamento de câncer. O resultado foi um salto de até 15 vezes no número de diagnósticos entre 1993 e 2011, sem qualquer redução equivalente na mortalidade pela doença[2]. Ou seja: encontravam-se muito mais tumores, mas praticamente nenhuma vida a mais estava sendo salva.
Um estudo internacional coordenado pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, que analisou registros de 63 países entre 1980 e 2017, chegou a uma conclusão que também tem endereço brasileiro: 75,2% dos diagnósticos de câncer de tireoide em mulheres no Brasil, no período de 2013 a 2017, foram classificados como sobrediagnóstico — tumores tão pequenos e indolentes que provavelmente nunca chegariam a causar sintomas ou morte[3]. O achado reforça o que sociedades médicas já vinham recomendando desde 2013: abandonar o rastreamento indiscriminado de nódulos de tireoide em pessoas sem sintomas e sem histórico familiar de risco, priorizando vigilância em vez de cirurgia imediata.
Achados sem nome, decisões sem clareza
O fenômeno tem um nome técnico pouco conhecido fora da medicina: incidentaloma, um achado incidental de significado indeterminado, geralmente em glândulas adrenais, tireoide ou rins, que aparece quando se faz um exame de imagem por qualquer outro motivo. Esses achados exigem decisões difíceis sobre repetir exames, fazer biópsias ou simplesmente observar, e cada uma dessas decisões tem custo financeiro, físico e emocional. É justamente esse tipo de achado que preocupa parte da comunidade médica diante da promessa de exames corporais completos vendidos como produto de bem-estar, sem relação com uma queixa clínica específica.
Monitores de glicose fora do consultório
Um caso paralelo, e já bastante presente no Brasil, é o dos monitores contínuos de glicose. Criados para diabéticos, esses sensores hoje são vendidos também para pessoas sem diagnóstico de diabetes, com preços em torno de US$ 89 por mês nos Estados Unidos para as versões sem necessidade de prescrição[4]. No Brasil, dispositivos como o FreeStyle Libre 2 têm margem de erro média (MARD) de cerca de 8,2%, considerada aceitável para uso clínico segundo a diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes[5] — mas essa mesma diretriz foi desenhada para orientar o controle de uma doença já diagnosticada, não para interpretar oscilações normais de glicose em pessoas metabolicamente saudáveis.
O problema, segundo especialistas ouvidos pela imprensa brasileira, é que não existe consenso sobre o que fazer com esses dados quando a pessoa não é diabética: um pico de glicose depois de uma sobremesa pode ser lido como alarme por alguns e como irrelevância fisiológica por outros[4]. Sem um profissional para contextualizar o número, o dado vira fonte de ansiedade, não de orientação.
Contraponto: o argumento otimista
Para parte do setor de tecnologia e alguns pesquisadores, a resistência médica ao excesso de dados subestima o potencial da inteligência artificial de encontrar padrões que humanos não veem. O caso mais citado como prova de conceito é o Apple Heart Study, que acompanhou centenas de milhares de usuários de relógios inteligentes e identificou irregularidades no ritmo cardíaco com relevância clínica real, contribuindo para a prevenção de complicações como o AVC. Nessa visão, a barreira não é conceitual, mas de maturidade: os mesmos sensores que hoje geram ruído poderiam, com mais anos de dados de treinamento e melhor triagem algorítmica, separar o que é sinal do que é apenas variação normal do corpo — repetindo, para o monitoramento contínuo, o caminho que o eletrocardiograma percorreu ao longo do século XX até se tornar exame de rotina.
O Brasil também está de olho — e sob a LGPD
O mercado de wearables cresce no país e já é tema de estudos acadêmicos sobre sua incorporação ao sistema de saúde, tanto na rede pública quanto na suplementar[6]. Isso levanta uma segunda camada do debate, menos discutida no episódio do NYT: o que acontece com esses dados depois de coletados. Frequência cardíaca, padrões de sono e níveis de glicose são dados sensíveis de saúde segundo a Lei Geral de Proteção de Dados, o que exige consentimento explícito e tratamento reforçado por parte das empresas que os coletam[8]. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados já sinalizou, em sua agenda regulatória, atenção especial a tecnologias vestíveis que monitoram informações de saúde para uso pessoal ou diagnóstico, dentro de uma discussão mais ampla sobre dados biométricos[7].
Essa é uma diferença importante em relação ao debate americano: no Brasil, a pergunta não é apenas se o dado ajuda ou atrapalha a saúde de quem o gera, mas também quem mais tem acesso a ele, sob qual finalidade e por quanto tempo — questões que a estratégia nacional de saúde digital do país ainda está calibrando à medida que integra prontuários eletrônicos, aplicativos privados e novas fontes de dados biométricos[9].
Quando o corpo vira número
Bedard descreve, no episódio original, uma experiência pessoal reveladora: depois de uma noite que ela sentiu ter sido boa, seu relógio indicou sono ruim, e ela se pegou pensando "o que ele sabe que eu não sei?"[1] — uma frase que resume bem o efeito psicológico desse tipo de tecnologia. Estudos sobre o chamado efeito nocebo mostram que, quando um dispositivo sugere que o sono foi ruim, a pessoa relata mais cansaço ao longo do dia, independentemente de o dado refletir a realidade ou não.
O contraste, no fim das contas, não é entre tecnologia boa e tecnologia ruim, mas entre dois usos distintos de um mesmo dado: um relógio prescrito por um cardiologista para investigar uma arritmia específica opera sob uma pergunta clínica definida; o mesmo relógio usado para acompanhar de forma genérica "o quanto estou bem" opera sem pergunta nenhuma, e é aí que a interpretação tende a escorregar para a ansiedade. Como resume a médica no podcast, o valor de rastrear qualquer coisa depende, sobretudo, do que se pretende fazer com o resultado.
Neste Artigo
- O precedente da tireoide
- Achados sem nome, decisões sem clareza
- Monitores de glicose fora do consultório
- Contraponto: o argumento otimista
- O Brasil também está de olho — e sob a LGPD
- Quando o corpo vira número
Em Números
Linha do Tempo
Glossário
- Wearable
- Dispositivo eletrônico vestível que monitora dados corporais, como relógios e anéis inteligentes.
- MCG
- Monitor contínuo de glicose, sensor que mede os níveis de açúcar no sangue em tempo real.
- Sobrediagnóstico
- Detecção de uma condição que, sem o exame, jamais causaria sintomas ou morte ao paciente.
- Incidentaloma
- Achado incidental de significado indeterminado encontrado em exame de imagem feito por outro motivo.
- LGPD
- Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, que regula o tratamento de dados sensíveis de saúde no Brasil.
- ANPD
- Autoridade Nacional de Proteção de Dados, responsável por fiscalizar a LGPD.
Referências
- Wallace-Wells, D. & Bedard, R. "Is More Data About Your Body Actually Good for You?", The New York Times Opinion, 29 jul. 2026. nytimes.com
- Vieira, S. "Vale a pena detectar precocemente o câncer de tireoide?" drasuzanavieira.med.br
- Portal Afya. "Epidemiologia global do câncer de tireoide e o impacto do sobrediagnóstico." portal.afya.com.br
- CNN Brasil. "Usar monitor contínuo de glicose sem ter diabetes é indicado? Entenda melhor." cnnbrasil.com.br
- Sociedade Brasileira de Diabetes. "FreeStyle Libre 2: Avanços e Desafios do Novo Sensor de Glicose com Alarmes no Brasil." diretriz.diabetes.org.br
- Nexo Jornal Acadêmico. "Os desafios e oportunidades no uso de wearables no Brasil." nexojornal.com.br
- ANPD. "Espaço Cidadão — Sandbox Regulatório." gov.br/anpd
- Ministério da Saúde. "LGPD e Saúde Digital." sisaps.saude.gov.br
- International Bar Association. "AI and digital health in Brazil: balancing innovation and regulation." ibanet.org