2 de setembro de 2026
O TECIDOCaderno Saúde · Bem-estar & Comportamento
30 de Junho de 2026
Bem-estar & Comportamento

O corpo que a natureza devolve

Uma pesquisa com mais de 50 mil pessoas em 58 países sugere que o efeito calmante de árvores e parques sobre o bem-estar passa, em boa parte, por mudar a relação que temos com o próprio corpo — um achado que expõe, por contraste, a desigualdade no acesso ao verde nas cidades brasileiras.

Editorial do Caderno Saúde
Análise e Comportamento
⏱ 9 min de leituraPublicado em: 30 de Junho, 2026

Há uma cena que se repete em consultórios de psicologia e em rodas de conversa Brasil afora: alguém olha no espelho e não gosta do que vê. A insatisfação corporal é tão comum que quase deixou de soar como sintoma — virou pano de fundo. Mas um estudo publicado em junho na revista científica Environment International, conduzido por pesquisadores liderados por Viren Swami, da Anglia Ruskin University, no Reino Unido, propõe um caminho pouco explorado para amenizá-la: sair de casa e caminhar entre árvores.

A pesquisa, batizada de Body Image in Nature Survey, ouviu 50.363 pessoas em 58 países e 36 idiomas entre 2020 e 2022. O objetivo era testar um modelo conceitual inédito ligando o contato com a natureza à satisfação com a vida, já que boa parte da variação nos efeitos benéficos do tempo ao ar livre permanecia sem explicação nas pesquisas anteriores. A resposta que os dados sugeriram surpreendeu até os próprios autores: o vínculo direto entre estar na natureza e se sentir satisfeito com a vida não era estatisticamente forte. O que conectava as duas pontas era a forma como as pessoas passavam a enxergar — e tratar — o próprio corpo.

Da árvore ao espelho

Estudos anteriores já vinham apontando associações moderadas a fortes entre contato com a natureza e dimensões da imagem corporal positiva, incluindo apreciação corporal e apreciação da funcionalidade do corpo. O que o novo estudo fez foi testar formalmente dois mecanismos por trás dessa associação. Pessoas que relataram contato mais frequente com ambientes naturais também relataram maior autocompaixão e sensação mais forte de restauração psicológica depois de estar ao ar livre — e foram esses dois fatores, e não a exposição à natureza em si, que se conectaram a uma maior apreciação corporal e, por fim, a mais satisfação com a vida.

A "apreciação corporal" medida pelos pesquisadores não tem a ver com achar o próprio corpo esteticamente perfeito. O concept foi definido como um amor e respeito abrangentes pelo corpo, que inclui aceitação física e resistência aos padrões de aparência promovidos pela mídia — uma definição mais próxima de paz do que de vaidade. E, segundo os autores, esse efeito não se restringe a um perfil específico: as conclusões valem para diferentes idades e identidades de gênero.

Há explicações plausíveis para o porquê. Ambientes naturais oferecem o que psicólogos chamam de "quietude cognitiva": um estado em que a atenção é engajada sem esforço, permitindo deliberação sem desgaste mental — algo que favorece gestos de gentileza consigo mesmo. Ao mesmo tempo, a qualidade restauradora desses ambientes ajuda o cérebro a se recuperar do cansaço cognitivo do dia a dia, abrindo espaço para pensamentos menos críticos sobre a própria aparência. Em outras palavras: longe das vitrines, dos espelhos de academia e do feed de redes sociais, o corpo deixa de ser avaliado — e passa a ser apenas habitado.

"O contato com a natureza ajuda pessoas a desenvolverem uma imagem corporal mais positiva, e é esse aumento da apreciação corporal que explica a maior satisfação com a vida" — síntese dos achados centrais do estudo, conforme nota oficial da Anglia Ruskin University.

O Brasil tem natureza, mas não tem acesso a ela

O achado chega em um momento revelador para o debate público brasileiro. Por um lado, o país é guardião de parte considerável da biodiversidade do planeta; por outro, a relação cotidiana da maioria da população urbana com qualquer pedaço de verde é, na prática, escassa. Dados do Censo Demográfico 2022, do IBGE, mostram que mais de 58,7 milhões de brasileiros que vivem em áreas urbanas moram em ruas sem nenhuma arborização. Apenas 32,1% da população tem acesso a vias com cinco árvores ou mais por trecho de rua — o tipo de cobertura vegetal mínima associada a algum efeito perceptível sobre conforto térmico e bem-estar.

Essa carência não se distribui de forma aleatória pelo território. Pesquisa de doutorandos da Unicamp, publicada na Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais e baseada em georreferenciamento cruzado com dados do Censo, encontrou um padrão consistente em Campinas: quanto mais negra a população de um bairro, menor o número de áreas verdes acessíveis a ela. O mesmo desenho se repete em outras metrópoles — incluindo São Paulo, onde estudos têm documentado o contraste entre a arborização farta de bairros como Pinheiros e Vila Mariana e sua quase ausência em regiões periféricas como Guaianases e Lajeado.

Se o estudo de Swami e colegas está correto, essa desigualdade de acesso ao verde não é apenas uma questão paisagística ou climática — ela pode estar reforçando, silenciosamente, desigualdades em saúde mental e em imagem corporal entre quem mora perto de um parque arborizado e quem não tem nem uma árvore na rua.

Quando o parque também é fonte de medo

Há ainda uma camada brasileira que o estudo internacional, conduzido majoritariamente em países do Hemisfério Norte, não captura inteiramente: a segurança pública como pré-condição para qualquer benefício psicológico da natureza. Pesquisa da USP sobre conexão com a natureza e saúde mental no contexto urbano brasileiro identificou que a insegurança, decorrente da desigualdade social do país, é a principal barreira que impede o cidadão de usufruir dos serviços de bem-estar oferecidos por um parque ou uma praça. Mais do que isso: morar perto de uma área verde abandonada, mal cuidada e percebida como insegura provoca um efeito inverso ao esperado — em vez de tranquilidade, gera estresse e ansiedade pelo medo da violência.

Isso significa que "ter uma praça por perto" não basta. Para que o efeito restaurador descrito pela pesquisa britânica se manifeste, a praça também precisa ser iluminada, cuidada e percebida como segura — condições que, em muitas periferias brasileiras, simplesmente não existem.

O corpo já vem cobrado antes da natureza entrar em cena

O pano de fundo sobre o qual esse efeito atuaria também é particularmente carregado no Brasil. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE, divulgada em 2026 com base em quase 120 mil adolescentes de todo o país, mostrou que o nível de satisfação com a própria imagem corporal caiu de 66,5%, em 2019, para 58% entre os estudantes. Entre universitários, levantamentos regionais têm registrado taxas de insatisfação corporal que oscilam entre 55% e mais de 60%, com diferenças marcantes entre meninos e meninas. E uma pesquisa de mercado realizada no fim de 2025 com amostra representativa da população brasileira encontrou que quase metade dos entrevistados associa diretamente a aparência física à própria felicidade, e quase metade já deixou de participar de eventos sociais por não se sentir bem com o corpo.

É nesse cenário — de pressão estética intensa e cobertura vegetal urbana desigual — que a descoberta do estudo de Swami ganha um peso especial para o leitor brasileiro: se o contato com a natureza pode ser parte do antídoto contra a autocrítica corporal, o acesso a esse antídoto está hoje concentrado exatamente nas mesmas regiões que já concentram outros privilégios.

O que fazer com isso, na prática

Os próprios pesquisadores e especialistas consultados pela imprensa internacional sugerem que o benefício depende menos da quantidade de tempo ao ar livre e mais da qualidade da atenção dedicada a ele. Holli-Anne Passmore, psicóloga da Concordia University of Edmonton e diretora de um laboratório dedicado à relação entre natureza e sentido de vida, defende que reparar deliberadamente em pequenos detalhes — uma folha, um som, a textura da grama — ativa benefícios psicológicos que a simples presença física no espaço não garante sozinha. Isso é particularmente relevante para quem vive em cidades brasileiras com pouco acesso a grandes áreas verdes: um quintal, uma praça pequena, uma árvore na calçada do trabalho podem cumprir parte dessa função, desde que a atenção esteja de fato ali — e não no celular.

Vale notar que esse tipo de prática é complementar, não substitutivo. Para quadros mais intensos de insatisfação corporal, ansiedade ou sintomas de transtorno alimentar, o caminho indicado continua sendo o acompanhamento profissional — psicólogos, psiquiatras e nutricionistas com formação em saúde mental. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento gratuito por meio dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e da atenção básica.

Nota editorial

Este artigo foi inspirado pela reportagem "The surprising science-backed reason being in nature makes you feel good", publicada pelo The Washington Post em 5 de junho de 2026, que traz depoimentos e entrevistas próprias com pesquisadores sobre o tema. A reportagem original pode ser lida em: washingtonpost.com.

Este texto não traduz nem reproduz a reportagem do Washington Post: ele parte do estudo científico original que a originou, soma fontes independentes e acrescenta contexto e dados específicos sobre a realidade brasileira de acesso a áreas verdes e imagem corporal.

Referências

  1. Swami, V. et al. "Positive body image is a pathway between nature contact and life satisfaction across 58 nations." Environment International, 2026. sciencedirect.com
  2. PubMed — Resumo do estudo de Swami et al., Environ Int, jun. 2026. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  3. EurekAlert! / Anglia Ruskin University. "Improved life satisfaction linked to being in nature." Maio de 2026. eurekalert.org
  4. Phys.org. "Improved life satisfaction linked to being in nature." Maio de 2026. phys.org
  5. YourNews. "Global Study Links Nature's Wellness Benefits To Body Appreciation." Junho de 2026. yournews.com
  6. Correio Braziliense. "Falta de áreas verdes agrava calor, saúde e desigualdade nas cidades." Abril de 2025, com dados do Censo Demográfico 2022/IBGE. correiobraziliense.com.br
  7. Revista Di Fatto. "Desigualdade Socioespacial e Escassez de Áreas Verdes nas Periferias de São Paulo." 2025. revistadifatto.com.br
  8. Digitais. "Estudo revela a desigualdade no acesso a áreas verdes" (pesquisa Unicamp, Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais). Junho de 2025. digitais.net.br
  9. Floresta&Brasil. "Natureza e saúde mental: muito além do verde" (pesquisa USP). 2026. florestalbrasil.com
  10. Agência Brasil / IBGE. "IBGE alerta para quadro preocupante na saúde mental de adolescentes" (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar — PeNSE 2024). Março de 2026. agenciabrasil.ebc.com.br
  11. Opinion Box. "Padrões de beleza: pesquisa inédita revela dados exclusivos." Janeiro de 2026. blog.opinionbox.com
  12. The Washington Post. "The surprising science-backed reason being in nature makes you feel good." Junho de 2026. washingtonpost.com

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