Por muito tempo, o infarto foi tratado como um problema de homem de meia-idade e de mulher depois da menopausa. Os números mais recentes de hospitais brasileiros desmontam essa ideia. Entre 2019 e 2021, a incidência de infarto agudo do miocárdio cresceu 23% entre mulheres de 20 a 29 anos e 38% entre as de 30 a 39 anos, segundo levantamento citado pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj). Hoje, as doenças cardiovasculares já respondem pela maior causa de morte entre mulheres no país, à frente do câncer de mama.
A Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) reforça o alerta: mulheres com até 45 anos apresentam maior risco de mortalidade e piores desfechos após um evento cardíaco do que homens da mesma faixa etária, em parte porque o infarto feminino costuma se manifestar com sintomas menos típicos, o que atrasa o diagnóstico e o início do tratamento.
Os mesmos riscos, com peso diferente
Parte da explicação está em fatores de risco que já eram conhecidos, mas que hoje aparecem mais cedo na vida das pessoas: obesidade, hipertensão e diabetes. O problema é que esses fatores não afetam homens e mulheres da mesma forma. Mulheres com diabetes têm um risco cardiovascular proporcionalmente maior do que homens diabéticos, e o tabagismo também penaliza mais o coração feminino, segundo especialistas ouvidos pelo The New York Times em reportagem publicada nesta quinta-feira.
No Brasil, dados do IBGE mostram que 62,6% das mulheres adultas estavam com excesso de peso em 2019, contra 57,5% dos homens, e a obesidade também é mais prevalente entre elas (29,5% ante 21,8%). A hipertensão, por sua vez, costuma ser subdiagnosticada em mulheres jovens, e há evidência de que o risco cardiovascular começa a subir em níveis de pressão arterial mais baixos nelas do que neles.
Os fatores que a cardiologia tradicional ignorava
Há uma década, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) já chamava atenção, em seu posicionamento sobre saúde cardiovascular na mulher, para um conjunto de fatores de risco específicos do sexo feminino que raramente entravam na conta do risco cardíaco: menopausa precoce, antes dos 40 anos, síndrome dos ovários policísticos, complicações gestacionais como diabetes gestacional e pré-eclâmpsia, e doenças autoimunes inflamatórias, como lúpus e artrite reumatoide, que atingem desproporcionalmente as mulheres.
Nenhum desses fatores causa infarto por si só, mas todos funcionam como sinalizadores de risco. Uma mulher que teve pré-eclâmpsia na gravidez, por exemplo, tende a receber acompanhamento mais rigoroso de pressão, glicose e colesterol nos anos seguintes, justamente porque esse episódio pode revelar uma fragilidade vascular que só se manifestaria décadas depois.
O buraco no cuidado entre os 20 e os 40 anos
Um dos pontos mais discutidos por cardiologistas é o hiato de acompanhamento médico nessa faixa etária. Mulheres nos seus 20, 30 e 40 anos são as que menos têm um médico de referência para cuidados primários, e frequentemente adiam consultas por causa de custo ou de agenda, recorrendo ao ginecologista-obstetra como principal porta de entrada no sistema de saúde. O problema é que essa consulta raramente inclui uma avaliação cardiovascular completa.
A recomendação de especialistas é simples de enunciar e difícil de cumprir: toda mulher deveria ter um médico de atenção primária acompanhando pressão arterial, colesterol, peso e hemoglobina glicada com regularidade, para que a década que antecede a menopausa comece com o quadro metabólico sob controle, e não como um ponto cego.
| Indicador | Meta recomendada |
|---|---|
| Pressão arterial | Abaixo de 120/80 mmHg |
| LDL (colesterol "ruim") | Abaixo de 100 mg/dL |
| Índice de massa corporal | Abaixo de 25 |
| Hemoglobina glicada (A1C) | 5,6% ou menos |
Exames além do check-up básico
Para além dos exames de rotina, cardiologistas citam ferramentas adicionais de avaliação de risco. O escore de cálcio coronário, obtido por tomografia, mede a quantidade de placa calcificada nas artérias e pode detectar o processo de formação de bloqueios antes que ele produza qualquer sintoma. A recomendação também inclui a dosagem única, ao longo da vida, da Lipoproteína(a), um tipo de colesterol cujo nível costuma se manter estável, exceto na menopausa, quando pode subir e justificar nova checagem.
Contraponto: nem todo exame extra vira consenso
A proteína C-reativa, marcador de inflamação associado a risco cardiovascular em alguns estudos, ainda divide opinião entre especialistas. Parte da comunidade médica defende sua inclusão em avaliações de rotina; outra parte considera que a evidência disponível ainda não é forte o suficiente para recomendar o teste de forma ampla, por risco de gerar ansiedade e intervenções desnecessárias a partir de um resultado alterado sem significado clínico definitivo.
O mesmo debate cerca a ampliação do escore de cálcio coronário para populações mais jovens: sociedades de cardiologia reconhecem seu valor preditivo, mas ponderam o custo e a exposição à radiação de um exame ainda não indicado de forma universal abaixo dos 40 anos.
Uma curva que também preocupa lá fora
O quadro brasileiro conversa com um sinal de alerta internacional. Um levantamento da American Heart Association, publicado na revista Circulation em fevereiro deste ano, projeta que quase um terço das mulheres americanas entre 20 e 44 anos terá algum tipo de doença cardiovascular até 2050, ante menos de um quarto hoje. O mesmo estudo estima que a prevalência de acidente vascular cerebral nessa faixa etária deve praticamente dobrar no período, impulsionada pelo avanço da obesidade, do diabetes e da hipertensão em idades cada vez mais precoces.
A leitura de especialistas, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, é de que a maior parte desse cenário é evitável. Diagnóstico precoce, controle rigoroso de pressão e glicose e mudanças de hábito, como dieta mediterrânea ou padrão DASH, atividade física regular e abandono do tabaco, continuam sendo as intervenções com maior impacto comprovado, inclusive com menor volume de exercício necessário para mulheres alcançarem a mesma redução de risco cardiovascular obtida por homens, segundo pesquisas citadas na reportagem do New York Times sobre o tema.
Este texto foi produzido a partir de reportagem original de Nina Agrawal, publicada pelo The New York Times em 6 de agosto de 2026, sob o título "Why Are More Young Women Developing Heart Disease?" (nytimes.com/2026/08/06/well/heart-disease-young-women.html). O conteúdo foi complementado com apuração e fontes brasileiras e internacionais independentes, listadas nas referências ao lado, sem tradução ou reprodução integral do material original.
Ewerton Lopes — Curador Editorial
Nesta reportagem
Em números
- +38%
- Crescimento nos infartos entre mulheres de 30 a 39 anos no Brasil, 2019–2021 (Cremerj)
- 1 em 3
- Mulheres que morrem por doença cardiovascular ou AVC no Brasil, à frente do câncer de mama
- ~33%
- Mulheres de 20 a 44 anos nos EUA com previsão de ter doença cardiovascular até 2050 (AHA)
- 62,6%
- Mulheres brasileiras adultas com excesso de peso em 2019 (IBGE)
Linha do tempo
Glossário
- Escore de cálcio coronário
- Tomografia que mede placas calcificadas nas artérias do coração.
- Lipoproteína(a)
- Tipo de colesterol de origem genética, medido uma vez na vida.
- Pré-eclâmpsia
- Pressão alta na gravidez, associada a maior risco cardiovascular futuro.
- SOP
- Síndrome dos ovários policísticos, ligada a maior risco metabólico.
Referências
- Agrawal, N. "Why Are More Young Women Developing Heart Disease?". The New York Times, 6 ago. 2026. Acessar
- Cremerj News. "Doença cardíaca é a principal causa de morte entre mulheres no Brasil". Acessar
- Radar Digital Brasília / Socesp. "Mulheres jovens enfrentam risco de mortalidade por infarto". Acessar
- Sociedade Brasileira de Cardiologia. "Posicionamento sobre a Saúde Cardiovascular nas Mulheres – 2022". Acessar
- Oliveira, G. M. M.; Wenger, N. K. "Considerações Especiais na Prevenção de Doenças Cardiovasculares nas Mulheres". Arquivos Brasileiros de Cardiologia. Acessar
- American Heart Association Newsroom. "6 in 10 U.S. women projected to have at least one type of cardiovascular disease by 2050". Acessar