Este artigo parte da Ata da 280ª Reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada pelo Banco Central do Brasil em 11 de agosto de 2026, especificamente do trecho sobre o balanço de riscos para a inflação. Consulte a publicação oficial em bcb.gov.br/publicacoes/atascopom. Todas as demais fontes usadas na apuração estão listadas na seção de referências ao final.
Quando o Banco Central do Brasil divulgou, nesta terça-feira, a ata da 280ª reunião do Copom, um parágrafo específico chamou a atenção de economistas e de quem acompanha de perto a política monetária. Ao listar os riscos que podem empurrar a inflação para cima, o Comitê colocou lado a lado dois fatores que, à primeira vista, pertencem a mundos completamente diferentes: de um lado, os efeitos de segunda ordem de um conflito armado que ameaça o tráfego de petróleo pelo Oriente Médio; de outro, os efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e os custos de energia. Não é force de expressão dizer que o clima, pela primeira vez de forma tão explícita, entrou para a mesma prateleira de risco que uma guerra.
O que a ata realmente diz
No trecho que trata do balanço de riscos, o Copom aponta como primeiro fator de risco de alta para a inflação uma desancoragem mais prolongada das expectativas, algo que passaria a incorporar, nos horizontes mais longos, impactos de segunda ordem de dois tipos de choque de oferta: um ligado ao petróleo e seus derivados, outro ligado a efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e os custos de energia. Os dois aparecem na mesma frase, no mesmo item, com o mesmo peso relativo dentro da lista de riscos altistas.
É importante fazer a leitura correta desse texto. O Comitê não afirma que o choque climático vai necessariamente se materializar, nem que ele já está em curso da mesma forma que o conflito no Oriente Médio, que já pressiona o Brent para perto de US$ 90 o barril. O que a ata descreve é um risco potencial, uma possibilidade que compõe o cenário de incerteza mais amplo. A diferenciação de verbo importa: o choque geopolítico já produziu efeitos observáveis nos preços; o choque climático, no momento da ata, ainda é tratado como algo não materializado, na mesma categoria de incerteza do fenômeno El Niño mencionado em atas anteriores.
Por que essa linguagem não é uma novidade isolada
Uma apuração nas atas anteriores do Copom mostra que essa formulação não nasceu na reunião de agosto. A ata da 279ª reunião, realizada em junho de 2026, já trazia praticamente a mesma redação no parágrafo sobre balanço de riscos, associando choques de oferta ligados ao petróleo a efeitos climáticos sobre produtividade agrícola e custos de energia. Naquela mesma ata, o Comitê também citava explicitamente o El Niño como um dos fatores de incerteza ainda não materializados, ao lado dos desdobramentos do conflito no Oriente Médio.
Isso indica algo mais relevante do que uma frase isolada: o risco climático deixou de ser um item ocasional nas comunicações do BC para se tornar um componente recorrente e estrutural do vocabulário de risco inflacionário do Copom, repetido reunião após reunião com redação quase idêntica. Analistas de mercado também têm associado publicamente os dois fatores, guerra e clima, como as principais ameaças à continuidade do ciclo de cortes da Selic no segundo semestre de 2026.²
O clima já mexe com juros em outros países
O Brasil não está sozinho nessa guinada de vocabulário. Desde 2022, a economista Isabel Schnabel, membro da diretoria executiva do Banco Central Europeu (BCE), cunhou termos que hoje circulam entre banqueiros centrais para descrever como o clima pressiona preços: "fossilflation" (a volatilidade de combustíveis fósseis), "greenflation" (custos da transição energética) e "climateflation" (o efeito direto de eventos climáticos extremos sobre a produção de alimentos e bens).³ Pesquisadores do próprio BCE estimaram que um único verão mais quente, em 2022, elevou a inflação de alimentos na zona do euro em cerca de 0,67 ponto percentual, com projeções de que temperaturas mais altas possam adicionar entre 0,92 e 3,23 pontos percentuais à inflação de alimentos ao ano até 2035.³
O paralelo com o Copom é direto: bancos centrais ao redor do mundo estão reconhecendo que eventos climáticos extremos, secas, ondas de calor, quebras de safra, funcionam como choques de oferta que a política monetária tradicional tem dificuldade de neutralizar, porque juros mais altos não fazem chover nem recuperam uma colheita perdida.
O lado brasileiro: El Niño na lavoura
Para o leitor brasileiro, o risco descrito na ata não é abstrato. O fenômeno El Niño está em curso, com previsão de intensificação até o fim de 2026 e início de 2027, e um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (FGV IBRE) mapeou os efeitos regionais sobre a produtividade agrícola. No Nordeste, anos de El Niño reduzem em média cerca de 11% o rendimento do arroz e cerca de 6% o do feijão, na comparação com anos climaticamente neutros. No Norte, os recuos estimados ficam perto de 4% no arroz e 6% no feijão.⁴ O estudo aponta ainda que o risco climático associado ao El Niño está menos concentrado nas grandes lavouras de soja do Centro-Oeste e do Sul, mais expostas a mecanismos de proteção como seguro rural, e mais concentrado nas culturas alimentares de subsistência do Norte e do Nordeste, exatamente onde a rede de proteção de preços é mais frágil.
O setor sucroenergético também monitora de perto o fenômeno: a Comissão Nacional de Cana-de-Açúcar da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) discutiu formalmente, em julho de 2026, os impactos esperados do El Niño sobre a safra 2026/2027 no âmbito do Plano Safra.⁵ Some-se a isso o efeito sobre custos de energia elétrica, mencionado explicitamente na ata: hidrelétricas dependem do regime de chuvas, e anos de El Niño costumam alterar esse regime de forma heterogênea entre regiões, pressionando o acionamento de termelétricas mais caras e, por consequência, a bandeira tarifária.
Nota editorial: os percentuais de perda de produtividade por cultura e região citados acima referem-se a estimativas médias históricas associadas a anos de El Niño, não a uma previsão fechada para a safra 2026/2027, que ainda depende da intensidade real do fenômeno nos próximos meses.
O que isso muda na prática para a Selic
A própria ata é explícita sobre a estratégia do Comitê diante desses dois choques de oferta: o Copom não pretende reagir mecanicamente aos efeitos primários desses eventos, isto é, a um pico pontual no preço da gasolina ou dos alimentos, mas afirma que vai acompanhar com atenção os efeitos de segunda ordem, ou seja, se esses choques começarem a contaminar salários, reajustes de contratos e expectativas de inflação de prazo mais longo.
Na decisão mais recente, de 5 de agosto de 2026, o Copom reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano, o quarto corte consecutivo, em decisão unânime. A ata mantém a assimetria altista no balanço de riscos e reforça um discurso de cautela: o tamanho e o ritmo do ciclo de cortes seguirão dependentes da evolução dos dados, sem sinalização de trajetória automática para a reunião de setembro. Na prática, quanto mais os riscos climáticos e geopolíticos permanecerem simultaneamente ativos, menor a margem do Comitê para acelerar novos cortes de juros, já que qualquer sinal de contaminação inflacionária secundária tende a justificar maior cautela.
Perguntas frequentes
A ata do Copom afirma que a mudança climática já está causando inflação no Brasil?
Não. A ata trata o efeito climático como um risco potencial de segunda ordem, ainda não materializado, e o coloca ao lado de outro risco também classificado como potencial: o de uma escalada maior do conflito no Oriente Médio. O choque de oferta ligado ao petróleo, esse sim, já tem efeitos observáveis nos preços internacionais.
Isso significa que o Banco Central vai subir os juros por causa do clima?
A ata indica o contrário como postura padrão: o Copom afirma que não pretende reagir mecanicamente aos efeitos primários de choques de oferta. Uma reação de juros só seria mais provável se o choque climático gerasse efeitos secundários relevantes sobre as expectativas de inflação de prazo mais longo.
O termo "climateflation" é usado oficialmente pelo Banco Central do Brasil?
Não. O termo foi cunhado por Isabel Schnabel, do Banco Central Europeu, em 2022, e é usado neste artigo como referência comparativa internacional para contextualizar a linguagem da ata brasileira, não como uma citação literal do Copom.
Glossário
- Ata do Copom
- Documento divulgado pelo Banco Central cerca de uma semana após cada reunião do Comitê de Política Monetária, detalhando os fundamentos técnicos da decisão sobre a taxa Selic.
- Assimetria altista
- Expressão técnica que indica que os riscos de a inflação ficar acima do esperado são considerados maiores do que os riscos de ela ficar abaixo.
- Choque de oferta
- Evento que reduz repentinamente a disponibilidade de um bem ou insumo (petróleo, alimentos, energia), pressionando preços independentemente da demanda.
- Efeitos de segunda ordem
- Consequências indiretas de um choque inicial, como reajustes salariais ou de contratos que incorporam a alta de preços e a tornam mais persistente.
- Climateflation
- Termo cunhado por Isabel Schnabel (BCE) para descrever a pressão inflacionária causada diretamente por eventos climáticos extremos sobre a produção de alimentos e bens.
- El Niño
- Fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Pacífico equatorial, que altera o regime de chuvas em diferentes regiões do Brasil.
Referências
- El Niño volta em 2026 e seus efeitos sobre a produtividade agrícola são diferenciados entre regiões e culturas. Blog do IBRE / FGV. blogdoibre.fgv.br
- Guerra e clima: o que ameaça a queda dos juros no Brasil. blogsemjuizo.com.br
- Schnabel, Isabel. A new age of energy inflation: climateflation, fossilflation and greenflation. Banco Central Europeu, 2022. ecb.europa.eu — ver também síntese em Grantham Research Institute, LSE
- El Niño volta em 2026: efeitos sobre arroz e feijão no Nordeste e Norte. Blog do IBRE / FGV (ver referência 1).
- Comissão Nacional de Cana-de-Açúcar debate Plano Safra e impactos do El Niño. CNA Brasil. cnabrasil.org.br
- Ata do Copom acende alerta: BC eleva preocupação com desancoragem das expectativas de inflação. Money Times, 11 ago. 2026. moneytimes.com.br
- Copom mantém assimetria altista no balanço de riscos para inflação. O Povo, 5 ago. 2026. opovo.com.br
- Ata da 279ª Reunião do Copom, Banco Central do Brasil, 16 e 17 de junho de 2026 (documento oficial em PDF). bcb.gov.br