Fonte primária
Este artigo parte da Ata da 280ª Reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada pelo Banco Central do Brasil em 11 de agosto de 2026, especificamente do trecho sobre o balanço de riscos para a inflação. Consulte a publicação oficial em bcb.gov.br/publicacoes/atascopom. Todas as demais fontes usadas na apuração estão listadas na seção de referências ao final.
14%Selic após o corte de 0,25 p.p. em 5/8/2026, o quarto corte seguido
5,2%Projeção do Copom para o IPCA acumulado em 2026
-11%Queda estimada na produtividade do arroz no Nordeste em anos de El Niño¹
~US$90Patamar do petróleo Brent em meio à tensão no Oriente Médio

Quando o Banco Central do Brasil divulgou, nesta terça-feira, a ata da 280ª reunião do Copom, um parágrafo específico chamou a atenção de economistas e de quem acompanha de perto a política monetária. Ao listar os riscos que podem empurrar a inflação para cima, o Comitê colocou lado a lado dois fatores que, à primeira vista, pertencem a mundos completamente diferentes: de um lado, os efeitos de segunda ordem de um conflito armado que ameaça o tráfego de petróleo pelo Oriente Médio; de outro, os efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e os custos de energia. Não é force de expressão dizer que o clima, pela primeira vez de forma tão explícita, entrou para a mesma prateleira de risco que uma guerra.

O que a ata realmente diz

No trecho que trata do balanço de riscos, o Copom aponta como primeiro fator de risco de alta para a inflação uma desancoragem mais prolongada das expectativas, algo que passaria a incorporar, nos horizontes mais longos, impactos de segunda ordem de dois tipos de choque de oferta: um ligado ao petróleo e seus derivados, outro ligado a efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e os custos de energia. Os dois aparecem na mesma frase, no mesmo item, com o mesmo peso relativo dentro da lista de riscos altistas.

É importante fazer a leitura correta desse texto. O Comitê não afirma que o choque climático vai necessariamente se materializar, nem que ele já está em curso da mesma forma que o conflito no Oriente Médio, que já pressiona o Brent para perto de US$ 90 o barril. O que a ata descreve é um risco potencial, uma possibilidade que compõe o cenário de incerteza mais amplo. A diferenciação de verbo importa: o choque geopolítico já produziu efeitos observáveis nos preços; o choque climático, no momento da ata, ainda é tratado como algo não materializado, na mesma categoria de incerteza do fenômeno El Niño mencionado em atas anteriores.

"Impactos potenciais de segunda ordem de choques de oferta, relacionados ao petróleo e seus derivados, e a efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e custos de energia."

Por que essa linguagem não é uma novidade isolada

Uma apuração nas atas anteriores do Copom mostra que essa formulação não nasceu na reunião de agosto. A ata da 279ª reunião, realizada em junho de 2026, já trazia praticamente a mesma redação no parágrafo sobre balanço de riscos, associando choques de oferta ligados ao petróleo a efeitos climáticos sobre produtividade agrícola e custos de energia. Naquela mesma ata, o Comitê também citava explicitamente o El Niño como um dos fatores de incerteza ainda não materializados, ao lado dos desdobramentos do conflito no Oriente Médio.

Isso indica algo mais relevante do que uma frase isolada: o risco climático deixou de ser um item ocasional nas comunicações do BC para se tornar um componente recorrente e estrutural do vocabulário de risco inflacionário do Copom, repetido reunião após reunião com redação quase idêntica. Analistas de mercado também têm associado publicamente os dois fatores, guerra e clima, como as principais ameaças à continuidade do ciclo de cortes da Selic no segundo semestre de 2026.²

Contraponto editorial Nem todo economista concorda que a equiparação entre risco climático e risco geopolítico traduz-se em urgência equivalente. Parte do mercado financeiro entende que o conflito no Oriente Médio tem efeito direto e imediato sobre o preço do petróleo, já capturado nas curvas futuras e nos modelos de projeção do próprio Banco Central, enquanto o risco climático permanece mais difuso e depende de variáveis (intensidade do El Niño, geografia das safras, resposta de política agrícola) que ainda não estão plenamente precificadas. Para esses analistas, colocar os dois riscos na mesma frase é uma simplificação de linguagem, não necessariamente uma equivalência de magnitude ou de probabilidade de materialização.

O clima já mexe com juros em outros países

O Brasil não está sozinho nessa guinada de vocabulário. Desde 2022, a economista Isabel Schnabel, membro da diretoria executiva do Banco Central Europeu (BCE), cunhou termos que hoje circulam entre banqueiros centrais para descrever como o clima pressiona preços: "fossilflation" (a volatilidade de combustíveis fósseis), "greenflation" (custos da transição energética) e "climateflation" (o efeito direto de eventos climáticos extremos sobre a produção de alimentos e bens).³ Pesquisadores do próprio BCE estimaram que um único verão mais quente, em 2022, elevou a inflação de alimentos na zona do euro em cerca de 0,67 ponto percentual, com projeções de que temperaturas mais altas possam adicionar entre 0,92 e 3,23 pontos percentuais à inflação de alimentos ao ano até 2035.³

O paralelo com o Copom é direto: bancos centrais ao redor do mundo estão reconhecendo que eventos climáticos extremos, secas, ondas de calor, quebras de safra, funcionam como choques de oferta que a política monetária tradicional tem dificuldade de neutralizar, porque juros mais altos não fazem chover nem recuperam uma colheita perdida.

O lado brasileiro: El Niño na lavoura

Para o leitor brasileiro, o risco descrito na ata não é abstrato. O fenômeno El Niño está em curso, com previsão de intensificação até o fim de 2026 e início de 2027, e um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (FGV IBRE) mapeou os efeitos regionais sobre a produtividade agrícola. No Nordeste, anos de El Niño reduzem em média cerca de 11% o rendimento do arroz e cerca de 6% o do feijão, na comparação com anos climaticamente neutros. No Norte, os recuos estimados ficam perto de 4% no arroz e 6% no feijão.⁴ O estudo aponta ainda que o risco climático associado ao El Niño está menos concentrado nas grandes lavouras de soja do Centro-Oeste e do Sul, mais expostas a mecanismos de proteção como seguro rural, e mais concentrado nas culturas alimentares de subsistência do Norte e do Nordeste, exatamente onde a rede de proteção de preços é mais frágil.

O setor sucroenergético também monitora de perto o fenômeno: a Comissão Nacional de Cana-de-Açúcar da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) discutiu formalmente, em julho de 2026, os impactos esperados do El Niño sobre a safra 2026/2027 no âmbito do Plano Safra.⁵ Some-se a isso o efeito sobre custos de energia elétrica, mencionado explicitamente na ata: hidrelétricas dependem do regime de chuvas, e anos de El Niño costumam alterar esse regime de forma heterogênea entre regiões, pressionando o acionamento de termelétricas mais caras e, por consequência, a bandeira tarifária.

Nota editorial: os percentuais de perda de produtividade por cultura e região citados acima referem-se a estimativas médias históricas associadas a anos de El Niño, não a uma previsão fechada para a safra 2026/2027, que ainda depende da intensidade real do fenômeno nos próximos meses.

O que isso muda na prática para a Selic

A própria ata é explícita sobre a estratégia do Comitê diante desses dois choques de oferta: o Copom não pretende reagir mecanicamente aos efeitos primários desses eventos, isto é, a um pico pontual no preço da gasolina ou dos alimentos, mas afirma que vai acompanhar com atenção os efeitos de segunda ordem, ou seja, se esses choques começarem a contaminar salários, reajustes de contratos e expectativas de inflação de prazo mais longo.

Na decisão mais recente, de 5 de agosto de 2026, o Copom reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano, o quarto corte consecutivo, em decisão unânime. A ata mantém a assimetria altista no balanço de riscos e reforça um discurso de cautela: o tamanho e o ritmo do ciclo de cortes seguirão dependentes da evolução dos dados, sem sinalização de trajetória automática para a reunião de setembro. Na prática, quanto mais os riscos climáticos e geopolíticos permanecerem simultaneamente ativos, menor a margem do Comitê para acelerar novos cortes de juros, já que qualquer sinal de contaminação inflacionária secundária tende a justificar maior cautela.

Perguntas frequentes

A ata do Copom afirma que a mudança climática já está causando inflação no Brasil?

Não. A ata trata o efeito climático como um risco potencial de segunda ordem, ainda não materializado, e o coloca ao lado de outro risco também classificado como potencial: o de uma escalada maior do conflito no Oriente Médio. O choque de oferta ligado ao petróleo, esse sim, já tem efeitos observáveis nos preços internacionais.

Isso significa que o Banco Central vai subir os juros por causa do clima?

A ata indica o contrário como postura padrão: o Copom afirma que não pretende reagir mecanicamente aos efeitos primários de choques de oferta. Uma reação de juros só seria mais provável se o choque climático gerasse efeitos secundários relevantes sobre as expectativas de inflação de prazo mais longo.

O termo "climateflation" é usado oficialmente pelo Banco Central do Brasil?

Não. O termo foi cunhado por Isabel Schnabel, do Banco Central Europeu, em 2022, e é usado neste artigo como referência comparativa internacional para contextualizar a linguagem da ata brasileira, não como uma citação literal do Copom.

Glossário

Ata do Copom
Documento divulgado pelo Banco Central cerca de uma semana após cada reunião do Comitê de Política Monetária, detalhando os fundamentos técnicos da decisão sobre a taxa Selic.
Assimetria altista
Expressão técnica que indica que os riscos de a inflação ficar acima do esperado são considerados maiores do que os riscos de ela ficar abaixo.
Choque de oferta
Evento que reduz repentinamente a disponibilidade de um bem ou insumo (petróleo, alimentos, energia), pressionando preços independentemente da demanda.
Efeitos de segunda ordem
Consequências indiretas de um choque inicial, como reajustes salariais ou de contratos que incorporam a alta de preços e a tornam mais persistente.
Climateflation
Termo cunhado por Isabel Schnabel (BCE) para descrever a pressão inflacionária causada diretamente por eventos climáticos extremos sobre a produção de alimentos e bens.
El Niño
Fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Pacífico equatorial, que altera o regime de chuvas em diferentes regiões do Brasil.

Referências

  1. El Niño volta em 2026 e seus efeitos sobre a produtividade agrícola são diferenciados entre regiões e culturas. Blog do IBRE / FGV. blogdoibre.fgv.br
  2. Guerra e clima: o que ameaça a queda dos juros no Brasil. blogsemjuizo.com.br
  3. Schnabel, Isabel. A new age of energy inflation: climateflation, fossilflation and greenflation. Banco Central Europeu, 2022. ecb.europa.eu — ver também síntese em Grantham Research Institute, LSE
  4. El Niño volta em 2026: efeitos sobre arroz e feijão no Nordeste e Norte. Blog do IBRE / FGV (ver referência 1).
  5. Comissão Nacional de Cana-de-Açúcar debate Plano Safra e impactos do El Niño. CNA Brasil. cnabrasil.org.br
  6. Ata do Copom acende alerta: BC eleva preocupação com desancoragem das expectativas de inflação. Money Times, 11 ago. 2026. moneytimes.com.br
  7. Copom mantém assimetria altista no balanço de riscos para inflação. O Povo, 5 ago. 2026. opovo.com.br
  8. Ata da 279ª Reunião do Copom, Banco Central do Brasil, 16 e 17 de junho de 2026 (documento oficial em PDF). bcb.gov.br