Opinião
Na noite de 4 de outubro, uma parte considerável do Brasil foi dormir surpresa. Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo a apuração divulgada pela CNN Brasil[2]. Ao longo do ano, a maior parte dos levantamentos registrados no TSE mostrou o presidente numericamente à frente nessa etapa; no começo de setembro, o Datafolha ainda registrava cinco pontos de vantagem para o petista[4]. Pesquisas são retratos de momento, e voto se move nos últimos dias. Por isso suspeito que a surpresa diga menos sobre os institutos do que sobre outra coisa: a certeza, cultivada nos dois campos, de que o país pensava mais ou menos como o próprio feed.
Essa certeza ganhou uma formulação precisa em coluna publicada hoje por Delia Rodríguez no El País[1]. Escrevendo sobre a próxima eleição geral espanhola, a jornalista sustenta que o fator decisivo da campanha digital não serão as peças feitas com inteligência artificial, os robôs ou os boatos, que certamente aparecerão, mas algo mais difuso: o ar que se respira no Instagram. A tese cruza o Atlântico sem perder força. No Brasil, a duas semanas e meia do segundo turno, marcado para 25 de outubro[3], ela talvez seja ainda mais pertinente.
O radar social e o espelho deformado
Boa parte do que fazemos depende do que supomos que os outros fazem e pensam. A psicologia social chama isso de norma percebida, e ela funciona como um radar: indica o que é aceitável dizer, vestir, defender ou rejeitar. Rodríguez lembra que esse instrumento foi útil durante muito tempo, da savana ao escritório e à escola, e que a internet o desregulou. O problema não está em consultarmos o ambiente, e sim na amostra que o ambiente digital nos entrega.
A colunista cita o psicólogo Jay Van Bavel, da Universidade de Nova York, cujo trabalho dá base empírica à intuição. Em artigo de 2024 assinado com Claire Robertson e Kareena del Rosario[5], ele descreve as plataformas como uma fábrica de espelhos de parque de diversões: amplificam as vozes mais ruidosas e extremas e silenciam as moderadas. O dado mais citado vem do Pew Research Center, que em 2019 constatou que 10% dos adultos americanos no Twitter respondiam por 97% das postagens sobre política nacional[6]. O efeito tem nome, falsa polarização: passamos a acreditar que a sociedade é muito mais extremada do que é.
Por que o Instagram, e por que agora
Se o mecanismo é antigo, o palco mudou. Na Espanha, Rodríguez registra que o Instagram chegou a 35 milhões de usuários únicos, segundo a GfK, e é a rede mais usada do país. No Brasil, a escala é outra. A consultoria NapoleonCat estima a audiência da plataforma em cerca de 164 milhões de contas em julho de 2026, o equivalente a 73% da população[7]. É uma estimativa de público publicitário, não um censo, mas basta para indicar que não existe ambiente digital mais compartilhado no país.
Mais revelador é o uso informativo. O Digital News Report 2026, do Reuters Institute, mostra que as redes sociais consolidaram vantagem sobre a televisão como fonte semanal de notícias no Brasil, que o Instagram lidera esse consumo, com 49% dos entrevistados, e que um terço da população se informa por meio de influenciadores[8].
Rodríguez aponta ainda uma transformação de arquitetura. A conversa entre usuários migrou para as mensagens diretas, e o feed foi reorientado para o entretenimento audiovisual passivo, produzido por profissionais ou semiprofissionais. Sobre essa base, a Meta acrescentou uma camada de prova social: vemos se a podcaster favorita aprovou um creme ou se um primo compartilhou um youtuber polêmico. O clima, observa a autora, já não é inferido a partir de amigos e conhecidos, mas de estranhos cujo rosto vemos mais do que o de nossa família.
Há um detalhe que agrava o quadro. Desde fevereiro de 2024, a Meta deixou de recomendar por padrão conteúdo político de contas que o usuário não segue no Instagram e no Threads[10]. A política explícita recuou da vitrine. O que circula livremente é a política implícita.
A ideologia que não se declara
É aqui que a coluna do El País faz sua afirmação mais provocadora. Para Rodríguez, o território da influência e do estilo de vida transmite uma visão de mundo profundamente conservadora, mesmo quando ninguém fala de política: mulheres preocupadas com amor, beleza e saúde; homens preocupados com dinheiro, força e poder. Na síntese da autora, os vídeos de sérum e de barra fixa "têm ideologia".
No Brasil, há indícios que dialogam com essa leitura. O estudo Mapping News Creators and Influencers, também do Reuters Institute, identificou que 13 dos 15 influenciadores de notícias mais citados pelos brasileiros são homens, e que o público de direita tende a citar influenciadores com mais frequência do que o de esquerda[9]. Isso não prova que o feed empurra votos numa direção. Indica, porém, que o ambiente em que se forma a percepção política tem composição própria, e não neutra.
O eleitor não consulta o clima social em pesquisas com margem de erro. Ele o respira no feed, entre uma receita de marmita e um treino de academia.
A autora espanhola nota também um movimento recente: a pequena parcela mais combativa dos usuários passou a cobrar que amigos e influenciadores se posicionem sobre temas em disputa. A dinâmica é conhecida dos brasileiros. Nas próximas semanas, é provável que a pressão para que criadores de conteúdo declarem voto no segundo turno se intensifique, e que cada declaração, ou cada silêncio, vire dado de leitura do ambiente para milhões de seguidores.
O que a regulação alcança e o que escapa
O Brasil chega a esta eleição com um dos marcos regulatórios mais detalhados do mundo para a propaganda digital. A Resolução TSE nº 23.755/2026 exige rotulagem de conteúdo sintético e proíbe que sistemas de inteligência artificial recomendem candidaturas, mesmo quando o usuário pede[11]. As regras da propaganda também vedam que influenciadores sejam pagos para promover candidatos, embora possam manifestar apoio espontâneo[12].
Todas essas normas miram peças identificáveis: o vídeo adulterado, o post patrocinado, o robô. O clima descrito por Rodríguez é de outra natureza. Ele resulta da soma de milhões de publicações perfeitamente legais, nenhuma delas propaganda, que juntas desenham uma ideia de normalidade. Não há resolução capaz de alcançar esse agregado, e talvez nem deva haver. O que sobra é responsabilidade de quem consome e de quem produz informação.
Ler o clima sem ser lido por ele
Nada disso recomenda abandonar as redes ou tratá-las como vilãs. Recomenda uma disciplina simples: separar o que aparece no feed, o que as pessoas dizem em público e o que fazem na urna. São três coisas diferentes, e a confusão entre elas produz tanto o triunfalismo quanto o desânimo infundados. Pesquisas registradas no TSE, com metodologia pública, são imperfeitas, mas ao menos tentam ouvir uma amostra da população. O feed não tenta.
Rodríguez encerra sua coluna com uma observação que vale como diagnóstico: em 2026, intuímos coletivamente que, se o ar do Instagram importa para os outros, deve importar para nós também. É o mecanismo da profecia autorrealizável. O clima do Instagram não é a opinião pública. Mas, quando milhões de eleitores acreditam que seja, ele passa a funcionar como se fosse. Até 25 de outubro, convém lembrar a diferença.
Perguntas frequentes
O que é o clima social das redes?
É a percepção, formada a partir do que aparece no feed, sobre o que a maioria das pessoas pensa e faz. Ela orienta comportamentos reais, mas pode estar distorcida porque as plataformas amplificam uma minoria muito ativa.
O Instagram influencia o voto no Brasil?
O Instagram é a plataforma mais usada pelos brasileiros para se informar: 49% recorrem a ela para notícias, segundo o Digital News Report 2026. Não há prova de efeito direto sobre o voto, mas a rede molda a percepção do ambiente político em que o eleitor decide.
O que é falsa polarização?
É a tendência de superestimar o quanto as pessoas são extremadas. Pesquisas de Jay Van Bavel, da Universidade de Nova York, associam o fenômeno ao fato de uma pequena parcela de usuários produzir a maior parte do conteúdo político on-line.
O que o TSE proíbe em 2026 sobre IA e influenciadores?
A Resolução nº 23.755/2026 exige rotulagem de conteúdo sintético, proíbe que sistemas de IA recomendem candidatos e veta o pagamento a influenciadores para publicar propaganda eleitoral.
Como o eleitor pode reduzir a distorção do feed?
Separando o que vê nas redes do que a população de fato pensa, consultando pesquisas registradas no TSE com metodologia pública e lembrando que perfis muito ativos não representam a média dos usuários.
Este artigo de opinião dialoga com a coluna "El aire que se respira en Instagram es el nuevo clima social", de Delia Rodríguez, publicada pelo El País em 8 de outubro de 2026. As ideias da autora foram resumidas e parafraseadas; a íntegra está disponível no site do jornal espanhol. Dados brasileiros e demais fontes foram apurados de forma independente por O Tecido.