Não foi a guerra dos Estados Unidos contra o Irã. Não foi o fechamento parcial do Estreito de Ormuz. Para o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, a razão pela qual o mundo paga mais caro pela gasolina tem nome e endereço: a Ucrânia. Em entrevista à Fox News nesta semana, após dois dias de reuniões do G20 na Carolina do Norte, Bessent responsabilizou os ataques ucranianos a refinarias russas pela pressão altista nos preços de energia, num raciocínio que inverte a ordem dos fatos e que, segundo apurou o New York Times, ocorreu no mesmo encontro em que Washington provocou aliados europeus ao convidar o ministro das Finanças russo, Anton Siluanov, para a mesa.
A cronologia importa. O petróleo Brent, referência global, rondava os 97 dólares o barril na quinta-feira, com o diesel americano perto de recordes. Essa escalada não começou com os drones ucranianos contra refinarias russas, um recurso que Kiev passou a usar depois de quatro anos de guerra e que de fato reduziu a capacidade de exportação de derivados da Rússia. Ela começou em 28 de fevereiro de 2026, quando Estados Unidos e Israel lançaram uma campanha militar conjunta contra o Irã, mergulhando o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quarto do petróleo transportado por via marítima no mundo, em meses de instabilidade quase ininterrupta.
O verdadeiro epicentro: Ormuz, não o Dnipro
Os números contam uma história diferente da que Bessent ofereceu aos telespectadores da Fox News. Segundo dados compilados por analistas de commodities e citados por veículos como S&P Global e Bloomberg, o tráfego de navios pelo Estreito de Ormuz despencou de uma média de 135 embarcações por dia em fevereiro para apenas sete unidades em alguns dias de março, um colapso de mais de 90%. Relatórios do Serviço de Pesquisa do Congresso americano confirmam que os ataques iranianos contra embarcações comerciais, seguidos por retaliações dos Estados Unidos, perturbaram severamente o tráfego pelo estreito durante a maior parte dos últimos seis meses.
É esse choque, e não a campanha ucraniana contra refinarias russas, que analistas como Sam Ori, da Universidade de Chicago, apontam como determinante para a alta global dos combustíveis, já que o petróleo é uma commodity cujo preço reflete o mercado mundial como um todo. Segundo o levantamento do PolitiFact, a gasolina nos Estados Unidos subiu 34% desde o início do segundo mandato de Donald Trump, o óleo combustível 24% e a eletricidade 8%, um movimento que se acelerou justamente depois que o Irã respondeu aos bombardeios bloqueando parcialmente o estreito.
Um cinismo que atravessa todas as esferas do governo
O episódio de Bessent não é um deslize isolado. Ele se encaixa num padrão mais amplo que se consolidou em Washington nos últimos seis meses de guerra: quando os números da economia real colidem com a narrativa oficial, a administração Trump não corrige o rumo, troca o culpado. Da Casa Branca ao Pentágono, passando pela vice-presidência, a estratégia de comunicação sobre a guerra no Irã e seus efeitos econômicos tem se apoiado, repetidamente, em afirmações que checagens independentes desmontam.
O que Trump disse que não é verdade
- "Os preços estão todos caindo agora." Segundo o PolitiFact, essa afirmação, feita em agosto, contradiz os próprios dados: os preços subiram cerca de 4,3% desde janeiro de 2025, com o gás de cozinha e a gasolina entre os itens mais afetados pela guerra.
- "Não precisamos do petróleo deles." Em discurso sobre o fim das hostilidades, Trump afirmou que os Estados Unidos são "totalmente independentes" do petróleo do Oriente Médio. A Associated Press mostrou que o país ainda importa uma fração relevante de petróleo da região e que, mesmo assim, está longe de imune às oscilações do mercado global, como comprova a alta de mais de 50% do barril de referência desde o início da guerra.
- Investimentos de "18 trilhões de dólares". A Casa Branca não apresentou evidências que sustentem essa cifra, considerada exagerada e especulativa por analistas consultados pela AP.
- Gasolina a "1,90 dólar o galão" em Iowa. Segundo a CNN, o presidente repetiu essa alegação em uma reunião de gabinete meses depois de o preço médio nacional ter superado os 4 dólares.
O que o vice-presidente JD Vance tem afirmado
- "Eu não chamaria isso de guerra." Em coletiva na Casa Branca nesta quinta-feira, seis meses após o início dos bombardeios, Vance negou que o conflito com o Irã seja, tecnicamente, uma guerra, horas depois de o próprio Irã ter atacado o Kuwait, aliado americano, em retaliação. O próprio Trump já se referiu ao confronto como "guerra" em diversas ocasiões, inclusive na mesma reunião de gabinete citada acima pela CNN.
- "Nenhuma chance" de a guerra se prolongar. No início do conflito, em fevereiro, Vance garantiu que a operação militar seria breve. Seis meses depois, sem cessar-fogo definitivo, ele evita dar qualquer prazo para o fim das hostilidades.
- Cláusulas inexistentes no memorando com o Irã. De acordo com reportagem do canal MS NOW, Vance afirmou repetidamente que os termos para a destruição do estoque de urânio enriquecido iraniano estavam "muito claramente definidos" no memorando de entendimento assinado com Teerã. O documento não contém tais disposições, e o vice-presidente manteve a afirmação mesmo depois de desmentida.
O que o secretário de Guerra, Pete Hegseth, tem repetido
- Arsenal iraniano "obliterado". Segundo apurou o site Forbes, a senadora Kirsten Gillibrand confrontou Hegseth em audiência orçamentária por afirmar, após os primeiros ataques, que as instalações nucleares do Irã haviam sido "obliteradas", para depois o próprio Trump justificar novos bombardeios em fevereiro alegando que Teerã estava a semanas de obter uma arma nuclear.
- Guerra "contida" que não parou de se espalhar. Uma semana após o início do conflito, Hegseth negou que a guerra estivesse se expandindo para além das fronteiras iranianas, chamando essa cobertura de "fake news". Meses depois, com ataques a embarcações no Estreito de Ormuz e agora ao Kuwait, a caracterização de conflito "contido" tornou-se, segundo análise do site MS NOW, difícil de sustentar.
- Estoques de munição "corrigidos". Reportagens do Washington Post e da CNN, retomadas pelo Times of Israel, indicam que Trump confrontou Hegseth em agosto por informar erroneamente que o problema de escassez de mísseis interceptadores de longa distância já havia sido resolvido, quando cerca de 80% dos interceptores do sistema THAAD e metade dos mísseis Patriot já haviam sido consumidos.
- Controle total do espaço aéreo iraniano. Hegseth chegou a declarar "controle completo dos céus do Irã", uma avaliação que, segundo o Washington Post, contrastava com a cautela do próprio general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, que nunca sugeriu que aeronaves americanas pudessem entrar no espaço aéreo iraniano sem risco.
A decadência moral por trás da retórica
Há algo além da imprecisão factual nesse padrão. Há um desprezo declarado pelas próprias regras do debate público, que se revela também no modo como figuras do primeiro escalão se referem a interlocutores e aliados quando acreditam que ninguém está ouvindo. O livro "Regime Change", da jornalista Maggie Haberman e do repórter Jonathan Swan, ambos do New York Times, relata que o próprio Bessent chegou a chamar o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky de uma criança "com necessidades especiais para os europeus" e disse que ele agia como o personagem "Mr. Bean chapado", numa tentativa de atrasar um encontro no Salão Oval até que um acordo sobre minerais fosse assinado.
Esse episódio, somado à disposição de Washington em receber o ministro de Finanças russo numa reunião do G20 enquanto se atribui a Kiev parte da culpa pela crise energética, ilustra um traço mais amplo da vida pública americana atual: a linguagem deixou de ser instrumento de prestação de contas e passou a operar como cortina de fumaça. Quando o secretário de Guerra chama de "fake news" qualquer cobertura que contrarie a narrativa oficial, quando o vice-presidente nega que uma guerra com centenas de baixas seja, de fato, uma guerra, e quando o chefe do Tesouro atribui a um aliado sitiado a responsabilidade por uma crise desencadeada pela própria decisão de Washington de bombardear o Irã, o que está em jogo não é apenas política econômica. É a erosão da fronteira entre governar e encenar.
Contraponto
É preciso reconhecer que a afirmação de Bessent não é inteiramente destituída de fundamento técnico. Analistas de energia confirmam que os ataques ucranianos com drones contra refinarias russas retiraram, de fato, dezenas de milhões de barris de produtos refinados do mercado global ao longo de 2026, contribuindo, ainda que de forma secundária, para a pressão sobre os preços internacionais de derivados. A controvérsia não está em negar esse efeito, mas em usá-lo para diluir a responsabilidade central da guerra dos Estados Unidos contra o Irã, que provocou uma queda de mais de 90% no tráfego de navios pelo Estreito de Ormuz e é apontada por especialistas independentes como o fator dominante na alta dos preços da energia em 2026.
Perguntas frequentes
Por que Scott Bessent culpou a Ucrânia pelos preços altos de energia?
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos afirmou que os ataques ucranianos a refinarias russas de petróleo contribuem para a pressão altista global sobre os preços de energia, ao lado do conflito entre Estados Unidos e Irã. A declaração foi feita à Fox News após uma reunião do G20 na Carolina do Norte, em setembro de 2026.
Qual é a principal causa da alta dos preços de energia em 2026?
Analistas independentes apontam a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, iniciada em 28 de fevereiro de 2026, e a consequente interrupção do tráfego no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quarto do petróleo transportado por via marítima no mundo, como o fator dominante, muito mais relevante do que os ataques ucranianos a refinarias russas.
JD Vance considera a guerra com o Irã uma guerra de fato?
Não publicamente. Em setembro de 2026, o vice-presidente americano afirmou não chamaria o conflito de "guerra", apesar de mais de seis meses de combates, dezenas de baixas militares americanas e ataques recentes do Irã contra o Kuwait, aliado dos Estados Unidos.
O secretário de Guerra Pete Hegseth já fez afirmações desmentidas sobre a guerra no Irã?
Sim. Hegseth chegou a declarar que o programa nuclear iraniano havia sido "obliterado" e que a guerra estava "contida", avaliações contestadas posteriormente por autoridades do próprio governo americano e por reportagens que revelaram escassez de munições e continuidade dos combates.