Quando o mundo parecia começar a superar a febre da crise energética deste ano, a temperatura voltou a subir e o diagnóstico piorou. O preço do petróleo Brent ultrapassou os cem dólares por barril novamente neste mês de setembro, protestos por combustíveis eclodiram da Síria à Guatemala, e Índia e Filipinas anunciaram medidas emergenciais de economia de energia1. O verão do hemisfério norte foi marcado por uma sensação de alívio que, em retrospecto, muitos analistas já classificam como precipitada.
Em junho, Estados Unidos e Irã assinaram um acordo preliminar para reabrir o Estreito de Ormuz, a via marítima por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo comercializado no mundo. O Brent recuou para a casa dos oitenta dólares, o menor patamar em três meses, e mais de cento e trinta navios petroleiros conseguiram deixar o Golfo Pérsico e entregar suas cargas1. O acordo, porém, nunca foi plenamente cumprido. Ao longo do verão, negociações técnicas entre Irã e Omã sobre a administração do estreito se arrastaram, sanções americanas foram reimpostas e um corredor marítimo temporário anunciado em agosto não resolveu a disputa de fundo2. Agora, segundo reportagem do Financial Times, o acordo se desfez de vez, e há poucas perspectivas de um fim rápido para o conflito1.
Cinco leituras que erram o alvo
O Financial Times reuniu economistas e executivos do setor de energia para desmontar algumas das interpretações mais repetidas sobre a crise atual. A conclusão comum é que tratar este episódio como uma repetição dos choques de 1973 ou 2008 induz a erro, tanto na leitura do risco quanto na previsão de seus efeitos1.
1. É uma crise de combustível, não de petróleo bruto
O consumidor não compra barril de petróleo. Compra gasolina, diesel e querosene de aviação, e é o preço desses derivados que efetivamente pressiona a inflação. Ao longo da guerra, o mercado de combustíveis refinados ficou mais apertado que o de petróleo cru, por falta de capacidade de refino e pelo custo elevado de transportar o produto até onde ele é necessário1. No Brasil, esse detalhe importa: mesmo quando o Brent recua, a defasagem entre o preço interno da Petrobras e a cotação internacional do diesel pode continuar alta, como mostrou a Abicom ao apontar disparidades de até dezoito por cento entre o valor cobrado pela estatal e o preço praticado lá fora5.
2. Não é um choque à moda antiga
Mesmo acima de cem dólares, o petróleo está longe do recorde histórico. O barril bateu US$ 147,50 em 2008, o equivalente a cerca de US$ 230 em valores corrigidos pela inflação. E o salto atual também não se compara ao de 1973 e 1974, quando o embargo árabe quadruplicou o preço em poucos meses1. A escalada de 2026 foi mais gradual, mas também mais longa, o que muda o cálculo de política monetária em várias economias, inclusive na brasileira.
3. Os países mais pobres sentem primeiro e sentem mais forte
A Síria elevou o preço do diesel em quarenta por cento e da gasolina em quase trinta por cento, citando o custo internacional de importação. Bangladesh e Paquistão enfrentaram dificuldades para importar gás, restaurantes na Índia fecharam por falta de gás liquefeito de petróleo, e as Filipinas decretaram emergência nacional com trabalho remoto obrigatório1. A Agência Pública apurou que, no auge do conflito, a estimativa do Programa Mundial de Alimentos chegou a incluir cerca de 45 milhões de pessoas na lista de quem enfrenta fome aguda no mundo, um lembrete de que uma guerra do outro lado do planeta reverbera primeiro sobre quem tem menos margem para absorver o choque6.
4. A própria indústria de petróleo está no escuro
Executivos do setor reconhecem, em privado, que não sabem prever o desfecho. Muitas empresas esperavam preços dispararem quando um quinto do petróleo e gás mundiais ficou ameaçado, mas traders vêm reduzindo posições ao longo dos sete meses de conflito, reagindo a cada sinal da Casa Branca de que um acordo de paz estaria próximo1, para depois ver esses sinais se desfazerem.
5. Os economistas eram pessimistas demais, agora enfrentam o problema oposto
Até aqui, o crescimento global resistiu melhor do que projetado, em parte porque o comércio de petróleo e gás se mostrou inesperadamente resiliente após o ataque conjunto dos Estados Unidos e Israel ao Irã, em 28 de fevereiro1. O risco agora é o inverso: complacência diante de um quadro que ainda pode se deteriorar, especialmente com o inverno se aproximando no hemisfério norte sem os estoques de segurança de gás natural aos quais a Europa estava acostumada.
O fio que liga Ormuz ao posto de gasolina brasileiro
No Brasil, o canal de transmissão já está mapeado por instituições como a Instituição Fiscal Independente do Senado, que estima que a alta do petróleo provocada pelo conflito pode elevar o IPCA em até um ponto percentual em 2026, somando efeitos diretos, via preço da gasolina, e indiretos, via diesel e cadeia produtiva3. Em cenário de normalização, o órgão projeta o índice fechando o ano em 4,5 por cento; em cenário de persistência do conflito, o número sobe para 4,9 por cento, ambos acima do teto da meta de três por cento, com tolerância de um ponto e meio, perseguida pelo Banco Central3.
O Boletim Focus, divulgado semanalmente pelo BC, reflete esse nervosismo. A mediana das projeções para o IPCA de 2026 chegou a saltar de patamares abaixo de quatro por cento, no início do ano, para acima de cinco por cento em boa parte do segundo semestre, acompanhando cada novo capítulo do conflito no Oriente Médio4. O mercado também revisou para baixo o ritmo esperado de corte de juros: relatório do Itaú BBA de março já apontava que o Copom passaria a considerar um ajuste mais cauteloso, de vinte e cinco pontos-base em vez de cinquenta, diante da alta relevante nos preços do petróleo e da piora nas projeções de inflação para o horizonte relevante de política monetária7.
Do lado dos combustíveis, a Petrobras vem repassando parte da pressão internacional aos preços internos, embora sem seguir automaticamente a paridade externa desde que abandonou esse modelo em 2023. Em março, a companhia reajustou o diesel A em trinta e oito centavos por litro, mesmo classificando o impacto esperado na bomba como mínimo, graças a incentivos fiscais concedidos pelo governo8. Levantamentos da ANP no mesmo período mostraram a gasolina em torno de R$ 6,28 o litro e o diesel S10 em R$ 6,092, patamares que pressionam diretamente o frete rodoviário, responsável pela maior parte da logística de cargas no país, e por consequência o preço de alimentos e insumos agrícolas. No campo, o diesel responde por cerca de cinco por cento dos custos operacionais das lavouras, uma fatia que se torna mais sensível justamente na época de colheita9.
Contraponto: o Brasil está mais blindado do que em choques anteriores?
Nem todos os analistas veem o quadro como simetricamente ruim. Parte do mercado argumenta que o Brasil de 2026 é estruturalmente diferente do país importador líquido de petróleo de décadas passadas: a produção do pré-sal e a matriz de biocombustíveis dão à economia brasileira uma capacidade de amortecimento que países puramente importadores não têm, e a valorização do real frente ao dólar ao longo do ano ajudou a compensar parte do repasse cambial da alta do petróleo, segundo análise da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda10. Essa leitura não anula a pressão inflacionária, mas sugere que o efeito líquido sobre o país tende a ser mais ameno do que em economias sem produção doméstica relevante de petróleo.
O que observar daqui para frente
Três variáveis devem concentrar a atenção de quem acompanha a economia brasileira nas próximas semanas: o desenrolar das negociações técnicas entre Irã e Omã sobre a gestão do Estreito de Ormuz, a decisão de política de preços da Petrobras diante da defasagem acumulada em diesel e gasolina, e a reação do Copom nas próximas reuniões, especialmente se a mediana do Focus voltar a subir. Nenhuma dessas frentes tem desfecho garantido, e é exatamente essa imprevisibilidade, mais do que o nível absoluto do preço do barril, que o Financial Times aponta como o traço mais desorientador da crise atual1.
Perguntas frequentes
Por que o petróleo voltou a subir em setembro de 2026?
O acordo preliminar firmado em junho entre Estados Unidos e Irã para reabrir o Estreito de Ormuz não avançou integralmente. Após meses de negociações técnicas inconclusivas entre Irã e Omã e de sanções americanas reimpostas, o entendimento se desfez, e o Brent retomou a casa dos cem dólares por barril.
Como a crise no Oriente Médio afeta a inflação no Brasil?
O principal canal é o preço dos combustíveis. A Petrobras tende a repassar parte da alta internacional ao diesel e à gasolina, o que encarece o frete rodoviário e, por consequência, os alimentos e produtos industrializados. A Instituição Fiscal Independente estima impacto de até um ponto percentual sobre o IPCA de 2026.
Qual a diferença entre este choque e os de 1973 e 2008?
Em termos reais, o petróleo segue mais barato que o recorde de 2008 e a alta é menos abrupta que a de 1973, quando o preço quadruplicou em meses. A diferença marcante desta crise é a imprevisibilidade: o preço avança e recua conforme a diplomacia entre Estados Unidos e Irã evolui, sem uma tendência única e sustentada.
O choque atual afeta mais o petróleo bruto ou os combustíveis refinados?
Os combustíveis refinados. A capacidade global de refino ficou mais apertada que a oferta de petróleo cru, elevando desproporcionalmente o preço de diesel, gasolina e querosene de aviação, que são os produtos que o consumidor final efetivamente compra.