Quem cresceu no interior conhece o sinal: depois de semanas sem chuva, as primeiras gotas levantam do chão um cheiro que parece anunciar alívio. A ciência deu nome a esse aroma em 1964, petricor, e passou as décadas seguintes desmontando seu mecanismo. Agora, pesquisadores ouvidos pela revista Scientific American, em reportagem de Gregory Wakeman, sustentam que a mudança do clima vai alterar onde, quando e com que intensidade o cheiro de terra molhada aparece.1
A questão parece lírica, mas tem desdobramentos concretos. O composto responsável pela parte mais reconhecível do aroma, a geosmina, é o mesmo que deu gosto de terra à água de milhões de pessoas no Rio de Janeiro em 2020 e o mesmo que ajuda fêmeas do mosquito da dengue a escolher onde depositar ovos. Entender como o clima mexe com essa molécula é entender um pedaço pouco visível da relação entre solo, água e saúde pública.
De onde vem o cheiro de terra molhada
O termo foi cunhado pelos pesquisadores australianos Isabel Joy Bear e Richard Thomas, da agência científica CSIRO, em artigo publicado na revista Nature em 1964.2 Eles destilaram rochas e argilas expostas ao tempo seco e isolaram um óleo amarelado associado ao odor. O nome junta duas palavras gregas: petra, pedra, e ichor, o fluido que corria nas veias dos deuses na mitologia.
Um ano depois, a microbiologista Nancy Gerber e o colega Hubert Lechevalier, da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos, identificaram a molécula de cheiro terroso produzida por actinobactérias do solo e a batizaram de geosmina, algo como "aroma da terra".3
O mecanismo aceito hoje tem duas origens que se somam. Durante a estiagem, bactérias do gênero Streptomyces e parentes próximos acumulam geosmina no solo. Em paralelo, as plantas liberam óleos aromáticos que funcionam como uma barreira contra o calor e a perda de água, conforme descreve a reportagem da Scientific American.1 Quando a chuva volta, os dois conjuntos de compostos sobem juntos para o ar.
O nariz humano é desproporcionalmente sensível à geosmina. O psicólogo Johan Lundström, especialista em percepção olfativa do Instituto Karolinska, na Suécia, disse à revista que uma única gota da substância diluída numa piscina olímpica ainda seria perceptível.1 Companhias de saneamento conhecem bem essa característica: na água, a geosmina é notada no paladar em concentrações de poucos nanogramas por litro.
A física de uma gota
Por décadas não estava claro como moléculas presas ao solo chegavam ao nariz. A resposta veio em 2015, quando os engenheiros Young Soo Joung e Cullen Buie, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), filmaram com câmeras de alta velocidade cerca de 600 impactos de gotas sobre 28 superfícies diferentes, entre solos naturais e materiais de laboratório. O trabalho saiu na Nature Communications.4
O que as imagens revelaram: ao atingir uma superfície porosa, a gota aprisiona pequenas bolhas de ar no ponto de contato. As bolhas sobem pela água, estouram na superfície e lançam ao ar uma nuvem de partículas microscópicas, os aerossóis, carregadas do que estava no solo. O efeito lembra o chiado de uma taça de espumante.
O detalhe decisivo para entender o efeito do clima está no tipo de chuva. Segundo o estudo do MIT, o processo é mais eficiente com precipitação leve ou moderada sobre solos arenosos e argilosos. Gotas grandes e velozes, típicas de temporais, se espalham rápido demais e não dão tempo para que as bolhas se formem em quantidade.4
O que muda com o aquecimento
Não haverá uma resposta única para o planeta. O microbiologista Jeppe Lund Nielsen, professor da Universidade de Aalborg, na Dinamarca, resume a tendência geral na reportagem da Scientific American: regiões que passarem a receber mais chuva devem sentir menos petricor, e regiões que enfrentarem secas mais frequentes devem sentir mais.1
A lógica é cumulativa. Em períodos secos e quentes, a geosmina se acumula, e o calor acelera as reações químicas dentro das bactérias, elevando a produção do composto, explica Nielsen. Quando a chuva finalmente chega, há mais material disponível para ser lançado ao ar. Existe, porém, um limite apontado por Lundström: se o solo resseca demais, a geosmina se perde e deixa de ser liberada.1
No extremo oposto, chuvas frequentes não dão tempo para o acúmulo. E os aguaceiros intensos, que ficam mais comuns porque uma atmosfera mais quente retém mais vapor d'água, produzem o efeito inverso ao da garoa: diluem os compostos, empurram-nos para camadas mais profundas do solo ou os arrastam na enxurrada.1 A degradação do solo, intensificada por calor e erosão, completa o quadro ao reduzir a própria população de bactérias produtoras.
O Brasil entre a estiagem e o temporal
O país oferece os dois cenários ao mesmo tempo. A Nota Técnica nº 679/2024 do Cemaden, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, classificou a seca iniciada em 2023 como a mais extensa da série que começa em 1950: cerca de 5 milhões de km², ou 59% do território, com Amazônia, Cerrado e Pantanal entre os biomas mais atingidos.9 O recorde anterior, de 1997-1998, cobriu 42% do país. O mesmo documento registra que as secas se tornaram mais frequentes a partir dos anos 1990.
Pela lógica descrita pelos pesquisadores europeus, estiagens longas e quentes como essa são justamente as condições que favorecem um petricor mais intenso na primeira chuva, desde que o solo não chegue ao ressecamento extremo. Ao mesmo tempo, cidades do Sul e do Sudeste convivem com episódios de chuva concentrada em poucas horas, o tipo de precipitação que, segundo os experimentos do MIT, menos lança aromas ao ar.
O estado do solo também pesa. O levantamento de pastagens do MapBiomas divulgado em 2021 mostrou que as áreas severamente degradadas caíram de 46,3 milhões de hectares em 2000 para 22,1 milhões em 2020, o equivalente a 14% das pastagens do país.12 A melhora é relevante, mas o que resta ainda corresponde a uma área próxima à do estado de São Paulo, com menos matéria orgânica e menos vida microbiana para produzir o aroma.
Quando o cheiro de terra sai da torneira
Em janeiro de 2020, moradores da região metropolitana do Rio passaram a relatar água com gosto e cheiro de terra. A Cedae atribuiu o problema à geosmina presente no manancial do Guandu, que abastece cerca de 9 milhões de pessoas. A substância não é considerada tóxica, mas a crise levou à demissão do presidente da companhia, esvaziou prateleiras de água mineral e exigiu o uso de carvão ativado na estação de tratamento.10 Especialistas ouvidos na época apontaram o despejo de esgoto na bacia como causa de fundo.
O episódio mostra que a molécula do petricor tem outra vida, dentro d'água. Na água doce, ela é produzida principalmente por cianobactérias, que tendem a proliferar em ambientes quentes e ricos em nutrientes. É uma combinação que o aquecimento e o saneamento precário tornam mais provável nos reservatórios brasileiros, com custo direto para quem paga a conta de tratamento.
A mesma molécula que perfuma a primeira chuva dá gosto de terra à água da torneira e orienta o mosquito da dengue na hora de pôr ovos.O Tecido · Caderno Ciência
O mosquito também sente
A geosmina não é um sinal só para humanos. Em 2012, um grupo liderado pelo biólogo Marcus Stensmyr mostrou, na revista Cell, que a mosca-das-frutas Drosophila possui um circuito olfativo dedicado exclusivamente a detectá-la e foge do cheiro, que para ela indica micróbios potencialmente nocivos no alimento.5 Em 2020, uma equipe sueco-britânica demonstrou na Nature Microbiology o efeito oposto em colêmbolos, pequenos artrópodes do solo atraídos pela geosmina, que se alimentam das bactérias e espalham seus esporos.6
Para o Brasil, o caso mais relevante é o do Aedes aegypti. Estudo publicado na Current Biology em 2020, também do grupo de Stensmyr, na Universidade de Lund, mostrou que fêmeas do mosquito preferem depositar ovos em água com geosmina, provavelmente porque o cheiro sinaliza micróbios que servem de alimento às larvas. As próprias larvas se orientam pela substância.7 Os autores testaram armadilhas com geosmina em campo e propuseram uma alternativa barata para países em desenvolvimento: extrato de casca de beterraba, que contém o composto.
Nielsen, na reportagem da Scientific American, projeta que áreas com petricor mais intenso tendem a registrar mais mosquitos, já que o cheiro informa ao inseto que o chão seco virou ambiente úmido e propício à postura.1 Num país que registrou em 2024 mais de 6 milhões de casos prováveis de dengue, recorde da série histórica do Ministério da Saúde,11 a hipótese merece atenção da vigilância em saúde, ainda que seus elos precisem ser medidos em condições reais.
Mais do que um aroma
O mesmo preprint israelense estimou que, após uma chuva, as emissões de compostos orgânicos voláteis dos solos secos do país podem alcançar magnitude comparável à das emissões humanas desse tipo de composto, com potencial de contribuir para a formação de ozônio e de partículas na atmosfera.8 Como as terras secas ocupam perto de metade da superfície continental e estão em expansão, o petricor deixa de ser só curiosidade sensorial e passa a entrar na conta da química atmosférica.
Para quem vive no Brasil, a consequência prática é mais prosaica e mais imediata. O cheiro da primeira chuva funciona como um registro indireto de quanto tempo o solo ficou seco, de quão quente estava e de como a água chegou. Se ele ficar mais raro em algumas cidades e mais forte em outras, estará documentando, a seu modo, a mudança no regime de chuvas que os instrumentos do Cemaden já medem.
Perguntas frequentes
O que é petricor?
É o nome científico do cheiro de terra molhada que surge quando chove depois de um período seco. O termo foi criado em 1964 por Isabel Joy Bear e Richard Thomas. O aroma combina a geosmina, produzida por bactérias do solo, com óleos liberados por plantas durante a estiagem.
Como a chuva faz o cheiro chegar ao nariz?
A gota aprisiona bolhas de ar ao tocar o solo poroso. As bolhas sobem, estouram e lançam aerossóis com os compostos do solo. Chuvas leves e moderadas produzem mais aerossóis do que temporais, segundo experimentos do MIT.
Como as mudanças climáticas afetam o cheiro da chuva?
Secas longas e quentes tendem a intensificar o petricor da primeira chuva, salvo em ressecamento extremo. Chuvas frequentes ou torrenciais tendem a reduzi-lo, e solos degradados abrigam menos bactérias produtoras.
Geosmina faz mal à saúde?
Não é considerada tóxica nas concentrações encontradas no ar ou na água tratada. O problema é sensorial, como mostrou a crise do sistema Guandu, no Rio de Janeiro, em 2020.
Existe relação entre o cheiro de terra molhada e o mosquito da dengue?
Fêmeas do Aedes aegypti preferem pôr ovos em água com geosmina, segundo estudo de 2020. A ligação direta entre o aroma do solo após a chuva e surtos de dengue, porém, ainda não foi medida em campo.
Este artigo foi elaborado a partir da reportagem "How climate change is altering petrichor, the glorious smell after it rains", de Gregory Wakeman, com edição de Andrea Thompson, publicada pela Scientific American. O texto não é tradução nem reprodução do original: as informações atribuídas à revista foram parafraseadas e complementadas com pesquisa independente em literatura científica e fontes institucionais brasileiras.
Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido · Caderno Ciência
Referências
- WAKEMAN, Gregory. How climate change is altering petrichor, the glorious smell after it rains. Scientific American, 2026. https://www.scientificamerican.com/article/how-climate-change-is-altering-petrichor-the-glorious-smell-after-it-rains/
- BEAR, I. J.; THOMAS, R. G. Nature of argillaceous odour. Nature, 1964.
- GERBER, N. N.; LECHEVALIER, H. A. Geosmin, an earthy-smelling substance isolated from actinomycetes. Applied Microbiology, 1965.
- JOUNG, Y. S.; BUIE, C. R. Aerosol generation by raindrop impact on soil. Nature Communications, 2015.
- STENSMYR, M. C. et al. A conserved dedicated olfactory circuit for detecting harmful microbes in Drosophila. Cell, 2012.
- BECHER, P. G. et al. Developmentally regulated volatiles geosmin and 2-methylisoborneol attract a soil arthropod to Streptomyces bacteria promoting spore dispersal. Nature Microbiology, 2020.
- MELO, N. et al. Geosmin attracts Aedes aegypti mosquitoes to oviposition sites. Current Biology, 2020.
- Estudo sobre emissões de petricor em gradiente de aridez no deserto de Negev, Israel. bioRxiv (preprint sem revisão por pares), janeiro de 2026.
- CEMADEN/MCTI. Nota Técnica nº 679/2024: Análise das secas no Brasil, diagnóstico e projeções futuras. Novembro de 2024.
- Poder360. Witzel demite presidente da Cedae em meio à crise da água. Fevereiro de 2020.
- Agência Brasil / Radioagência Nacional. Brasil bate recorde de casos de dengue e número de mortes pela doença. Junho de 2024.
- MapBiomas. Levantamento de pastagens, Coleção 6 (1985-2020). Outubro de 2021.