Caderno Filosofia · Tecnologia & Existência
Por Ewerton Lopes — Curador Editorial · Atualizado em 7 de agosto de 2026 · Leitura de 9 min
DUAS FIGURAS, UMA PERGUNTA: QUEM ESTÁ DO OUTRO LADO?
Ilustração: O Tecido · A imagem representa o encontro simbólico entre interlocutor humano e interface algorítmica, tema central deste artigo.

Em julho, um outdoor no bairro do Mission, em São Francisco, anunciou "a principal interface de chat com tecnologia de IA". A sigla, porém, não significava o que qualquer transeunte apressado imaginaria. Por trás do serviço batizado ChatTJB não havia um modelo de linguagem, servidores ou treinamento de rede neural. Havia um homem de 32 anos, Tucker Bryant, sentado ao computador, respondendo pessoalmente, um a um, a milhares de prompts enviados por desconhecidos[1]. "IA", nesse caso, significava apenas "average individual": um indivíduo qualquer.

A peça, relatada pela revista Wired, é ao mesmo tempo piada, performance artística e diagnóstico. Bryant, ex-funcionário do Google e hoje artista e palestrante, não escondeu de ninguém a farsa: o próprio site declara, sem rodeios, que existe um ser humano do outro lado da tela. Ainda assim, em poucos dias, o projeto recebeu a marca de 30 mil consultas, com picos de 5 mil perguntas por hora[1]. O que start-ups de inteligência artificial buscam à custa de bilhões de dólares em capital, Bryant conseguiu com uma cadeira, um teclado e uma vontade genuína de responder.

Para o caderno de Filosofia de O Tecido, o interessante em ChatTJB não é a piada em si, mas o que ela revela sobre o momento civilizatório em que vivemos: uma época em que estamos, cada vez mais, dispostos a substituir a presença humana por uma simulação eficiente dela — e em que, quando confrontados com o oposto (um humano fingindo ser simulação), sentimos um alívio quase filosófico.

A rendição cognitiva como sintoma de época

Bryant descreve sua motivação central com um termo que já circula em pesquisas de cognição: "rendição cognitiva" (cognitive surrender), a tendência de aceitar respostas de sistemas automatizados com escrutínio crítico cada vez menor[1]. O próprio artista relata o episódio que o levou a criar o projeto: certa vez, perguntou a um chatbot se deveria usar manga curta ou comprida em um dia de 18°C em São Francisco, cidade em que já morava havia sete anos. "Eu sei lidar com o clima daqui. E, mesmo assim, parecia mais fácil recorrer a uma IA para isso", relatou ele à Wired[1].

A anedota é leve, mas aponta para um fenômeno que a literatura científica chama de cognitive offloading, ou descarga cognitiva: a delegação de tarefas mentais a ferramentas externas para reduzir a carga sobre a memória e o raciocínio. O conceito não é novo — vale para o lápis, a calculadora, o GPS — e nem sempre é negativo. Um estudo recente sobre o impacto da inteligência artificial no pensamento humano recupera a formulação clássica de Evan Risko e Sam Gilbert, para quem descarregar uma tarefa em uma ferramenta certamente alivia o esforço imediato, mas "também pode levar a uma redução do engajamento cognitivo e do desenvolvimento de habilidades" quando a prática se torna hábito[2].

"O que estou fazendo aqui?" — foi a pergunta que Tucker Bryant diz ter feito a si mesmo ao perceber que preferia consultar uma IA a confiar na própria experiência de sete anos morando em São Francisco. Tucker Bryant, criador do ChatTJB, em entrevista à revista Wired

Pesquisas recentes dão contorno mais preciso a essa preocupação. Um estudo com 353 universitários chineses usuários de IA generativa identificou quatro perfis distintos de uso, do "usuário de perguntas e respostas simples" (25,2% da amostra) ao "co-pensador crítico" (15,6%) — evidência de que a delegação cognitiva não é uniforme, mas depende de como cada pessoa se relaciona com a ferramenta[3]. Já uma investigação experimental publicada em 2026 encontrou algo mais contundente: em testes controlados e randomizados, a assistência de IA reduziu a persistência dos participantes diante de problemas difíceis e prejudicou o desempenho quando a ferramenta deixava de estar disponível[4]. Não se trata apenas de preguiça pontual: é a musculatura do raciocínio autônomo perdendo tônus por desuso.

O andaime cai: por que um humano "burro" ainda comove

Bryant é o primeiro a dizer que não é um bom artista e que suas respostas não têm nada de "conselho especializado". Ele mesmo já descreveu o ChatTJB, em tom de piada, como "o pior LLM de todos os tempos". E, ainda assim, encontrou nele algo raro: pessoas que começaram a interagir por brincadeira passaram a compartilhar conteúdos "mais pessoais, sinceros, genuínos", segundo suas palavras à Wired[1]. A explicação que ele mesmo oferece é simples e, por isso, poderosa: o valor não está em receber uma resposta tecnicamente superior, mas em ter "um ser humano para conversar", em vez de conselho de especialista[1].

Essa distinção ecoa, com seis décadas de atraso confortável, a filosofia dialógica de Martin Buber. Em Eu e Tu (1923), Buber separa dois modos fundamentais de relação: o "Eu-Isso", em que tratamos o outro como objeto útil, disponível, previsível; e o "Eu-Tu", encontro pleno em que o outro é reconhecido em sua alteridade irredutível, capaz de nos surpreender, de resistir, de responder a partir de uma experiência própria. Um chatbot bem treinado é, por definição, otimizado para o "Eu-Isso": quanto mais previsível e útil, melhor. Bryant, ao contrário, é imprevisível, falho, mortal — e é exatamente essa imperfeição, e não apesar dela, que parece restaurar algo do "Eu-Tu" que a eficiência algorítmica tende a apagar.

A socióloga que já havia previsto o paradoxo

Há mais de uma década, a pesquisadora do MIT Sherry Turkle documentou o fenômeno em sentido inverso ao de Bryant. Em Alone Together (2011), Turkle argumenta que a tecnologia nos seduz com uma "ilusão de companhia sem as exigências da amizade" — permitindo controlar o quanto de nós mesmos revelamos, evitando a imprevisibilidade e o desconforto do contato humano real[5]. A autora relata, em uma palestra célebre, o caso de uma mulher enlutada que encontrou conforto conversando com um robô em forma de foca projetado para simular empatia. "Aquela mulher tentava dar sentido à própria vida com uma máquina que não tinha experiência alguma do arco de uma vida humana", resume Turkle, alertando que "as pessoas experimentam empatia fingida como se fosse real"[6].

O ChatTJB inverte essa engenharia da ilusão. Em vez de uma máquina fingindo ser gente, é um homem fingindo ser máquina — e o público, ao descobrir a verdade, não se sente traído, mas aliviado. Se a tese de Turkle é que aceitamos cada vez mais placebos de conexão, o sucesso de Bryant sugere que ainda reconhecemos, por baixo da fadiga digital, a diferença entre o placebo e o remédio. O problema não é gostar de eficiência; é confundir eficiência com companhia.

⚖️ Contraponto: nem toda descarga cognitiva é perda

Seria simplista tratar qualquer uso de IA como sintoma de declínio. A própria literatura citada neste texto reconhece que delegar tarefas mentais a ferramentas é, historicamente, uma estratégia adaptativa e racional: escrever para não esquecer, usar GPS para não se perder, consultar uma calculadora para não errar contas simples libera atenção para o que realmente importa em cada momento[2].

No campo educacional, o estudo com universitários chineses mostra que o resultado depende do padrão de uso: entre os perfis identificados, o de "co-pensador crítico" consegue extrair ganhos de raciocínio justamente por usar a IA como interlocutor de verificação, e não como oráculo definitivo[3]. A questão filosófica, portanto, não é "usar ou não usar IA", mas em que momentos delegamos julgamento e em que momentos preservamos deliberadamente o desconforto produtivo de pensar, escolher e errar por conta própria.

O Brasil, campeão de conversas com máquinas

Esse debate não é abstrato para o leitor brasileiro. Levantamento da Bain & Company divulgado em fevereiro de 2026 apontou que 77% dos brasileiros já utilizavam alguma ferramenta de IA, ante 60% um ano antes[7]. Dados oficiais da pesquisa TIC Domicílios, do Cetic.br/NIC.br, indicam que cerca de 50 milhões de usuários de internet no país já recorreram a ferramentas de IA generativa[7] — e apenas o ChatGPT somou mais de 310 milhões de acessos no Brasil em um único mês de 2025, concentrando praticamente todo o tráfego nacional de IA generativa, segundo levantamento da Cadastra com a Similarweb[7].

Mais revelador ainda é um dado específico sobre o uso afetivo dessas ferramentas. Uma pesquisa conduzida com 936 estudantes brasileiros do Ensino Fundamental e Médio, em escolas parceiras da Arco em todas as regiões do país, mostrou que um em cada cinco adolescentes recorre regularmente à inteligência artificial quando se sente sozinho ou precisa conversar — transformando o software em uma espécie de companhia diante da falta de conexões interpessoais[8]. O mesmo levantamento associa esse padrão de uso a dificuldades de socialização mais amplas entre os jovens pesquisados[8].

É neste ponto que a provocação de Bryant deixa de ser curiosidade californiana e se torna espelho nacional. Se uma em cada cinco crianças e adolescentes brasileiros já trata a IA como confidente, a pergunta que ChatTJB formula por meio da própria existência — "por que você prefere conversar com uma simulação a arriscar-se com uma pessoa?" — deixa de ser retórica.

A arte como lembrete, não como veredito

Bryant faz questão de esclarecer que não é "anti-IA": ele próprio programou o site do ChatTJB com ajuda de ferramentas de geração de código, sem nenhum pudor[1]. Sua intenção declarada não é condenar a tecnologia, mas oferecer "uma oportunidade para as pessoas olharem de novo para a própria relação com a tecnologia, e para a relação do mundo com a tecnologia", em suas palavras à Wired[1]. É uma postura mais próxima da maiêutica socrática do que do ludismo: não destruir a máquina, mas perguntar, com humor, o que buscamos nela.

Essa moderação filosófica tem paralelo direto na trajetória de outros projetos que atravessam o mesmo território, ainda que por caminhos opostos. Este próprio jornal já registrou, em outras edições, como iniciativas de tecnologia em saúde recuaram deliberadamente do protagonismo da IA em decisões de alto risco após constatar, empiricamente, que modelos baseados em evidência superavam recomendações puramente algorítmicas. O padrão que emerge, tanto no consultório quanto no outdoor de São Francisco, é o mesmo: quanto mais a decisão importa para uma vida humana concreta, mais a presença, o julgamento e a responsabilidade de outro ser humano parecem insubstituíveis — não por sentimentalismo, mas por rigor.

Bryant planeja manter o ChatTJB no ar, agora com a ajuda de dez voluntários selecionados entre mais de três mil candidatos[1]. Ele criou até uma camada paga e deliberadamente inútil, o "ChatTJB Pro", cujo site avisa, sem meias palavras, tratar-se de "um nível sem valor nenhum"[1]. A ironia é o ponto: em uma economia da atenção que promete resolver tudo com automação, pagar por nada além da certeza de que existe alguém do outro lado é, também, uma forma de dizer o que consideramos, afinal, insubstituível.

O que fica

ChatTJB não resolve o problema que descreve; apenas o ilumina com um outdoor de seis mil dólares e uma piada bem contada. Mas há uma lição filosófica robusta sob a leveza do projeto: a tecnologia mais sofisticada do nosso tempo é capaz de simular quase tudo, menos a única coisa que, evidentemente, ainda procuramos com mais urgência — alguém que responda porque quer, não porque foi treinado para isso. Como resume o próprio Bryant, num tempo bombardeado por promessas de tecnologias que mudam o mundo e por manchetes assustadoras sobre uma bolha de IA prestes a estourar, talvez o melhor que se possa fazer, às vezes, seja apenas isso: tornar um momento estranho um pouco mais leve[1].

Nota de atribuição: este artigo foi inspirado na reportagem "The Hottest New AI Chatbot Is Just a Guy Answering Your Questions", publicada pela revista Wired em agosto de 2026. Trechos e fatos relatados por Tucker Bryant à publicação foram parafraseados e contextualizados por O Tecido a partir de pesquisa própria; nenhum conteúdo foi traduzido ou reproduzido integralmente. Reportagem original: wired.com/story/this-chatbot-is-just-a-random-guy-lol.

Referências

  1. "The Hottest New AI Chatbot Is Just a Guy Answering Your Questions". Wired, 6 ago. 2026. Disponível em: https://www.wired.com/story/this-chatbot-is-just-a-random-guy-lol/.
  2. "The Impact of Artificial Intelligence on Human Thought" — seção sobre descarga cognitiva e memória transativa. Disponível em: https://arxiv.org/pdf/2508.16628.
  3. "When Thinking Is Outsourced: Cognitive Offloading and the Heterogeneity of Critical Thinking Among Chinese University Students Using Generative Artificial Intelligence". Journal of Intelligence. Disponível em: https://doi.org/10.3390/jintelligence14070116.
  4. "AI Assistance Reduces Persistence and Hurts Independent Performance" — estudo experimental sobre efeitos da assistência de IA na persistência cognitiva. Disponível em: https://arxiv.org/pdf/2604.04721.
  5. TURKLE, Sherry. Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. Basic Books, 2011. Sinopse oficial disponível em: https://www.sherryturkle.com/alone-together.
  6. TURKLE, Sherry. Relato sobre robôs de companhia e empatia simulada. Disponível em: https://medium.com/@cyberkinesis/alone-together-sherry-turkle-3814af5b00d3.
  7. "O mercado brasileiro de AI Search em 2026". Blog Tropk, 1 jul. 2026. Disponível em: https://blog.tropk.ai/o-mercado-brasileiro-de-ai-search-em-2026/.
  8. "1 em cada 5 estudantes recorre à IA por solidão, diz pesquisa". CNN Brasil, jun. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/educacao/1-em-cada-5-estudantes-recorre-a-ia-por-solidao-diz-pesquisa/.