Caderno Filosofia

Há uma imagem que se repete em quase toda conversa recente sobre o céu noturno: alguém olha para cima à procura de estrelas e encontra, em vez delas, um trem de pontos luminosos deslizando em linha reta. Não é um cometa nem um fenômeno raro. É uma constelação de satélites carregando mensagens de WhatsApp, redes sociais, sinais de geolocalização e, cada vez com mais frequência, a sensação de estarmos permanentemente conectados a algo que não escolhemos inteiramente. O espanto diante disso costuma vir acompanhado de uma pergunta antiga, quase ingênua: a quem pertence o céu?

A pergunta parece ter uma resposta óbvia (a ninguém, ou a todos) até que se observa quem, na prática, está ocupando essa órbita. Antes de 2019 havia relativamente poucos satélites ativos ao redor da Terra. Hoje o número já passa de 14 mil, a maioria pertencente a uma única constelação comercial, a Starlink, da SpaceX [1]. Projeções levadas a sério por astrônomos falam em mais de 100 mil satélites até o fim da década, e algumas estimativas de longo prazo, somando todos os pedidos protocolados junto à União Internacional de Telecomunicações, chegam à casa do milhão [2][1]. Um estudo publicado na revista Astronomy & Astrophysics calcula que, se esse ritmo não for contido, o brilho artificial do céu noturno pode aumentar de forma perceptível a olho nu em boa parte do planeta [1].

A carta que talvez nunca tenha existido

É comum, diante desse cenário, recorrer a uma citação célebre: a chamada Carta do Chefe Seattle, líder suquamish que teria escrito ao presidente dos Estados Unidos em 1854 perguntando como alguém poderia comprar ou vender o céu, o calor da terra, o frescor do vento. É um texto poderoso, e por isso mesmo vale um parêntese de honestidade antes de usá-lo: a versão que circula amplamente, com essas frases exatas, não é um documento histórico verificável. Ela foi escrita mais de um século depois, em 1971 ou 1972, pelo roteirista Ted Perry, como parte de um filme ambiental chamado Home, e mistura fragmentos de um discurso registrado tardiamente pelo médico Henry Smith em 1887 com uma sensibilidade ecológica tipicamente dos anos 1970 [3].

Isso não invalida a força da pergunta que o texto formula, mas muda o estatuto dela. Não se trata de uma sabedoria ancestral perfeitamente preservada, e sim de uma reelaboração contemporânea, projetada sobre uma voz indígena para dar peso simbólico a uma inquietação bem moderna: a de que existem coisas (o ar, a água, a luz das estrelas) que resistem à lógica da posse porque não foram feitas por ninguém e não servem só a alguém. O interessante, filosoficamente, é que a pergunta continua valendo mesmo sabendo de sua origem ficcional. Talvez seja ainda mais reveladora por isso: precisamos inventar vozes ancestrais para dizer o que já deveríamos saber dizer sozinhos.

O que é de todos e de ninguém

O direito romano já distinguia coisas que podiam ser apropriadas (res nullius, aquilo que ainda não tem dono, mas pode vir a ter) de coisas que, por natureza, não podem pertencer a ninguém em particular porque pertencem a todos: o ar, o mar aberto, a luz do sol. Essa categoria, a res communis, é o antepassado conceitual de boa parte dos debates ambientais contemporâneos. No século XX, o ecólogo Garrett Hardin popularizou a expressão "tragédia dos comuns" para descrever o que acontece quando recursos compartilhados são explorados sem regras: cada agente individual tem incentivo para extrair o máximo antes que o recurso se esgote, e o resultado coletivo é a destruição daquilo que beneficiava a todos.

A economista Elinor Ostrom, décadas depois, mostrou que essa tragédia não é inevitável: comunidades reais, ao redor do mundo, conseguiram administrar recursos comuns (florestas, sistemas de irrigação, pescarias) por gerações, sem privatização e sem colapso, desde que existissem regras claras, monitoramento e legitimidade compartilhada. O ponto de Ostrom não é que o comum se cuida sozinho. É que ele precisa de governança, e a ausência de governança é, ela mesma, uma escolha política, não um destino natural.

A órbita baixa da Terra não tem dono declarado. Mas ter dono declarado nunca foi condição para ser ocupada.

É exatamente essa lacuna de governança que separa o céu de 1854 (ou de 1971, dependendo de qual versão da carta se prefira) do céu de 2026. O Tratado do Espaço Exterior, assinado pela ONU em 1967, declara que o espaço é "província de toda a humanidade" e proíbe qualquer nação de reivindicar soberania sobre ele. Mas o tratado foi escrito para impedir que Estados hasteassem bandeiras na Lua, não para prever que empresas privadas lançariam dezenas de milhares de satélites comerciais em poucos anos. A régua jurídica que temos foi desenhada para um problema diferente do que estamos vivendo.

O preço de algo que ninguém cobra

Volto à cena inicial. O que perturba não é apenas ver menos estrelas. É perceber que essa perda tem um beneficiário econômico direto e nenhum custo declarado para quem a causa. Astrônomos de todo o mundo já documentam o problema com rigor técnico: pesquisadores ligados à União Astronômica Internacional alertam que megaconstelações ameaçam tanto a astronomia óptica quanto a radioastronomia, a ponto de a própria ONU ter criado um subcomitê permanente, até 2029, só para tratar do tema "céus escuros e silenciosos" [4][5]. Levantamentos feitos com o telescópio Zwicky, na Califórnia, já registraram milhares de rastros luminosos deixados por satélites Starlink em imagens científicas, um número que tende a crescer conforme a constelação se expande [6].

No Brasil, o fenômeno já deixou de ser assunto de especialista para virar cena de rua: moradores de cidades como Campo Grande relatam, cada vez com mais frequência, rastros luminosos cruzando o céu à noite, muitas vezes confundidos com fenômenos raros antes de serem identificados como trens de satélites [7]. O Observatório Pico dos Dias, em Minas Gerais, principal instalação óptica de pesquisa do país, opera no mesmo céu que está sendo progressivamente ocupado por esses objetos [8].

Contraponto

Nem todo mundo enxerga isso como saque. Para defensores das megaconstelações, o argumento é de justiça distributiva: hoje existem regiões inteiras, sobretudo rurais e remotas, sem qualquer acesso à internet de banda larga terrestre, e satélites de órbita baixa podem levar conectividade a essas populações a um custo e uma velocidade de implantação que a infraestrutura tradicional não conseguiria igualar. Nessa leitura, o céu não está sendo roubado, está sendo usado para reduzir uma desigualdade concreta, e o incômodo estético ou científico seria um preço aceitável diante do ganho social. A pergunta que fica é quem decide, e em nome de quem, que esse é um preço justo, e se essa decisão deveria mesmo caber apenas a quem lança os satélites.

Uma pergunta, não uma conclusão

Não é o propósito deste texto fechar essa questão com um veredito. A tradição filosófica que pensa os bens comuns não costuma oferecer soluções definitivas, oferece antes um vocabulário mais preciso para a inquietação. E talvez o mérito da imagem que abriu este texto (satélites carregando nossas conversas por um céu que deixamos de ver) esteja justamente em obrigar a formular a pergunta de outro jeito. Não "quem é dono do céu", porque a resposta simples (ninguém, portanto todos) já não descreve o que está acontecendo. A pergunta mais honesta talvez seja: quando algo não tem dono declarado, quem decide, na prática, quem pode ocupá-lo primeiro? E o que perdemos, coletivamente, quando essa decisão fica a cargo de quem chega mais rápido, e não de quem discute mais devagar?

A carta atribuída ao chefe Seattle, autêntica ou não, formulou uma pergunta que continuamos incapazes de responder por completo: se ninguém pode possuir o frescor do vento nem o brilho da água, como é possível que se proponham comprá-los? Trocar "vento" e "água" por "órbita baixa" e "escuridão noturna" não resolve a pergunta. Apenas atualiza o endereço onde ela precisa ser feita.

Reflexão elaborada a partir de uma provocação original da leitora e colaboradora Evelyn, sobre a perda do céu noturno para megaconstelações de satélites, com apuração factual e contextualização histórica adicionais pela equipe editorial de O Tecido.
Ewerton Lopes — Curador Editorial

Perguntas que o tema deixa em aberto

A Carta do Chefe Seattle é um documento histórico real?

Não da forma como costuma circular. A versão popular, com as frases sobre comprar o céu e o vento, foi escrita na virada de 1971 para 1972 pelo roteirista Ted Perry, a partir de uma reconstrução tardia e livremente adaptada de um discurso registrado apenas em 1887. Isso não anula o valor simbólico do texto, mas muda seu estatuto: é uma peça de ficção com intenção ecológica, não um testemunho histórico verificado.

Quantos satélites existem hoje em órbita e quantos são esperados?

Desde 2019 o número de satélites ativos passou de menos de 2 mil para mais de 14 mil, a maioria da constelação Starlink. Estimativas científicas apontam para mais de 100 mil satélites até o fim da década, considerando todas as constelações planejadas por diferentes empresas.

O espaço orbital pertence a alguém, juridicamente?

Formalmente, não. O Tratado do Espaço Exterior de 1967 proíbe qualquer país de reivindicar soberania sobre o espaço. Mas o tratado não trata da ocupação comercial em massa por empresas privadas, o que deixa uma zona cinzenta entre o que é proibido para Estados e o que, na prática, empresas já fazem.

Existe algum consenso sobre o que fazer com a poluição luminosa orbital?

Ainda não há consenso, mas há movimento institucional: a União Astronômica Internacional criou um centro dedicado ao tema, e a ONU passou a discutir "céus escuros e silenciosos" anualmente em seu comitê para uso pacífico do espaço, com participação de dezenas de países. Recomendações técnicas já existem, como limitar o brilho dos satélites, mas sua adoção pelas empresas ainda é voluntária.

Em números

  • 14 mil+satélites ativos em órbita desde 2019, maioria Starlink
  • 100 milsatélites projetados até o fim da década, segundo estudos científicos
  • 1967ano do Tratado do Espaço Exterior da ONU

Linha do tempo

  • 1854Discurso original atribuído ao chefe Seattle, sem registro escrito contemporâneo.
  • 1887Primeiro registro escrito do discurso, feito tardiamente pelo médico Henry Smith.
  • 1971/72Ted Perry escreve a versão popular da "carta", para o filme Home.
  • 1967ONU assina o Tratado do Espaço Exterior.
  • 2019Início dos lançamentos em massa da constelação Starlink.
  • 2020–2029ONU e União Astronômica Internacional formalizam agenda permanente sobre céus escuros e silenciosos.

Glossário

Res communis
Categoria do direito romano para bens que, por natureza, não podem ser apropriados por um indivíduo: o ar, o mar aberto, a luz.
Órbita baixa (LEO)
Faixa do espaço até cerca de 2 mil km de altitude, onde operam a maioria dos satélites de internet e observação.
Megaconstelação
Conjunto de milhares de satélites operados por uma mesma empresa para prover cobertura global de um serviço, como internet.
Tragédia dos comuns
Conceito de Garrett Hardin para o esgotamento de recursos compartilhados quando não há regras de uso coletivo.

Referências

  1. CNN Brasil. Céu noturno pode ficar 4 vezes mais brilhante com satélites. cnnbrasil.com.br
  2. ScienceDirect. Evaluating the benefits of dark and quiet skies in an age of satellite mega-constellations. sciencedirect.com
  3. Diário Liberdade. A (falsa) Carta do Chefe Índio Seattle. diarioliberdade.org
  4. International Astronomical Union. UN Meeting Features Satellite Impact on Astronomy. iauarchive.eso.org
  5. Phys.org. Satellite megaconstellations threaten radio astronomy observations, expert warns. phys.org
  6. Canaltech. Satélites Starlink já aparecem em quase 20% das observações astronômicas. canaltech.com.br
  7. Campo Grande News. Rastro de fogo no céu de Campo Grande: satélites Starlink causam fenômeno. campograndenews.com.br
  8. Wikipedia. Pico dos Dias Observatory. en.wikipedia.org