2 de setembro de 2026
O TECIDOCaderno Ciência · Astronomia & Espaço
3 de Julho de 2026
Astronomia & Espaço

O céu que estamos perdendo: estudo europeu propõe limite de 100 mil satélites em órbita

Levantamento inédito do Observatório Europeu do Sul calcula, pela primeira vez, o ponto a partir do qual megaconstelações tornarão a astronomia terrestre inviável — e o Brasil, com telescópios próprios e mais de 7 mil satélites já autorizados a sobrevoar seu território, está diretamente no meio dessa equação.

Editorial do Caderno Ciência
Jornal O Tecido
⏱ Leitura de 7 minPublicado em: 03 Jul, 2026

Em uma noite de outubro de 2025, no deserto do Atacama, uma câmera apontada para o céu acima do Very Large Telescope, do Observatório Europeu do Sul (ESO), registrou algo que teria sido impensável há uma geração: dezenas de rastros luminosos cruzando o campo de visão em apenas uma hora de exposição. Não eram estrelas cadentes nem aviões — eram satélites. A cena, hoje símbolo de um problema que a astronomia vem denunciando havia anos, ganhou nesta semana um número concreto que muda o tom do debate.

Um estudo do astrônomo Olivier Hainaut, publicado pelo ESO em parceria com a Royal Astronomical Society do Reino Unido e a União Astronômica Internacional, é o primeiro a calcular, com base em simulações de posição, movimento e brilho de constelações reais e planejadas, qual é o limite de satélites que a órbita terrestre pode suportar sem que a observação do céu a partir do solo se torne inviável. A resposta: não mais que 100 mil satélites, e apenas se forem tênues o bastante para ficarem abaixo do limite de visibilidade a olho nu a partir de um local escuro. Hoje a Terra já tem mais de 14 mil satélites ativos em órbita — mas as propostas somadas de empresas como SpaceX e a startup Reflect Orbital chegam a 1,7 milhão de satélites nas próximas décadas.

"Isso não é um número exato, como se 99.999 fosse bom e 100.001 fosse ruim: claramente eu preferiria 50 mil."Olivier Hainaut, astrônomo do ESO e autor do estudo

O trabalho, que embasa formalmente a resposta do ESO a pedidos de licenciamento em análise na agência reguladora de telecomunicações dos Estados Unidos (FCC), simulou o efeito de frotas específicas. Desde 2019, o número de satélites em órbita cresceu rapidamente, ultrapassando 14 mil atualmente, impulsionado sobretudo pela constelação Starlink, da SpaceX. O caso mais extremo analisado, porém, não é de comunicação, mas de iluminação: a empresa americana Reflect Orbital planeja lançar cerca de 50 mil satélites-espelho, capazes de refletir luz solar para a superfície sob demanda. Com a frota completa em operação, o céu noturno ficaria de três a quatro vezes mais brilhante em todo o planeta — mesmo em regiões distantes do feixe de luz direcionado.

Estrelas artificiais sobre as cidades

O impacto não fica restrito a observatórios profissionais isolados em desertos. Um satélite ligeiramente mais brilhante que o previsto pode comprometer boa parte das imagens de uma noite inteira em instrumentos sensíveis como o Observatório Vera C. Rubin, no Chile, que começou a operar recentemente e é considerado a mais ambiciosa câmera astronômica já construída. Em cidades já afetadas por poluição luminosa terrestre — o estudo cita Munique como exemplo —, centenas desses satélites passariam a ser, literalmente, os únicos pontos de luz visíveis no céu noturno.

A questão extrapola a astronomia. Segundo o levantamento francófono da La Presse sobre o estudo, pesquisadores associam o aumento da poluição luminosa orbital a riscos à saúde humana, por meio da alteração do ciclo circadiano, o relógio biológico que regula sono e produção hormonal — um mecanismo já associado por outros estudos ao aumento do risco de cânceres hormônio-dependentes. Diretores de instituições como o Planetário de Montreal e o Instituto Trottier de Pesquisa em Exoplanetas, no Canadá, chegam a descrever o cenário como uma "catástrofe" em curso havia anos, hoje mensurável pela primeira vez.

O Brasil também está sob esse céu

O debate não é distante da realidade brasileira. Em abril de 2025, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) aprovou por unanimidade a ampliação do direito de exploração da Starlink no país, autorizando a operação de até 7.500 satélites — quase o dobro dos 4.408 previstos na autorização original de 2022. A própria decisão da agência veio acompanhada de um alerta regulatório incomum: o colegiado reconheceu que a regulamentação vigente tem "limitações" para responder a questões complexas relacionadas à sustentabilidade espacial e à soberania digital geradas por megaconstelações.

Meses depois, em fevereiro de 2026, a Anatel autorizou também a chinesa SpaceSail — concorrente direta da Starlink, vinculada a um memorando de entendimento assinado durante visita do presidente Lula a Pequim — a operar inicialmente até 324 satélites de órbita baixa no território nacional, com licença válida até 2031. A empresa projeta ampliar essa frota para até 15 mil satélites globalmente até o fim da década. Some-se a isso a AST SpaceMobile, já autorizada a testar conectividade direta a celulares comuns, e o resultado é um céu brasileiro cada vez mais compartilhado entre astros e hardware de telecomunicações.

Esse cenário afeta diretamente a astronomia nacional. O Observatório do Pico dos Dias, em Itajubá (MG), operado pelo Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA) desde 1980, é o maior observatório em solo brasileiro e opera de forma ininterrupta havia mais de quatro décadas. O país também é sócio minoritário de dois consórcios internacionais estratégicos: o telescópio SOAR, no Chile, com participação brasileira de cerca de 34%, e o Gemini, com fatia próxima de 6% — ambos poderiam ser afetados por rastros de satélites nas mesmas latitudes sul que concentram parte das megaconstelações planejadas.

Pesquisas da USP e da Unicamp já vinham alertando, antes mesmo do novo estudo do ESO, que a poluição luminosa — somada agora ao componente orbital — reduz a capacidade de observação mesmo em observatórios distantes de grandes centros urbanos, com efeitos que vão além da ciência. Como resume a astrônoma Beatriz Dell'Aglio em entrevista à Rádio USP, ter acesso ao céu escuro não é uma exigência exclusiva da pesquisa acadêmica, mas também uma questão cultural e educacional ligada à capacidade humana de acompanhar ciclos naturais.

Reentrada, descarte e um problema sem fronteira

Parte da solução proposta pelos pesquisadores passa por regras já existentes, mas pouco fiscalizadas: desde 2007, o Comitê das Nações Unidas para Usos Pacíficos do Espaço Cósmico recomenda que satélites em órbita baixa sejam desorbitados em até 25 anos após deixarem de operar, evitando o acúmulo de lixo espacial inativo. Segundo reportagem do jornal canadense La Presse, que citou uma base de dados independente mantida por um astrofísico da Universidade Harvard, a SpaceX vinha cumprindo essa recomendação de forma consistente até meados de 2026. Mas a própria comunidade científica reconhece que a solução tem um custo ambiental ainda pouco compreendido: a reentrada em massa de metal na atmosfera, prevista para centenas de milhares de satélites nas próximas décadas, é um fenômeno sem precedente cujos efeitos sobre a camada de ozônio ainda não foram totalmente mapeados.

Reflect Orbital, por sua vez, respondeu publicamente às críticas do ESO. A empresa afirmou estar comissionando pesquisa independente sobre o impacto de sua tecnologia e se disse comprometida com o diálogo contínuo com astrônomos, destacando que a posição padrão de seus satélites será "desligada" e que a companhia evitará sistematicamente redirecionar luz próximo a observatórios. SpaceX e Reflect Orbital aguardam agora decisão da FCC sobre os pedidos de licenciamento que motivaram o estudo do ESO.

Para os autores do levantamento, a urgência do tema está justamente no fato de que as decisões regulatórias sobre essas constelações — nos Estados Unidos, no Brasil e em dezenas de outros países — estão sendo tomadas agora, antes que o céu noturno se torne, de fato, irrecuperável para a ciência que depende dele.

Nota editorial: Esta reportagem foi inspirada por artigo original publicado pelo jornal canadense La Presse, "Bientôt trop de satellites pour voir les étoiles", disponível em lapresse.ca. O conteúdo acima foi produzido a partir de apuração e fontes independentes, sem tradução ou reprodução do texto original.

Referências

  1. European Southern Observatory. "Beyond the limit": one million satellites and mirrors in space pose grave threat to the night sky. eso.org/public/news/eso2607
  2. Carter, Jamie. 1.7 Million Satellites Will Have 'Devastating Consequences,' Study Says. Forbes, jul. 2026. forbes.com
  3. Planned 1.7 million satellites 'devastating' for astronomy, study says. Euronews, jul. 2026. euronews.com
  4. SpaceX's Million Satellite Plan Could Wreck Ground-Based Astronomy. HotHardware, jul. 2026. hothardware.com
  5. Perreault, Mathieu. Bientôt trop de satellites pour voir les étoiles. La Presse, jul. 2026. lapresse.ca
  6. Anatel. Anatel aprova alteração do direito de exploração do sistema Starlink e emite alerta regulatório, abr. 2025. gov.br/anatel
  7. ConvergênciaDigital. Anatel libera operação da SpaceSail, concorrente da Starlink no Brasil. infomoney.com.br
  8. Jornal da USP. A poluição luminosa das grandes cidades afeta, e muito, a observação astronômica. jornal.usp.br
  9. Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA). Observatório do Pico dos Dias. gov.br/lna
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