O céu que estamos perdendo: estudo europeu propõe limite de 100 mil satélites em órbita
Levantamento inédito do Observatório Europeu do Sul calcula, pela primeira vez, o ponto a partir do qual megaconstelações tornarão a astronomia terrestre inviável — e o Brasil, com telescópios próprios e mais de 7 mil satélites já autorizados a sobrevoar seu território, está diretamente no meio dessa equação.
Em uma noite de outubro de 2025, no deserto do Atacama, uma câmera apontada para o céu acima do Very Large Telescope, do Observatório Europeu do Sul (ESO), registrou algo que teria sido impensável há uma geração: dezenas de rastros luminosos cruzando o campo de visão em apenas uma hora de exposição. Não eram estrelas cadentes nem aviões — eram satélites. A cena, hoje símbolo de um problema que a astronomia vem denunciando havia anos, ganhou nesta semana um número concreto que muda o tom do debate.
Um estudo do astrônomo Olivier Hainaut, publicado pelo ESO em parceria com a Royal Astronomical Society do Reino Unido e a União Astronômica Internacional, é o primeiro a calcular, com base em simulações de posição, movimento e brilho de constelações reais e planejadas, qual é o limite de satélites que a órbita terrestre pode suportar sem que a observação do céu a partir do solo se torne inviável. A resposta: não mais que 100 mil satélites, e apenas se forem tênues o bastante para ficarem abaixo do limite de visibilidade a olho nu a partir de um local escuro. Hoje a Terra já tem mais de 14 mil satélites ativos em órbita — mas as propostas somadas de empresas como SpaceX e a startup Reflect Orbital chegam a 1,7 milhão de satélites nas próximas décadas.
"Isso não é um número exato, como se 99.999 fosse bom e 100.001 fosse ruim: claramente eu preferiria 50 mil."Olivier Hainaut, astrônomo do ESO e autor do estudo
O trabalho, que embasa formalmente a resposta do ESO a pedidos de licenciamento em análise na agência reguladora de telecomunicações dos Estados Unidos (FCC), simulou o efeito de frotas específicas. Desde 2019, o número de satélites em órbita cresceu rapidamente, ultrapassando 14 mil atualmente, impulsionado sobretudo pela constelação Starlink, da SpaceX. O caso mais extremo analisado, porém, não é de comunicação, mas de iluminação: a empresa americana Reflect Orbital planeja lançar cerca de 50 mil satélites-espelho, capazes de refletir luz solar para a superfície sob demanda. Com a frota completa em operação, o céu noturno ficaria de três a quatro vezes mais brilhante em todo o planeta — mesmo em regiões distantes do feixe de luz direcionado.
Estrelas artificiais sobre as cidades
O impacto não fica restrito a observatórios profissionais isolados em desertos. Um satélite ligeiramente mais brilhante que o previsto pode comprometer boa parte das imagens de uma noite inteira em instrumentos sensíveis como o Observatório Vera C. Rubin, no Chile, que começou a operar recentemente e é considerado a mais ambiciosa câmera astronômica já construída. Em cidades já afetadas por poluição luminosa terrestre — o estudo cita Munique como exemplo —, centenas desses satélites passariam a ser, literalmente, os únicos pontos de luz visíveis no céu noturno.
A questão extrapola a astronomia. Segundo o levantamento francófono da La Presse sobre o estudo, pesquisadores associam o aumento da poluição luminosa orbital a riscos à saúde humana, por meio da alteração do ciclo circadiano, o relógio biológico que regula sono e produção hormonal — um mecanismo já associado por outros estudos ao aumento do risco de cânceres hormônio-dependentes. Diretores de instituições como o Planetário de Montreal e o Instituto Trottier de Pesquisa em Exoplanetas, no Canadá, chegam a descrever o cenário como uma "catástrofe" em curso havia anos, hoje mensurável pela primeira vez.
O Brasil também está sob esse céu
O debate não é distante da realidade brasileira. Em abril de 2025, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) aprovou por unanimidade a ampliação do direito de exploração da Starlink no país, autorizando a operação de até 7.500 satélites — quase o dobro dos 4.408 previstos na autorização original de 2022. A própria decisão da agência veio acompanhada de um alerta regulatório incomum: o colegiado reconheceu que a regulamentação vigente tem "limitações" para responder a questões complexas relacionadas à sustentabilidade espacial e à soberania digital geradas por megaconstelações.
Meses depois, em fevereiro de 2026, a Anatel autorizou também a chinesa SpaceSail — concorrente direta da Starlink, vinculada a um memorando de entendimento assinado durante visita do presidente Lula a Pequim — a operar inicialmente até 324 satélites de órbita baixa no território nacional, com licença válida até 2031. A empresa projeta ampliar essa frota para até 15 mil satélites globalmente até o fim da década. Some-se a isso a AST SpaceMobile, já autorizada a testar conectividade direta a celulares comuns, e o resultado é um céu brasileiro cada vez mais compartilhado entre astros e hardware de telecomunicações.
Esse cenário afeta diretamente a astronomia nacional. O Observatório do Pico dos Dias, em Itajubá (MG), operado pelo Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA) desde 1980, é o maior observatório em solo brasileiro e opera de forma ininterrupta havia mais de quatro décadas. O país também é sócio minoritário de dois consórcios internacionais estratégicos: o telescópio SOAR, no Chile, com participação brasileira de cerca de 34%, e o Gemini, com fatia próxima de 6% — ambos poderiam ser afetados por rastros de satélites nas mesmas latitudes sul que concentram parte das megaconstelações planejadas.
Pesquisas da USP e da Unicamp já vinham alertando, antes mesmo do novo estudo do ESO, que a poluição luminosa — somada agora ao componente orbital — reduz a capacidade de observação mesmo em observatórios distantes de grandes centros urbanos, com efeitos que vão além da ciência. Como resume a astrônoma Beatriz Dell'Aglio em entrevista à Rádio USP, ter acesso ao céu escuro não é uma exigência exclusiva da pesquisa acadêmica, mas também uma questão cultural e educacional ligada à capacidade humana de acompanhar ciclos naturais.
Reentrada, descarte e um problema sem fronteira
Parte da solução proposta pelos pesquisadores passa por regras já existentes, mas pouco fiscalizadas: desde 2007, o Comitê das Nações Unidas para Usos Pacíficos do Espaço Cósmico recomenda que satélites em órbita baixa sejam desorbitados em até 25 anos após deixarem de operar, evitando o acúmulo de lixo espacial inativo. Segundo reportagem do jornal canadense La Presse, que citou uma base de dados independente mantida por um astrofísico da Universidade Harvard, a SpaceX vinha cumprindo essa recomendação de forma consistente até meados de 2026. Mas a própria comunidade científica reconhece que a solução tem um custo ambiental ainda pouco compreendido: a reentrada em massa de metal na atmosfera, prevista para centenas de milhares de satélites nas próximas décadas, é um fenômeno sem precedente cujos efeitos sobre a camada de ozônio ainda não foram totalmente mapeados.
Reflect Orbital, por sua vez, respondeu publicamente às críticas do ESO. A empresa afirmou estar comissionando pesquisa independente sobre o impacto de sua tecnologia e se disse comprometida com o diálogo contínuo com astrônomos, destacando que a posição padrão de seus satélites será "desligada" e que a companhia evitará sistematicamente redirecionar luz próximo a observatórios. SpaceX e Reflect Orbital aguardam agora decisão da FCC sobre os pedidos de licenciamento que motivaram o estudo do ESO.
Para os autores do levantamento, a urgência do tema está justamente no fato de que as decisões regulatórias sobre essas constelações — nos Estados Unidos, no Brasil e em dezenas de outros países — estão sendo tomadas agora, antes que o céu noturno se torne, de fato, irrecuperável para a ciência que depende dele.
Referências
- European Southern Observatory. "Beyond the limit": one million satellites and mirrors in space pose grave threat to the night sky. eso.org/public/news/eso2607
- Carter, Jamie. 1.7 Million Satellites Will Have 'Devastating Consequences,' Study Says. Forbes, jul. 2026. forbes.com
- Planned 1.7 million satellites 'devastating' for astronomy, study says. Euronews, jul. 2026. euronews.com
- SpaceX's Million Satellite Plan Could Wreck Ground-Based Astronomy. HotHardware, jul. 2026. hothardware.com
- Perreault, Mathieu. Bientôt trop de satellites pour voir les étoiles. La Presse, jul. 2026. lapresse.ca
- Anatel. Anatel aprova alteração do direito de exploração do sistema Starlink e emite alerta regulatório, abr. 2025. gov.br/anatel
- ConvergênciaDigital. Anatel libera operação da SpaceSail, concorrente da Starlink no Brasil. infomoney.com.br
- Jornal da USP. A poluição luminosa das grandes cidades afeta, e muito, a observação astronômica. jornal.usp.br
- Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA). Observatório do Pico dos Dias. gov.br/lna