Saúde · Neurociência
Todo tecido vivo produz resíduos. No cérebro, órgão que pesa cerca de 2% do corpo e consome perto de um quinto da sua energia, a pergunta sobre para onde vai esse lixo metabólico demorou a ganhar resposta. Ela começou a aparecer em 2012, quando a neurocientista dinamarquesa Maiken Nedergaard e colegas da Universidade de Rochester descreveram uma rede de canais ao redor dos vasos sanguíneos por onde o líquido cefalorraquidiano circula, banha o tecido nervoso e carrega dejetos para fora.[2] O mecanismo foi batizado de sistema glinfático e virou, desde então, um dos temas mais disputados da neurociência.
Em coluna publicada nesta terça-feira (6) no The Washington Post, o jornalista Richard Sima, doutor em neurociência, reúne o que se sabe sobre três hábitos que parecem favorecer essa limpeza: dormir bem, exercitar-se com regularidade e praticar respiração lenta.[1] A premissa é razoável. Um cérebro que elimina melhor seus resíduos tende a ser um cérebro mais saudável. Só que a ciência por trás dela é mais jovem, mais apoiada em camundongos e mais contestada do que uma lista de recomendações costuma deixar transparecer. As duas coisas merecem atenção.
Como funciona a rede de esgoto do cérebro
No resto do corpo, quem recolhe o excesso de fluido e os resíduos dos tecidos é o sistema linfático, impulsionado em boa parte pela contração dos músculos. O cérebro opera de outro modo. Conforme a descrição apresentada pelo Post, os espaços que envolvem as artérias cerebrais funcionam como tubulações: a cada batimento cardíaco, os vasos se expandem e se contraem, e esse movimento empurra o líquor por esses espaços. O fluido então se mistura ao líquido intersticial, que fica entre as células nervosas, e escoa carregando o lixo celular.[1]
Entre os resíduos estão proteínas como a beta-amiloide e a tau, associadas à doença de Alzheimer. Ao jornal americano, Nedergaard afirmou que a eficiência do sistema cai de forma acentuada com a idade e que pode ser prejudicada por inflamação crônica de baixo grau e por problemas cardiovasculares. A coluna também cita experimentos em camundongos nos quais a interrupção do fluxo glinfático acelerou o acúmulo de resíduos e agravou modelos de Alzheimer e Parkinson, num ciclo em que o lixo acumulado gera inflamação, que por sua vez piora a drenagem.[1]
Sono: a hora da faxina e o problema dos remédios
O argumento mais forte a favor do sono vem de um trabalho de 2013 publicado na Science pela mesma equipe de Nedergaard. Em camundongos, o espaço entre as células cerebrais se ampliou de forma expressiva durante o sono, e a remoção de beta-amiloide ficou mais rápida do que na vigília.[3] Segundo o Post, a limpeza é mais intensa no sono não REM, quando os vasos cerebrais pulsam em ciclos de 10 a 50 segundos e aumentam seu volume em cerca de 10%, o que bombeia fluido pelo sistema. Lauren Hablitz, do Centro Médico da Universidade de Rochester, ofereceu ao jornal uma imagem doméstica: o sono não REM encheria o reservatório, e o REM daria a descarga.[1]
Em janeiro de 2025, um estudo publicado na Cell identificou o que move esse bombeamento: oscilações lentas de noradrenalina, liberada por uma pequena região do tronco cerebral, que fazem os vasos se contraírem e relaxarem de modo ritmado. No mesmo trabalho, os pesquisadores testaram o zolpidem, hipnótico amplamente prescrito para insônia, e observaram que ele suprimiu essas oscilações e reduziu a penetração do líquor no tecido cerebral dos animais.[4] Ao Post, Nedergaard foi direta ao desaconselhar remédios para dormir por esse motivo, mas também ponderou que uma noite ruim isolada não deve ser motivo de preocupação, já que a relação entre sono e neurodegeneração se constrói ao longo de anos.[1]
O dado ganha outro peso no Brasil. A edição 2025 do Vigitel, inquérito telefônico do Ministério da Saúde, mediu o sono da população pela primeira vez: 20,2% dos adultos nas capitais dormem menos de seis horas por noite e 31,7% relatam ao menos um sintoma de insônia, com prevalência maior entre mulheres (36,2%) do que entre homens (26,2%).[10] Ao mesmo tempo, o consumo de zolpidem cresceu a ponto de levar a Anvisa a endurecer as regras: desde 1º de agosto de 2024, qualquer medicamento à base da substância exige Notificação de Receita B, a receita azul, medida motivada por relatos de uso irregular e abusivo.[11] Segundo dados da agência citados pelo portal Futuro da Saúde, as vendas passaram de 13,8 milhões de caixas em 2018 para perto de 18 milhões em 2023.[12]
É preciso cautela na leitura. O efeito do zolpidem sobre o fluxo glinfático foi demonstrado em camundongos, não em pessoas. O remédio tem indicação clínica para tratamento de curta duração, e quem o utiliza não deve interromper o uso por conta própria. O que o estudo reforça é algo que a medicina do sono já defendia por outros motivos: o hipnótico trata o sintoma, e o sono induzido farmacologicamente não reproduz por completo a arquitetura do sono natural.
Exercício: o efeito aparece no longo prazo
Durante a atividade física em si, o fluxo glinfático diminui. O benefício, de acordo com a coluna do Post, está na regularidade.[1] A evidência mais citada é um estudo da Universidade Nacional de Seul publicado em abril de 2025 na Nature Communications. Com 37 adultos saudáveis, os pesquisadores compararam uma sessão única de exercício com um programa de 12 semanas em bicicleta ergométrica. Só o grupo de longo prazo apresentou aumento nos marcadores de entrada de líquor em uma região profunda do cérebro, o putâmen, e no fluxo dos vasos linfáticos das meninges, além de queda em proteínas sanguíneas ligadas à inflamação.[6]
James Broatch, pesquisador da Universidade Victoria, na Austrália, e autor de uma revisão sobre o tema na Trends in Neurosciences, disse ao Post que a melhora da saúde cardiovascular é provavelmente o principal caminho desse efeito: como o sistema depende do pulsar dos vasos, um coração e artérias em boas condições favorecem a drenagem. Some-se a isso a redução da inflamação e a melhora do sono que o exercício costuma trazer.[1]
O tema já mobiliza pesquisadores brasileiros. Em 2024, uma equipe publicou na revista Geriatrics, Gerontology and Aging o protocolo de um ensaio clínico randomizado que testa um programa de 12 semanas de exercícios aeróbicos e de força, de intensidade moderada, em pacientes com comprometimento cognitivo leve ou Alzheimer leve, combinando neuroimagem, biomarcadores no líquor e testes cognitivos.[8] No plano populacional, o Vigitel mostra um quadro misto: a parcela de adultos das capitais que pratica ao menos 150 minutos semanais de atividade moderada no tempo livre subiu de 30,3% em 2009 para 42,3% em 2024, enquanto a atividade física no deslocamento caiu de 17% para 11,3% no mesmo período.[10]
Respiração: evidência promissora, porém preliminar
A terceira recomendação é a que repousa sobre a base mais estreita. Um estudo de 2022 publicado na Scientific Reports examinou 18 adultos saudáveis em ressonância magnética enquanto praticavam diferentes padrões de respiração de origem iogue. Todos alteraram a movimentação do líquor em comparação com a respiração espontânea, e a respiração abdominal profunda produziu o maior efeito: o componente do fluxo ligado à respiração chegou a ser 118% mais rápido.[7]
Ao Post, Hablitz explicou que essas técnicas mudam a forma como o diafragma trabalha e podem puxar fluido do cérebro, e Nedergaard acrescentou que práticas como meditação e ioga ajudam a deslocar o sistema nervoso autônomo do estado de alerta para o de repouso, o que provavelmente favorece o fluxo.[1] A distinção importante é que medir maior movimentação de líquor não é o mesmo que demonstrar maior remoção de resíduos, nem benefício clínico ao longo do tempo. O estudo de 2022 avaliou efeitos imediatos, durante a própria sessão.
Contraponto
E se o cérebro limpar mais durante a vigília?
Em maio de 2024, um grupo do Imperial College London e do Instituto de Pesquisa em Demência do Reino Unido publicou na Nature Neuroscience um resultado que contraria a década anterior. Injetando um corante fluorescente diretamente no tecido cerebral de camundongos, os pesquisadores observaram que a depuração caiu cerca de 30% durante o sono e cerca de 50% sob anestesia, em comparação com animais acordados.[5] A interpretação dos autores é que a limpeza do cérebro funciona com alta eficiência na vigília.
O estudo foi questionado por outros grupos quanto ao método, e o debate segue aberto. Ele expõe duas fragilidades do campo: a maior parte das evidências mecanísticas vem de camundongos, e as medições em humanos ainda são indiretas, baseadas em contraste e modelos de imagem que os próprios autores descrevem como marcadores "putativos". Há ainda a questão da causalidade: sono ruim é comum em pessoas com demência, mas não está estabelecido se ele contribui para a doença ou se é um de seus primeiros sinais.
Nada disso invalida as recomendações. Sono regular, exercício e controle da pressão arterial têm benefícios documentados por outras vias. O que está em disputa é a explicação, e conselhos de saúde construídos sobre um mecanismo ainda em revisão devem ser apresentados com essa ressalva.
Por que o debate importa para o Brasil
O envelhecimento acelerado da população brasileira torna a discussão menos abstrata. O Relatório Nacional sobre a Demência, lançado pelo Ministério da Saúde em parceria com a Unifesp em 2024, estima que cerca de 8,5% das pessoas com 60 anos ou mais vivem com demência, o equivalente a 2,71 milhões de brasileiros, e projeta 5,6 milhões de casos em 2050.[9]
A referência internacional mais usada para orientar políticas de prevenção, a Comissão da Lancet sobre demência de 2024, identificou 14 fatores de risco modificáveis que responderiam por cerca de 45% dos casos, entre eles inatividade física, hipertensão e diabetes.[13] O sono, apesar de discutido, não entrou nessa lista. É um sinal de onde a evidência está mais consolidada. Para o sistema de saúde, a lição prática é que as intervenções com melhor respaldo, como atividade física regular e controle cardiovascular, coincidem com as que a hipótese glinfática sugere. A atenção primária do SUS, que o próprio relatório aponta como peça central no diagnóstico precoce, é o lugar natural para essas ações.
O que a evidência permite recomendar hoje
- Regularidade de sono. Manter horários parecidos ao longo da semana tem respaldo amplo. Hablitz observou ao Post que a mudança entre dias úteis e fim de semana pesa sobre o organismo.[1] Insônia persistente merece avaliação médica; a terapia cognitivo-comportamental para insônia é considerada tratamento de primeira linha por diretrizes internacionais.
- Atividade física contínua. O efeito observado depende de semanas de prática, não de sessões isoladas. A recomendação da OMS, de 150 a 300 minutos semanais de atividade moderada, segue como referência.
- Saúde cardiovascular. Como o sistema depende do pulsar dos vasos, controlar pressão arterial, glicemia e colesterol é coerente tanto com a hipótese glinfática quanto com a prevenção de demência por outras vias.
- Respiração lenta como complemento. Técnicas como a respiração abdominal profunda são seguras e ajudam no relaxamento, mas o benefício para a limpeza cerebral ainda não está demonstrado.
- Medicamentos para dormir com acompanhamento. Qualquer mudança no uso de hipnóticos deve ser feita com o médico responsável.
Perguntas frequentes
O que é o sistema glinfático?
É uma rede de espaços ao redor dos vasos sanguíneos do cérebro por onde circula o líquido cefalorraquidiano. O fluido se mistura ao líquido entre as células nervosas e escoa levando resíduos metabólicos, como a beta-amiloide. Foi descrito em 2012 pela equipe de Maiken Nedergaard.
O cérebro se limpa mais durante o sono?
Estudos em camundongos desde 2013 indicam que sim, sobretudo no sono profundo. Um trabalho do Imperial College London de 2024 encontrou redução de cerca de 30% na depuração durante o sono. A questão segue em debate.
Remédios para dormir prejudicam a limpeza do cérebro?
Em camundongos, o zolpidem suprimiu as oscilações que impulsionam o fluxo glinfático, segundo estudo publicado na Cell em 2025. Não há comprovação equivalente em humanos, e a medicação não deve ser interrompida sem orientação médica.
Exercício físico melhora a limpeza cerebral?
Um estudo de 2025 com 37 adultos observou aumento de marcadores de fluxo glinfático após 12 semanas de exercício regular, efeito ausente após uma sessão única. A amostra é pequena e as medidas são indiretas.
Respiração profunda ajuda o cérebro a eliminar resíduos?
Ela aumentou a movimentação do líquor em um estudo com 18 adultos, mas isso não prova maior remoção de resíduos. A evidência é preliminar.
Quantos brasileiros vivem com demência?
Cerca de 2,71 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, segundo o Relatório Nacional sobre a Demência. A projeção é de 5,6 milhões em 2050.
Ewerton Lopes é Curador Editorial de O Tecido.
Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação médica.