Há telas diante das quais quase ninguém fica indiferente. Uma paisagem em Iberê Camargo, um Guignard, uma tela de Tarsila do Amaral: pessoas com formações completamente diferentes, de gerações diferentes, param diante da mesma imagem e relatam sensações parecidas de encantamento. O curioso é que, ao mesmo tempo, cada uma dessas pessoas jura que sua reação é inteiramente pessoal, quase intransferível. Essa tensão entre o privado e o compartilhado é um dos problemas centrais da neuroestética, o campo que investiga como o cérebro processa a experiência da beleza.
Um estudo publicado na revista Nature Communications e relatado por pesquisadores da Universidade de Cambridge e da Universidade Fudan tentou colocar essa questão sob o escrutínio de um scanner de ressonância magnética.1 A conclusão central é que o cérebro não trata a beleza como uma sensação única. Ele a decompõe em pelo menos duas trilhas de processamento que funcionam de forma relativamente independente.
O experimento: pinturas chinesas e algoritmos de recomendação
Os pesquisadores recrutaram 34 voluntários e os expuseram a 96 pinturas tradicionais em aquarela chinesa dentro de um equipamento de ressonância magnética de 7 Tesla, potente o suficiente para captar variações mínimas no fluxo sanguíneo associadas à atividade neural.1 Depois de sair do scanner, cada participante avaliou como cada pintura o havia feito sentir.
A parte metodologicamente mais interessante veio depois. Em vez de tratar essas avaliações como um bloco único de dados, a equipe recorreu a algoritmos de filtragem colaborativa, a mesma família de técnicas que serviços como Netflix e Spotify usam para prever do que um usuário vai gostar com base em padrões de preferência de outras pessoas. Aplicada às respostas estéticas, essa ferramenta revelou duas dimensões latentes escondidas sob as avaliações individuais: uma organizava as pinturas segundo o quanto eram figurativas ou paisagísticas, o conteúdo visual da obra; a outra organizava as mesmas pinturas do mais rejeitado ao mais apreciado, uma medida de valor hedônico.
Dois sistemas neurais, uma única experiência
Apesar de as duas dimensões se combinarem para produzir o julgamento final de beleza, o cérebro as manteve notavelmente separadas em termos de onde eram processadas. O conteúdo visual, isto é, se a imagem era mais um rosto, um objeto ou uma paisagem, foi decodificado ao longo das vias visuais, os circuitos que também nos permitem distinguir um rosto de uma cena qualquer no cotidiano.
Já o valor hedônico, o quanto uma pintura agradava ou desagradava, foi decodificado em regiões mais profundas ligadas a recompensa e prazer, os mesmos circuitos ativados por comida ou dinheiro. Essa separação sugere que admirar uma pintura recruta, ao mesmo tempo, o sistema perceptivo que usamos para reconhecer o mundo e o sistema de valor que usamos para decidir o que buscar ou evitar.
Por que a formação em artes pode importar
Um segundo achado chama atenção para além do laboratório. A intensidade com que o cérebro codificava essas duas dimensões variou conforme o nível de expertise em artes visuais dos participantes, e essa diferença apareceu, sobretudo, na chamada rede de modo padrão, um conjunto de conexões associado a imaginação, autorreflexão e construção de significado, que diversas teorias colocam no centro da experiência estética.1 Em outras palavras, treino em artes visuais parece alterar não apenas o gosto de alguém, mas a própria forma como o cérebro representa a beleza.
A ideia de que arte e cérebro compartilham uma base biológica comum não é nova. O termo neuroestética foi cunhado em 1999 pelo neurocientista britânico Semir Zeki, da University College London, que passou décadas argumentando que a experiência de beleza, seja visual, musical ou até matemática, ativa regiões específicas do chamado cérebro emocional, de forma relativamente consistente entre culturas.2 O estudo mais recente não substitui essa tradição, mas oferece um mapa mais fino de como conteúdo e prazer se dividem dentro dela.
O ponto cego brasileiro: pesquisa avançada, ensino de artes precário
No Brasil, a neurociência da criatividade tem espaço crescente em centros como o Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino, que desde sua fundação em 2010 mantém a neurociência como uma de suas frentes de investigação e já promoveu debates públicos sobre criatividade, tecnologia e cérebro, incluindo participações em eventos como o Rio2C.3 É um contraste que vale registrar: enquanto a pesquisa básica avança, o ensino de artes nas escolas brasileiras segue historicamente instável. Levantamentos sobre o estado da disciplina no país descrevem um quadro em que aulas de artes visuais são frequentemente conduzidas por professores generalistas sem formação específica, e a matéria continua sendo tratada, na prática escolar, como acessória frente a disciplinas consideradas centrais.4 A obrigatoriedade de Educação Artística no currículo básico brasileiro existe desde a Lei nº 5.692, de 1971, mas pesquisadores da área apontam que essa obrigatoriedade nunca se traduziu em uma trajetória consistente de investimento e formação docente.5
Se a formação em artes de fato reconfigura a arquitetura com que o cérebro representa beleza e recompensa, como sugere o estudo, a discussão sobre currículo escolar deixa de ser apenas uma questão de valorização cultural e passa a dizer respeito também a como uma geração inteira aprende a perceber, avaliar e atribuir sentido ao que vê.
Aplicações além da galeria de arte
Os autores do estudo apontam ainda implicações clínicas. Terapias baseadas em arte para depressão, trauma e demência têm sido usadas há décadas, apoiadas mais em observação clínica do que em um modelo neural explícito. Um mapa mais preciso de como o cérebro decompõe conteúdo e prazer estético abre caminho para testar e refinar esses protocolos de forma mais sistemática, em vez de depender apenas da experiência acumulada de terapeutas.1 Há também uma dimensão contemporânea que os pesquisadores destacam: com uma proporção crescente de imagens em publicidade, design e nas telas do dia a dia sendo geradas por inteligência artificial, entender o que constitui beleza para o cérebro humano ganha um peso prático que vai além da curiosidade acadêmica.
Contraponto: um mapa parcial, não uma teoria fechada
Vale qualificar o alcance do achado. A amostra é pequena, 34 voluntários, e o estímulo é culturalmente específico: pinturas tradicionais chinesas em aquarela, um gênero com convenções visuais próprias que não necessariamente generaliza para fotografia, escultura, música ou design gráfico. Estudos anteriores de neuroestética, incluindo trabalhos sobre texturas e sobre rostos, já haviam identificado sinais de recompensa associados a julgamentos de beleza, mas nem sempre nas mesmas regiões ou com a mesma nitidez, o que indica que o mapa neural da beleza ainda está em construção, não fechado. Além disso, o desenho do estudo é correlacional: mostra onde a atividade cerebral acompanha os julgamentos de beleza, não prova uma relação de causa direta entre treino artístico e reorganização cerebral. Replicações com públicos, culturas e formas de arte diferentes serão necessárias antes que essas conclusões possam ser tratadas como um princípio geral sobre como o cérebro humano processa a beleza.
Perguntas frequentes
O que é neuroestética?
É o campo da neurociência que estuda como o cérebro processa a experiência de beleza e outros julgamentos estéticos, sejam eles visuais, musicais ou até matemáticos. O termo foi proposto em 1999 pelo neurocientista Semir Zeki.
Quais foram os principais achados do novo estudo sobre beleza e cérebro?
O estudo identificou que o julgamento estético se organiza em torno de duas dimensões processadas em regiões diferentes do cérebro: o conteúdo visual da imagem, decodificado nas vias visuais, e o valor hedônico, ou seja, o quanto a imagem agrada, decodificado em circuitos de recompensa também ativados por comida e dinheiro.
A formação em artes muda o cérebro?
O estudo sugere que sim. Pessoas com mais experiência em artes visuais mostraram padrões diferentes de atividade na rede de modo padrão, região associada a imaginação e autorreflexão, ao avaliar as mesmas pinturas.
Esse estudo prova que a beleza é a mesma para todo mundo?
Não. Ele mostra que existe uma estrutura neural compartilhada por trás do julgamento estético em um grupo específico de participantes avaliando um gênero pictórico específico. A generalização para outras culturas, públicos e formas de arte ainda depende de novas pesquisas.
Referências
- Vantansever, D., Stamatakis, E. A., & Liang, X. "How Our Sense of Beauty Takes Shape in the Brain." Scientific American, com base em estudo publicado na Nature Communications. Disponível em: scientificamerican.com/article/how-our-sense-of-beauty-takes-shape-in-the-brain.
- Semir Zeki, pesquisa fundadora em neuroestética, University College London.
- Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), iniciativas de neurociência aplicada à criatividade.
- Levantamento sobre o estado do ensino de artes nas escolas brasileiras, Revista Anhanguera, 2022.
- Lei nº 5.692, de 1971, e análises subsequentes sobre a trajetória da Educação Artística no currículo escolar brasileiro.