Caderno Ciência 24 de setembro de 2026 Neurociência · Envelhecimento Leitura: 9 min

O córtex pré-frontal, a região do cérebro que planeja, decide e segura impulsos, não envelhece de uma vez nem de maneira uniforme. Um atlas publicado nesta quarta-feira (23) na revista Nature acompanhou a atividade dos genes em mais de 1,3 milhão de células dessa área, retiradas de cérebros doados por pessoas sem doença neurológica diagnosticada, do nascimento aos 97 anos. O resultado desenha uma trajetória em três tempos: mudanças intensas na infância e na juventude, uma longa fase de relativa estabilidade na vida adulta e uma nova onda de alterações na velhice, desta vez concentrada não nos neurônios, mas nas células que os sustentam.2

O trabalho foi conduzido pelo Consórcio PsychAD, sob liderança do psiquiatra e geneticista Panos Roussos, da Escola de Medicina Icahn do Mount Sinai, em Nova York, e chega acompanhado de outros estudos do mesmo grupo sobre doenças como Alzheimer, Parkinson e esquizofrenia.5 A repercussão internacional começou pela imprensa científica e ganhou reportagem do jornal espanhol El País, assinada por Jessica Mouzo, que serviu de ponto de partida para esta análise.1

O que o atlas mediu, e por que isso é novo

A técnica usada é a transcriptômica de núcleo único. Em vez de triturar um pedaço de tecido e medir a média de tudo o que está ali, os pesquisadores isolam o núcleo de cada célula e leem quais genes estão ativos naquele momento. É a diferença entre ouvir o ruído de um estádio e conseguir distinguir o que cada torcedor está dizendo.

A região escolhida foi o córtex pré-frontal dorsolateral, envolvido em memória de trabalho, planejamento e controle cognitivo. Segundo os autores, a maior parte dos estudos anteriores olhava para faixas etárias estreitas ou para cérebros já afetados por doenças, o que tornava difícil separar o envelhecimento considerado normal dos processos patológicos.2 Os 284 doadores do atlas são neurotípicos, e a amostra cobre praticamente um século de vida. Os próprios pesquisadores descrevem o conjunto como a maior e mais variada base desse tipo para o córtex pré-frontal humano até agora.10

Três atos: desenvolvimento, platô e reativação

A principal conclusão é que as trajetórias não são lineares e variam conforme o tipo de célula. O artigo da Nature resume o padrão como remodelação dinâmica durante o desenvolvimento, estabilidade relativa na meia-idade e uma reativação molecular seletiva no fim da vida adulta.2 O site especializado The Transmitter comparou o achado a uma peça em três atos: um primeiro ato turbulento, marcado pela formação de neurônios e de células gliais; um segundo ato silencioso, que vai do início da vida adulta à meia-idade; e um terceiro, por volta dos 60 anos, dominado pela glia.4

Esquema das três fases de mudança molecular no córtex pré-frontal Curva esquemática mostrando mudanças intensas do nascimento até cerca de 24 anos, uma fase estável na vida adulta e nova elevação a partir de cerca de 60 anos, com predomínio das células gliais. ATO 1 desenvolvimento (neurônios em destaque) ATO 2 relativa estabilidade ATO 3 reativação (glia em destaque) 0 ~24 ~60 97 IDADE DO DOADOR (ANOS) INTENSIDADE DE MUDANÇA
Representação esquemática, sem escala, elaborada por O Tecido a partir das descrições do estudo na Nature e da cobertura do The Transmitter e do El País. Não reproduz dados brutos do artigo.

Na infância e na adolescência, os neurônios concentram as maiores transformações. Mais tarde, a situação se inverte. Em entrevista ao El País, Roussos explicou que muitas das mudanças mais marcantes da velhice aparecem na glia, com alterações ligadas à atividade imunológica e às respostas ao estresse celular.1

Os 24 anos: marco celular, não certidão de maturidade

Um dos dados que mais devem circular nas redes é a identificação dos 24 anos como ponto de inflexão, a partir do qual a composição celular do córtex pré-frontal permanece majoritariamente estável.1 A tentação de transformar o número em regra popular, do tipo "o cérebro fica pronto aos 24", é grande. O próprio autor se antecipou a ela. Ao jornal espanhol, Roussos afirmou que o achado não deve ser considerado um limite universal para a idade adulta e lembrou que os dados mostram mudanças moleculares ao longo de boa parte da vida.1

A ressalva importa porque o número descreve a composição de tipos celulares em uma região específica, medida em cérebros diferentes, cada um representando um único momento. Ele não mede comportamento, julgamento ou capacidade de decisão. É um marco na cronologia das células, não uma fronteira jurídica ou psicológica.

A virada para a glia

Glia é o nome coletivo das células que não disparam impulsos elétricos como os neurônios, mas os alimentam, isolam e defendem. Os astrócitos regulam o ambiente químico, os oligodendrócitos produzem a mielina que reveste os axônios, e a micróglia funciona como sistema imunológico residente do cérebro.

Durante décadas, a pesquisa sobre envelhecimento cerebral olhou sobretudo para os neurônios. O atlas sugere uma mudança de foco. A neurocientista Marta Nieto, do Centro Nacional de Biotecnologia da Espanha (CNB-CSIC), destacou ao Science Media Centre espanhol, em declarações reproduzidas pelo El País, que o estudo permite acompanhar separadamente como cada população celular envelhece ao longo de quase um século.1

Talvez a pergunta sobre por que os neurônios fraquejam na velhice precise ser feita também às células que os alimentam e protegem. Ideia defendida pela neurocientista Marta Nieto (CNB-CSIC), segundo o El País

Relógios que desafinam depois dos 60

Outro achado chama atenção pela conexão com a vida cotidiana. Os pesquisadores observaram, a partir da versão preliminar do trabalho divulgada em 2024, uma reprogramação dos ritmos circadianos no fim da vida adulta, com perda de ritmicidade de genes centrais do relógio biológico e surgimento de novos padrões, sobretudo na micróglia e nos oligodendrócitos.10 Segundo o The Transmitter, a desregulação desses genes é particularmente evidente em pessoas com 60 anos ou mais, em uma análise que envolveu cerca de 200 adultos neurotípicos.4

O dado não autoriza conclusões sobre sono, rotina ou prevenção individual. Mas oferece uma pista molecular para uma observação clínica antiga: alterações no ciclo sono e vigília são frequentes no envelhecimento e em várias doenças neurodegenerativas.

O conjunto PsychAD e as doenças do cérebro

O atlas do ciclo de vida é uma parte de um esforço maior. O PsychAD é uma parceria entre instituições norte-americanas financiada pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), criada para ligar variação genética, envelhecimento e doença a alterações em células específicas.3 A coorte completa reúne 1.494 doadores e mais de 6,3 milhões de núcleos celulares, organizados em 27 subclasses de células.6 Os doadores vão de bebês a uma pessoa de 108 anos e incluem tanto controles saudáveis quanto pessoas com oito diagnósticos neurológicos ou psiquiátricos.3

Em um dos estudos companheiros, o grupo identificou o que chama de vulnerabilidade transcriptômica compartilhada: padrões de expressão gênica que se repetem em doenças diferentes e apontam para mecanismos comuns.6 Na leitura dos autores, isso ajudaria a explicar por que transtornos distintos convergem para processos biológicos parecidos sem perder suas assinaturas próprias. O comunicado do NIH cita, entre as condições estudadas, Alzheimer, Parkinson, doença com corpos de Lewy, demência vascular, esquizofrenia e transtorno bipolar.5

É nesse ponto que o atlas de pessoas neurotípicas ganha valor prático. Para saber o que é patológico em um cérebro de 75 anos com demência, é preciso antes saber como é um cérebro de 75 anos sem ela. O mapa funciona como régua.

O ângulo brasileiro: envelhecimento acelerado e um banco de cérebros singular

O Brasil envelhece em ritmo mais rápido do que os países que produziram a maior parte dessa ciência. O geriatra Júlio César Moriguti, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), estimou ao Jornal da USP que cerca de 12% da população era idosa em 2024 e que essa fatia deve se aproximar de 25% em 2050.8

O Relatório Nacional sobre a Demência, lançado pelo Ministério da Saúde em parceria com a Unifesp em 2024, estima que cerca de 8,5% dos brasileiros com 60 anos ou mais vivem com demência, o equivalente a aproximadamente 2,71 milhões de pessoas, e projeta 5,6 milhões de casos até 2050.7 A prevalência é maior entre mulheres (9,1%) do que entre homens (7,7%), e o Nordeste registra a taxa mais alta (10,4%), contra 7,3% no Sul. O documento também aponta que cerca de 80% das pessoas com a condição não têm diagnóstico formal.7

Há um ativo nacional que dialoga diretamente com o tipo de pesquisa publicado agora. O Biobanco para Estudos do Envelhecimento da Faculdade de Medicina da USP, criado a partir do Grupo de Estudos em Envelhecimento Cerebral no início dos anos 2000,11 reuniu mais de cinco mil cérebros em duas décadas. Segundo sua diretora, Claudia Suemoto, cerca de 60% das famílias abordadas aceitam a doação, frente a taxas entre 20% e 39% em outros bancos do mundo.9 O perfil também é diferente: enquanto os grandes acervos da Europa e dos Estados Unidos são formados principalmente por idosos brancos, com alta escolaridade e diagnóstico de demência, a maioria dos doadores brasileiros não tinha perda cognitiva, estudou em média quatro anos, e 31% eram pretos ou pardos.9

Esse contraste é relevante para a leitura do atlas. Uma referência de envelhecimento "normal" construída com populações de alta renda precisa ser testada em cérebros que viveram outras condições de educação, alimentação, exposição a doenças e acesso a saúde. O Brasil tem material biológico, capacidade técnica e uma epidemia silenciosa de demência subdiagnosticada. Falta transformar essas três coisas em uma agenda de pesquisa integrada à escala dos consórcios internacionais.

Contraponto

O que o atlas ainda não permite afirmar

  • Retrato, não filme. Cada doador contribui com um único momento da vida. As trajetórias são reconstruídas comparando pessoas diferentes, não acompanhando o mesmo cérebro ao longo do tempo. Diferenças entre gerações podem se misturar a efeitos da idade.
  • Genes ativos não são comportamento. A leitura do RNA indica quais programas estão ligados em cada célula, mas não mede diretamente cognição, humor ou capacidade de decisão.
  • Tecido post mortem tem limites. Causa da morte, tempo até a coleta e condições de preservação influenciam a qualidade do material, e os modelos estatísticos só corrigem parte disso.
  • Uma região, não o cérebro inteiro. O córtex pré-frontal dorsolateral é central para funções executivas, mas outras áreas podem seguir cronologias distintas.
  • Das dianas à terapia há distância. A promessa de novos alvos terapêuticos, mencionada pelos autores, depende de validação experimental e clínica que costuma levar anos.1

O que muda, na prática

Para o leitor, a consequência imediata não é uma nova recomendação de saúde. É uma mudança de enquadramento. O envelhecimento cerebral deixa de parecer um declínio contínuo e homogêneo e passa a ser descrito como uma sequência de fases, em que diferentes tipos celulares assumem o protagonismo em momentos distintos.

Para a pesquisa, o atlas oferece uma referência pública contra a qual doenças podem ser comparadas, e reforça a hipótese de que processos inflamatórios e de estresse nas células gliais merecem tanta atenção quanto a morte de neurônios. Para a política de saúde brasileira, o recado é indireto, mas claro: um país que caminha para ter um quarto da população idosa precisa de dados produzidos com seus próprios cérebros, suas próprias desigualdades e seu próprio perfil de risco.

Perguntas frequentes

O que é o atlas do córtex pré-frontal publicado na Nature em 2026?

É um mapa da atividade dos genes em mais de 1,3 milhão de células do córtex pré-frontal dorsolateral, obtidas de 284 doadores neurotípicos com idades entre 0 e 97 anos. Foi produzido pelo Consórcio PsychAD, liderado por Panos Roussos, do Mount Sinai.

O cérebro fica maduro aos 24 anos?

Não é isso que o estudo diz. Os 24 anos marcam o ponto a partir do qual a composição celular do córtex pré-frontal se mantém majoritariamente estável. O próprio autor afirma que a idade não deve ser tratada como limite universal da vida adulta e que mudanças moleculares continuam ocorrendo depois dela.

Quais células mais mudam na velhice?

As células gliais, como micróglia, astrócitos e oligodendrócitos, com alterações ligadas à atividade imunológica, às respostas ao estresse celular e aos genes do relógio biológico, especialmente a partir de cerca de 60 anos.

O estudo tem implicações para o Alzheimer?

Indiretamente. O atlas serve como referência do envelhecimento sem doença, o que permite identificar com mais precisão o que é patológico. Estudos companheiros do mesmo consórcio mapearam alterações em Alzheimer, Parkinson, demências e transtornos psiquiátricos.

Quantas pessoas têm demência no Brasil?

O Relatório Nacional sobre a Demência (Ministério da Saúde e Unifesp, 2024) estima que cerca de 8,5% da população com 60 anos ou mais vive com demência, aproximadamente 2,71 milhões de pessoas, com projeção de 5,6 milhões até 2050.

O Brasil tem banco de cérebros para pesquisa?

Sim. O Biobanco para Estudos do Envelhecimento da Faculdade de Medicina da USP reúne mais de cinco mil cérebros e é considerado um dos acervos mais diversos do mundo, com maioria de doadores sem perda cognitiva e baixa escolaridade média.

Nota editorial. Este artigo foi produzido pela curadoria de O Tecido a partir da reportagem "Las edades del cerebro", de Jessica Mouzo, publicada pelo El País em 23 de setembro de 2026. O texto não é tradução nem reprodução da reportagem original: foi reescrito, ampliado com fontes independentes e acrescido de contexto brasileiro. Declarações atribuídas ao El País foram traduzidas livremente.

Referências

  1. MOUZO, Jessica. Las edades del cerebro: el atlas más detallado de la corteza prefrontal revela cómo cambia y envejece a lo largo de la vida. El País, 23 set. 2026. Acessar reportagem.
  2. YANG, Hui et al.; PsychAD Consortium; ROUSSOS, Panos. Lifespan single-cell transcriptomic atlas of the human prefrontal cortex. Nature, set. 2026.
  3. Landmark map of human brain's gene activity holds clues to Alzheimer's disease and more. Nature (News), set. 2026.
  4. Prefrontal cortex has three transcriptomic acts across human lifespan, new atlas suggests. The Transmitter, set. 2026.
  5. National Institutes of Health (NIH). Scientists develop high-resolution molecular maps of Alzheimer's and related brain disorders. Comunicado à imprensa, set. 2026.
  6. PsychAD Consortium. Single-cell atlas of transcriptomic vulnerability across brain disorders. Nature, set. 2026.
  7. Ministério da Saúde; Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Relatório Nacional sobre a Demência: epidemiologia, (re)conhecimento e projeções futuras. Brasília, set. 2024.
  8. Relatório nacional projeta mais de cinco milhões de casos de demência no Brasil até 2050. Jornal da USP, out. 2024.
  9. Acervo de banco de cérebros da USP é um dos mais diversos do mundo. Outra Saúde / Outras Palavras, com base em entrevista ao Estadão, ago. 2025.
  10. YANG, Hui et al. A single-cell transcriptomic atlas of the prefrontal cortex across the human lifespan. medRxiv (preprint), nov. 2024.
  11. FERRETTI, Renata E. L. et al. Banco de encéfalos humanos: uma ferramenta importante para o estudo do envelhecimento cerebral. O Mundo da Saúde, São Paulo.