Nick Hanauer não é um economista de gabinete. É um investidor que fundou ou financiou mais de quarenta empresas, foi o primeiro investidor externo da Amazon e vendeu uma empresa de publicidade à Microsoft por 6,4 bilhões de dólares em dinheiro. Em artigo publicado em 17 de setembro no The Wall Street Journal1, ele argumenta que o capitalismo de mercado só sobrevive à pressão simultânea de populismos de esquerda e de direita se abandonar a lógica da escassez que orientou a política econômica americana nos últimos cinquenta anos. Ele chama essa alternativa de "Market Humanism": mercados como instrumento a serviço da prosperidade de muitos, não como um fim que se defende por si só.
A tese chega em um momento em que o Brasil já testa, por caminhos próprios e sem citar Hanauer, uma versão local do mesmo dilema: como sustentar crescimento sem aprofundar a concentração de renda que o país carrega há décadas.
O diagnóstico por trás do "Market Humanism"
Hanauer e o economista de Oxford Eric Beinhocker, coautores do livro Markets Built for Humans, partem de uma crítica ao que chamam de paradigma antigo: a ideia de que existe uma troca inevitável entre igualdade e crescimento, na qual taxar os ricos ou regular empresas reduziria a prosperidade de todos. Segundo os autores, essa suposição não resiste à evidência histórica recente. Os dois citam o trabalho dos economistas Daron Acemoglu, James Robinson e Simon Johnson, vencedores do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 2024, para sustentar que instituições inclusivas, aquelas que distribuem poder e oportunidade de forma mais ampla, tendem a gerar economias mais prósperas, não o contrário.
O argumento central é que mercados não apenas alocam recursos escassos: eles criam novos recursos por meio da inovação, e a demanda de uma base ampla de consumidores é o que sustenta esse ciclo. Nessa leitura, políticas historicamente descritas como "matadoras de empregos", como a proibição do trabalho infantil em 1938 ou o salário mínimo, não destruíram a economia americana quando foram implementadas. Obrigaram setores inteiros a se reorganizar em torno de um padrão de vida mais alto.
Onde o Brasil já roda esse experimento
O Brasil não precisou importar o conceito de "Market Humanism" para colocar parte dele em prática. Dois movimentos recentes de política econômica seguem uma lógica parecida, ainda que tenham nascido de outras urgências fiscais e eleitorais.
O primeiro é a reforma do Imposto de Renda sancionada em 2025, com efeitos a partir de 2026. O texto amplia a faixa de isenção do IRPF de cerca de R$ 2.824 para R$ 5 mil mensais, beneficiando algo entre 10 e 15 milhões de contribuintes, e cria uma tributação mínima progressiva, de até 10%, para quem recebe acima de R$ 600 mil por ano, um grupo de aproximadamente 141 mil pessoas2. O Ministério da Fazenda calculou que a medida tem impacto fiscal neutro: o que se deixa de arrecadar na base é compensado pelo que passa a incidir sobre o topo3. É, na prática, uma tentativa de romper a mesma "troca" entre justiça e crescimento que Hanauer contesta, só que via política tributária em vez de discurso empresarial.
O segundo é a Política Nacional de Valorização do Salário Mínimo, retomada em 2023 após anos de reajuste puramente inflacionário. A regra atual soma a inflação medida pelo INPC ao crescimento do PIB de dois anos antes, o que gerou ganho real de 4,69% em 2024 e 2,61% em 2025, depois de dois anos seguidos (2021 e 2022) sem qualquer ganho acima da inflação4. O Dieese estima que cerca de 59 milhões de brasileiros têm renda referenciada ao salário mínimo, e que cada reajuste real injeta dezenas de bilhões de reais em consumo4. É praticamente o mesmo mecanismo que Hanauer descreve ao falar do salário mínimo de Seattle: mais renda na ponta gera mais clientes para o comércio local, e não o colapso previsto pela ortodoxia.
A concentração no topo, sob disputa
O pano de fundo brasileiro é mais desigual do que costuma aparecer nas comparações internacionais que Hanauer usa para os Estados Unidos. Um estudo conduzido pelo economista Sérgio Wulff Gobetti com base em declarações de Imposto de Renda mostrou que, entre 2017 e 2023, a renda do 0,1% mais rico do país cresceu 6,9% ao ano, quase cinco vezes mais rápido que a renda média das famílias brasileiras, de 1,4% ao ano5. Nesse período, a participação do 1% mais rico na renda total subiu de 20,4% para 24,3%, e 85% desse aumento ficou concentrado justamente no 0,1% do topo5. Outro levantamento, coordenado por Thomas Piketty, já apontava o Brasil como a grande economia com a maior concentração de renda no 1% mais rico do planeta, à frente de Índia, Rússia e Estados Unidos6.
Parte desse avanço recente tem uma explicação técnica específica: a "pejotização" de rendimentos, quando sócios e profissionais liberais convertem salário em distribuição de lucros e dividendos de pessoa jurídica para reduzir a alíquota efetiva. Para o 0,1% mais rico, 66% do crescimento da renda entre 2017 e 2023 veio exatamente dessa fonte5, o que ajuda a explicar por que a reforma do IR de 2025 mirou especificamente lucros e dividendos acima de R$ 50 mil mensais.
⚖ Contraponto
Nem todos os dados contam a mesma história, e isso importa para avaliar se o "Market Humanism" é generalizável. Uma nota técnica do Ipea, divulgada no fim de 2025, registrou o menor nível de desigualdade em trinta anos, com queda da pobreza e alta de renda entre os mais pobres, dado celebrado pelo governo federal. Semanas depois, o World Inequality Report 2026, do World Inequality Lab (grupo que inclui Piketty entre seus pesquisadores), chegou à conclusão oposta: a concentração no topo aumentou entre 2014 e 2024, com os 10% mais ricos ampliando a fatia da renda nacional de 57,9% para 59,1% no período, enquanto a metade mais pobre perdeu participação7. A divergência não é ideológica, é metodológica: pesquisas domiciliares tendem a subestimar a renda de capital do topo, enquanto dados tributários a capturam melhor, mas dependem de como a legislação define o que é tributável em cada momento. Isso significa que qualquer leitura otimista, seja a de Hanauer sobre os Estados Unidos, seja a do governo brasileiro sobre a queda da desigualdade, merece ser lida com a mesma cautela que se aplicaria a uma leitura pessimista.
As críticas que Hanauer não responde
À esquerda do espectro, economistas argumentam que "Market Humanism" ainda trata a redistribuição como subproduto do crescimento, e não como direito independente, o que deixaria intocada a concentração de patrimônio (e não apenas de renda corrente) que caracteriza tanto os Estados Unidos quanto o Brasil. À direita, a crítica é inversa: qualquer intervenção deliberada para "incluir mais gente como inovadores e consumidores", mesmo com o rótulo de humanismo de mercado, tende na prática a se traduzir em mais gasto público e mais regulação, os mesmos instrumentos que a ortodoxia liberal considera responsáveis por menor crescimento no longo prazo. O próprio Hanauer reconhece, no artigo, que fala a partir do topo da distribuição, o que fragiliza sua autoridade para prescrever sacrifícios que ele mesmo não precisou fazer.
O que muda a partir daqui
Para o leitor brasileiro, o valor do artigo de Hanauer não está na novidade do diagnóstico, a literatura sobre desigualdade e crescimento já debate isso há décadas, mas no fato de vir de dentro do próprio establishment financeiro americano, em um momento de polarização crescente nos Estados Unidos. No Brasil, o teste prático já está em curso: a reforma do IR completa seu primeiro ano de vigência em 2026, e será nas declarações de 2027 que ficará mais claro se a tributação mínima sobre super-ricos de fato compensou a isenção na base, como prometeu a Fazenda, ou se a "pejotização" e outras formas de elisão fiscal vão erodir a arrecadação esperada.
Perguntas frequentes
O que é o "Market Humanism" proposto por Nick Hanauer?
É um modelo econômico defendido por Hanauer e pelo economista Eric Beinhocker no qual mercados funcionam como instrumento a serviço da prosperidade coletiva, e não como fim em si. A tese central é que inclusão de mais pessoas como consumidores, trabalhadores bem remunerados e inovadores acelera o crescimento, em vez de reduzi-lo, contrariando a ideia de uma troca inevitável entre igualdade e crescimento.
Como a concentração de renda no Brasil se compara à discutida por Hanauer nos EUA?
É mais acentuada. Estudos com base em Imposto de Renda mostram que o 1% mais rico do Brasil concentra entre 24% e 27% da renda nacional, e o 0,1% mais rico teve crescimento de renda de 6,9% ao ano entre 2017 e 2023, ante 1,4% ao ano da média da população.
A reforma do Imposto de Renda de 2026 segue a lógica do "Market Humanism"?
Há paralelo, ainda que não intencional. A reforma isenta quem ganha até R$ 5 mil mensais e cria alíquota mínima de até 10% para quem recebe acima de R$ 600 mil por ano, buscando impacto fiscal neutro entre o que se deixa de arrecadar na base e o que passa a incidir no topo.
O salário mínimo brasileiro é um exemplo desse modelo de inclusão?
Funciona de forma semelhante ao caso do salário mínimo de Seattle citado por Hanauer. A Política Nacional de Valorização do Salário Mínimo, retomada em 2023, vincula o reajuste à inflação mais o crescimento do PIB, gerando ganho real que, segundo o Dieese, injeta dezenas de bilhões de reais em consumo por ano.
Existe consenso sobre a evolução da desigualdade no Brasil?
Não. Uma nota técnica do Ipea, no fim de 2025, apontou o menor nível de desigualdade em três décadas, enquanto o World Inequality Report 2026 concluiu que a concentração no topo aumentou entre 2014 e 2024. A divergência decorre de diferenças metodológicas na forma de captar a renda do capital.
Ewerton Lopes — Curador Editorial