Em 1639, na Boston puritana, o comerciante Robert Keyne foi levado à Corte Geral de Massachusetts por uma conduta que hoje não chamaria a atenção de ninguém: tentar comprar pelo menor preço e vender pelo maior. Os juízes entenderam que ele havia colocado o próprio lucro acima dos interesses da comunidade e aplicaram multa de 200 libras esterlinas. O episódio abre Capitalism: A Global History, do historiador Sven Beckert, e foi retomado por ele em entrevista ao El País, por ocasião do lançamento da edição espanhola pela editora Crítica.1 A cena condensa a tese do livro: o comportamento que parece natural na economia contemporânea já foi tratado como desvio moral e punido em tribunal.2
Uma exceção que virou regra
Beckert é professor da cadeira Laird Bell de História na Universidade Harvard e codiretor do programa da instituição dedicado ao estudo do capitalismo. Sua obra anterior, Empire of Cotton, recebeu o Prêmio Bancroft e foi finalista do Pulitzer. O novo livro, lançado em inglês em 2025, tem mais de 1.300 páginas na edição britânica e cerca de 1.400 na espanhola, das quais aproximadamente 400 são notas.12
O argumento central é que o capitalismo não decorre de uma inclinação da natureza humana. Trata-se de uma forma específica de organizar a vida econômica, surgida em lugares determinados e expandida até alcançar quase todas as esferas da existência, inclusive o desejo. Na definição que o autor apresentou ao El País, o núcleo do sistema é a acumulação: capital de propriedade privada investido de forma produtiva para gerar mais capital, o que leva insumos e produtos a se converterem em mercadorias. Uma plantação escravista, a indústria têxtil da Catalunha no século XIX, a Detroit de 1950 e a Shenzhen de 2026 diferem em quase tudo, mas partilham essa mesma lógica.1
“O capitalismo não é algo natural, é de fato algo muito estranho.”
Sven Beckert, em entrevista ao El País (tradução livre)A cronologia proposta é longa. Segundo Beckert, sociedades reconhecidamente capitalistas surgiram há cerca de 500 anos, mas a lógica que as sustenta pode ser rastreada até por volta do ano 1000, em pequenas comunidades de mercadores no mundo islâmico, na China, na Índia, na Europa e na África, cercadas por economias camponesas de subsistência e por regimes tributários como o feudalismo europeu.1 A resenha da Publishers Weekly registra que a narrativa começa no atual Iêmen, em 1150, com um novo tipo de comerciante que permanecia em sua cidade e negociava à distância.3
Dois elementos distinguem o livro das histórias clássicas do tema. O primeiro é a recusa do eurocentrismo: para o autor, o capitalismo nasceu global, nas conexões entre lugares, e não num único ponto de origem. O segundo é o papel do Estado. Na leitura do historiador Dinyar Patel, publicada na revista britânica History Today, a obra sustenta que a ascensão do capitalismo não foi inevitável e que os capitalistas, sozinhos, não a teriam alcançado, pois dependeram de um aliado decisivo, o poder estatal.4 O exemplo de Potosí, citado na entrevista, ilustra essa escala desde o início: no século XVII, diamantes do Ceilão e cristais de Veneza consumidos pelas elites andinas eram pagos com a prata do Cerro Rico, onde, segundo o relato, um em cada quatro mineiros morria.1
Um sistema sem doutrina fixa
Beckert rejeita duas equações muito usadas no debate público: a que iguala capitalismo e democracia e a que iguala capitalismo e conservadorismo. Para ele, o sistema é a revolução de maior impacto dos últimos mil anos e vive em estado de transformação permanente. Historicamente, conviveu com monarquias, impérios, democracias e regimes fascistas, e hoje algumas das economias capitalistas mais dinâmicas operam sob governos profundamente autoritários. O liberalismo, observa, é uma doutrina dos séculos XVII e XVIII, posterior ao surgimento da lógica capitalista.1
Daí a insistência do historiador em que todo mercado é constituído política, social e culturalmente. Ao comentar a frase do ex-vice-presidente espanhol Rodrigo Rato, que atribuiu os estragos da crise ao funcionamento do mercado, Beckert lembrou que mesmo as feiras europeias de cinco séculos atrás, aparentemente próximas do ideal de concorrência descrito por Adam Smith, dependiam de autorização da Igreja para definir quem vendia, quando e onde.1 A formulação dialoga com uma tradição conhecida dos leitores de Karl Polanyi, que em A Grande Transformação (1944) descreveu o mercado autorregulado como construção institucional, e não como estado natural das sociedades.5
O elo brasileiro da plantação
Na entrevista, Beckert aponta as plantações de açúcar de Barbados como uma das primeiras sociedades plenamente capitalistas. Ali, segundo ele, os comerciantes puderam reorganizar toda a vida econômica porque dominaram tudo pela violência: tomaram a terra, importaram mão de obra escravizada da África e passaram a produzir inteiramente para o mercado, com todos os insumos e produtos mercantilizados.1
A ilha foi ocupada pelos ingleses em 1627, uma das peças do que a revista Jacobin, ao resenhar o livro, descreve como o arquipélago do capital formado entre os séculos XVI e XVII, ao lado de Santo Domingo, Macau, Batávia e Manhattan.6 A virada para o açúcar ocorreu na década de 1640, e é aqui que a história passa pelo Brasil. Segundo o acervo do King’s College London sobre o Caribe, as técnicas de cultivo e processamento em escala comercial foram trazidas do Brasil holandês, e fazendeiros de Barbados obtiveram mudas em Pernambuco e aperfeiçoaram a produção com visitantes e visitas a engenhos brasileiros.7 O historiador Russell Menard contestou parte dessa narrativa clássica, ao encontrar indícios de que a transição foi financiada por mercadores de Londres e pela prosperidade local, e não por empréstimos holandeses.8 Em qualquer das versões, o modelo testado no Caribe tinha precedente brasileiro.
Em Pernambuco, a elite açucareira passou a recorrer à mão de obra africana escravizada a partir de 1560, com a expansão dos engenhos. A capitania tornou-se a quarta região das Américas que mais recebeu africanos escravizados, com cerca de 854 mil desembarques, atrás apenas de Rio de Janeiro, Bahia e Jamaica.9 No conjunto, a base de dados SlaveVoyages, mantida por um consórcio internacional de pesquisadores, estima que cerca de 4,8 milhões de africanos desembarcaram em portos brasileiros, algo entre 40% e 45% de todo o tráfico para as Américas, segundo levantamento citado pelo historiador Luiz Felipe de Alencastro.10
Para o leitor brasileiro, a tese de Beckert tem, portanto, algo de familiar. Caio Prado Júnior, em Formação do Brasil Contemporâneo (1942), já definia o sentido da colonização como a produção voltada ao mercado externo.11 Celso Furtado, em Formação Econômica do Brasil (1959), analisou a economia açucareira como empreendimento mercantil de escala inédita.12 Alencastro, em O Trato dos Viventes (2000), mostrou que a colônia se formou fora de seu próprio território, num espaço econômico que unia o Brasil a Angola pelo Atlântico Sul.13 E o caribenho Eric Williams, em Capitalism and Slavery (1944), já vinculava a escravidão colonial à acumulação britânica.14 O que Beckert acrescenta é a escala: integrar essas experiências numa narrativa de mil anos em que a plantação deixa de ser periferia e passa a figurar entre os laboratórios do sistema.
Por que a plantação importa para a definição
No argumento de Beckert, o capitalismo avançou lentamente na Europa porque encontrou resistência de camponeses e senhores feudais. Nas Américas, sociedades conquistadas ou dizimadas por epidemias não puderam resistir, e a lógica da acumulação se instalou sem freios, com o mercado imposto pela força.1 A história brasileira não é, nessa leitura, um capítulo pré-capitalista, mas parte do núcleo em que o sistema se formou.
O fim da ordem neoliberal e o termômetro da desigualdade
Beckert distingue a dinâmica contínua da acumulação, que segue crescendo ano após ano, das ordens institucionais que a organizam. O keynesianismo do pós-guerra manteve-se estável até os anos 1970, quando cedeu lugar ao neoliberalismo. Esta última ordem, avalia o historiador, está chegando ao fim por três motivos: níveis absurdos de desigualdade, os efeitos da crise de 2008 e razões políticas, com destaque para os ataques da direita populista.1 Como sinal da mudança, ele cita a normalização das tarifas comerciais e das propostas de nacionalizar cadeias de suprimento, algo que há uma década soaria herético no consenso do livre comércio. O autor associa o caminho protecionista a precedentes que terminaram em guerra, mas também enxerga no fim de uma ordem a abertura para pensar outra, e critica quem apenas tenta retornar ao mundo de 2005.1
Um dos fatores apontados por Beckert, a desigualdade, tem medição recente no Brasil. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, divulgada em maio de 2026, o índice de Gini do rendimento domiciliar per capita caiu de 0,543 em 2019 para 0,504 em 2024, o menor valor da série, e voltou a subir para 0,511 em 2025. De acordo com o instituto, o topo da distribuição ganhou mais em 2025, favorecido pelo mercado de trabalho aquecido e pela rentabilidade de aplicações financeiras e aluguéis em período de juros altos. Os 10% mais pobres viveram, em média, com R$ 268 por mês.15
Os números não confirmam nem refutam a periodização de Beckert, que trata de uma escala global e secular. Mostram, porém, um ponto compatível com o argumento dele: a distribuição de renda responde a escolhas institucionais, como política de juros, transferências e regras do mercado de trabalho, e não a uma trajetória fixada pela natureza do sistema.
Novas fronteiras da mercadoria
Para o historiador, a expansão do capitalismo é geográfica e também avança sobre novas esferas da vida. A alimentação, antes preparada quase inteiramente em casa, foi em grande parte mercantilizada. Os dados pessoais formam uma fronteira que ninguém imaginava há duas décadas, a ponto de os vídeos de gatos a que alguém assiste terem valor comercial. O carro particular pode virar serviço de transporte por aplicativo, a casa pode virar hospedagem de curta temporada, e o turismo, visível em Barcelona, aparece como outra forma de expansão.1 A resenha da Publishers Weekly resume o diagnóstico do livro: a própria atenção humana tornou-se mercadoria.3
O debate brasileiro sobre a regulação do trabalho mediado por plataformas e sobre o uso comercial de dados pessoais pode ser lido nessa chave, como disputa sobre os limites institucionais de um novo espaço de mercantilização. Beckert acrescenta um limite de outra natureza. O crescimento perpétuo e a acumulação, diz, não são efeitos colaterais do sistema, mas sua essência, enquanto a natureza opera sob limites. Ele descreve essa colisão como muito preocupante.1
O que dizem os críticos do livro
A recepção de Capitalism: A Global History não foi unânime. O cientista político Corey Robin, em resenha na revista The Nation, argumenta que o princípio de usar capital para produzir mais capital não é novo nem exótico: Aristóteles já o identificava no comércio monetário de longa distância e dedicou páginas da Política a condená-lo. Robin também considera pouco clara a ideia de conectividade global num período em que ela não alcançava as Américas.16
O economista Tyler Cowen, no blog Marginal Revolution, contestou a escolha do Camboja como retrato do capitalismo contemporâneo no capítulo final, lembrando que o país é governado por um regime autoritário e ocupa posição baixa em índices de liberdade econômica. Em sua avaliação, falta ao autor noção dos limites do próprio conhecimento.17 Sobre a obra anterior de Beckert, o historiador econômico Peer Vries avaliou que ela funcionava melhor como história do algodão do que como análise do capitalismo, observação que parte dos críticos estende ao novo volume.18
Há ainda a leitura liberal clássica, para a qual o capitalismo explica o maior aumento de produtividade e de padrão de vida da história. Beckert não nega esse ponto: reconhece o salto de produtividade e de crescimento, mas insiste em que ele veio acompanhado de despossessão violenta, colonialismo e escravidão.1
O que a tese pede ao leitor brasileiro
Historicizar o capitalismo não equivale a condená-lo nem a celebrá-lo. Beckert afirma não saber prever o futuro, reconhece que o sistema atravessou todas as suas crises, inclusive a de 1929, e aposta numa nova ordem institucional ainda dentro do capitalismo. Ao mesmo tempo, lembra que um processo histórico que teve início pode, em algum momento, terminar.1
Para o Brasil, a contribuição mais útil do livro talvez seja deslocar a pergunta. Se o mercado é sempre uma construção política, discussões como tarifas, juros, tributação de altas rendas, regulação de plataformas e uso de dados deixam de ser tratadas como obediência a uma lei natural e passam a ser vistas como escolhas sobre o desenho institucional. E a experiência colonial, com seus engenhos e seus quase 5 milhões de africanos escravizados, aparece como parte da fundação do sistema global, e não como sua pré-história. Os juízes puritanos que multaram Robert Keyne, disse Beckert, provavelmente veriam nas grandes fortunas atuais uma forma de vida sem ética.1 A distância entre aquele julgamento e a naturalidade com que se vive hoje sob a lógica da acumulação é, afinal, o objeto do livro.
Perguntas frequentes
Quem é Sven Beckert?
Historiador alemão-americano nascido em Frankfurt, professor da cadeira Laird Bell de História em Harvard e codiretor do programa da universidade dedicado ao estudo do capitalismo. É autor de Empire of Cotton (2014), vencedor do Prêmio Bancroft, e de Capitalism: A Global History (2025).
O que significa dizer que o capitalismo não é natural?
Para Beckert, o capitalismo é uma forma histórica de organização econômica baseada na acumulação de capital privado reinvestido para gerar mais capital. Durante a maior parte da história, as sociedades produziram para subsistência ou sob regimes tributários, e a lógica da acumulação era marginal e frequentemente condenada.
Qual a relação do livro com a história do Brasil?
O autor aponta as plantações escravistas de açúcar como laboratórios do capitalismo. As técnicas usadas em Barbados, citada por ele como uma das primeiras sociedades plenamente capitalistas, vieram do Brasil holandês, e o Brasil recebeu cerca de 4,8 milhões de africanos escravizados, a maior parcela do tráfico atlântico.
Beckert acredita que o capitalismo vai acabar?
Ele não faz previsões. Avalia que a ordem neoliberal está chegando ao fim e que uma nova ordem institucional deve surgir dentro do próprio capitalismo, mas lembra que, como processo histórico, o sistema teve começo e pode ter fim.
Quais são as principais críticas ao livro?
Críticos como Corey Robin argumentam que a lógica da acumulação é mais antiga do que o livro sugere, citando Aristóteles. Tyler Cowen questiona a seleção de exemplos contemporâneos. Outros apontam que a definição ampla de capitalismo torna difícil separar o que é e o que não é capitalista.
Referências
- CATÀ FIGULS, Josep. Sven Beckert, historiador: “El capitalismo no es algo natural para el ser humano, es de hecho muy extraño”. El País, 24 set. 2026. elpais.com
- BECKERT, Sven. Capitalism: A Global History. Nova York: Penguin Press; Londres: Allen Lane, 2025. Edição espanhola: Capitalismo. Una historia global. Barcelona: Crítica, 2026.
- Publishers Weekly. Resenha de Capitalism: A Global History, de Sven Beckert, 2025.
- PATEL, Dinyar. Resenha de Capitalism: A Global History. History Today, v. 76, n. 7, jul. 2026.
- POLANYI, Karl. A Grande Transformação: as origens da nossa época. 1944.
- HALEVI, E. A. Sven Beckert’s Chronicle of Capitalism’s Long Rise. Jacobin, dez. 2025.
- King’s College London, Special Collections. The introduction of sugar cane (exposição sobre o Caribe).
- Resenha de MENARD, Russell R. Sweet Negotiations: Sugar, Slavery, and Plantation Agriculture in Early Barbados. Project MUSE.
- SOUZA, Leandro Nascimento de. A elite colonial da capitania de Pernambuco e suas ações no Reino de Angola (1658-1666). Anais do Simpósio Nacional de História, ANPUH, 2024.
- ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Entrevista ao portal Sesc SP, 2016, com dados do Trans-Atlantic Slave Trade Database (SlaveVoyages).
- PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. 1942.
- FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 1959.
- ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O Trato dos Viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
- WILLIAMS, Eric. Capitalism and Slavery. 1944.
- IBGE. PNAD Contínua: Rendimento de todas as fontes 2025. Divulgação de 8 maio 2026.
- ROBIN, Corey. Resenha de Capitalism: A Global History. The Nation, jun. 2026.
- COWEN, Tyler. Capitalism: A Global History, by Sven Beckert. Marginal Revolution, ago. 2025.
- SPERANZA, Clarice Gontarski. Cadeias produtivas e história global do trabalho: uma leitura de Empire of Cotton, de Sven Beckert. ANPUH, com referência a VRIES, Peer (2017).