Opinião · Geopolítica

Mark Carney escolheu o vocabulário de um ex-banqueiro central para dizer algo que nenhum primeiro-ministro canadense havia dito em público. Na entrevista ao The New York Times publicada na quarta-feira, 23 de setembro, pressionado sobre se levava a sério a ideia de Donald Trump de transformar o Canadá no 51º estado americano, Carney admitiu ter examinado o que chamou de risco extremo de cauda: a hipótese de os Estados Unidos ordenarem uma ação militar contra seu país.1 Não é o cenário-base, disse ele, mas seria irresponsável não se preparar. Recusou-se a detalhar o que essa preparação envolveu.2

A frase precisa ser lida com a mesma precisão com que foi dita. Carney não anunciou tropas na fronteira nem previu uma invasão. Disse que o impensável entrou na planilha de riscos de um aliado da Otan e membro do G7, e escolheu dizê-lo em Manhattan, a poucos quilômetros do poder que motivou o cálculo. O gesto é o recado. Quando o chefe de governo do país mais integrado à economia americana passa a tratar uma agressão dos Estados Unidos como risco a ser gerenciado, a pergunta deixa de ser se Washington mudou. Passa a ser quem, no continente, ainda tem condições de dizer não.

O mapa que se desenha

Os sinais acumulados em 2026 permitem uma leitura incômoda. Em 3 de janeiro, uma operação militar americana em Caracas capturou Nicolás Maduro e o levou para Nova York.3 No Canadá, a pressão veio pelo comércio, com tarifas que chegaram a 50% sobre certos produtos no fim de agosto, depois do colapso das negociações, e por gestos simbólicos como o decreto que rebatizou o Lago Ontário de "Lake America".4 A Estratégia de Segurança Nacional divulgada pela Casa Branca no fim de 2025 já havia recolocado a Doutrina Monroe como referência explícita para o hemisfério.5

Juntas, essas peças dão corpo à hipótese de um mundo repartido em esferas de influência: as Américas sob tutela de Washington, enquanto China e Rússia disputam ou acomodam o restante. É uma hipótese, não um plano documentado, e deve ser tratada como tal. Mas é com ela que chancelarias sérias estão trabalhando. O próprio Planalto a nomeou quando, em janeiro, Lula e a presidente mexicana Claudia Sheinbaum rejeitaram publicamente a visão que tenta dividir o mundo em zonas de influência das grandes potências.3

Nesse desenho, o Brasil é o outro grande entrave, desta vez ao sul. Nenhum país latino-americano reúne, ao mesmo tempo, escala econômica, peso no Brics, uma agenda ambiental com projeção própria e um Judiciário que condenou um ex-presidente aliado de Trump. A resposta americana veio em camadas. Primeiro, a tarifa de 50% anunciada em julho de 2025, com justificativa abertamente ligada ao julgamento de Jair Bolsonaro.6 Depois, com roupagem técnica, a investigação da Seção 301, que apontou práticas brasileiras em comércio digital, pagamentos eletrônicos, etanol, propriedade intelectual, desmatamento e combate à corrupção7 e resultou numa tarifa adicional de 25%, confirmada em 15 de julho de 2026.8

Dois pontos de apoio da mesma alavanca

É nesse contexto que a aproximação entre Brasília e Ottawa deixa de ser nota de rodapé diplomática. Em janeiro, Lula e Carney condenaram juntos o uso da força sem amparo na Carta da ONU e combinaram acelerar o acordo entre Mercosul e Canadá.3 Em março, negociadores dos dois lados descreviam as conversas como excepcionalmente rápidas e projetavam a assinatura para o segundo semestre.9 Carney, por sua vez, mantém sob revisão a compra de 88 caças F-3510 e estuda reduzir a dependência da Starlink.1 Cada governo, a seu modo, faz a mesma coisa: diminui a superfície de exposição a um único parceiro.

O ponto central, porém, não está no que cada país faz isoladamente, e sim na interdependência entre as duas posturas. Resistir a uma potência hegemônica é um problema de coordenação. Enquanto dois países relevantes do continente sustentam a mesma posição, cada um divide com o outro o custo político de dizer não. Se um deles cede e aceita integralmente os termos de Washington, o outro passa a ser o único a resistir, e o preço da resistência sobe para quem ficou. O isolado vira exemplo. A lógica é conhecida de qualquer negociação comercial: a pressão sobre quem negocia sozinho é sempre maior do que sobre quem negocia acompanhado.

Se um dos dois cede, o outro passa a ser o único a resistir, e o preço da resistência sobe para quem ficou.

Canadá e Brasil funcionam hoje como dois pontos de apoio, um ao norte e outro ao sul, de uma mesma alavanca: a ideia de que o continente não precisa escolher entre obediência e ruptura. A estabilidade desse arranjo depende de os dois continuarem de pé ao mesmo tempo.

Outubro como variável

Do lado canadense, a direção está dada. Do lado brasileiro, será definida em 4 de outubro, ou no segundo turno, em 25 de outubro. A pesquisa Datafolha realizada de 1º a 3 de setembro mostrou Lula com 38% no primeiro turno e Flávio Bolsonaro com 32%, com empate técnico num eventual segundo turno, 46% a 44%.11

Não cabe a este texto dizer em quem votar. Cabe registrar que a relação com Washington deixou de ser tema acessório da campanha e que as posições já estão documentadas. Em julho, durante a consulta pública da Seção 301, Flávio Bolsonaro encaminhou ao governo americano um documento pedindo o adiamento da tarifa, não sua revogação, sob o argumento de que a medida fortaleceria eleitoralmente o governo.12 O governo Lula manteve a negociação técnica conduzida por Geraldo Alckmin e evitou retaliações imediatas, o que também é uma escolha com custos para os setores atingidos. São duas leituras distintas sobre como lidar com o mesmo poder, e o eleitor tem o direito de conhecê-las em detalhe.

A pergunta que cada campanha deveria responder com clareza é simples. Diante da próxima exigência de Washington, qual é o limite? Não o discurso sobre soberania, que todos fazem, mas o ponto concreto em que o próximo governo diria não, e o que faria no dia seguinte.

Gestão de risco não é retórica

O que Carney descreveu ao New York Times não foi bravata. Foi método: listar cenários extremos, estimar danos, preparar respostas e reduzir dependências antes que elas virem instrumentos de pressão. É o contrário da improvisação. O Brasil, com qualquer governo que saia das urnas, precisaria fazer o mesmo exercício com a mesma frieza, mapeando onde está exposto (tecnologia, defesa, sistemas de pagamento, dados, fertilizantes, destinos de exportação) e construindo alternativas em cada frente.

A diferença entre autonomia e submissão, no mundo que se desenha, não será decidida em discurso de palanque. Será decidida pela quantidade de alternativas que cada país tiver quando a próxima exigência chegar. O Canadá já começou a construir as suas. Em outubro, o Brasil diz se continua construindo as dele, e se Ottawa terá ou não companhia no continente.

Perguntas frequentes

O que Mark Carney disse ao New York Times?

Em entrevista publicada em 23 de setembro de 2026, o primeiro-ministro do Canadá afirmou ter examinado o risco de uma ação militar dos Estados Unidos contra o país, classificando-o como risco extremo de cauda: improvável, fora do cenário-base, mas grave o bastante para exigir preparação. Ele não detalhou quais medidas foram tomadas.

O que significa "risco extremo de cauda"?

É um termo de finanças e gestão de risco para eventos muito raros, mas de impacto devastador, que tendem a ser ignorados justamente por serem improváveis. Carney usou a expressão para indicar que considera a hipótese remota, e não iminente.

Por que Brasil e Canadá aparecem como polos de resistência a Trump?

Os dois países estão sob tarifas americanas elevadas, condenaram juntos a operação militar dos EUA na Venezuela, aceleram um acordo comercial entre Mercosul e Canadá e buscam reduzir a dependência de Washington. Por serem as duas maiores economias do continente fora dos EUA a manter essa postura, cada um divide com o outro o custo político de resistir.

Como a eleição brasileira pode afetar essa relação?

A eleição de 4 de outubro, com possível segundo turno em 25 de outubro, definirá a postura do Brasil diante de Washington pelos próximos quatro anos. Os principais candidatos já têm posições registradas sobre as tarifas americanas, e a escolha tende a influenciar se o Canadá continuará a ter um parceiro de peso no continente.

Artigo de opinião inspirado na entrevista de Mark Carney ao The New York Times, publicada em 23 de setembro de 2026, e em sua repercussão na imprensa canadense. O texto não reproduz nem traduz o original. As opiniões expressas são do autor e não representam posição institucional de O Tecido.