Quando um fenômeno climático é medido em graus, a notícia costuma parar no termômetro. O relatório divulgado nesta quarta-feira (23) pelo Climate Impact Lab, centro de pesquisa ligado à Universidade de Chicago, desloca a conversa para outra unidade de medida: vidas. Segundo a estimativa, o calor adicional produzido pelo super El Niño em curso pode estar associado a cerca de 451 mil mortes a mais do que o esperado em um ano típico até fevereiro de 2027. O Brasil ocupa a quinta posição entre os países mais afetados, com 13.271 óbitos adicionais projetados, atrás de Nigéria, Indonésia, Sudão e Índia, conforme a tabela publicada pelo The Guardian.[1]
O número não substitui a mortalidade que o aquecimento global já provoca; soma-se a ela. E deixa de fora as vítimas de secas, incêndios florestais e enchentes, eventos que costumam acompanhar o El Niño.[1] Trata-se, portanto, de um recorte deliberadamente estreito: mede apenas o efeito direto da temperatura sobre o risco de morrer. Mesmo assim, é o suficiente para colocar o país diante de uma pergunta que raramente aparece no debate público: quantas dessas mortes podem ser evitadas se a previsão chegar a tempo a quem decide?
O que o relatório mede, e como
A metodologia combina duas camadas. A primeira é um conjunto de relações estatísticas, já publicadas em periódicos científicos, que descrevem como a mortalidade reage à temperatura mês a mês em 24.378 regiões do mundo. A segunda são as previsões sazonais que indicam quanto mais quente será cada uma dessas regiões nos próximos meses por causa do El Niño. A linha de base é o número médio de mortes por calor em cada mês entre 1996 e 2025.[1] O relatório técnico informa que as previsões de temperatura vêm do serviço europeu Copernicus e que os intervalos apresentados correspondem à média com margem de cerca de dois erros-padrão.[2]
Pelas contas dos pesquisadores, as temperaturas em terra durante este El Niño podem ficar cerca de 1,2 °C acima do normal, com 44% mais dias de calor extremo do que em um ano típico.[3] O período contabilizado começa em junho de 2026, quando o evento se instalou, e termina em fevereiro de 2027, limite das previsões sazonais de seis meses disponíveis em setembro. Os próprios autores advertem que o calor anômalo deve persistir até meados de 2027 e que, por isso, a estimativa tende a crescer.[2] Segundo o Guardian, níveis elevados de mortalidade por calor devem se estender até junho ou julho do próximo ano.[1]
O contexto físico ajuda a entender a escala. Na segunda-feira (21), o El Niño atingiu a temperatura mais alta já registrada para o fenômeno, meses antes do pico esperado, a ponto de cientistas o descreverem com adjetivos pouco habituais na literatura técnica.[1] A Organização Meteorológica Mundial considera o evento consolidado e com tendência de intensificação, com auge previsto para novembro e dezembro.[4] Os pesquisadores tratam o episódio como um "cartão-postal do futuro": as temperaturas que ele traz se aproximam do que o aquecimento global deve tornar corriqueiro em cerca de 20 anos.[1]
Por que o Brasil aparece entre os cinco primeiros
A lista dos dez países mais afetados é dominada por nações tropicais da África e da Ásia. A região do Sahel, faixa semiárida ao sul do Saara, concentra sozinha cerca de 66,8 mil mortes adicionais projetadas. Os Estados Unidos, por comparação, aparecem com aproximadamente 3,5 mil.[1][3] A explicação oferecida por Michael Greenstone, cofundador do Climate Impact Lab e coautor do estudo, é direta: o calor adicional mata mais onde a temperatura de partida já é alta e onde há menos recursos para enfrentá-lo.[3]
Os dez países com mais mortes adicionais projetadas por calor ligado ao El Niño
Mortes adicionais estimadas até fevereiro de 2027, em relação à média de 1996 a 2025
No caso brasileiro, três fatores se sobrepõem. O primeiro é demográfico: uma população grande, urbana e em envelhecimento, com a parcela de idosos, a mais vulnerável ao calor, crescendo ano a ano. O segundo é geográfico: boa parte do território está na faixa tropical, onde a margem entre o calor habitual e o calor perigoso é estreita. O terceiro é social. A exposição ao calor no Brasil acompanha as linhas da desigualdade, como mostram os dados nacionais discutidos mais adiante.
Onde o calor deve pesar no território brasileiro
O quadro meteorológico nacional confirma a leitura do relatório. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), o El Niño tem mais de 90% de probabilidade de atingir a categoria de muito forte nesta primavera e 75% de chance de ser o evento mais intenso registrado desde 1950, segundo projeções do centro de previsão climática da agência americana NOAA. A influência esperada é de seca mais acentuada no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste, e de agravamento do excesso de chuvas no Sul e em parte do Sudeste.[5]
O boletim conjunto do INMET, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), da Agência Nacional de Águas (ANA), do Cemaden, do Serviço Geológico do Brasil e da Defesa Civil nacional indicou, já em junho, alta probabilidade de temperaturas acima da média no segundo semestre, com potencial de mais ondas de calor e incêndios florestais.[6] A nota técnica conjunta de INPE, INMET, Funceme e Censipam acrescenta que, na primavera, há sinais de condições mais secas em áreas de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Goiás e Bahia, e que a elevação das temperaturas reduz a umidade relativa do ar, um fator que agrava o estresse térmico.[7]
O Ministério da Saúde traduziu esse cenário em riscos sanitários por bioma: seca prolongada e incêndios na Amazônia Legal, estiagem severa no semiárido nordestino, estresse térmico e queimadas no Cerrado e no Pantanal, ondas de calor no Sudeste e chuvas intensas, com risco de inundações e deslizamentos, no Sul.[8] É justamente a resolução regional do modelo do Climate Impact Lab que interessa aos gestores. Como destacou o Guardian, os autores argumentam que as projeções apontam onde medidas de proteção podem ser concentradas.[1]
O que o Brasil já sabe sobre o calor que mata
A projeção internacional encontra respaldo em evidência produzida no país. Um estudo publicado em 2024 na revista PLOS ONE por pesquisadores da UFRJ, da Fiocruz, da UnB e da Universidade de Lisboa, liderado pelo meteorologista Djacinto Monteiro dos Santos, estimou 48.075 mortes atribuíveis a ondas de calor entre 2000 e 2018 nas 14 regiões metropolitanas mais populosas do Brasil, que reúnem cerca de 35% da população. O total supera em mais de vinte vezes o número de mortes por deslizamentos de terra no mesmo período.[9]
O trabalho documenta também uma mudança de patamar: na década de 2010, as metrópoles analisadas registraram de três a onze ondas de calor por ano, contra no máximo três nas décadas anteriores. As mortes se concentraram em doenças dos sistemas circulatório e respiratório, e as taxas foram mais altas entre mulheres, idosos, pessoas pretas e pardas e pessoas com menor escolaridade. Os autores concluíram que o calor extremo segue sendo um desastre negligenciado no Brasil.[9]
A negligência tem uma explicação estrutural. O calor raramente aparece como causa de morte na declaração de óbito; ele age como gatilho de um infarto, de uma insuficiência respiratória, de uma descompensação renal. Sem um corpo visível na enchente ou uma casa soterrada, a morte por calor se dilui nas estatísticas de doenças crônicas e só reaparece quando alguém compara o número de óbitos esperado com o observado. É isso que tanto o estudo brasileiro quanto o relatório de Chicago fazem, em escalas diferentes.
A resposta institucional: do alerta ao atendimento
Ao contrário de episódios anteriores, o Brasil chega a este El Niño com instrumentos formalizados. Em 30 de junho, o Ministério da Saúde lançou o AdaptaSUS, programa de adaptação da rede pública às mudanças climáticas com investimento previsto de R$ 9,8 bilhões até 2035, organizado em cinco eixos: vigilância e alertas, articulação federativa, comunicação com gestores e população, reforço da capacidade de atendimento e garantia de abastecimento de medicamentos, vacinas e água potável.[10] O plano reúne 27 metas e 93 ações.[11]
A peça central para o calor é o Painel Nacional de Excesso de Calor, que classifica o risco em quatro níveis, de "sem excesso" a "extremo", com alertas emitidos com até cinco dias de antecedência para todos os municípios e cruzamento com índices de vulnerabilidade socioeconômica. O painel sustenta o Protocolo Nacional de Calor Extremo, adaptado de uma experiência da Prefeitura do Rio de Janeiro desenvolvida com a Organização Pan-Americana da Saúde, com orientações disponíveis no aplicativo Meu SUS Digital.[8][12] O foco declarado é a população idosa, com recomendações como oferecer água mesmo sem sede, evitar exposição ao sol nos horários mais quentes e acompanhar o uso de medicamentos contínuos.[10] A Força Nacional do SUS também ganha bases regionais para responder a ondas de calor e enchentes.[11]
O relatório de Chicago lista as medidas que considera capazes de salvar vidas: previsões de calor mais precisas, centros de resfriamento onde a população possa se abrigar, reforço de equipes médicas nos períodos mais quentes e proteção a trabalhadores ao ar livre.[1] O Brasil avançou claramente no primeiro item. Nos demais, o desafio é de execução local. Centros de resfriamento ainda são raros nas cidades brasileiras, e a Norma Regulamentadora nº 15 do Ministério do Trabalho, que estabelece limites de exposição ocupacional ao calor, alcança com dificuldade quem trabalha na informalidade, como entregadores por aplicativo, ambulantes e trabalhadores da construção.[13] Um alerta emitido com cinco dias de antecedência só salva vidas se houver, na ponta, um lugar fresco para ir e um empregador obrigado a mudar o turno.
Contraponto: os limites de uma estimativa
- Revisão por pares pendente. A análise será submetida a um periódico científico, mas foi divulgada antes. Greenstone justificou a antecipação pela urgência do momento.[1] Os métodos de base são publicados; a aplicação específica ao El Niño de 2026 ainda não passou pelo crivo formal.
- Parâmetros não detalhados. A cobertura do jornal indiano The Hindu registrou que o relatório não explicita os coeficientes que ligam cada grau adicional a um número de mortes, detalhamento prometido para o artigo científico.[14]
- Incerteza em cadeia. A estimativa depende de previsões sazonais, que também têm margem de erro. Os próprios autores apresentam intervalos, e não um valor exato.[2]
- Comparações imperfeitas. O número nacional do relatório e as 48 mil mortes do estudo brasileiro não são diretamente comparáveis: um mede o efeito de toda a temperatura adicional sobre o país inteiro; o outro, apenas ondas de calor em 14 metrópoles, com metodologia e período distintos.
- Uma projeção que se quer ver errar. Se alertas, protocolos e adaptação funcionarem, o número observado será menor. Isso não invalida a estimativa; é precisamente o seu propósito declarado.
O que acompanhar até o fim do verão
- O pico do fenômeno, esperado para novembro e dezembro, e a evolução dos boletins mensais do INMET e parceiros.[4][6]
- Os alertas do Painel Nacional de Excesso de Calor em níveis "severo" e "extremo", e se os municípios acionam de fato os protocolos previstos.[8]
- Os dados de mortalidade do Sistema de Informações sobre Mortalidade entre dezembro e março, quando a comparação entre óbitos esperados e observados permitirá medir o impacto real.
- A duração do calor depois de fevereiro: os autores projetam efeitos elevados até meados de 2027, fora do horizonte da estimativa atual.[1][2]
O valor do relatório não está na precisão do número de cinco dígitos atribuído ao Brasil, mas em sua natureza: pela primeira vez, a mortalidade por calor é tratada como risco previsível, com endereço e calendário. A estrutura para responder existe no papel. Os próximos meses vão mostrar se ela chega às periferias, aos asilos e às calçadas onde o calor efetivamente mata.
Perguntas frequentes
Quantas mortes o super El Niño de 2026 pode causar?
Segundo o Climate Impact Lab, cerca de 451 mil mortes a mais do que em um ano típico até fevereiro de 2027, considerando apenas o efeito direto do calor. Mortes por secas, incêndios e enchentes não entram na conta.
Quantas mortes por calor são projetadas para o Brasil?
13.271 mortes adicionais, o que coloca o país em quinto lugar no ranking global, atrás de Nigéria, Indonésia, Sudão e Índia.
Por que países tropicais e mais pobres concentram as mortes?
Porque o calor extra é mais letal onde a temperatura de partida já é alta e onde há menos recursos, como refrigeração, serviços de saúde robustos e proteção a trabalhadores expostos.
Quais regiões do Brasil devem sentir mais o El Niño?
O INMET prevê seca mais intensa no Norte, Nordeste e Centro-Oeste e excesso de chuvas no Sul e em parte do Sudeste, com alta probabilidade de temperaturas acima da média e mais ondas de calor no segundo semestre.
O que o governo está fazendo contra o calor extremo?
O Ministério da Saúde lançou o AdaptaSUS (R$ 9,8 bilhões até 2035), o Painel Nacional de Excesso de Calor, com alertas com até cinco dias de antecedência, e o Protocolo Nacional de Calor Extremo, voltado sobretudo aos idosos.
A estimativa já foi revisada por pares?
Ainda não. Os métodos de base são publicados, mas a análise específica será submetida a um periódico. Os autores anteciparam a divulgação pela urgência do cenário.