Caderno SustentabilidadeClima e saúde pública23 de setembro de 2026
Nota de atribuição. Este artigo parte da reportagem de Damian Carrington, editor de meio ambiente do The Guardian, publicada em 23 de setembro de 2026: "Huge El Niño projected to cause 450,000 deaths in next six months". O texto a seguir não é tradução. Foi apurado de forma independente, com o relatório original do Climate Impact Lab, agências internacionais e fontes institucionais brasileiras, listadas ao final.

Quando um fenômeno climático é medido em graus, a notícia costuma parar no termômetro. O relatório divulgado nesta quarta-feira (23) pelo Climate Impact Lab, centro de pesquisa ligado à Universidade de Chicago, desloca a conversa para outra unidade de medida: vidas. Segundo a estimativa, o calor adicional produzido pelo super El Niño em curso pode estar associado a cerca de 451 mil mortes a mais do que o esperado em um ano típico até fevereiro de 2027. O Brasil ocupa a quinta posição entre os países mais afetados, com 13.271 óbitos adicionais projetados, atrás de Nigéria, Indonésia, Sudão e Índia, conforme a tabela publicada pelo The Guardian.[1]

O número não substitui a mortalidade que o aquecimento global já provoca; soma-se a ela. E deixa de fora as vítimas de secas, incêndios florestais e enchentes, eventos que costumam acompanhar o El Niño.[1] Trata-se, portanto, de um recorte deliberadamente estreito: mede apenas o efeito direto da temperatura sobre o risco de morrer. Mesmo assim, é o suficiente para colocar o país diante de uma pergunta que raramente aparece no debate público: quantas dessas mortes podem ser evitadas se a previsão chegar a tempo a quem decide?

O que o relatório mede, e como

A metodologia combina duas camadas. A primeira é um conjunto de relações estatísticas, já publicadas em periódicos científicos, que descrevem como a mortalidade reage à temperatura mês a mês em 24.378 regiões do mundo. A segunda são as previsões sazonais que indicam quanto mais quente será cada uma dessas regiões nos próximos meses por causa do El Niño. A linha de base é o número médio de mortes por calor em cada mês entre 1996 e 2025.[1] O relatório técnico informa que as previsões de temperatura vêm do serviço europeu Copernicus e que os intervalos apresentados correspondem à média com margem de cerca de dois erros-padrão.[2]

Pelas contas dos pesquisadores, as temperaturas em terra durante este El Niño podem ficar cerca de 1,2 °C acima do normal, com 44% mais dias de calor extremo do que em um ano típico.[3] O período contabilizado começa em junho de 2026, quando o evento se instalou, e termina em fevereiro de 2027, limite das previsões sazonais de seis meses disponíveis em setembro. Os próprios autores advertem que o calor anômalo deve persistir até meados de 2027 e que, por isso, a estimativa tende a crescer.[2] Segundo o Guardian, níveis elevados de mortalidade por calor devem se estender até junho ou julho do próximo ano.[1]

O contexto físico ajuda a entender a escala. Na segunda-feira (21), o El Niño atingiu a temperatura mais alta já registrada para o fenômeno, meses antes do pico esperado, a ponto de cientistas o descreverem com adjetivos pouco habituais na literatura técnica.[1] A Organização Meteorológica Mundial considera o evento consolidado e com tendência de intensificação, com auge previsto para novembro e dezembro.[4] Os pesquisadores tratam o episódio como um "cartão-postal do futuro": as temperaturas que ele traz se aproximam do que o aquecimento global deve tornar corriqueiro em cerca de 20 anos.[1]

Por que o Brasil aparece entre os cinco primeiros

A lista dos dez países mais afetados é dominada por nações tropicais da África e da Ásia. A região do Sahel, faixa semiárida ao sul do Saara, concentra sozinha cerca de 66,8 mil mortes adicionais projetadas. Os Estados Unidos, por comparação, aparecem com aproximadamente 3,5 mil.[1][3] A explicação oferecida por Michael Greenstone, cofundador do Climate Impact Lab e coautor do estudo, é direta: o calor adicional mata mais onde a temperatura de partida já é alta e onde há menos recursos para enfrentá-lo.[3]

Os dez países com mais mortes adicionais projetadas por calor ligado ao El Niño

Mortes adicionais estimadas até fevereiro de 2027, em relação à média de 1996 a 2025

Nigéria31.320 Indonésia19.251 Sudão17.430 Índia15.670 Brasil13.271 RD Congo10.014 Níger9.900 Chade7.953 Filipinas6.504 Vietnã5.566
Fonte: Climate Impact Lab (Universidade de Chicago), dados divulgados pelo The Guardian em 23/09/2026. Visualização: O Tecido. Valores são projeções, não contagens de óbitos ocorridos.

No caso brasileiro, três fatores se sobrepõem. O primeiro é demográfico: uma população grande, urbana e em envelhecimento, com a parcela de idosos, a mais vulnerável ao calor, crescendo ano a ano. O segundo é geográfico: boa parte do território está na faixa tropical, onde a margem entre o calor habitual e o calor perigoso é estreita. O terceiro é social. A exposição ao calor no Brasil acompanha as linhas da desigualdade, como mostram os dados nacionais discutidos mais adiante.

Onde o calor deve pesar no território brasileiro

O quadro meteorológico nacional confirma a leitura do relatório. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), o El Niño tem mais de 90% de probabilidade de atingir a categoria de muito forte nesta primavera e 75% de chance de ser o evento mais intenso registrado desde 1950, segundo projeções do centro de previsão climática da agência americana NOAA. A influência esperada é de seca mais acentuada no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste, e de agravamento do excesso de chuvas no Sul e em parte do Sudeste.[5]

O boletim conjunto do INMET, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), da Agência Nacional de Águas (ANA), do Cemaden, do Serviço Geológico do Brasil e da Defesa Civil nacional indicou, já em junho, alta probabilidade de temperaturas acima da média no segundo semestre, com potencial de mais ondas de calor e incêndios florestais.[6] A nota técnica conjunta de INPE, INMET, Funceme e Censipam acrescenta que, na primavera, há sinais de condições mais secas em áreas de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Goiás e Bahia, e que a elevação das temperaturas reduz a umidade relativa do ar, um fator que agrava o estresse térmico.[7]

O Ministério da Saúde traduziu esse cenário em riscos sanitários por bioma: seca prolongada e incêndios na Amazônia Legal, estiagem severa no semiárido nordestino, estresse térmico e queimadas no Cerrado e no Pantanal, ondas de calor no Sudeste e chuvas intensas, com risco de inundações e deslizamentos, no Sul.[8] É justamente a resolução regional do modelo do Climate Impact Lab que interessa aos gestores. Como destacou o Guardian, os autores argumentam que as projeções apontam onde medidas de proteção podem ser concentradas.[1]

O que o Brasil já sabe sobre o calor que mata

A projeção internacional encontra respaldo em evidência produzida no país. Um estudo publicado em 2024 na revista PLOS ONE por pesquisadores da UFRJ, da Fiocruz, da UnB e da Universidade de Lisboa, liderado pelo meteorologista Djacinto Monteiro dos Santos, estimou 48.075 mortes atribuíveis a ondas de calor entre 2000 e 2018 nas 14 regiões metropolitanas mais populosas do Brasil, que reúnem cerca de 35% da população. O total supera em mais de vinte vezes o número de mortes por deslizamentos de terra no mesmo período.[9]

O trabalho documenta também uma mudança de patamar: na década de 2010, as metrópoles analisadas registraram de três a onze ondas de calor por ano, contra no máximo três nas décadas anteriores. As mortes se concentraram em doenças dos sistemas circulatório e respiratório, e as taxas foram mais altas entre mulheres, idosos, pessoas pretas e pardas e pessoas com menor escolaridade. Os autores concluíram que o calor extremo segue sendo um desastre negligenciado no Brasil.[9]

A negligência tem uma explicação estrutural. O calor raramente aparece como causa de morte na declaração de óbito; ele age como gatilho de um infarto, de uma insuficiência respiratória, de uma descompensação renal. Sem um corpo visível na enchente ou uma casa soterrada, a morte por calor se dilui nas estatísticas de doenças crônicas e só reaparece quando alguém compara o número de óbitos esperado com o observado. É isso que tanto o estudo brasileiro quanto o relatório de Chicago fazem, em escalas diferentes.

Pela primeira vez, a mortalidade por calor ganha algo parecido com uma previsão do tempo: um número, um lugar e um prazo.

A resposta institucional: do alerta ao atendimento

Ao contrário de episódios anteriores, o Brasil chega a este El Niño com instrumentos formalizados. Em 30 de junho, o Ministério da Saúde lançou o AdaptaSUS, programa de adaptação da rede pública às mudanças climáticas com investimento previsto de R$ 9,8 bilhões até 2035, organizado em cinco eixos: vigilância e alertas, articulação federativa, comunicação com gestores e população, reforço da capacidade de atendimento e garantia de abastecimento de medicamentos, vacinas e água potável.[10] O plano reúne 27 metas e 93 ações.[11]

A peça central para o calor é o Painel Nacional de Excesso de Calor, que classifica o risco em quatro níveis, de "sem excesso" a "extremo", com alertas emitidos com até cinco dias de antecedência para todos os municípios e cruzamento com índices de vulnerabilidade socioeconômica. O painel sustenta o Protocolo Nacional de Calor Extremo, adaptado de uma experiência da Prefeitura do Rio de Janeiro desenvolvida com a Organização Pan-Americana da Saúde, com orientações disponíveis no aplicativo Meu SUS Digital.[8][12] O foco declarado é a população idosa, com recomendações como oferecer água mesmo sem sede, evitar exposição ao sol nos horários mais quentes e acompanhar o uso de medicamentos contínuos.[10] A Força Nacional do SUS também ganha bases regionais para responder a ondas de calor e enchentes.[11]

O relatório de Chicago lista as medidas que considera capazes de salvar vidas: previsões de calor mais precisas, centros de resfriamento onde a população possa se abrigar, reforço de equipes médicas nos períodos mais quentes e proteção a trabalhadores ao ar livre.[1] O Brasil avançou claramente no primeiro item. Nos demais, o desafio é de execução local. Centros de resfriamento ainda são raros nas cidades brasileiras, e a Norma Regulamentadora nº 15 do Ministério do Trabalho, que estabelece limites de exposição ocupacional ao calor, alcança com dificuldade quem trabalha na informalidade, como entregadores por aplicativo, ambulantes e trabalhadores da construção.[13] Um alerta emitido com cinco dias de antecedência só salva vidas se houver, na ponta, um lugar fresco para ir e um empregador obrigado a mudar o turno.

Contraponto: os limites de uma estimativa

  • Revisão por pares pendente. A análise será submetida a um periódico científico, mas foi divulgada antes. Greenstone justificou a antecipação pela urgência do momento.[1] Os métodos de base são publicados; a aplicação específica ao El Niño de 2026 ainda não passou pelo crivo formal.
  • Parâmetros não detalhados. A cobertura do jornal indiano The Hindu registrou que o relatório não explicita os coeficientes que ligam cada grau adicional a um número de mortes, detalhamento prometido para o artigo científico.[14]
  • Incerteza em cadeia. A estimativa depende de previsões sazonais, que também têm margem de erro. Os próprios autores apresentam intervalos, e não um valor exato.[2]
  • Comparações imperfeitas. O número nacional do relatório e as 48 mil mortes do estudo brasileiro não são diretamente comparáveis: um mede o efeito de toda a temperatura adicional sobre o país inteiro; o outro, apenas ondas de calor em 14 metrópoles, com metodologia e período distintos.
  • Uma projeção que se quer ver errar. Se alertas, protocolos e adaptação funcionarem, o número observado será menor. Isso não invalida a estimativa; é precisamente o seu propósito declarado.

O que acompanhar até o fim do verão

  • O pico do fenômeno, esperado para novembro e dezembro, e a evolução dos boletins mensais do INMET e parceiros.[4][6]
  • Os alertas do Painel Nacional de Excesso de Calor em níveis "severo" e "extremo", e se os municípios acionam de fato os protocolos previstos.[8]
  • Os dados de mortalidade do Sistema de Informações sobre Mortalidade entre dezembro e março, quando a comparação entre óbitos esperados e observados permitirá medir o impacto real.
  • A duração do calor depois de fevereiro: os autores projetam efeitos elevados até meados de 2027, fora do horizonte da estimativa atual.[1][2]

O valor do relatório não está na precisão do número de cinco dígitos atribuído ao Brasil, mas em sua natureza: pela primeira vez, a mortalidade por calor é tratada como risco previsível, com endereço e calendário. A estrutura para responder existe no papel. Os próximos meses vão mostrar se ela chega às periferias, aos asilos e às calçadas onde o calor efetivamente mata.

Perguntas frequentes

Quantas mortes o super El Niño de 2026 pode causar?

Segundo o Climate Impact Lab, cerca de 451 mil mortes a mais do que em um ano típico até fevereiro de 2027, considerando apenas o efeito direto do calor. Mortes por secas, incêndios e enchentes não entram na conta.

Quantas mortes por calor são projetadas para o Brasil?

13.271 mortes adicionais, o que coloca o país em quinto lugar no ranking global, atrás de Nigéria, Indonésia, Sudão e Índia.

Por que países tropicais e mais pobres concentram as mortes?

Porque o calor extra é mais letal onde a temperatura de partida já é alta e onde há menos recursos, como refrigeração, serviços de saúde robustos e proteção a trabalhadores expostos.

Quais regiões do Brasil devem sentir mais o El Niño?

O INMET prevê seca mais intensa no Norte, Nordeste e Centro-Oeste e excesso de chuvas no Sul e em parte do Sudeste, com alta probabilidade de temperaturas acima da média e mais ondas de calor no segundo semestre.

O que o governo está fazendo contra o calor extremo?

O Ministério da Saúde lançou o AdaptaSUS (R$ 9,8 bilhões até 2035), o Painel Nacional de Excesso de Calor, com alertas com até cinco dias de antecedência, e o Protocolo Nacional de Calor Extremo, voltado sobretudo aos idosos.

A estimativa já foi revisada por pares?

Ainda não. Os métodos de base são publicados, mas a análise específica será submetida a um periódico. Os autores anteciparam a divulgação pela urgência do cenário.