Caderno Saúde

Um novo estudo publicado na revista The Lancet Planetary Health reduz drasticamente o limiar de calor que o corpo de uma pessoa idosa consegue suportar, antecipando riscos que a ciência climática vinha subestimando havia anos.

O corpo humano tem um termostato interno, mas ele não envelhece bem. Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade Stanford e publicada nesta semana na The Lancet Planetary Health mostra que, com um aquecimento global de apenas 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, cerca de 22% da população mundial com mais de 60 anos, o equivalente a 290 milhões de pessoas, já enfrentaria calor perigoso por pelo menos um mês por ano. Para efeito de comparação, adultos jovens só chegariam a um nível de risco parecido em um cenário de 4°C de aquecimento, uma diferença que reposiciona o debate público sobre mudança climática como uma questão também geriátrica, e não apenas ambiental.

O estudo, assinado pelo pesquisador Qinqin Kong e colegas, parte de um conceito pouco conhecido fora dos laboratórios de fisiologia: o "estresse térmico incompensável", situação em que os mecanismos de resfriamento do corpo, como suor e dilatação dos vasos sanguíneos da pele, deixam de dar conta de manter a temperatura interna estável. Segundo a equipe de Stanford, essa condição pode ser tolerada por curtos períodos sem risco de morte, mas torna-se perigosa, e eventualmente letal, quando se prolonga.

Por que o corpo envelhecido perde a batalha contra o calor

Bactérias, vírus e vacinas costumam dominar as manchetes de saúde, mas o calor extremo é, segundo dados do próprio Ministério da Saúde do Brasil, uma das ameaças mais silenciosas e mais desiguais para a população idosa. O envelhecimento reduz a produção de suor, atenua a dilatação dos vasos da pele e diminui o débito cardíaco, três engrenagens essenciais do sistema de resfriamento do corpo. Câmaras climáticas controladas mostram que a temperatura ambiente na qual uma pessoa idosa perde a capacidade de manter a temperatura corporal estável pode ser entre 4,7°C e 7,5°C mais baixa do que em um adulto jovem, dependendo da umidade do ar.

Essa fragilidade fisiológica não vem sozinha. Pessoas mais velhas costumam conviver com doenças crônicas, como hipertensão, diabetes e problemas cardiovasculares e respiratórios, que se descompensam com mais facilidade diante do calor. No Brasil, levantamentos de instituições como o Centro Universitário São Camilo apontam que cerca de 70% das internações relacionadas a doenças provocadas pelo calor envolvem pessoas idosas.

"A exposição a um calor incompensável não significa a morte imediata, mas uma exposição prolongada pode se tornar perigosa e, eventualmente, mortal."

Onde o perigo se concentra

O estudo identifica regiões específicas como as mais expostas ao chamado calor sofocante contínuo: o sul da Ásia, o oeste da África, o sudeste asiático, o leste da China e áreas do golfo Pérsico. Em cenários de aquecimento de 3°C a 4°C, a planície indo-gangética, entre Paquistão, norte da Índia e Bangladesh, e a costa do golfo Pérsico poderiam registrar calor perigoso ininterrupto, de dia e de noite, durante meses seguidos na temporada de monções, sem alívio noturno para o corpo se recuperar do acúmulo de calor diurno.

O Brasil não está entre as regiões mais críticas do estudo, mas está longe de ficar de fora do problema. Segundo estimativas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação apresentadas em parceria com a Fiocruz, ondas de calor podem ter contribuído para cerca de 120 mil mortes no país entre 2000 e 2019, e cerca de 80% dos óbitos atribuíveis ao fenômeno ocorreram entre pessoas com mais de 65 anos. Um estudo de doutorado da Universidade de São Paulo, com dados da capital paulista, associou especificamente as ondas de calor a um maior risco de acidente vascular cerebral entre idosos, sobretudo nas regiões periféricas da cidade, onde o acesso a ambientes climatizados costuma ser menor.

Contraponto

Nem todos os pesquisadores tratam os números do estudo como definitivos. A climatologista Sarah Perkins-Kirkpatrick, ouvida pela imprensa australiana sobre a pesquisa, destacou que o trabalho de Kong e colegas representa um avanço metodológico por detalhar riscos por faixa etária de forma inédita, mas pondera que projeções climáticas de longo prazo carregam incertezas inerentes aos modelos utilizados e às trajetórias futuras de emissões de gases de efeito estufa, que ainda dependem de decisões políticas e econômicas não tomadas. Os próprios autores do estudo testaram cenários alternativos, permitindo limiares de tolerância ao calor mais altos em climas já naturalmente quentes, e constataram que isso reduz um pouco as estimativas de exposição, mas não muda as conclusões centrais da pesquisa.

Um planeta que envelhece junto com o clima que esquenta

Os autores do estudo chamam atenção para um fator que amplifica o problema: a pirâmide populacional mundial está ficando mais velha justamente no momento em que o planeta esquenta mais rápido. O Brasil ilustra bem essa convergência. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a proporção de brasileiros com 60 anos ou mais quase dobrou entre 2000 e 2023, saltando de 8,7% para 15,6% da população, e já alcançava 16,6% em 2025. As projeções do próprio instituto indicam que, até 2070, cerca de 37,8% dos habitantes do país serão idosos, uma transição demográfica que, somada ao aquecimento global, tende a multiplicar o número de pessoas em situação de vulnerabilidade térmica nas próximas décadas.

Para os pesquisadores de Stanford, essa combinação pode gerar efeitos em cascata que vão além da saúde individual, incluindo deslocamento interno de populações, migração climática e pressão sobre sistemas de energia elétrica, à medida que mais pessoas passam a depender de ar-condicionado para sobreviver aos períodos mais quentes do ano.

O que dizem os especialistas sobre prevenção

O Ministério da Saúde brasileiro já orienta, em nota técnica voltada a profissionais e à população em geral, cuidados redobrados durante ondas de calor: manter ambientes frescos, usar ventiladores e ar-condicionado sempre que possível, recorrer a locais públicos climatizados como shoppings e centros comunitários, e monitorar sintomas em pessoas com doenças crônicas preexistentes. Um ponto reforçado por especialistas em geriatria é que idosos costumam ter menor percepção da sede, o que exige oferecer líquidos com frequência, mesmo sem que a pessoa peça.

Kong e sua equipe defendem, na conclusão do estudo, que os planos de contingência contra o calor levem em conta explicitamente essa vulnerabilidade por faixa etária, com cidades preparadas para o calor extremo, redes elétricas confiáveis e sistemas de alerta que não apenas informem que está quente, mas indiquem quando agir e para onde ir em busca de um ambiente seguro.

Perguntas frequentes

Por que pessoas idosas sentem mais os efeitos do calor do que os jovens?

Porque o envelhecimento reduz a produção de suor, a dilatação dos vasos sanguíneos da pele e o débito cardíaco, mecanismos essenciais para dissipar calor. Some-se a isso a maior prevalência de doenças crônicas e o uso de medicamentos que interferem na termorregulação.

O que é "estresse térmico incompensável"?

É o ponto em que os sistemas de resfriamento do corpo são superados pelo calor e pela umidade do ambiente, impedindo que a temperatura interna se mantenha estável. Não significa morte imediata, mas a exposição prolongada pode se tornar perigosa.

Com 1,5°C de aquecimento global, quantos idosos estarão em risco?

Segundo o estudo publicado na The Lancet Planetary Health, cerca de 22% da população mundial com 60 anos ou mais, o equivalente a 290 milhões de pessoas, já enfrentaria calor perigoso por pelo menos um mês por ano nesse cenário.

Quais regiões do mundo correm mais risco?

O estudo aponta o sul da Ásia, o oeste da África, o sudeste asiático, o leste da China e o golfo Pérsico como as áreas mais expostas, com destaque para a planície indo-gangética em cenários de aquecimento mais severo.

O calor extremo já afeta os idosos no Brasil?

Sim. Estimativas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em parceria com a Fiocruz associam ondas de calor a cerca de 120 mil mortes no país entre 2000 e 2019, das quais aproximadamente 80% ocorreram entre pessoas com mais de 65 anos.

Este artigo foi inspirado na reportagem "El planeta se acerca a temperaturas que millones de mayores no podrán tolerar: 'Muchas más personas estarán en riesgo'", publicada pelo jornal El País em 17 de agosto de 2026 e assinada por Jessica Mouzo. O texto original pode ser lido em: elpais.com.

Referências

  1. Mouzo, Jessica. "El planeta se acerca a temperaturas que millones de mayores no podrán tolerar." El País, 17 ago. 2026. Disponível em: elpais.com.
  2. Kong, Q. et al. "Exceeding human heat tolerance in a warming, ageing world: a global projection modelling study." The Lancet Planetary Health, 2026. Disponível em: thelancet.com.
  3. Stanford Report. "Study maps extreme heat risks for older adults." Stanford University, 2026. Disponível em: news.stanford.edu.
  4. ABC News Austrália. "People over 60 face heat exposure danger at lower temperatures, study suggests." 2026. Disponível em: abc.net.au.
  5. doClima / Fiocruz / Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. "Ondas de calor podem ter contribuído para cerca de 120 mil mortes no Brasil em duas décadas." 2026. Disponível em: doclima.com.br.
  6. Ministério da Saúde do Brasil. "Ondas de Calor." Portal Gov.br. Disponível em: gov.br/saude.
  7. Centro Universitário São Camilo. "Especialista explica por que idosos são mais vulneráveis ao calor." Disponível em: saocamilo-sp.br.
  8. Biblioteca Virtual em Saúde, Ministério da Saúde. "Ondas de frio e de calor aumentam risco de mortalidade entre idosos." Pesquisa USP/FFLCH. Disponível em: bvsms.saude.gov.br.
  9. Agência Gov / IBGE. "Projeção do IBGE mostra que população do país vai parar de crescer em 2041." 2024. Disponível em: agenciagov.ebc.com.br.
  10. Poder360 / IBGE. "Idosos chegam a 16,6% da população brasileira." 17 abr. 2026. Disponível em: poder360.com.br.

Ewerton Lopes — Curador Editorial