Política · Ordem Econômica Global

Em um artigo publicado nesta semana, os pesquisadores chineses Lan Qingxin e Pan Juncheng, da Universidade de Comércio e Economia Internacional de Pequim, propõem um deslocamento no vocabulário do BRICS. Não bastaria mais falar em resiliência de cadeias de suprimentos, a capacidade de um país continuar recebendo insumos e escoando produtos quando o comércio global é interrompido. O bloco precisaria mirar algo mais ambicioso: uma "resiliência de cadeia de desenvolvimento", termo que descreve a capacidade de economias emergentes não apenas resistirem a choques, mas construírem trajetórias mais autônomas de crescimento1.

A distinção não é apenas retórica. Segundo os autores, uma cadeia de suprimentos pode sobreviver a rupturas e, ainda assim, manter um país preso na base da cadeia de valor, vendendo matéria-prima e comprando de volta produtos de maior sofisticação tecnológica. É exatamente esse o ponto em que a discussão internacional sobre o BRICS encontra um dos dilemas mais antigos da economia brasileira.

Da segurança de suprimentos à disputa por valor agregado

O artigo do China Daily descreve um conjunto de frentes que o BRICS já movimenta: rotas marítimas e aéreas ligando cidades chinesas a mercados no Brasil e na África do Sul, o Corredor de Transporte Internacional Norte-Sul entre Rússia, Índia e Irã, e um modelo de desembaraço aduaneiro simplificado na rota Xiamen-Durban, baseado em compartilhamento de informação e reconhecimento regulatório mútuo1. Os autores também destacam que o bloco concentra mais de 40% da oferta global de petróleo e mais de 70% das reservas mundiais de terras raras, o que dá à coalizão um peso estrutural em cadeias energéticas e minerais críticas1.

Mas a proposta central do texto vai além de infraestrutura e recursos. Os pesquisadores argumentam que o passo seguinte é conectar exploração de recursos, processamento, manufatura e mercado consumidor dentro do próprio bloco, para que "mais valor seja criado localmente"1, em vez de exportado como insumo bruto para ser industrializado em outro lugar. É aqui que o caso brasileiro serve como teste de realidade para a tese chinesa.

Uma cadeia de suprimentos pode sobreviver a uma crise e, mesmo assim, deixar um país preso na base da cadeia de valor.

O gargalo brasileiro: mais BRICS, mas ainda mais commodity

A literatura econômica brasileira tem um nome para o fenômeno que a proposta chinesa tenta evitar: reprimarização. Estudos de universidades federais, entre elas UFC e UFRGS, documentam que, à exceção do período de 1979 a 2009, a pauta exportadora do país tem sido historicamente dominada por produtos primários e semimanufaturados, com a China figurando hoje como o principal destino dessas exportações2. Análises regionais mostram que estados do Centro-Oeste, impulsionados pelo agronegócio, chegaram a responder por cerca de um quarto das exportações brasileiras para o mercado chinês, um fluxo concentrado em commodities agrícolas e minerais, com efeito limitado sobre a geração de emprego formal industrial3.

O risco, portanto, não é hipotético. Se o BRICS de fato ampliar sua participação no comércio brasileiro sem alterar a composição do que o país exporta, o resultado prático pode ser mais volume de negócios com o mesmo perfil de baixo valor agregado que a própria proposta de "cadeia de desenvolvimento" diz querer superar.

NDB e desdolarização: onde o Brasil já se move

Há, no entanto, duas frentes em que o Brasil tem avançado de forma concreta. A primeira é o financiamento via Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o banco multilateral criado pelo BRICS em Fortaleza, em 2014. Segundo dados apresentados pela presidente da instituição, Dilma Rousseff, o NDB já aprovou cerca de US$ 6,3 bilhões em financiamento para 29 projetos no Brasil, concentrados em infraestrutura, transição energética e, mais recentemente, hospitais inteligentes com uso de inteligência artificial4. Globalmente, o banco soma 141 projetos aprovados e cerca de US$ 44 bilhões em financiamento até junho de 20261, com meta institucional de elevar para 30% a fatia da carteira denominada em moedas locais5, reduzindo a exposição de tomadores de empréstimo à variação cambial do dólar.

A segunda frente é o uso de moeda local no comércio bilateral. O Brasil já opera parte de suas trocas com a China fora do dólar desde 2023 e, em fevereiro de 2026, durante visita a Nova Délhi, o presidente Lula defendeu que o mesmo modelo seja adotado com a Índia, dentro do acordo comercial entre o Mercosul e o país asiático6. Segundo relatos da presidência rotativa do bloco, o comércio recíproco entre os países-membros já supera US$ 1 trilhão, com parcela expressiva das transações liquidada em moedas nacionais, embora o avanço para uma moeda única do BRICS permaneça, segundo o próprio Itamaraty, fora da pauta imediata de negociação por razões técnicas e políticas6.

Contraponto

Nem todo analista brasileiro lê a "resiliência de cadeia de desenvolvimento" como um projeto já em curso. Parte da literatura sobre o NDB no país aponta que a atuação do banco, embora crescente, ainda é modesta frente ao volume total de investimento em infraestrutura de que o Brasil precisa, e que a presença de know how estrangeiro em setores estratégicos, como saúde digital, levanta a mesma pergunta que a China Daily tenta responder para o Sul Global como um todo: quem, de fato, captura o valor tecnológico gerado dentro dessas parcerias. Sem uma política industrial doméstica que condicione o financiamento externo a transferência de tecnologia e adensamento produtivo, o risco é que o BRICS funcione mais como canal de crédito barato do que como motor de mudança estrutural na pauta exportadora brasileira.

O que está em jogo para o Brasil

A proposta do China Daily é, em essência, um convite para que o Sul Global pare de medir seu próprio sucesso apenas pela capacidade de manter o comércio fluindo em momentos de crise. Os autores fecham o texto com uma pergunta que serve tanto para o bloco quanto para cada país-membro isoladamente: os países conseguem construir as capacidades, instituições e capital humano necessários para moldar seu próprio destino econômico, ou continuarão apenas trocando de fornecedor quando o antigo falha1?

Para o Brasil, a resposta depende menos do que o BRICS oferece em infraestrutura ou linhas de crédito e mais do que o país faz com esse espaço. O bloco pode abrir rotas comerciais, reduzir custos de transação e oferecer financiamento em condições mais estáveis. O que ele não faz sozinho é resolver a equação interna que sustenta décadas de reprimarização: política industrial, formação técnica e capacidade de retenção de tecnologia. Nesse sentido, a cúpula indiana do BRICS em 2026 e os próximos ciclos de aprovação de projetos do NDB funcionam como um teste, não apenas para o bloco, mas para a própria capacidade do Brasil de transformar acesso a capital em adensamento produtivo.

Perguntas frequentes

O que significa "resiliência de cadeia de desenvolvimento" no BRICS?

É um conceito apresentado por pesquisadores chineses que vai além da segurança de cadeias de suprimentos. Descreve a capacidade de países do Sul Global construírem capacidades produtivas, instituições e capital humano próprios, em vez de apenas garantirem o fluxo de comércio durante crises.

O Brasil já comercia em moeda local com outros países do BRICS?

Sim. O Brasil opera parte do comércio com a China fora do dólar desde 2023 e, em 2026, o governo brasileiro passou a defender a extensão desse modelo às trocas com a Índia, dentro do acordo comercial entre Mercosul e o país asiático.

Qual é o papel do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) no Brasil?

O NDB, banco multilateral criado pelo BRICS em 2014, financia projetos de infraestrutura, transição energética e saúde digital no Brasil. Até meados de 2025, havia aprovado cerca de US$ 6,3 bilhões em 29 projetos brasileiros.

O BRICS corre o risco de aprofundar a reprimarização da economia brasileira?

É um risco identificado por analistas. Se o comércio dentro do bloco crescer sem mudar o perfil do que o Brasil exporta, o país pode consolidar ainda mais sua posição como fornecedor de commodities, em vez de subir na cadeia de valor.

O BRICS pretende criar uma moeda única?

Segundo o Itamaraty, não há, até o momento, negociação formal para uma moeda comum do bloco. O foco atual está em ampliar o uso de moedas locais e em construir infraestrutura de pagamentos transfronteiriços, não em substituir as moedas nacionais.

Este artigo utiliza como ponto de partida a análise "BRICS can cement development-chain resilience", de Lan Qingxin e Pan Juncheng, publicada em 10 de setembro de 2026 pelo China Daily. O conteúdo original não foi reproduzido ou traduzido integralmente; trechos específicos foram creditados ao longo do texto. Leia o artigo completo em: chinadaily.com.cn.

Em números

>40% da oferta global de petróleo está nos países do BRICS >70% das reservas mundiais de terras raras estão no bloco US$ 44 bi financiados pelo NDB em 141 projetos até jun/2026 US$ 6,3 bi do NDB aplicados em 29 projetos no Brasil

Linha do tempo

  • 2001Termo BRIC é cunhado para agrupar Brasil, Rússia, Índia e China.
  • 2011África do Sul se junta ao bloco, formando o BRICS.
  • 2014Cúpula de Fortaleza cria o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB).
  • 2023-24Bloco se expande com Egito, Emirados Árabes, Arábia Saudita, Etiópia e Irã.
  • 2025Cúpula de líderes ocorre no Rio de Janeiro, sob presidência brasileira.
  • 2026Presidência rotativa passa à Índia, com cúpula prevista em Nova Délhi.

Glossário

Cadeia de desenvolvimento
Conceito que une resiliência comercial a capacidade produtiva, tecnológica e institucional de longo prazo.
Reprimarização
Aumento da participação de produtos primários e queda de manufaturados na pauta exportadora de um país.
NDB
Novo Banco de Desenvolvimento, instituição multilateral do BRICS sediada em Xangai, com escritório em São Paulo.
Desdolarização
Redução do uso do dólar como moeda de referência em comércio e financiamento internacionais.

Referências

  1. Lan Qingxin; Pan Juncheng. "BRICS can cement development-chain resilience". China Daily, 10 set. 2026.
  2. Estudos sobre reprimarização da pauta exportadora brasileira, Universidade Federal do Ceará (UFC) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
  3. "Reprimarização das exportações, estrutura produtiva e emprego formal no Centro-Oeste brasileiro", revista Redes.
  4. "Os projetos bilionários do banco do BRICS para financiar o desenvolvimento do Brasil", Revista Fórum.
  5. "Dilma: Banco do Brics terá 30% da carteira em moedas locais em 2026", Agência Brasil.
  6. "Brics reforça desdolarização e papel do Novo Banco de Desenvolvimento" e "Brics deve avançar no uso de moedas locais entre os países-membros", Agência Brasil.