Política · Geopolítica · Segurança nuclear
Na última semana de setembro, a Rússia entregou à OTAN um documento informal, um non-paper, avisando que usaria todo o seu arsenal, armas nucleares incluídas, caso países da aliança tentassem isolar o enclave de Kaliningrado. O texto ainda mencionava a hipótese de ataques a centros de decisão dos países-membros logo no início de um eventual conflito2. Um dia depois, no Clube Valdai, em Moscou, Vladimir Putin repetiu a advertência em público13. A resposta da aliança foi seca: a porta-voz Allison Hart condenou a retórica nuclear e classificou o comportamento russo como um "sinal de desespero".
A notícia, aqui, não é a ameaça. É a reação morna a ela. Em 2022, uma frase dessas paralisava chancelarias. Em 2026, ela é recebida como mais um capítulo de um repertório conhecido.
A tese: a coerção nuclear russa perdeu efeito
É esse o ponto de partida da coluna do comentarista Gideon Rachman, publicada pelo Financial Times em 5 de outubro. O título afirma que as ameaças nucleares de Putin já não funcionam, e o subtítulo acrescenta uma ressalva que merece atenção: o enfraquecimento da dissuasão russa tem consequências globais, e nem todas são positivas1.
A ressalva é o que torna o tema relevante para além da guerra na Ucrânia. Uma ameaça que perde credibilidade não desaparece. Ela pode ser substituída por gestos mais concretos, e gestos concretos, no campo nuclear, têm margem de erro muito menor do que discursos.
Quando a ameaça funcionava
Para entender o desgaste, é preciso reconhecer que a coerção russa teve resultados. Em março de 2022, o então presidente americano Joe Biden descartou o envio de tropas à Ucrânia sob o argumento de que um confronto direto entre OTAN e Rússia equivaleria a uma terceira guerra mundial. Nos anos seguintes, tanques, caças F-16, mísseis táticos, armas de longo alcance e defesa aérea chegaram a Kiev a conta-gotas, atrasados por debates sobre o que poderia provocar Moscou3.
Um estudo de 2023 da Chatham House, assinado pelo especialista Keir Giles e citado em análise recente da Newsweek, concluiu que a intimidação nuclear conseguiu restringir de forma substancial o apoio ocidental à Ucrânia, mesmo quando as ameaças eram pouco plausíveis3. Em outras palavras: o instrumento mais eficiente do arsenal russo foi justamente aquele que nunca saiu do silo.
Houve também um momento em que o risco foi real. George Perkovich, do programa de política nuclear do Carnegie Endowment, aponta setembro e outubro de 2022, quando as forças russas recuavam em Kharkiv e Kherson, como o único período da guerra em que as advertências de Moscou constituíram ameaça urgente. Segundo a mesma análise, a inteligência americana chegou a estimar que, num cenário extremo de colapso das linhas russas e perda da Crimeia, a chance de uso nuclear seria comparável a um cara ou coroa3.
Lituânia e Finlândia: o teste do blefe
O sinal mais claro de que o efeito se esgotou vem de dois vizinhos da Rússia. O artigo 137 da Constituição da Lituânia, redigido após o fim da ocupação soviética, proíbe armas de destruição em massa e bases militares estrangeiras no país. Em julho, os partidos com assento no Seimas concordaram em retirar a cláusula. O presidente Gitanas Nausėda disse que não há planos imediatos de receber armas nucleares e que o país continuará no Tratado de Não Proliferação5.
Em setembro, a Comissão de Assuntos Jurídicos do parlamento aprovou a emenda por 7 votos a 2, e a decisão final está prevista para o início de 20274. O rito exige duas votações em plenário, com intervalo de três meses e apoio de ao menos 94 dos 141 deputados, segundo a agência estatal russa TASS. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, respondeu que a Lituânia ficaria "na mira" das armas nucleares russas4. O ministro da Defesa lituano, Robertas Kaunas, replicou que o país, como todo membro da OTAN, já é alvo de Moscou, e descreveu a fala como intimidação sem relação com a realidade3.
A Finlândia percorreu caminho semelhante antes. Em julho, Helsinque concluiu a remoção das barreiras legais que impediam importar, transportar ou manter armas nucleares em seu território. Em setembro, o presidente Alexander Stubb anunciou a adesão à iniciativa francesa de "dissuasão avançada", lançada por Emmanuel Macron em 2 de março, que permite a parceiros participar de exercícios e consultas nucleares e, no limite, receber temporariamente elementos das forças estratégicas francesas. Alemanha, Polônia, Países Baixos, Bélgica, Grécia, Suécia, Dinamarca, Noruega e Reino Unido já cooperam com Paris no programa3.
A ameaça que nunca é executada vira ruído. O problema é o que uma potência nuclear faz quando percebe que suas palavras pararam de assustar.Leitura editorial de O Tecido
Nesta terça-feira, Peskov voltou a advertir Vilnius de que a mudança constitucional pode gerar uma nova rodada de escalada na região, enquanto o primeiro-ministro lituano, Mindaugas Sinkevičius, cobrava da OTAN um plano firme contra os ataques híbridos russos na Europa, segundo o boletim diário do Just Security10.
Por que essa não é uma notícia apenas boa
A perda de eficácia da retórica ocorre num momento em que as redes de proteção estão mais frágeis do que em qualquer outro período desde a Guerra Fria. Quatro fatores se somam.
O fim dos limites legais. O New START, último tratado que impunha tetos verificáveis aos arsenais estratégicos de Estados Unidos e Rússia, expirou em 5 de fevereiro de 2026 sem substituto. Pela primeira vez em mais de meio século, as duas maiores potências nucleares operam sem limites juridicamente vinculantes3. Com isso, desapareceu também uma fonte oficial de dados sobre os arsenais, o que torna a verificação independente mais difícil.
Arsenais em alta. O Anuário 2026 do SIPRI estima 12.187 ogivas no mundo em janeiro, das quais cerca de 9.745 em estoques militares disponíveis para uso. Rússia e Estados Unidos concentram cerca de 83% das ogivas utilizáveis. O instituto conclui que os Estados voltaram a tratar armas nucleares como instrumento de poder nacional, revertendo décadas de redução, enquanto crescem os riscos de erro de cálculo6. No caso russo, o número de ogivas implantadas em vetores subiu pelo quarto ano consecutivo e chegou a 1.796, o maior nível desde 20177.
Um regime multilateral enfraquecido. Em 22 de maio, a Conferência de Revisão do Tratado de Não Proliferação terminou sem documento final pela terceira vez consecutiva. O presidente da conferência, o vietnamita Do Hung Viet, classificou o resultado como desastroso para o regime, de acordo com a Arms Control Today. Na rodada final, dois parágrafos foram retirados do rascunho, aparentemente por objeção russa8.
A tentação do sinal físico. A doutrina russa foi ampliada em novembro de 2024, alargando as circunstâncias em que Moscou admite o uso da bomba. Se a Rússia concluir que discursos não bastam, o leque de alternativas é conhecido entre especialistas: exercícios nucleares fora do padrão, elevação de níveis de alerta, dispersão ostensiva de forças com capacidade nuclear e, no extremo, retirada de ogivas dos depósitos em direção aos vetores3. O SIPRI registra ainda que a Rússia começou a construir em Belarus uma base para o míssil Oreshnik, que pode carregar ogiva convencional ou nuclear6.
Há, por fim, a dimensão da segurança nuclear civil. O Institute for the Study of War relatou plano russo, não confirmado e revelado pelo New York Times, de atacar a rede elétrica ucraniana no inverno, inclusive com mísseis lançados nas proximidades das três usinas nucleares em operação no país, para desconectá-las do sistema9. No sentido oposto, a Rosatom acusou drones ucranianos de atingir duas instalações da usina de Zaporíjia, sob controle russo, matando uma pessoa; a estatal afirmou não haver risco à segurança nuclear10. Nenhuma dessas ações é uma ameaça nuclear no sentido clássico, mas todas elevam o risco radiológico sem cruzar formalmente o limiar atômico.
Três objeções à tese do "blefe esgotado"
A ameaça funcionou quando importava. Declarar hoje que a coerção russa fracassou é uma leitura retrospectiva. Nos dois primeiros anos da guerra, ela moldou o ritmo e o tipo de ajuda militar enviada à Ucrânia. Que o efeito tenha diminuído não significa que tenha sido inútil para Moscou.
A visão de Moscou. Para o governo russo e para analistas da escola realista, a remoção de proibições nucleares em países vizinhos, os exercícios da OTAN perto de Kaliningrado e a extensão do guarda-chuva francês são, em si, movimentos de escalada. A embaixada russa na Irlanda afirmou ter informações sobre um suposto bloqueio aéreo e naval do enclave, sem apresentar provas; a OTAN sustenta que suas atividades são defensivas2.
O custo da complacência. Saber distinguir teatro nuclear de ameaça real é um ganho, mas basta um erro de leitura. A própria análise que documenta o desgaste da retórica lembra que, em 2022, houve semanas de risco concreto3. Tratar toda advertência como encenação pode levar governos a ignorar o sinal que importa.
O ângulo brasileiro
O Brasil é um dos países que mais dependem da arquitetura que hoje está sob pressão. A Constituição Federal, no artigo 21, inciso XXIII, só admite atividade nuclear no território nacional para fins pacíficos e com aprovação do Congresso12. O país ratificou o Tratado de Tlatelolco, que veda armas nucleares na América Latina, e aderiu ao TNP em 1998.
O Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares (TPAN), assinado em 2017 por Michel Temer, primeira autoridade a firmá-lo e resultado de negociação com participação ativa do Itamaraty, continua sem ratificação. Em dezembro de 2025, a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara aprovou, em votação simbólica, parecer contrário ao tratado, sob o argumento de que o país não deve abrir mão de meios de defesa que considere soberanamente adequados. O texto ainda passará pela CCJ e pelo plenário11.
O desgaste da coerção russa coloca essa discussão doméstica em outra perspectiva. Se ameaças perdem valor e tratados expiram, a lição que muitos Estados podem extrair é que só a posse de armas, ou a hospedagem de armas aliadas, garante segurança. Para um país não nuclear, que construiu sua projeção internacional sobre a defesa do desarmamento e do uso pacífico da energia atômica, esse é o cenário menos favorável. A erosão do tabu nuclear afeta diretamente a posição negociadora brasileira, inclusive como parceiro da Rússia no BRICS e como defensor do multilateralismo em fóruns como o TNP.
O que observar nos próximos meses
- Votação final no Seimas lituano, prevista para o início de 2027. Uma aprovação ampla consolidaria a mudança de postura no flanco leste da OTAN.
- Sinais físicos russos, como exercícios nucleares atípicos, mudanças de alerta ou movimentação de ogivas. Esses são os indicadores que, segundo especialistas, distinguem retórica de preparação.
- Negociações trilaterais entre Estados Unidos, Rússia e Ucrânia, que, segundo Zelensky e Peskov, podem ser retomadas ainda em outubro2.
- Algum substituto para o New START, ainda que informal. Sem limites nem troca de dados, a desconfiança tende a alimentar novas expansões de arsenal.
Perguntas frequentes
As ameaças nucleares de Putin ainda funcionam?
Funcionam menos do que em 2022. Países como Lituânia e Finlândia passaram a ignorar advertências do Kremlin e removeram barreiras legais à presença de armas nucleares aliadas. Analistas, incluindo o colunista Gideon Rachman, do Financial Times, avaliam que a coerção russa perdeu credibilidade, embora o risco de escalada não tenha desaparecido.
O que a Rússia ameaçou em relação a Kaliningrado?
Em 30 de setembro de 2026, a OTAN informou ter recebido documento russo afirmando que Moscou usaria todo o seu arsenal, inclusive nuclear, se a aliança tentasse isolar o enclave. Em 1º de outubro, Putin repetiu a advertência no Clube Valdai.
Por que a Lituânia quer permitir armas nucleares em seu território?
O governo lituano considera que o artigo 137 da Constituição, que proíbe armas de destruição em massa e bases estrangeiras, foi escrito em outro contexto geopolítico e impede o país de se beneficiar plenamente da dissuasão da OTAN. Não há planos imediatos de instalação, e a Lituânia diz que seguirá no TNP.
O que mudou com o fim do New START?
O tratado expirou em 5 de fevereiro de 2026 sem substituto. Estados Unidos e Rússia deixaram de ter limites juridicamente vinculantes para seus arsenais estratégicos e de trocar dados oficiais sobre eles, o que reduz a transparência e aumenta o risco de erro de cálculo.
Qual a posição do Brasil sobre armas nucleares?
A Constituição só permite atividade nuclear para fins pacíficos. O Brasil é parte do TNP e do Tratado de Tlatelolco. Assinou o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares em 2017, mas ele não foi ratificado, e em dezembro de 2025 recebeu parecer contrário na Comissão de Relações Exteriores da Câmara.
Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido