Quando um investidor de 87 anos, que já viu de perto o estouro da bolha japonesa em 1989, das pontocom em 2000 e do crédito imobiliário em 2008, diz que nunca viu o mercado americano tão caro, o mercado tende a ouvir — mesmo sem necessariamente concordar. Foi o que fez Jeremy Grantham, cofundador da gestora bostoniana GMO, em uma sequência de entrevistas dadas nas últimas semanas, incluindo uma conversa longa no podcast "The Long View", da Morningstar, e uma aparição no programa "The Diary of a CEO", de Steven Bartlett. Nelas, Grantham reafirmou o que já vinha escrevendo em suas cartas trimestrais: a corrida por inteligência artificial infla, em sua avaliação, a maior bolha financeira da história dos Estados Unidos.
A tese de Grantham não nega o valor da tecnologia. Pelo contrário: ele descreve a IA como uma invenção genuinamente transformadora, comparável a revoluções tecnológicas do passado, como a eletrificação e a chegada da internet. O problema, segundo ele, não é a tecnologia — é o preço que o mercado está disposto a pagar por ela, hoje, com base em expectativas de lucro que ainda não se confirmaram.
A régua histórica de Grantham
Na GMO, Grantham usa há décadas uma definição precisa de bolha: um desvio de dois desvios-padrão entre o preço de um ativo e sua tendência histórica de longo prazo. Por esse critério, ele afirma que o mercado acionário americano já opera em território de bolha há um período prolongado — e que, das 26 bolhas anteriores que atingiram esse patamar em grandes mercados desenvolvidos, todas, sem exceção, reverteram integralmente à tendência de longo prazo.
O indicador mais citado por ele é a relação entre o valor total do mercado acionário americano e o PIB do país — o chamado indicador Buffett, batizado em homenagem a Warren Buffett, que décadas atrás já alertava que, quando essa proporção se aproxima de 200%, o investidor está "brincando com fogo". Hoje, segundo estimativas citadas por Grantham em entrevista à CNBC, essa relação está perto de 235%, superando os picos registrados em 1999 e 2000.
"Baseado no valor do mercado de ações em relação ao PIB, com os devidos ajustes, este é o mercado mais caro da história americana."— Jeremy Grantham, em entrevista à CNBC (Squawk Box), junho de 2026
Grantham recorre ainda a uma comparação histórica pouco usual: a South Sea Bubble, episódio especulativo ocorrido na Inglaterra em 1720, quando companhias chegavam ao mercado prometendo negócios "de valor extraordinário" sem sequer revelar do que se tratavam — e ainda assim levantavam somas consideráveis de investidores eufóricos. Para ele, o IPO da SpaceX, avaliada em cerca de US$ 2 trilhões e que descreve seu mercado endereçável como um quarto do PIB global, evoca o mesmo tipo de entusiasmo. "É uma história fabulosa: mineração de asteroides e o sucesso extraordinário da IA. É a descrição clássica de um pico de mercado", disse ele a Bartlett.
Os números por trás do alarme
O argumento de Grantham não se apoia apenas em analogias. He nota que, entre 2010 e o presente, o índice preço/lucro do mercado americano ficou, em média, mais de 60% acima da média histórica dos cem anos anteriores — um prêmio que ele atribui, em parte, a mais de uma década de juros artificialmente baixos. O detalhe incômodo é que essa premissa já não se sustenta plenamente: em junho de 2026, os títulos do Tesouro americano de 10 anos pagavam 4,41% ao ano, e a taxa básica de juros dos EUA estava mantida em 3,75% desde dezembro de 2025 — patamares bem distantes da era de dinheiro barato que, segundo ele, ajudou a justificar múltiplos elevados no passado.
Diante desse quadro, Grantham estima que uma reversão à média histórica não seria uma correção comum, de 10% ou 20%, mas algo "mais perto de um declínio de 70%" nas ações associadas à inteligência artificial — as que mais subiram e que, por lógica histórica, tenderiam a cair mais quando o otimismo esfriar. Sua recomendação prática, dada sem meias palavras: quem tem posições concentradas em tecnologia americana deveria considerar vender. Ele próprio diz preferir mercados emergentes, Japão, ações de valor europeias, metais preciosos e títulos de renda fixa — qualquer coisa, resumiu, "menos" a bolsa americana.
Contraponto — nem todo mundo vê bolha
A tese de Grantham está longe de ser consenso. O Comitê de Política Monetária do Fed e boa parte do mercado argumentam que, ao contrário das pontocom, as grandes empresas de tecnologia hoje geram caixa e lucro recordes, o que justificaria parte da valorização. O próprio Grantham reconhece essa diferença, mas argumenta que ela não neutraliza o risco: para ele, o problema não é se a IA vai gerar valor real — é se o mercado já precificou décadas de lucro futuro que ainda não existe.
Vale lembrar também que Grantham vem alertando para "bolhas" e "quedas iminentes" de forma praticamente anual desde 2021, em textos como "Waiting For the Last Dance" e "Let the Wild Rumpus Begin" — o que rendeu a ele a alcunha, entre críticos, de permabear (o investidor cronicamente pessimista). O mercado americano seguiu subindo em boa parte desse período, o que reforça que prever o momento exato de uma reversão continua sendo, na prática, quase impossível — mesmo para quem acerta a direção de longo prazo.
O que dizem os bancos centrais
O desconforto de Grantham não é isolado. Em seu Relatório Econômico Anual de 2026, o Banco de Compensações Internacionais (BIS) — conhecido como "o banco central dos bancos centrais" — comparou o atual ciclo de gastos em infraestrutura de IA a episódios históricos de euforia tecnológica que terminaram em reversões bruscas, citando paralelos com a mania das ferrovias britânicas no século 19 e a eletrificação dos anos 1920. Segundo o BIS, os cinco maiores provedores de nuvem devem investir mais de US$ 1 trilhão em infraestrutura de IA somente em 2026, um ritmo de gastos que já cresce mais rápido do que os lucros e o fluxo de caixa livre dessas companhias — levando algumas delas a emitir dívida para financiar a expansão. Ainda assim, a instituição evitou classificar formalmente o ciclo atual como uma bolha.
O Banco da Inglaterra foi na mesma direção em seu Relatório de Estabilidade Financeira mais recente, afirmando que os riscos à estabilidade financeira global aumentaram desde dezembro de 2025, refletindo maior alavancagem nos mercados acionários — sobretudo em empresas ligadas à IA — somada às incertezas sobre o Oriente Médio e sobre o retorno futuro desses investimentos.
No Brasil, o Banco Central trata o tema por um ângulo distinto, mais operacional do que especulativo: seus relatórios de estabilidade financeira têm focado no uso de IA dentro do próprio sistema financeiro nacional — modelos de crédito, prevenção a fraudes, gestão de risco — recomendando práticas de validação, auditoria e supervisão contínua, sem, até o momento, tratar a valorização das ações de tecnologia americanas como um risco sistêmico direto para o país.
O paradoxo brasileiro: recordes na contramão
É aqui que a história ganha uma camada particular de interesse para o leitor brasileiro. Enquanto Grantham alerta sobre a bolsa americana, o Ibovespa vive, em paralelo, uma sequência histórica de recordes: mais de uma dezena de máximas nominais só no primeiro trimestre de 2026, superando pela primeira vez a marca dos 190 mil pontos, em um ano que já acumulava alta de 34% em 2025. Mas a explicação para esse movimento é, em boa medida, o espelho da preocupação de Grantham: o que sustenta a alta da bolsa brasileira não é euforia com um setor específico, e sim a entrada maciça de capital estrangeiro em busca de diversificação — o mesmo tipo de rotação para fora dos ativos americanos concentrados em tecnologia que Grantham recomenda pessoalmente.
Dados da B3 mostram que investidores não residentes responderam por mais de 60% do volume negociado em ações em 2026, com aportes líquidos que já superavam, em janeiro, todo o saldo positivo registrado in 2025. Ou seja: parte do dinheiro que hoje sai — ou deixa de entrar com a mesma intensidade — do mercado americano encontra no Brasil, e em outros emergentes, um destino de valuation mais atrativo. É o outro lado exato da moeda que Grantham descreve quando diz preferir "quase tudo" a ações americanas.
Como o investidor brasileiro está exposto a essa bolha
Isso não significa, porém, que o investidor brasileiro esteja imune ao que Grantham descreve. Nos últimos anos, cresceu de forma expressiva o acesso de pessoas físicas no Brasil a ações de tecnologia americana via BDRs (Brazilian Depositary Receipts) — certificados negociados na B3, em reais, que replicam o desempenho de ações como Nvidia, Microsoft, Amazon e Alphabet, sem exigir conta em corretora no exterior. Levantamentos recentes da própria B3 mostram um "clube do trilhão" de empresas de tecnologia — boa parte ligada direta ou indiretamente à cadeia de IA — cujos BDRs estão entre os mais negociados por investidores brasileiros, ao lado de ETFs locais que replicam o S&P 500 e o Nasdaq.
Essa exposição indireta amplifica, para o investidor de varejo brasileiro, exatamente o risco que Grantham descreve: concentração em um pequeno grupo de ações de alta capitalização, cujo desempenho já responde por parcela desproporcional dos ganhos recentes dos principais índices americanos. Diversificação — entre geografias, setores e classes de ativos — segue sendo, segundo especialistas do mercado, o antídoto mais citado contra esse tipo de concentração, independentemente de a bolha eventualmente estourar ou continuar inflando por mais tempo.
O que fica da história
A força do argumento de Grantham não está em prever a data exata de um colapso — ele mesmo reconhece que "o timing é terrivelmente incerto". Está em lembrar um padrão que se repete em quase todo grande ciclo tecnológico: ferrovias, eletricidade, internet e, agora, inteligência artificial produziram, cada uma a seu tempo, entusiasmo genuíno, investimento real e, também, excesso especulativo que precisou ser corrigido antes que o valor definitivo da tecnologia se consolidasse. A Amazon, lembra ele, perdeu 92% de seu valor de mercado após o estouro da bolha das pontocom — antes de se tornar, décadas depois, uma das empresas mais valiosas do planeta. Se a IA seguirá o mesmo roteiro é, para usar as palavras do próprio investidor, a pergunta de "50 anos" que só o tempo poderá responder.