Um inseto pequeno, colorido e aparentemente frágil está fornecendo uma das provas mais consistentes de que o clima do planeta mudou de patamar. Borboletas, historicamente tratadas como indicadoras sensíveis de alterações ambientais, estão deslocando seus territórios em todos os continentes onde existem, segundo o maior levantamento já feito sobre o tema. A mudança não é sutil: cerca de um décimo das espécies analisadas já expandiu, reduziu ou alterou a altitude de sua área de ocorrência, um movimento que os pesquisadores associam de forma direta ao aquecimento global e a eventos climáticos extremos.
O tamanho da mudança
O estudo, publicado na revista científica Nature Ecology & Evolution e conduzido por uma equipe liderada pelo pesquisador Shawan Chowdhury, chefe do Laboratório de Ecologia de Mudanças Globais da Universidade Monash, na Austrália, reuniu registros de deslocamento de 1.758 espécies de borboletas em 105 países. Cerca de 80% das espécies que mudaram de território expandiram sua área de ocorrência, movendo-se para regiões que se tornaram climaticamente adequadas à medida que as temperaturas sobem. Outra fração relevante, próxima de 27%, sofreu o processo inverso: perdeu parte do território que ocupava historicamente. Uma quinta parte das espécies analisadas mudou de altitude, buscando elevações mais frias.
Os pesquisadores descrevem essas borboletas como um sistema de alerta precoce para o restante da biodiversidade. A lógica é direta: se um grupo de insetos com ciclos de vida curtos e alta sensibilidade térmica já está redesenhando seu mapa em escala global, é provável que processos semelhantes, ainda menos documentados, estejam em curso em outros grupos de animais e plantas.
Se o território de uma borboleta muda tão depressa, isso é sinal de que todo o ecossistema ao redor dela também está em movimento.
Um raro sinal na Mata Atlântica paulista
O levantamento internacional cita um episódio brasileiro como exemplo direto de expansão climática: a borboleta Godartiana byses, espécie rara e endêmica da Mata Atlântica, ampliou seu alcance dos estados do Rio de Janeiro e da Bahia até São Paulo. O caso já era conhecido da comunidade científica nacional. Pesquisadores registraram pela primeira vez um exemplar da espécie no território paulista em 2017, dentro do Legado das Águas, reserva privada de Mata Atlântica no Vale do Ribeira, apesar de a região ser estudada por entomólogos desde 1968. Quase cinco décadas de buscas sem sucesso terminaram com um único indivíduo fêmea encontrado na Trilha do Cambuci, um indício de que a espécie está, aos poucos, ocupando um território onde nunca havia sido detectada.
Casos como esse ilustram por que biólogos tratam com cautela a palavra "expansão". Uma espécie rara aparecendo em nova área pode significar tanto adaptação bem-sucedida quanto uma população pequena e vulnerável tentando sobreviver em condições ainda incertas.
O desafio de monitorar um continente tropical
Enquanto na Europa e na América do Norte já existem décadas de dados sistemáticos sobre populações de borboletas, o Brasil enfrenta uma lacuna estrutural. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) mantém o Programa Monitora, que usa borboletas frugívoras como um dos indicadores biológicos oficiais para acompanhar a saúde de unidades de conservação, justamente por serem de amostragem relativamente simples e alta sensibilidade ambiental. Ainda assim, a extensão territorial e a diversidade biológica do país tornam qualquer sistema de monitoramento incompleto diante da escala do desafio.
Estudos regionais reforçam essa preocupação. No Rio Grande do Sul, um levantamento do Laboratório de Ecologia de Insetos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) identificou mais de 900 espécies de borboletas no estado, mas alertou que o aquecimento já reduz a chance de encontrar espécies adaptadas a climas mais frios na região metropolitana de Porto Alegre. O pesquisador Lucas Augusto Kaminski, do laboratório, descreve um processo preocupante no Cerrado: o bioma está mais seco, o que altera a fenologia das plantas hospedeiras e pode levar a extinções locais, já que muitas borboletas não conseguem mais deslocar-se rápido o suficiente para acompanhar a mudança.
Contraponto: expansão nem sempre é boa notícia
O próprio estudo publicado na Nature Ecology & Evolution pondera que uma área de ocorrência maior não equivale automaticamente a uma espécie mais segura. Populações que colonizam novos territórios costumam começar pequenas e podem estar mais expostas a extinção local se as condições não se mantiverem favoráveis. Há ainda espécies que expandem em uma parte de sua distribuição e contraem em outra ao mesmo tempo, tornando incerto se o resultado final será benéfico ou prejudicial à sua conservação a longo prazo.
Outro fator citado pelos pesquisadores é que nem toda mudança de território decorre do clima: invasões biológicas também explicam deslocamentos, como ocorreu nos Estados Unidos, onde a introdução de uma espécie concorrente contribuiu para a contração de outra nativa. Isso significa que atribuir toda alteração de distribuição ao aquecimento global, sem considerar outras variáveis como desmatamento e agricultura, pode simplificar demais um fenômeno com múltiplas causas.
O que os cientistas pedem agora
Para os autores do estudo, a próxima etapa é ampliar o monitoramento coordenado, sobretudo nos trópicos, onde a maior parte da diversidade de borboletas do planeta ainda carece de séries históricas de dados. Sem esse acompanhamento, fica mais difícil saber com antecedência quais espécies estão em risco e quais estão, de fato, se adaptando ao novo regime climático. No Brasil, iniciativas como o Programa Monitora do ICMBio e os levantamentos acadêmicos regionais representam passos nessa direção, mas os próprios pesquisadores reconhecem que a escala do país exige recursos e cooperação institucional muito maiores do que os atualmente disponíveis.
Nesta reportagem
Em números
Linha do tempo
- 1968Início de levantamentos sistemáticos de borboletas no estado de São Paulo, sem registro da Godartiana byses.
- 2017Primeiro exemplar de Godartiana byses é encontrado em São Paulo, no Legado das Águas, Vale do Ribeira.
- 2020Estudo da UFRGS no Rio Grande do Sul associa o ressecamento do Cerrado a mudanças na fenologia e risco de extinção local de borboletas.
- 2022A União Internacional para a Conservação da Natureza inclui a borboleta-monarca em sua lista de espécies ameaçadas.
- 2026Nature Ecology & Evolution publica o levantamento global com 1.758 espécies em 105 países.
Glossário
- Bioindicador
- Organismo cuja presença, ausência ou comportamento revela mudanças nas condições ambientais.
- Fenologia
- Estudo do momento em que eventos biológicos ocorrem, como floração ou reprodução, e sua relação com o clima.
- Endemismo
- Condição de uma espécie que ocorre naturalmente em uma única região geográfica e em nenhuma outra.
- Redistribuição climática
- Deslocamento da área de ocorrência de uma espécie em resposta a mudanças de temperatura ou precipitação.
Referências
- 1The Guardian — "Butterflies around the world are changing habitats" (2026)
- 2Nature Ecology & Evolution — "Extensive climate-induced range shifts in butterflies across the globe"
- 3CicloVivo — Registro da Godartiana byses em São Paulo
- 4UFRGS Ciência — Borboletas do Rio Grande do Sul e aquecimento global
- 5ICMBio — Programa Monitora e borboletas como bioindicadores
- 6CNN Brasil — Crise climática e a borboleta-monarca