Sustentabilidade · Qualidade do ar · Clima
A poluição do ar não pede visto. Em agosto de 2024, moradores de São Paulo olharam para um céu cor de sépia e descobriram que parte do que respiravam tinha saído de incêndios a mais de dois mil quilômetros, na Amazônia, no Pantanal e na Bolívia. Dois anos depois, a Europa vive a mesma lição com outros protagonistas: fumaça de incêndios na Espanha e na França, poeira do Saara e um ozônio alimentado por ondas de calor sucessivas. O que muda agora é que, pela primeira vez, há um retrato global e sistemático dessas rotas.
Nesta quarta-feira, 30 de setembro de 2026, o Serviço de Monitoramento da Atmosfera do Copernicus (CAMS), braço do programa espacial europeu operado pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), lançou a primeira edição do Atmosphere Watch, uma revisão anual dedicada à poluição transfronteiriça. O relatório se concentra em três temas: ozônio ao nível do solo, fumaça de incêndios florestais e poeira do deserto.2 A reportagem do El País destacou que o estudo coloca a Espanha na zona mais problemática da Europa.1 Para o leitor brasileiro, a pergunta relevante é outra: o que esse mapa diz sobre um país que exporta e importa fumaça dentro do próprio continente e que ainda está implementando sua política nacional de qualidade do ar?
O que o Copernicus mediu em 2026
O Atmosphere Watch cobre os oito primeiros meses do ano e se apoia em milhões de observações de satélites, redes terrestres de monitoramento e aeronaves incorporadas ao sistema global de previsão do CAMS.1,3 O número que abre o relatório é duro: cerca de 40% da população mundial foi exposta a níveis nocivos de ozônio troposférico em 2026, e apenas 5% respirou ar classificado como "bom" para esse poluente, segundo a TRT World.3
A Ásia é o epicentro. Cerca de 60% dos asiáticos ficaram expostos a níveis de ozônio classificados como "extremamente ruins", proporção que sobe para 90% quando se somam as faixas "ruim" e "muito ruim".3 Os autores associam o quadro a emissões ligadas à industrialização, à expansão urbana e ao transporte. Na Europa, o El País reporta que metade da população esteve exposta a ozônio ruim, muito ruim ou extremamente ruim, com Itália (sobretudo o norte), Espanha (em especial o litoral mediterrâneo e o vale do Guadalquivir) e Grécia entre os países mais afetados.1 A diretora do CAMS, Laurence Rouil, atribuiu ao jornal espanhol a diferença entre norte e sul do continente à combinação de sol intenso e temperaturas altas no Mediterrâneo.1
Ozônio: o poluente que ninguém emite diretamente
O ozônio troposférico é um poluente secundário. Ele não sai de chaminés nem de escapamentos; forma-se no ar quando óxidos de nitrogênio e compostos orgânicos voláteis, emitidos por veículos, indústrias e queimadas, reagem sob luz solar. Por isso ele é mais alto em dias quentes e ensolarados, e por isso pode surgir longe da fonte original das emissões. A Lei nº 14.850/2024, que instituiu a Política Nacional de Qualidade do Ar, define com precisão essa categoria: poluentes formados por reações químicas na atmosfera entre outros poluentes.14
O CAMS insiste num ponto que interessa diretamente a países tropicais: a relação entre clima e qualidade do ar funciona nos dois sentidos. O próprio ozônio é um gás de efeito estufa, e temperaturas mais altas favorecem sua formação, num ciclo que os cientistas chamam de "penalidade climática do ozônio".3 Rouil resumiu a questão ao dizer que o ozônio lembra o quanto atmosfera, clima, saúde e meios de vida estão interligados, influenciando inclusive a capacidade de produzir alimentos, segundo a Sustainability Online.4
O impacto agrícola não é abstração. Em São Paulo, a CETESB mede o ozônio acumulado acima de 40 ppb (o indicador AOT40, adotado na Europa) e usa um valor de referência para proteção da produtividade agrícola. Em relatório técnico da companhia, a maioria das estações do estado ultrapassou esse valor em todos os anos analisados, com a Região Metropolitana em situação mais crítica, e o documento registra que a legislação brasileira não tem padrão de ozônio específico para vegetação.17 Para um país cuja economia depende do agronegócio, o ozônio é também uma variável de produtividade.
Fumaça: quando o incêndio local vira episódio continental
Os incêndios formam a segunda rota. Um dado do relatório contraria a intuição: as emissões globais de queima de biomassa caíram nas últimas décadas, mas a exposição humana à fumaça aumenta, porque incêndios extremos ocorrem cada vez mais perto de áreas povoadas.3,5 Na Europa, o verão de 2026 foi exemplar. A região de Madri e a província de Ávila registraram as maiores emissões de carbono por incêndios desde pelo menos 2003, e o governo espanhol chegou a pedir que madrilenhos evitassem sair de casa por causa da fumaça.1 Segundo o Escritório de Apoio Espacial da UE, Madri sofreu ao mesmo tempo o efeito da fumaça, do tráfego e da poeira saariana, enquanto o Canadá se tornou a maior fonte mundial de emissões por fogo em julho.5
Os autores do relatório, citados pelo El País, descrevem o mecanismo central: os poluentes das queimadas podem ser transportados para longe e transformar uma emergência local em um episódio regional ou continental de qualidade do ar.1 Esse deslocamento cruza oceanos. Em junho de 2026, o CAMS publicou uma animação mostrando, na mesma semana, a fumaça dos incêndios canadenses e plumas de poeira do Saara sobre o céu europeu, com aumento medido de partículas finas e grossas no solo.6
A fronteira política é uma linha no mapa. A atmosfera nunca a reconheceu, e a gestão do ar que respiramos ainda age como se reconhecesse.O Tecido · Análise editorial
Poeira do Saara: poluente na Europa, fertilizante na Amazônia
A terceira rota é a mais ambígua. Na Europa, a poeira saariana eleva a concentração de material particulado (MP10) no sul e no oeste do continente, como registrou o relatório europeu de qualidade do ar do CAMS divulgado em julho.7 O mapa do Atmosphere Watch mostra alertas de poeira espalhados do Atlântico ao leste da Ásia.1
Do lado de cá do oceano, a mesma poeira tem outro papel. Medições do satélite CALIPSO, da NASA, entre 2007 e 2013, em estudo liderado por Hongbin Yu, estimaram que cerca de 182 milhões de toneladas de poeira deixam o Saara todos os anos, e aproximadamente 27,7 milhões de toneladas se depositam sobre a Bacia Amazônica. Nesse material viajam cerca de 22 mil toneladas de fósforo por ano, volume comparável ao que os solos amazônicos perdem com chuvas e inundações, conforme resumiu a Agrolink.13 O fenômeno mostra que "poluição transfronteiriça" não é uma categoria moral: o mesmo fluxo pode adoecer pulmões em Sevilha e nutrir árvores no Amazonas.
O Brasil já viveu o seu Atmosphere Watch
Se o relatório europeu parece distante, o Brasil tem memória recente para comparar. Em agosto de 2024, meteorologistas passaram a falar em um "rio atmosférico de fumaça", por analogia aos rios voadores que levam umidade da Amazônia ao centro-sul, como registrou o ClimaInfo.10 Estudo divulgado pela Unifesp lembra que São Paulo teve a pior qualidade do ar do mundo por três dias consecutivos naquele episódio, segundo dados da IQAir.9
A dimensão continental foi confirmada pela Organização Meteorológica Mundial. O boletim de qualidade do ar e clima da OMM apontou a bacia amazônica como a maior anomalia global de 2024, com degradação mensurável do ar em cidades distantes como São Paulo, Santiago e localidades do Equador, conforme a ONU News.8 Em Mato Grosso do Sul, foram 51 dias de ar fora da faixa "boa", com Campo Grande no centro de um corredor que misturava fumaça da Amazônia, de Mato Grosso e da Bolívia, segundo o Campo Grande News.11 E a conta pode estar subestimada: pesquisa apoiada pela Agência Espacial Europeia concluiu que as emissões dos incêndios amazônicos podem ser até três vezes maiores do que os modelos estimavam, com a poluição mais intensa concentrada na fronteira entre Brasil e Bolívia.12
O ano de 2026 ainda não repetiu 2024. Dados do INPE apresentados pelo Ministério do Meio Ambiente mostram que, até 15 de julho, a Amazônia somava 7.017 focos, cerca de 19% abaixo da média histórica, embora 17% acima do mesmo período de 2025. O alerta vem da Caatinga, com focos mais de 120% acima da média, tendência observada desde 2023.16 São números parciais, anteriores ao pico da temporada seca, e devem ser lidos como fotografia de meio de ano.
Leis que param na divisa
O arcabouço brasileiro avançou em 2024. A Lei nº 14.850 criou a Política Nacional de Qualidade do Ar, com princípios como precaução, poluidor-pagador, direito à informação e cuidado com grupos sensíveis.14 Dois meses depois, a Resolução CONAMA nº 506 atualizou os padrões nacionais, usando como referência os valores-guia da Organização Mundial da Saúde e prevendo uma transição por etapas, com relatórios consolidados pelo Ministério do Meio Ambiente a cada quatro anos.15
O desenho, porém, é essencialmente territorial. Planos de gestão são estaduais, e os padrões medem o ar de cada região. O Atmosphere Watch expõe o limite desse modelo: quando a fumaça que degrada o ar de Campo Grande vem em parte da Bolívia, ou quando o ozônio de uma metrópole se forma com precursores emitidos a centenas de quilômetros, o órgão ambiental local responde por uma poluição que não controla. A Europa enfrenta o mesmo dilema e o CAMS já desenvolve ferramentas para separar contribuições naturais, transfronteiriças e locais nas concentrações medidas, como informou o próprio serviço após workshop em Budapeste.2 Para o Brasil, a lição prática é a atribuição de fontes: sem saber quanto do ar ruim é importado, não há como cobrar quem polui nem avaliar se um plano estadual funciona.
Perguntas frequentes
O que é poluição atmosférica transfronteiriça?
É a poluição que se forma ou é emitida em um país ou região e é transportada pelos ventos até outros territórios, às vezes a milhares de quilômetros. Fumaça de incêndios, poeira de desertos e o ozônio formado a partir de emissões de veículos e indústrias são os exemplos mais estudados.
O que concluiu o relatório Atmosphere Watch 2026 do Copernicus?
Lançado em 30 de setembro de 2026, o relatório estimou que cerca de 40% da população mundial foi exposta a ozônio nocivo nos oito primeiros meses do ano, com a Ásia como região mais afetada, seguida de Europa e América do Norte. Também mostrou que fumaça e poeira cruzam países e oceanos, e que a exposição à fumaça cresce mesmo com a queda das emissões globais de queimadas.
Por que o ozônio aumenta com o calor?
O ozônio troposférico se forma a partir de reações químicas entre óxidos de nitrogênio e compostos orgânicos voláteis na presença de luz solar. Dias quentes e ensolarados aceleram essas reações. Como o ozônio também é gás de efeito estufa, o aquecimento e a poluição se reforçam mutuamente.
A fumaça das queimadas da Amazônia pode chegar a São Paulo?
Sim. Em 2024, a fumaça de incêndios na Amazônia, no Pantanal e na Bolívia foi transportada até o Sudeste e o Sul do Brasil. São Paulo chegou a registrar a pior qualidade do ar do mundo por três dias seguidos, segundo a IQAir, e a OMM confirmou a degradação do ar em cidades distantes dos focos.
A poeira do Saara chega ao Brasil? Ela faz mal?
Chega. Medições do satélite CALIPSO indicam que cerca de 27,7 milhões de toneladas de poeira saariana se depositam por ano na Bacia Amazônica, levando fósforo que ajuda a repor nutrientes do solo. Em altas concentrações perto de áreas urbanas, como ocorre na Europa, a poeira eleva o material particulado e pode afetar a saúde respiratória.
Como o Brasil regula a qualidade do ar?
Pela Lei nº 14.850/2024, que criou a Política Nacional de Qualidade do Ar, e pela Resolução CONAMA nº 506/2024, que atualizou os padrões nacionais tomando como referência os valores da OMS, com metas intermediárias escalonadas no tempo. A gestão e os planos de qualidade do ar ficam a cargo dos estados.