Há um ano, o tom predominante entre os líderes da indústria de inteligência artificial era de alarme. Hoje, o mesmo grupo de executivos fala em produtividade, criação de vagas e um mercado de trabalho que se ajusta — não que desaparece. A guinada retórica ocorre justamente quando a opinião pública sobre a IA azeda, e quando empresas do setor promovem cortes de pessoal para redirecionar recursos aos próprios investimentos em inteligência artificial.

O presidente-executivo da OpenAI, Sam Altman, que por anos previu rupturas profundas no mercado de trabalho, afirmou recentemente que a indústria "estava mais ou menos certa nas previsões tecnológicas e bastante errada nas implicações sociais e econômicas". Em entrevista à CNBC, foi além: disse que o setor "subestimou o quanto vamos conseguir manter as pessoas no centro de tudo".

O presidente da Anthropic, Dario Amodei, seguiu trajetória semelhante. Em maio de 2025, alertou que a IA poderia eliminar metade dos empregos de nível inicial no setor administrativo e levar o desemprego a um patamar de 10% a 20% em cinco anos — declaração que gerou forte reação no setor de tecnologia. Mais recentemente, Amodei passou a descrever cenários mais favoráveis para empresas que adotam IA de forma criativa, argumentando que a automação de 90% de uma função tende a expandir o que resta em produtividade para o trabalhador, e não necessariamente eliminar o cargo. Em ensaio publicado em junho, escreveu que seu objetivo ao emitir os alertas era dar a formuladores de políticas e ao setor privado a melhor chance de se adaptarem — não posar de "profeta do apocalipse". Ele também reconheceu que a possibilidade de "perda permanente de empregos" continua de pé.

"Os empresários podem ter percebido que era simplesmente má estratégia de negócios dizer que seu novo grande produto vai destruir a economia."David Autor, economista do MIT

Demissões continuam, mesmo com discurso mais otimista

A mudança de tom convive com decisões concretas de corte de pessoal atribuídas, ao menos em parte, ao redirecionamento de investimentos para IA. A Meta iniciou em maio o desligamento de 8 mil funcionários, achatando equipes. Já a Amazon reduziu 16 mil postos, embora a empresa afirme que essas demissões estão ligadas a um esforço contínuo de redução de camadas hierárquicas e não à adoção de IA propriamente dita — mesmo após o próprio presidente-executivo, Andy Jassy, ter anunciado há um ano que a companhia cortaria pessoal por causa da tecnologia.

Uma pesquisa da consultoria EY-Parthenon mostra o tamanho da guinada entre os próprios executivos: a fatia de presidentes de empresas que acreditam que os investimentos em IA vão resultar em reduções significativas de quadro de pessoal caiu de cerca de 46%, em janeiro de 2025, para 20% em maio deste ano.

Duas leituras para o mesmo dado

A tecnologia está criando empregos

Um estudo da fintech Ramp com a Revelio Labs, empresa de inteligência de força de trabalho, identificou que companhias com maior investimento em IA aumentaram o emprego em cerca de 10% a mais do que empresas semelhantes que ainda não haviam adotado a tecnologia. Executivos como Jeff Bezos, fundador da Amazon, chegam a falar em possível escassez de mão de obra qualificada.

O ajuste ainda não aconteceu — ou está sendo maquiado

Uma pesquisa da consultoria Emergn mostra que cerca de 20% dos líderes americanos admitem que os relatórios internos sobre resultados de IA pintam um quadro mais favorável do que os facts sustentam, com más notícias "suavizadas" antes de chegar à cúpula. Para o economista David Autor, do MIT, o mercado de trabalho simplesmente não está encolhendo no ritmo que se temia — o que pode ter motivado boa parte da correção de discurso.

No Brasil, o medo recua — mas a desconfiança em decisões automatizadas não

O mesmo movimento de ajuste de expectativas aparece, com contornos próprios, na percepção da população brasileira. Segundo pesquisa do Datafolha realizada em 17 e 18 de junho com 2.004 entrevistados em 139 municípios, a parcela de brasileiros que conhecem IA e temem que a própria profissão seja substituída pela tecnologia caiu de 56% para 48% em um ano. No mesmo período, a fatia dos que dizem não sentir nenhum medo de substituição subiu de 41% para 49%. O uso profissional da tecnologia também avançou: de 17% para 24% entre quem já ouviu falar em IA.

Para Daniel Duque, pesquisador do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), o recuo do temor tem menos a ver com a ausência de riscos reais e mais com o fato de que "as pessoas ouviram que iria acabar o emprego de todo mundo, mas ainda existe trabalho no mercado" — uma leitura que ecoa a do professor David Autor sobre o cenário americano.

Ainda assim, a pesquisa revela um limite claro de aceitação: 79% dos entrevistados consideram inadequado o uso de modelos de IA em decisões de contratação e demissão, prática já comum tanto em plataformas de recrutamento quanto em departamentos de recursos humanos. A rejeição também é alta em outras decisões sensíveis — 68% desaprovam o uso de IA em tratamentos médicos e 67% em concessão de crédito, apesar da adoção crescente da tecnologia no setor bancário.

Dados levantados pelo FGV Ibre com base na Pnad Contínua do IBGE mostram a dimensão da exposição do mercado brasileiro: no terceiro trimestre de 2025, cerca de 29,8 milhões de trabalhadores — 29,6% da população ocupada do país — estavam em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa, ante 23,2 milhões (27%) em 2012. A exposição tende a ser maior entre mulheres, jovens, trabalhadores mais escolarizados, na região Sudeste e nos setores de serviços financeiros e de informação e comunicação — justamente o perfil de ocupações mais visado pelas previsões de Amodei sobre empregos de nível inicial.

Um debate longe de terminar

A oscilação no discurso corporativo não resolve a disputa entre economistas sobre os efeitos de longo prazo da IA no emprego. O executivo-chefe da Ford, Jim Farley, chegou a afirmar no ano passado que a IA substituiria "literalmente metade de todos os trabalhadores de colarinho branco" nos Estados Unidos — mas a montadora recentemente contratou centenas de engenheiros, atribuindo a decisão a preocupações com a qualidade de trabalhos que haviam sido automatizados. Já pesquisadores como os do Yale Budget Lab não encontraram, até o momento, mudanças significativas na composição ocupacional ou na duração do desemprego em funções de alta exposição à IA desde o lançamento do ChatGPT, no fim de 2022.

O que parece consensual é que o tom público das lideranças de tecnologia se tornou mais sensível ao ambiente político e à percepção do consumidor. Como observou o professor Maurice Schweitzer, da Wharton School, "o tom da conversa mudou" — e, entre a construção de data centers e a expectativa de regulação governamental, "há um componente político" evidente nas falas mais recentes dos executivos.