Em abril de 2013, atiradores ainda não identificados passaram quase dez minutos disparando rifles de alta potência contra uma subestação da Pacific Gas and Electric em Metcalf, na Califórnia. O alvo não eram pessoas, mas os sistemas de resfriamento de 17 transformadores, equipamentos que parecem containers de carga e cuja fabricação artesanal os torna praticamente impossíveis de repor em curto prazo. O episódio, hoje tratado por especialistas americanos em segurança energética como um ensaio geral para algo maior, é o ponto de partida de uma reportagem publicada pela revista do New York Times que expõe uma fragilidade pouco discutida do mundo digital: a rede elétrica que sustenta data centers, hospitais e cidades inteiras depende de uma peça de engenharia do século XIX, fabricada à mão, com fila de espera de anos e produção concentrada em poucos países.
Segundo a reportagem assinada por Christopher Cox, publicada em 18 de agosto de 2026, uma análise conduzida pela Comissão Federal Reguladora de Energia dos Estados Unidos (FERC) após o ataque de Metcalf concluiu algo preocupante: a inutilização de apenas nove subestações estratégicas, entre as três grandes interligações elétricas do país, poderia provocar um apagão nacional prolongado. O ex-presidente da FERC, Jon Wellinghoff, chegou a afirmar à publicação que identificar esses pontos críticos seria uma tarefa ao alcance de "um bando de garotos de 12 anos com acesso à internet", bastando observar onde convergem as linhas de transmissão em um mapa.
O problema não é hipotético. Segundo o texto original, o tempo médio de espera por um transformador de potência de grande porte nos Estados Unidos saltou de menos de um ano, antes de 2021, para 128 semanas atualmente, podendo chegar a cinco anos em alguns casos. A causa é uma combinação de gargalos na cadeia de suprimentos, aumento da demanda elétrica puxado pela eletrificação e, mais recentemente, pelo consumo intensivo de energia dos data centers de inteligência artificial, além do envelhecimento natural do parque instalado: cerca de 75% dos transformadores de distribuição já ultrapassaram sua vida útil estimada.
Mark Lauby, engenheiro-chefe da North American Electric Reliability Corporation (NERC), à revista do New York Times
A mesma fragilidade, em versão brasileira
O Brasil não tem histórico de ataques a rifle contra subestações, mas conhece bem a sensação de ver o país mergulhar no escuro por falhas em pontos críticos do sistema. Em 15 de agosto de 2023, uma perturbação no Sistema Interligado Nacional (SIN), iniciada por uma sobrecarga em uma linha de transmissão entre Quixadá e Fortaleza, no Ceará, provocou a interrupção de cerca de 22 mil megawatts de carga e deixou praticamente todos os estados brasileiros sem energia, alguns por horas. O relatório final do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) apontou falhas em cascata entre a queda de tensão na linha cearense e o comportamento de sistemas de proteção de parques eólicos e fotovoltaicos, resultando em recomendações a 122 agentes do setor elétrico.
Assim como nos Estados Unidos, a estrutura brasileira também já foi alvo de sabotagem deliberada, embora com outro perfil de ataque. No início de 2023, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) confirmou ao menos 11 ataques contra torres de transmissão em estados como Paraná, São Paulo, Rondônia e Mato Grosso, com cabos cortados e estruturas derrubadas propositalmente. Diferentemente das subestações americanas, mais concentradas e monitoradas por câmeras, as torres de transmissão brasileiras se espalham por cerca de 175 mil quilômetros de linhas, boa parte em áreas rurais de difícil vigilância, o que segundo especialistas do setor torna esse tipo de ataque logisticamente mais fácil, ainda que historicamente menos capaz de gerar um apagão de grande escala isolado.
Contraponto
Nem todos os especialistas concordam com o cenário mais sombrio. Mark Lauby, da NERC, disse à reportagem original que considera "improvável" um apagão em cascata da magnitude projetada pela FERC, citando a complexidade e as redundâncias já embutidas na rede americana. No Brasil, o próprio apagão de 2023 evidenciou como o SIN, apesar de fortemente interligado (o que amplia o risco de propagação de falhas), também dispõe de mecanismos de contingenciamento que evitaram um colapso ainda maior, restabelecendo boa parte do fornecimento em poucas horas. A vulnerabilidade existe, mas não é consenso que ela seja iminente ou catastrófica.
Data centers de IA pressionam a fila por transformadores, também no Brasil
Um dos fatores citados na reportagem do New York Times para o agravamento da escassez global de transformadores é o apetite elétrico da inteligência artificial: um grande modelo de linguagem em treinamento pode consumir 500 megawatts ou mais, e a oscilação abrupta desse consumo tensiona redes que não foram projetadas para picos dessa natureza. O Brasil vive uma versão acelerada do mesmo fenômeno. Levantamentos do governo americano de comércio exterior estimam que a demanda de eletricidade ligada a data centers no país pode multiplicar-se por quase vinte vezes até 2035, puxada por investimentos anunciados por Microsoft, AWS e outras hyperscalers, com projetos que somados às plantas de hidrogênio já somam mais de 54 gigawatts em pedidos de conexão à rede nacional segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
Fabricantes nacionais já sentem o efeito. A WEG, maior produtora brasileira de transformadores, anunciou em 2026 investimentos que somam centenas de milhões de reais para ampliar suas fábricas em Betim (MG) e Gravataí (RS), citando explicitamente o crescimento da demanda de transmissão e distribuição puxado por data centers e leilões de infraestrutura elétrica. Segundo análise do banco JPMorgan reproduzida pela imprensa especializada, a divisão de energia da companhia já responde por cerca de 38% de sua receita, e o mercado global de data centers de IA deve exigir entre 240 e 280 gigawatts de capacidade até 2030, mais que o dobro do registrado em 2025.
A aposta no transformador sem partes móveis
Se o transformador tradicional, com seu núcleo de aço laminado e bobinas de cobre enroladas à mão, é um gargalo difícil de escalar, parte da indústria aposta em reinventar o componente. A reportagem original detalha o trabalho de startups americanas como a Amperesand, fundada por ex-engenheiros da Tesla, que desenvolvem transformadores de estado sólido: módulos menores, baseados em eletrônica de potência com carbeto de silício, capazes de ajustar tensão sem depender do óleo e do cobre que tornam os equipamentos convencionais tão lentos de produzir e tão frágeis a ataques físicos. Segundo a reportagem, o mercado desse tipo de tecnologia recebeu impulso após a Nvidia incluir transformadores de estado sólido no desenho de referência de seus data centers de IA.
Essa tendência também aparece no radar de fornecedores que atuam no Brasil. Análises recentes de mercado mencionam que a Infineon projeta que o mercado global de transformadores de estado sólido (SST) ultrapasse US$ 1 bilhão até 2030, com implementações comerciais mais amplas previstas para 2027 e 2028, sinal de que a tecnologia ainda não deve substituir os transformadores convencionais em curto prazo, inclusive na expansão que a WEG conduz atualmente no país.
O que isso significa para quem lê no Brasil
A conclusão da reportagem americana não é alarmista no sentido de prever um colapso iminente, mas alerta para uma dependência estrutural que poucos países discutem abertamente: tanto a segurança física quanto a capacidade industrial de repor equipamentos de transmissão tornaram-se, na prática, questões de segurança nacional. Para o Brasil, que combina uma matriz elétrica majoritariamente renovável e um sistema fortemente interligado, o desafio se soma a outro, mais imediato: garantir que a expansão acelerada de data centers de inteligência artificial não sobrecarregue uma cadeia de fornecimento de transformadores que já opera perto do limite globalmente.
Perguntas frequentes
Por que os transformadores elétricos são tão difíceis de substituir?
Transformadores de grande porte são equipamentos praticamente artesanais: o núcleo é feito de aço-silício de grão orientado, fabricado por poucas fábricas no mundo, e as bobinas de cobre são enroladas manualmente ao longo de semanas. Cada unidade costuma ser projetada sob medida para a subestação em que será instalada, o que impede a padronização em larga escala e faz o prazo de entrega chegar a anos.
O Brasil já sofreu ataques a infraestrutura elétrica?
Sim. Em 2023, a Aneel confirmou ao menos 11 casos de sabotagem contra torres de transmissão em estados como Paraná, São Paulo e Rondônia, com cabos cortados e estruturas derrubadas. O padrão foi diferente do ataque de Metcalf, nos EUA, que mirou diretamente os sistemas de resfriamento de transformadores em uma subestação.
O que causou o apagão nacional de agosto de 2023 no Brasil?
Segundo o relatório final do ONS, a origem foi uma sobrecarga na linha de transmissão Quixadá-Fortaleza II, no Ceará, seguida de falhas nos sistemas de proteção de parques eólicos e fotovoltaicos, que provocaram a desconexão em cascata de cerca de 22 mil megawatts do Sistema Interligado Nacional.
O que é um transformador de estado sólido?
É uma alternativa ao transformador convencional que substitui o núcleo de aço, o óleo isolante e as bobinas de cobre por módulos eletrônicos baseados em semicondutores como o carbeto de silício. Eles são menores, mais fáceis de substituir em caso de dano e podem ajustar tensão automaticamente, mas ainda são uma tecnologia em fase inicial de adoção comercial.
Os data centers de inteligência artificial pioram esse problema?
Sim, em dois sentidos. Primeiro, porque disputam a fila de produção de transformadores com concessionárias de energia, chegando a pagar para furar filas de fabricação. Segundo, porque o consumo elétrico oscilante de grandes modelos de IA em treinamento impõe variações de carga que a rede elétrica tradicional não foi projetada para absorver.
Referências
- Christopher Cox. "What if America Went Completely Dark?". The New York Times Magazine, 18 ago. 2026. Disponível em: nytimes.com.
- Wikipédia. "Apagão no Brasil em 2023". Disponível em: pt.wikipedia.org.
- Eixos. "Relatório do ONS sobre apagão confirma causas e pede centenas de correções", out. 2023. Disponível em: eixos.com.br.
- Poder360. "Entenda possíveis causas do apagão e a reação do sistema elétrico", ago. 2023. Disponível em: poder360.com.br.
- Correio Braziliense. "Aneel confirma 11 ataques contra torres de energia desde 8 de janeiro", jan. 2023. Disponível em: correiobraziliense.com.br.
- Terra. "Rede elétrica extensa dificulta ações contra sabotagem e requer 'inteligência', diz setor", jan. 2023. Disponível em: terra.com.br.
- InfoMoney. "IA pode acelerar negócios da WEG com demanda de energia e transmissão; entenda", jun. 2026. Disponível em: infomoney.com.br.
- WEG. "WEG announces investments to expand transformer production capacity in Brazil". Disponível em: weg.net.
- International Trade Administration (EUA). "Brazil Energy Demands and Data Center Growth". Disponível em: trade.gov.
- International Trade Administration (EUA). "Brazil Energy Data Center". Disponível em: trade.gov.