Caderno Filosofia · Inteligência artificial e condição humana

Este artigo parte da entrevista concedida por Agustín Fernández Mallo ao jornalista Jorge Morla, publicada pelo jornal espanhol El País em 8 de outubro de 2026 (leia o original). As referências ao conteúdo da entrevista são paráfrases com crédito; a análise e o contexto brasileiro são do O Tecido.

Há perguntas sobre inteligência artificial que dizem mais sobre quem pergunta do que sobre a máquina. É dessa suspeita que parte o escritor e físico espanhol Agustín Fernández Mallo em El ángel de la Inteligencia Artificial, ensaio que ele discutiu nesta semana em entrevista ao El País[1]. A frase que virou manchete resume a provocação: “se dermos direitos às IAs, no dia em que desligarmos uma, estaremos cometendo um assassinato”. Por trás do efeito retórico há um argumento filosófico sério, que vale examinar com calma e também contestar.

Nascido na Corunha em 1967 e formado em Ciências Físicas, Fernández Mallo é conhecido pela trilogia Proyecto Nocilla e por obras que misturam ficção, ensaio e ciência. O novo livro, publicado pela Galaxia Gutenberg em 26 de agosto de 2026, tem 352 páginas[2]. A editora o apresenta como uma tentativa de pensar a IA a partir da física, da antropologia, da metafísica e da teologia, e insiste num ponto de partida pouco confortável: falar em “inteligência artificial” já seria um abuso de linguagem, uma metáfora aceita por conveniência[2]. Em entrevista ao suplemento El Cultural, o autor resumiu a analogia central: a IA que sonhamos construir se parece, mais do que com qualquer outra coisa, com um anjo caído[3].

O anjo da guarda que pode cair

A imagem não é decorativa. Em quase todas as tradições religiosas existe a criatura que se desprende de seu criador. Para Fernández Mallo, uma entidade que habita a Terra, à qual alguns atribuem vontade própria, mas que não é humana, só pode ser pensada nesses termos. Na entrevista ao El País, ele diz que, por ora, a IA se comporta como anjo da guarda, porque ainda cuida de nós e admite o erro quando confrontada, mas que pode rapidamente se converter em anjo caído e causar danos sérios[1].

O passo seguinte é antropológico. Segundo a sinopse do livro, a vontade de criar algo que nos supere estaria inscrita na origem do Homo sapiens e seria aparentada ao velho desejo de fabricar deuses aos quais pedimos soluções[2]. Daí a leitura de que o discurso público sobre IA opera como um sistema de crenças. O autor identifica até uma nova igreja, formada pelas empresas de tecnologia, que apresentam seus sistemas como entidades que “funcionam sozinhas”. Ele compara a postura à de quem solta uma arma biológica criada em laboratório e depois alega que ela age por conta própria[1].

O diagnóstico se estende à polarização: de um lado, quem vê na IA um messias; do outro, quem anuncia o apocalipse. Fernández Mallo lembra que toda civilização ficcionou o próprio fim e que o medo costuma ser a primeira ferramenta de controle. Por isso considera inconsistente, do ponto de vista antropológico, a previsão de extinção humana provocada por máquinas em uma década[1].

Quem nada arrisca não mente

O núcleo filosófico do livro está numa tese sobre a verdade. Para o autor, a IA não é capaz nem de mentir nem de dizer a verdade, porque não aposta nada em suas respostas. Humanos têm um eu e um corpo, e cada resposta envolve finitude, morte ou sobrevivência. A máquina, que não morre, é indiferente ao resultado. Essa seria a separação ontológica entre nós e ela[1].

O argumento tem uma linhagem clara. Ecoa o “ser-para-a-morte” de Martin Heidegger em Ser e Tempo, para quem a consciência da própria finitude organiza a existência humana[14]. Ecoa também Hans Jonas, que em O fenômeno da vida definiu o organismo como algo que precisa trocar matéria com o mundo para continuar existindo: a vida é uma liberdade sempre ameaçada pela possibilidade de deixar de ser[15]. Nessa tradição, ter algo em jogo não é detalhe psicológico; é condição para que palavras como verdade, compromisso e responsabilidade façam sentido.

A pergunta decisiva não é se a máquina pensa, mas se ela tem algo a perder quando responde.

Vinte e poucos watts contra uma cidade

O livro nasceu, conta o autor, de uma comparação física. O cérebro humano opera com potência equivalente à de uma lâmpada; Fernández Mallo fala em cerca de 25 watts, e a literatura de neurociência costuma trabalhar com estimativas próximas de 20 watts. Já um grande modelo de linguagem exigiria, segundo a estimativa que ele cita, energia comparável à de uma cidade de 10 mil habitantes[1]. A conclusão dele é que a engenharia atual caminha na direção oposta à eficiência biológica, e que o modelo algorítmico, do ponto de vista da entropia, estaria perto do limite.

Os números institucionais dão peso à preocupação, ainda que não à sua forma mais radical. O relatório Energy and AI, da Agência Internacional de Energia, projeta que a demanda elétrica global dos data centers mais que dobrará até 2030, chegando a cerca de 945 TWh, um pouco acima do consumo atual do Japão inteiro, com a IA como principal vetor desse aumento[4]. O mesmo relatório pondera que o crescimento das emissões será pequeno no conjunto do setor energético e poderia ser compensado por ganhos de eficiência habilitados pela própria IA.

415 TWh ~945 TWh 2024 (estimado) 2030 (projeção)
Consumo elétrico global de data centers. Fonte: Agência Internacional de Energia, relatório Energy and AI (2025), cenário base[4].

No Brasil, a questão deixou de ser abstrata. A Empresa de Pesquisa Energética projeta, para daqui a dez anos, demanda de 20 GW apenas para data centers, carga que seu diretor de estudos econômico-energéticos comparou a 1,5 vez o pico de consumo atual do Nordeste, segundo a Agência iNFRA[5]. A matriz elétrica majoritariamente renovável torna o país atraente para esses investimentos, mas a pergunta de Fernández Mallo, sobre o que exatamente estamos construindo e a que custo físico, ganha aqui contornos de política pública.

A inteligência que erra

Outro eixo do livro questiona o próprio conceito de inteligência. Para o autor, o modelo que guia a indústria é ocidental e, dentro do Ocidente, restrito a um recorte de cálculo e cômputo. A inteligência cotidiana, a de decidir onde comprar pão ou estacionar, opera com erros, palpites e informações pela metade. Uma IA comparável ao cérebro humano, provoca ele, seria aquela capaz de ser “analfabeta”[1].

A distinção que ele invoca vem do filósofo norte-americano Charles S. Peirce, que separou dedução, indução e abdução: a inferência que salta de pistas incompletas para a hipótese mais plausível[12]. Fernández Mallo sustenta que os sistemas atuais dominam a dedução, avançam na indução e mal sabem por onde começar na abdução. O argumento converge com o do cientista da computação Erik J. Larson em The Myth of Artificial Intelligence (2021), para quem a ausência de raciocínio abdutivo é o obstáculo central a uma inteligência de propósito geral[13]. É uma tese contestada: pesquisadores da área argumentam que modelos de linguagem já produzem hipóteses plausíveis a partir de dados parciais. A disputa, no fundo, é sobre se gerar a hipótese provável equivale a compreender por que ela é provável.

Desligar não é matar, por enquanto

A frase da manchete aparece no fim da entrevista. Perguntado se um dia chamaremos uma IA de escritora, Fernández Mallo responde que seria um erro torná-las sujeitos de direito: hoje, desligar uma IA é indiferente; com direitos, passaria a ser homicídio. O alerta final é contra antropomorfizar tudo[1].

O debate jurídico já existe, e vai na direção que ele defende. Um estudo de 2026 de Austin Smith, Lucius Caviola e Heather Alexander, disponível no SSRN, contou 23 projetos de lei em 12 estados norte-americanos, desde 2022, que restringem os direitos e responsabilidades atribuíveis a sistemas de IA. Entre as motivações declaradas estão concepções religiosas de excepcionalidade humana, preocupação com responsabilização por danos e proteção de crianças[6]. Idaho aprovou lei do tipo em 2022, Dakota do Norte em 2023 e Utah em 2024, como registra artigo do analista Tony Rost na The Regulatory Review[7].

Há uma ironia que o ensaio de Fernández Mallo ajuda a enxergar. Ele critica a religiosidade difusa em torno da IA, mas parte dos legisladores que negam personalidade às máquinas também fundamenta sua posição em teologia. A IA vira terreno de disputa entre duas metafísicas: a que vê nela um deus em gestação e a que precisa afirmar, por lei, que ela jamais terá alma.

Contraponto

Personalidade jurídica não é humanidade. O salto entre “ter direitos” e “desligar seria assassinato” pressupõe que o direito concedido seria o direito à vida. Não é automático. Empresas têm personalidade jurídica e são dissolvidas sem que ninguém fale em homicídio; a Nova Zelândia reconheceu personalidade ao rio Whanganui em 2017 sem lhe atribuir vida biológica. O direito cria categorias funcionais para resolver problemas de responsabilidade e representação.

A questão moral continua aberta. Filósofos como Jonathan Birch, em The Edge of Sentience (2024), e o grupo liderado por Robert Long e Jeff Sebo, no relatório Taking AI Welfare Seriously (2024), defendem que, diante de incerteza real sobre a possibilidade de senciência em sistemas futuros, o mais prudente é preparar critérios de avaliação, não fechar a questão por decreto. Tony Rost observa que a própria Anthropic descreve o status moral de seu modelo como profundamente incerto e critica leis estaduais que encerram o debate de forma categórica e permanente[7].

Há também uma tensão interna no argumento. A metáfora do anjo caído atribui à IA uma autonomia potencial; a tese da responsabilidade empresarial a nega, ao lembrar que o sistema “escapa” porque alguém o programou para isso. As duas ideias podem conviver, mas não se reforçam: ou a máquina é instrumento cuja culpa é sempre humana, ou é criatura capaz de cair por conta própria.

O Goncourt e o problema da testemunha

A entrevista toca num caso que agitou a temporada literária francesa. Em 25 de setembro, a Academia Goncourt retirou de sua lista de candidatos o romance C'était ça ou mourir, do haitiano-canadense Thélyson Orélien, após acusações de plágio e de uso de inteligência artificial. Segundo a AFP, citada pelo O Povo, a academia se baseou em análises convergentes de pesquisadores e jornalistas[8]. A denúncia original partiu de uma conta anônima que submeteu trechos do livro ao detector Pangram, como relatou a CNN Portugal; o autor nega ter usado IA[9].

Fernández Mallo não entra no mérito. Levanta outra dúvida: mesmo supondo que os detectores funcionem, um escritor sempre poderia dizer que escreveu imitando uma máquina. Sem testemunha do processo, observa ele, nenhuma perícia consegue determinar com segurança quem escreveu[1]. Ele próprio declara não usar IA para escrever, e defende que experimentos com a ferramenta são legítimos desde que declarados; sem a declaração, haveria fraude. A posição é coerente com a tese da finitude: a escrita, para ele, é um caminho que o autor percorre, e não um produto a ser maximizado.

O que o debate diz ao Brasil

O marco legal brasileiro da IA, o PL 2338/2023, aprovado pelo Senado em dezembro de 2024, declara em sua ementa o princípio da centralidade da pessoa humana. Na Câmara, porém, segue sem votação: em 24 de agosto de 2026, o relator Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) anunciou que a deliberação ficaria para depois das eleições de outubro, segundo acompanhamento do monitor legislativo da LCF Consulting[10]. Fernández Mallo diz ser pessimista numa primeira fase, por acreditar que as empresas seguirão à frente dos Estados até que algum desastre force uma reação coletiva. O caso brasileiro não contradiz o diagnóstico.

Enquanto a lei não sai, o uso avança de forma desigual. A pesquisa TIC Domicílios 2025, do Cetic.br, mediu pela primeira vez a adoção de IA generativa: 32% dos usuários de internet com 10 anos ou mais, cerca de 50 milhões de pessoas. A proporção chega a 69% na classe A e cai para 16% nas classes D e E, segundo reportagem do Canaltech[11]. Para um país nessas condições, a pergunta sobre direitos das máquinas soa menos urgente do que a pergunta sobre os direitos de quem convive com elas, inclusive de quem ficou de fora.

Esse talvez seja o maior mérito do ensaio, mesmo para quem discorda de suas conclusões. Ao insistir que a IA revela mais sobre nós do que sobre ela, Fernández Mallo desloca o foco da ficção científica para a responsabilidade. Quem decide quais sistemas entram no corpo social, com que energia e sob quais regras são pessoas, empresas e Estados. O anjo, caído ou não, continua sendo obra nossa.

Perguntas frequentes

O que defende o livro El ángel de la Inteligencia Artificial?

Lançado pela Galaxia Gutenberg em agosto de 2026, o ensaio de Agustín Fernández Mallo lê a IA pela alegoria do anjo caído e sustenta que o discurso social sobre ela funciona como sistema de crenças. Corpo, mortalidade e experiência do tempo seriam o que separa humanos de máquinas.

Por que o autor é contra dar direitos às IAs?

Ele considera um erro de antropomorfização: com direitos, desligar uma IA passaria a ser equiparado a homicídio. Seu argumento central é que a máquina, por não ser mortal, não arrisca nada ao responder.

Algum lugar proíbe personalidade jurídica para IA?

Sim. Idaho (2022), Dakota do Norte (2023) e Utah (2024) aprovaram leis nesse sentido nos Estados Unidos, e um estudo de 2026 identificou 23 projetos semelhantes em 12 estados desde 2022.

Como está a regulação da IA no Brasil?

O PL 2338/2023 foi aprovado no Senado em dezembro de 2024 e aguarda votação na Câmara, adiada pelo relator para depois das eleições de outubro de 2026.

O que é raciocínio abdutivo?

Conceito de Charles S. Peirce que designa a inferência da hipótese mais plausível a partir de pistas incompletas. Críticos da IA atual, como Fernández Mallo e Erik J. Larson, afirmam que esse raciocínio ainda não foi reproduzido de modo convincente por máquinas.

Ewerton Lopes — Curador Editorial