Em coluna publicada neste 19 de outubro no jornal espanhol El País, a jornalista Carmela Ríos sugere um preparo eleitoral pouco convencional: ir ao cinema antes de votar.1 O filme em questão é The Social Reckoning, de Aaron Sorkin, lançado na Espanha como El precio de la red e no Brasil como O Outro Lado das Redes, em cartaz desde 8 de outubro, segundo a Ingresso.com.2 A recomendação foi escrita para o eleitor espanhol, que vai às urnas em 29 de novembro. Para o brasileiro, o prazo é mais curto: o segundo turno presidencial acontece no próximo domingo, 25 de outubro.
A coincidência de calendários dá ao argumento de Ríos um alcance que ultrapassa a Espanha. A tese central da coluna é que parte relevante de qualquer campanha eleitoral contemporânea acontece fora do campo de visão do eleitor, dentro de sistemas de recomendação que montam uma versão distinta da disputa para cada pessoa. O filme de Sorkin funciona, nessa leitura, como lembrete de que essa mecânica foi documentada por dentro das próprias empresas há pelo menos sete anos.
O que o filme retrata e por que o tema voltou à pauta
Escrito e dirigido por Sorkin, roteirista premiado com o Oscar por A Rede Social (2010), o novo longa é apresentado pela Sony como obra complementar ao primeiro. De acordo com a Variety, a trama acompanha a engenheira Frances Haugen (Mikey Madison) e o repórter do Wall Street Journal Jeff Horwitz (Jeremy Allen White) na apuração que expôs segredos internos do Facebook; Jeremy Strong interpreta Mark Zuckerberg.3
O caso real é conhecido. Em 2021, Haugen entregou milhares de páginas de documentos internos à SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos, e a jornalistas, e depôs no Senado americano em outubro daquele ano. A série de reportagens resultante, os Facebook Files, tratou de saúde mental de adolescentes, moderação seletiva de conteúdo e efeitos do algoritmo sobre a política. Ríos lembra que esse material passou a sustentar ações judiciais movidas contra a Meta por instituições e famílias em diversos países.1
Há um dado que relativiza o peso cultural da estreia: nos Estados Unidos, o filme arrecadou 5,5 milhões de dólares no primeiro fim de semana, abaixo das projeções do mercado, e ficou em quinto lugar nas bilheterias, segundo a Forbes Portugal.4 A conversa que o filme propõe, portanto, tende a circular mais pela imprensa e pelas próprias redes do que pelas salas de cinema.
O que os documentos mostraram sobre partidos e algoritmos
O trecho dos Facebook Files mais relevante para quem vota envolve uma alteração feita em 2018 no algoritmo do feed de notícias. A mudança passou a premiar publicações que geravam mais interações, como comentários e compartilhamentos. Um relatório interno de 2019, citado pelo Wall Street Journal e reproduzido em documentação anexada a uma audiência da Câmara dos Estados Unidos, registrou que partidos europeus afirmavam ter ajustado até suas posições políticas para ganhar alcance na plataforma.5
O caso polonês virou o exemplo mais citado. A equipe de redes sociais de um partido estimou que suas publicações passaram de um equilíbrio de 50% positivas e 50% negativas para 80% negativas, como efeito direto da mudança. Em reportagem do Washington Post republicada pelo Stars and Stripes, uma análise independente de dados indicou que, após 2018, mensagens negativas de partidos poloneses passaram a ter mais chance de alto compartilhamento.6
O mesmo relatório, segundo reportagem baseada nos documentos, mencionava partidos da União Europeia, da Índia e de Taiwan presos a um ciclo de campanha negativa induzido pelos incentivos da plataforma, e chegou a sugerir páginas especiais para partidos operando sob o algoritmo antigo.7 Ríos resume a situação de forma direta: os partidos sabiam que a deriva fazia mal à sociedade, mas temiam perder relevância se não se adaptassem.1
A campanha que cada eleitor não vê
O primeiro alerta da coluna espanhola é o que mais se aplica ao Brasil: uma parte da campanha não chega a todos da mesma forma. Quando cada pessoa recebe um recorte próprio de vídeos, cortes e mensagens, a conversa política perde o terreno comum de temas compartilhados. Não se trata de uma suspeita abstrata. O país tem hoje 168,7 milhões de usuários de internet, o equivalente a 90,5% da população com 10 anos ou mais, de acordo com dados do IBGE divulgados pela Jovem Pan.8 Entre os usuários, 81% disseram usar redes sociais, segundo a pesquisa TIC Domicílios 2025, do Cetic.br.9
Na prática, isso significa que dois eleitores vizinhos podem ter atravessado as últimas três semanas com percepções incompatíveis sobre o mesmo segundo turno, cada uma reforçada por um feed que aprendeu o que retém sua atenção. A disputa presidencial de 25 de outubro, entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), é decidida por margens estreitas o bastante para que essa fragmentação deixe de ser detalhe técnico.
Fundadores longevos, governantes de passagem
A segunda referência da coluna é literária. O ensaísta e romancista ítalo-suíço Giuliano da Empoli, autor de Os Engenheiros do Caos e de O Mago do Kremlin, lançou em 15 de outubro, pela Gallimard, o romance Le Fondateur. Segundo a apresentação do livro divulgada pela Sciences Po, a trama acompanha um ex-assessor político recrutado por Alexander Zimmer, fundador de uma empresa de vigilância de alcance global.10
Ríos destaca uma imagem atribuída a Zimmer: políticos eleitos seriam como “moscas-da-fruta”, organismos de vida curta no ecossistema do poder.1 Chegam, governam alguns anos e saem. Fundadores de grandes empresas de tecnologia, ao contrário, podem controlar por décadas dados, infraestrutura e capacidade de influência. A provocação de Da Empoli desloca a pergunta clássica sobre quem vence a eleição para outra, menos visível: quem define as condições em que a eleição é disputada.
Para o leitor brasileiro, a assimetria é concreta. Mandatos presidenciais duram quatro anos; os sistemas de recomendação que distribuem a propaganda eleitoral pertencem a empresas cuja governança não passa pelo voto.
Como o Brasil tenta regular o terreno
O Brasil chegou a 2026 com um arcabouço mais robusto do que o de muitos países europeus citados nos Facebook Files, construído sobretudo pelo Judiciário. Três marcos se destacam.
- Responsabilidade das plataformas. Em junho de 2025, o Supremo Tribunal Federal declarou o artigo 19 do Marco Civil da Internet parcialmente inconstitucional, ampliando a responsabilidade civil das plataformas por conteúdo de terceiros, conforme análise do escritório Machado Meyer.11 Em junho de 2026, ao julgar os embargos, a Corte fixou prazo de 60 dias para que as empresas se adequassem ao chamado dever de cuidado, segundo o Teletime.12
- Inteligência artificial na campanha. Em março de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral aprovou regras que proíbem a publicação de conteúdo manipulado nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores a cada turno, e exigem rótulo em material de propaganda alterado por IA, como registrou editorial do O Povo.13 As normas também vedam que sistemas de IA ofereçam recomendações personalizadas de voto.
- Acordo com empresas. Em julho, o TSE renovou com Google, X, Meta, Kwai, Telegram, TikTok e LinkedIn, além das empresas de IA OpenAI, ElevenLabs e Anthropic, o programa permanente de combate à desinformação, segundo a Agência Brasil.14
O limite dessas medidas é o mesmo apontado por Ríos para a Espanha. Regras de remoção e rotulagem atacam conteúdo ilegal ou fabricado. Elas alcançam pouco o problema descrito no relatório de 2019: a preferência estrutural do algoritmo por mensagens que geram reação intensa, mesmo quando perfeitamente legais. Um insulto verdadeiro não é deepfake, e um vídeo de ataque ao adversário não é desinformação. Ambos, porém, tendem a circular mais do que uma proposta de governo.
O algoritmo não explica tudo. Pesquisadores que estudaram o próprio caso polonês contestam a leitura de que a plataforma criou a polarização. O sociólogo Dominik Batorski, da Universidade de Varsóvia, argumentou em entrevista ao OKO.press que as divisões no país antecedem a mudança de 2018 e que culpar algoritmos é conveniente para políticos que escolheram o confronto.15 Na mesma linha, análises publicadas pelo veículo apontam sinais mensuráveis de polarização na Polônia desde 2014.
Regular também tem custo. No Brasil, ministros do STF como André Mendonça, Edson Fachin e Nunes Marques defenderam a constitucionalidade do artigo 19, sob o argumento de que a exigência de ordem judicial protege a liberdade de expressão contra remoções preventivas. A crítica de que o novo regime pode incentivar plataformas a retirar conteúdo legítimo por precaução permanece no debate jurídico.
O que observar até domingo
A proposta de Ríos não é que o eleitor trate o cinema como fonte de verdade sobre a eleição. É que reconheça o ambiente em que forma sua opinião. Algumas perguntas ajudam a fazer essa leitura sem recorrer a teorias de manipulação total:
- Quanto do que se viu sobre os candidatos foram propostas e quanto foram ataques ao adversário?
- O conteúdo que chegou por mensagem ou feed traz fonte identificável, data e contexto?
- Vídeos e áudios de grande impacto publicados nas 72 horas finais trazem rótulo de IA, como exige o TSE?
- A versão da campanha que aparece no próprio celular coincide com a de pessoas que pensam diferente?
Nenhuma dessas perguntas neutraliza o efeito do algoritmo. Elas apenas devolvem ao eleitor parte da noção de que existe uma campanha maior do que aquela que lhe foi mostrada. Sete anos depois do relatório interno que registrou partidos europeus incomodados com o que a plataforma os levava a dizer, o diagnóstico de Ríos é que pouco mudou na lógica dos incentivos. O que mudou foi a escala.
Perguntas frequentes
Qual é o filme de Aaron Sorkin sobre Frances Haugen?
The Social Reckoning, lançado no Brasil como O Outro Lado das Redes e na Espanha como El precio de la red. O filme estreou nos cinemas brasileiros em 8 de outubro de 2026 e retrata como Haugen e o jornalista Jeff Horwitz revelaram documentos internos do Facebook.
O que foram os Facebook Files?
Série de reportagens do Wall Street Journal publicada em 2021 com base em documentos internos entregues por Frances Haugen. Os textos abordaram efeitos do Instagram sobre adolescentes, tratamento diferenciado a usuários influentes e o impacto da mudança de algoritmo de 2018 sobre o debate político.
Como a mudança de algoritmo de 2018 afetou partidos políticos?
Um relatório interno de 2019 registrou que partidos europeus se sentiam pressionados a adotar mensagens mais negativas para manter alcance. Um partido polonês estimou ter passado de 50% para 80% de publicações negativas após a mudança.
Quais regras o TSE aplica ao uso de IA nas eleições de 2026?
O TSE proíbe conteúdo manipulado nas 72 horas antes e 24 horas depois de cada turno, exige rótulo em propaganda alterada por IA, veda montagens de nudez envolvendo candidatas e impede que sistemas de IA recomendem em quem votar.
Quando são as eleições no Brasil e na Espanha?
O segundo turno presidencial brasileiro é em 25 de outubro de 2026. As eleições gerais espanholas foram convocadas para 29 de novembro de 2026, com campanha oficial entre 13 e 27 de novembro.