Caderno Política 24 de setembro de 2026 Por Ewerton Lopes — Curador Editorial Leitura: 9 min

Em 1928, Virginia Woolf discursou para estudantes de duas faculdades femininas de Cambridge e defendeu que uma mulher precisava de dinheiro e de um quarto próprio para escrever ficção. Quase um século depois, a adaptação teatral dessas palestras esbarrou em um obstáculo que a escritora não poderia prever: o sistema automático de anúncios da Meta, que classificou a divulgação da peça como conteúdo sobre “temas sociais” e a bloqueou no Facebook e no Instagram.1 Dois dias depois de o caso chegar às páginas do The Guardian, o Instagram retirou do ar, por algumas horas, o perfil da série brasileira Revelando, logo após a publicação de um episódio apresentado pelo humorista Fábio Porchat sobre o caso Banco Master.5,6

Os episódios têm natureza diferente. Em Barcelona, o alvo foi publicidade paga; no Brasil, uma conta com conteúdo orgânico. Mas ambos terminaram da mesma forma: justificativa genérica, repercussão pública e uma reversão apresentada pela empresa como erro. É esse roteiro, mais do que cada caso isolado, que interessa ao debate político brasileiro a dez dias do primeiro turno.

O que aconteceu no Teatre Raval, em Barcelona

Segundo reportagem de Stephen Burgen no The Guardian, o Teatre Raval, sala de 193 lugares recém-reaberta em Barcelona, tentou divulgar nas redes da Meta a montagem de Um Teto Todo Seu (A Room of One’s Own), monólogo interpretado pela atriz Clara Sanchis.1 Ao pedir explicações, o teatro ouviu que menções a direitos civis, feminismo ou reforma social costumam ser enquadradas pelo sistema automático como temas sociais e, por isso, filtradas. A sugestão da empresa foi retirar palavras-chave do texto para que ele não parecesse um estímulo ao ativismo.1

O teatro divulgou nota em que tratou o bloqueio como injustiça e lembrou que depende das redes para informar o público sobre sua programação. Sanchis, em entrevista ao La Vanguardia reproduzida pelo Guardian, disse não saber se o veto se deveu ao nome de Woolf, à palavra feminismo ou às duas coisas, e descreveu o episódio como uma forma de apagar avanços construídos ao longo de séculos.1 Após a publicação da reportagem, um porta-voz da Meta afirmou que o anúncio havia sido removido por engano e rapidamente restabelecido.1

O conteúdo da obra torna o episódio ainda mais simbólico. As palestras que deram origem ao ensaio foram feitas em Newnham e Girton, na época as únicas faculdades de Cambridge que aceitavam mulheres. A universidade admitia alunas desde 1869, mas só passou a conceder a elas o diploma em 1948, como registra o jornal britânico.1

Por que um anúncio de teatro virou “tema social”

O contexto regulatório europeu ajuda a explicar por que esse tipo de bloqueio se tornou mais provável. Desde 6 de outubro de 2025, a Meta não veicula anúncios sobre temas sociais, eleições e política em nenhum país da União Europeia.2,3 A decisão respondeu ao Regulamento de Transparência e Direcionamento da Publicidade Política (TTPA), aplicável desde 10 de outubro daquele ano, que exige rotulagem clara, identificação de quem pagou, valores gastos e critérios de segmentação, com multas que podem chegar a 6% do faturamento anual.3 A Meta alegou que as exigências, entre elas o consentimento explícito e separado dos usuários para o uso de dados nesse tipo de anúncio, criavam complexidade operacional e insegurança jurídica incompatíveis com sua escala.2

Na prática, a empresa preferiu fechar a categoria inteira a adaptá-la. A partir daí, tudo passa a depender de onde o classificador traça a fronteira do que é tema social. Se a linha é cruzada por qualquer menção a feminismo, uma peça sobre uma autora nascida em 1882 acaba do lado proibido. A regulação europeia não mandou vetar Virginia Woolf. O resultado veio da soma entre uma categoria ampla, uma decisão empresarial de retirada total e um filtro automático calibrado para errar por excesso.

O caso Revelando e o vídeo de Fábio Porchat

No Brasil, a série Revelando, projeto do podcast Calma Urgente em parceria com ICL, Mídia Ninja e 342 Artes, publicou o episódio “Grandes Igrejas, Master Negócios”, apresentado por Fábio Porchat.5 O vídeo trata de relações entre o Banco Master, a Igreja Batista da Lagoinha e personagens da política, a partir de fatos ligados a investigações da Polícia Federal que seguem em curso e não resultaram em condenações.5,8 Segundo o Olhar Digital, o teaser havia alcançado 6 milhões de visualizações, e o episódio completo chegou ao primeiro lugar do ranking de destaques do YouTube em menos de 24 horas.5

Na manhã de 23 de setembro, o perfil da série no Instagram, com mais de 100 mil seguidores, foi removido. O coletivo responsável relatou ter recebido apenas a informação de que o conteúdo não seguia os padrões da plataforma, sem indicação da regra violada.5,7 A exclusão também atingiu publicações feitas em colaboração com parceiros, inclusive as do primeiro episódio da série, sobre a história da eugenia no Brasil.5 Horas depois, a conta voltou ao ar. Em nota enviada ao portal Metrópoles, a Meta informou ter restaurado o perfil após revisão interna e pediu desculpas pela inconveniência.6

Porchat gravou um novo vídeo afirmando que o material reunia fatos amplamente noticiados pela imprensa e que “não era campanha, não era calúnia, não era racismo”.7 O episódio no YouTube não foi afetado. Apoiadores da série acusaram a Meta de perseguição política; críticos da produção trataram a remoção como aplicação legítima das regras da plataforma. Até o fechamento deste texto, não havia informação pública sobre o que disparou a retirada: denúncia em massa, classificador automático ou revisão humana.

O padrão: automação, opacidade e recuo seletivo

Colocados lado a lado, os dois casos revelam três elementos que se repetem.

Automação em escala. A própria Meta reconheceu, em janeiro de 2025, que removia milhões de conteúdos por dia e que, em dezembro de 2024, entre uma e duas de cada dez dessas ações poderiam ter sido erros.4 A empresa anunciou então que concentraria a fiscalização proativa em violações graves e desligaria sistemas automáticos com alta taxa de erro, e depois relatou uma queda de cerca de 50% nos erros de aplicação nos Estados Unidos.4 Na Europa, dados da base de transparência da Lei de Serviços Digitais (DSA) citados pelo JOTA indicavam que 51% das decisões de moderação informadas pelas plataformas em seis meses foram totalmente automatizadas.12

Justificativas opacas. Em nenhum dos casos a resposta inicial apontou a regra específica, o trecho problemático ou o critério aplicado. “Temas sociais” e “padrões da comunidade” funcionam como categorias guarda-chuva, difíceis de contestar com precisão por quem é atingido.

Correção que depende de visibilidade. O Teatre Raval e o Revelando tiveram as decisões revertidas depois de repercussão na imprensa e pressão pública. Fica em aberto o que acontece com o coletivo de bairro, a pequena editora ou o candidato a vereador que não conta com uma reportagem no The Guardian nem com um apresentador de milhões de seguidores.

Quando a correção depende da repercussão, a regra passa a valer de forma desigual.
Anúncio oupublicação Classificaçãoautomática Rótulo genérico“tema social” ou“fora dos padrões” Bloqueio ouremoção Com repercussão:revisão internae restauração Sem repercussão:desfecho incerto COMO UMA DECISÃO AUTOMATIZADA CHEGA AO USUÁRIO
Esquema editorial de O Tecido com base nos casos Teatre Raval e Revelando. A etapa “sem repercussão” indica ausência de dados públicos sobre reversões, não um resultado comprovado.

O que muda para o Brasil em plena eleição

O calendário amplia o peso dessas decisões. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro, e o impulsionamento pago de propaganda eleitoral na internet só é permitido até 1º de outubro, conforme o calendário do TSE.10 Diferentemente da União Europeia, a Meta segue aceitando no Brasil anúncios sobre política, eleições e temas sociais, registrados em sua Biblioteca de Anúncios. Levantamento do Estadão, reproduzido pelo Jornal O Sul, identificou cerca de 65,1 mil anúncios dessas categorias nas plataformas da empresa desde o início da campanha, em 16 de agosto, com gastos de R$ 7,9 milhões, parte deles em desacordo com a regra que proíbe usar o impulsionamento para atacar adversários e instituições.9

O país convive, portanto, com dois riscos simultâneos: conteúdo irregular que circula sem ser contido a tempo e conteúdo legítimo retirado sem explicação. Os dois problemas têm a mesma raiz, a pouca transparência sobre como os sistemas de classificação decidem.

O ambiente jurídico também mudou. Em junho de 2025, o STF declarou a inconstitucionalidade parcial e progressiva do artigo 19 do Marco Civil da Internet, que condicionava a responsabilização das plataformas ao descumprimento de ordem judicial.11 Pela tese fixada, as empresas podem responder civilmente por conteúdos de terceiros em diversas situações após simples notificação, anúncios e impulsionamentos pagos geram presunção de responsabilidade, e os crimes contra a honra continuam exigindo decisão judicial. A mesma tese prevê que as plataformas mantenham autorregulação com sistema de notificações, devido processo e relatórios anuais de transparência.11 Em agosto de 2026, ao julgar embargos, o Supremo fixou em 5 de agosto de 2025 o marco temporal de efeitos da decisão.11

Esse desenho cria incentivos em duas direções. O aumento do risco jurídico estimula as plataformas a remover mais e mais depressa, o que tende a multiplicar erros como o que atingiu o Revelando. Ao mesmo tempo, a exigência de devido processo dá ao usuário brasileiro um fundamento concreto para cobrar que cada remoção venha acompanhada da regra aplicada e de um canal efetivo de revisão.

O que observar nas próximas semanas

Três perguntas devem orientar a cobertura. A primeira é se a Meta vai detalhar publicamente o que provocou a remoção do perfil do Revelando. A segunda é se o TSE e o Ministério Público Eleitoral vão acompanhar remoções de contas jornalísticas e de comentário político na reta final da campanha, e não apenas os conteúdos que deixam de ser removidos. A terceira é se o Congresso vai avançar em uma lei que substitua o regime provisório definido pelo STF, com regras claras de notificação, justificativa e recurso.

Woolf anotou em seu diário que esperava ser atacada como feminista pelo que havia escrito.1 Dificilmente imaginaria que, noventa e oito anos depois, a objeção viria de um sistema de classificação de anúncios, e que seria desfeita apenas porque alguém reclamou em público.

Nota de atribuição. Este texto parte da reportagem “Meta bans ads for Virginia Woolf play in Spain because they relate to feminism”, de Stephen Burgen, publicada pelo The Guardian em 21 de setembro de 2026 (leia o original). O conteúdo não é tradução nem reprodução da reportagem: as informações atribuídas ao jornal britânico estão creditadas, e a análise e o contexto brasileiro foram desenvolvidos por O Tecido a partir de fontes independentes.

Perguntas frequentes

Por que a Meta bloqueou os anúncios da peça sobre Virginia Woolf em Barcelona?

Segundo o The Guardian, o sistema automático da Meta classificou a divulgação de Um Teto Todo Seu, do Teatre Raval, como conteúdo sobre temas sociais, categoria que inclui menções a feminismo e direitos civis. Desde outubro de 2025 a empresa não veicula anúncios dessa categoria na União Europeia. A Meta depois afirmou que o bloqueio foi um erro e restabeleceu o anúncio.

A Meta proíbe anúncios sobre temas sociais no Brasil?

Não. A proibição vale na União Europeia, em resposta ao regulamento TTPA. No Brasil esses anúncios continuam permitidos, ficam registrados na Biblioteca de Anúncios e, no caso de propaganda eleitoral, seguem as regras do TSE, que autorizam o impulsionamento pago até 1º de outubro de 2026.

O que aconteceu com o perfil da série Revelando no Instagram?

Em 23 de setembro de 2026, o Instagram removeu o perfil da série após a publicação de um episódio apresentado por Fábio Porchat sobre o caso Banco Master, sob a justificativa genérica de que o conteúdo não seguia os padrões da plataforma. Horas depois, a Meta restaurou a conta após revisão interna e pediu desculpas.

A remoção do perfil Revelando foi censura política?

Não há evidência pública de motivação política. A Meta não explicou qual mecanismo provocou a remoção. A crítica documentada trata da falta de transparência e de justificativa específica, e não da comprovação de intenção.

Quais regras valem para as plataformas no Brasil após a decisão do STF?

Desde a decisão de junho de 2025 sobre o artigo 19 do Marco Civil da Internet, as plataformas podem responder civilmente por conteúdos de terceiros em diversas situações após notificação, e anúncios pagos geram presunção de responsabilidade. Crimes contra a honra continuam exigindo ordem judicial. O regime vale até que o Congresso aprove lei específica.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido