Caderno Ciência — Sociedade em Rede
Um homem, sozinho em frente a uma tela, publicou mais de 87 mil vezes em quatro anos e meio. Esse número, levantado por uma equipe de reportagem que baixou e processou o histórico completo de postagens de Elon Musk na plataforma X, não é uma curiosidade estatística. É a matéria-prima de um experimento involuntário sobre como o comportamento de uma única conta pode reconfigurar, com evidência mensurável, o debate público de um país inteiro.
O caso estudado é o Reino Unido. Segundo a apuração do Wall Street Journal1, nenhum outro país estrangeiro recebeu tanta atenção sustentada de Musk quanto a antiga metrópole de seus antepassados maternos. Em junho deste ano, mais de 10% de tudo o que ele publicou tratava de política britânica, um volume que caiu para poucas dezenas de menções já em julho, um padrão de picos e vales que os cientistas de dados que estudam plataformas chamam de resposta a eventos-gatilho.
Uma investigação feita com as ferramentas da própria ciência de dados
O aspecto mais relevante para o caderno Ciência não é apenas o conteúdo político dos posts, mas o método usado para analisá-los. A equipe do WSJ recorreu a um modelo de linguagem para classificar por tema cada uma das 87.065 publicações baixadas, comparando depois uma amostra de 471 posts com a classificação feita por humanos. O resultado de concordância chegou a 92%, e em uma segunda checagem, sobre menções a países específicos, a 96%.
Essa não é apenas uma nota de rodapé metodológica. É uma amostra de como a própria ciência da comunicação está migrando de análises qualitativas de pequena escala para auditorias computacionais de bases de dados massivas, um método que pesquisas anteriores do Computational Propaganda Research Project, ligado ao Oxford Internet Institute, já vinham aplicando desde 2012 para mapear como algoritmos, automação e política interagem em dezenas de países.
O efeito multiplicador: da margem ao centro do debate
O caso mais ilustrativo é o de Rupert Lowe, parlamentar então pouco conhecido fora de Westminster. Antes de Musk mencioná-lo pela primeira vez, em janeiro de 2025, as publicações de maior alcance de Lowe somavam poucos milhões de visualizações. Depois de mais de cem interações de Musk com seus posts, segundo o levantamento do WSJ, esse número passou a rotineiramente ultrapassar dezenas de milhões, e mesmo as publicações de Lowe que não foram diretamente amplificadas por Musk passaram a receber, em média, mais que o dobro de curtidas e visualizações do período anterior.
Esse padrão tem nome na literatura de ciência de redes: efeito de superespalhador, quando um nó com conectividade desproporcional injeta energia em toda uma rede, elevando não só o próprio alcance, mas o piso de visibilidade de tudo que passa a orbitar em torno dele. O partido criado com o apoio simbólico de Musk, o Restore Britain, passou a pontuar cerca de 5% nas pesquisas nacionais com poucos funcionários contratados, e o candidato do partido chegou perto de 7% dos votos em uma eleição suplementar em Makerfield, região que elegeu Andy Burnham, hoje primeiro-ministro britânico.
Quem é o homem por trás do multiplicador
Musk costuma justificar seu interesse pelo Reino Unido citando a ascendência britânica de sua avó paterna, nascida em Liverpool. O dado biográfico que raramente aparece ao lado dessa narrativa é que o próprio Musk chegou aos Estados Unidos como imigrante, em 1992, com cidadania canadense e visto de intercâmbio J-1 para estudar na Universidade da Pensilvânia.
Uma investigação do Washington Post publicada em outubro de 20242 apontou que Musk pode ter ficado sem autorização legal de trabalho em 1995, quando abandonou um programa de pós-graduação em Stanford para fundar a empresa que se tornaria a Zip2, já que o visto de estudante estava vinculado à matrícula acadêmica. O jornal cita um e-mail de 2005, apresentado em um processo judicial, no qual o próprio Musk teria reconhecido que precisava se matricular em Stanford porque não tinha "direito legal de permanecer no país". Musk nega qualquer irregularidade e afirma que seu visto J-1 foi convertido em H-1B. Seu irmão, Kimbal Musk, chegou a se referir aos dois como "imigrantes ilegais" em depoimentos posteriores citados por veículos como a Snopes3, embora checadores de fatos considerem essas recordações imprecisas demais para provar de forma conclusiva um status irregular em uma data específica. Musk se naturalizou americano em 2002.
A segunda tensão biográfica está no dinheiro. Uma análise do Washington Post estimou que as empresas de Musk, sobretudo Tesla e SpaceX, receberam ao menos US$ 38 bilhões em contratos, empréstimos, subsídios e créditos fiscais governamentais desde 20032, incluindo um empréstimo de US$ 465 milhões do Departamento de Energia americano que ajudou a Tesla a sobreviver a um momento crítico. A SpaceX, isoladamente, mantém hoje mais de US$ 22 bilhões em contratos ativos com a Nasa e o Pentágono. O contraste entre um empresário que construiu parte relevante de sua fortuna com financiamento estatal e que hoje defende o fechamento de fronteiras e o corte de gastos públicos é um dado que cabe ao leitor ponderar, não uma acusação que este jornal formule.
Contraponto
Nem toda amplificação é manipulação
Rupert Lowe nega que sua ascensão dependa de qualquer favorecimento algorítmico e atribui seu crescimento à mensagem sobre imigração, não a Musk. "As pessoas o acusam de alterar o algoritmo, ele não faz isso", disse à reportagem do WSJ. Pesquisadores de propaganda computacional também alertam para um limite metodológico real: medir aumento de visualizações e curtidas prova exposição, não necessariamente mudança de opinião ou de voto, e correlação entre atenção de uma conta grande e crescimento de outra menor não isola causalidade de forma definitiva. Defensores de Musk também argumentam que a crítica a um empresário estrangeiro que participa do debate público de outro país pode, em certas leituras, colidir com garantias de liberdade de expressão, ainda que autoridades britânicas o considerem um ator estrangeiro com influência desproporcional sobre uma democracia que não é a sua.
O Brasil já mediu esse fenômeno em casa
Para o público brasileiro, o caso britânico soa familiar. A Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV DAPP) mapeia desde 2018 o papel de contas automatizadas e redes coordenadas na disseminação de desinformação eleitoral no país, identificando, em um único levantamento sobre a greve geral de 2017, que bots responderam por mais de 20% das interações no debate político do Twitter da época.
O confronto direto entre Musk e instituições brasileiras também já aconteceu. Em agosto de 2024, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes determinou a suspensão completa do X em todo o território nacional depois que a empresa deixou de indicar um representante legal no país, um imbróglio que incluiu a saída da equipe local, multas diárias e uma investigação sobre suposta instrumentalização da rede para campanhas de desinformação contra o próprio Judiciário e o Tribunal Superior Eleitoral. O episódio foi, até aqui, o confronto mais direto entre um Estado nacional e a infraestrutura de amplificação que Musk controla.
O que a ciência da propaganda computacional ainda não sabe responder
Apesar do avanço metodológico, o campo carrega perguntas em aberto. Não há consenso sobre o quanto exposição repetida a uma mesma conta muda intenção de voto de fato, em oposição a apenas redistribuir atenção entre opções já existentes. Também é difícil isolar o efeito de uma única conta do contexto de eventos reais, como motins e crimes violentos, que já geram engajamento por conta própria antes de qualquer amplificação. Por fim, a maior parte da pesquisa acadêmica sobre propaganda computacional foi construída para detectar bots e contas falsas coordenadas, um problema técnico relativamente tratável, enquanto o fenômeno descrito pelo WSJ é diferente: uma conta real, verificada e legítima, que se comporta como uma peça de infraestrutura de visibilidade para terceiros. É um objeto de estudo novo, e a ciência da comunicação ainda está construindo o vocabulário e as métricas para descrevê-lo com precisão.
Perguntas frequentes
O que é propaganda computacional?
É o uso de ferramentas computacionais, como algoritmos, automação e curadoria humana em escala, para distribuir conteúdo político de forma a manipular a percepção pública, um conceito consolidado desde 2012 pelo Computational Propaganda Research Project da Universidade de Oxford.
Como pesquisadores medem o efeito de amplificação de uma conta grande sobre uma conta pequena?
Comparando o volume de curtidas e visualizações de posts de uma conta menor antes e depois de serem citados, retuitados ou respondidos por uma conta com grande alcance, e observando se o patamar de engajamento se mantém elevado mesmo em publicações não amplificadas diretamente.
A acusação de que Elon Musk trabalhou ilegalmente nos Estados Unidos foi comprovada?
Não de forma conclusiva. Uma investigação do Washington Post de 2024 levantou indícios de que ele pode ter perdido a autorização de trabalho em 1995, citando um e-mail do próprio Musk e relatos de sócios da época, mas Musk nega irregularidade e checadores de fatos independentes classificam a questão como não resolvida.
As empresas de Elon Musk recebem dinheiro público?
Sim. Uma análise do Washington Post estimou que Tesla e SpaceX receberam ao menos US$ 38 bilhões em contratos, empréstimos, subsídios e créditos fiscais governamentais desde 2003, valor que não inclui contratos classificados de defesa.
O Brasil tem pesquisa própria sobre desinformação e contas automatizadas?
Sim, principalmente pela FGV DAPP, que monitora bots e redes coordenadas desde as eleições de 2018, além do episódio de 2024 em que o STF suspendeu o X no país por descumprimento de ordens judiciais.