O acaso que empreende: como pequenos gestos redesenham carreiras e negócios
Uma conversa despretensiosa, um curso feito por curiosidade, uma inscrição de última hora em um hackathon — nada disso parece decisivo até que, meses depois, se revela a virada que faltava. A vida profissional não é uma linha reta, e entender essa lógica pode ser a vantagem competitiva mais barata que existe.
Ninguém decide, numa manhã de terça-feira, que vai mudar de profissão. O que geralmente acontece é bem menos solene: alguém comenta algo no cafezinho, um vídeo aparece no feed, um amigo insiste para você ir a um evento que você não tinha nenhuma vontade de frequentar. Essas cenas banais raramente entram nas biografias oficiais — os currículos preferem contar histórias de planejamento e mérito —, mas é exatamente nelas que boa parte das viradas de carreira e de negócio realmente acontece.
Há décadas a psicologia organizacional tenta dar nome a esse fenômeno. Em 1999, o pesquisador americano John Krumboltz, da Universidade Stanford, propôs a chamada teoria do acaso planejado (planned happenstance): a ideia de que eventos não planejados — um encontro casual, uma oportunidade inesperada — desempenham papel central na trajetória profissional das pessoas, e que isso não é um defeito do sistema, mas uma característica normal de mercados de trabalho em constante mudança. Fatores sociais imprevisíveis, eventos de acaso e fatores ambientais são influências importantes na vida das pessoas, desafiando a ideia tradicional de planejamento de carreira linear em favor de flexibilidade, curiosidade e adaptabilidade. Na prática, ele identificou um conjunto de disposições que fazem a diferença entre quem transforma o acaso em oportunidade e quem o deixa passar: curiosidade para explorar novas experiências, persistência diante de contratempos, flexibilidade para se adaptar a mudanças, otimismo e disposição para agir mesmo diante da incerteza.
Empreender não é seguir um roteiro. É reconhecer, no meio do caminho, que o roteiro mudou — e ter os instrumentos prontos para aproveitar isso.— Editorial, Caderno Empreendedorismo
A conversa que virou negócio
O exemplo mais citado — e mais estudado — é o das redes de contato fracas. Em 1973, o sociólogo Mark Granovetter publicou um estudo que se tornaria um dos mais influentes das ciências sociais: analisando como pessoas conseguiam emprego, ele descobriu que as conexões fracas — conhecidos casuais e contatos superficiais — eram mais úteis do que os laços fortes na hora de conseguir uma colocação profissional, porque ligam o indivíduo a redes fora do seu próprio círculo, trazendo informações e ideias que ele de outra forma não teria acesso. Em 2022, um estudo conjunto de Stanford, MIT e Harvard, analisando dados do LinkedIn ao longo de cinco anos, confirmou a tese com escala inédita: as conexões sociais mais fracas têm um efeito benéfico maior sobre a mobilidade profissional do que os laços mais fortes, e o efeito é ainda mais pronunciado em setores digitais.
Traduzindo para o dia a dia de quem empreende: aquele bate-papo despretensioso num evento de bairro, numa fila de banco ou numa mesa de bar com alguém que você mal conhece tem, estatisticamente, mais chance de gerar uma ideia de negócio nova do que uma reunião cuidadosamente agendada com seu círculo mais próximo — simplesmente porque essa pessoa circula em mundos diferentes do seu, e carrega informações que o seu grupo habitual não tem.
Um fim de semana, uma empresa
O ambiente que mais concentra esse tipo de acaso produtivo, hoje, é o hackathon — a maratona de programação e criação que reúne, por 24, 48 ou 72 horas, pessoas de formações diferentes em torno de um problema concreto. A lista de negócios que nasceram assim é longa e conhecida no ecossistema de tecnologia: o botão "Curtir" do Facebook nasceu de um hackathon interno da própria empresa, e o aplicativo de mensagens GroupMe foi criado durante o TechCrunch Disrupt de Nova York em 2010 e, poucos meses depois, foi comprado pela Skype — posteriormente adquirida pela Microsoft — por cerca de 80 milhões de dólares. No Brasil, o caso mais emblemático é o do aplicativo de transporte Easy Taxi, que começou como projeto de hackathon e se transformou em um dos principais serviços de transporte do mundo.
Esses não são fenômenos isolados de grandes centros. Em Santa Catarina, um hackathon setorial sobre desgaste de bombas de drenagem em minas de carvão deu origem à startup IoTrack, criada por uma equipe que identificou o problema durante o evento e, meses depois, venceu um programa de pré-incubação e recebeu consultoria do Sebrae para acelerar o desenvolvimento do negócio. O padrão se repete: o problema já existia, a tecnologia já existia, mas foi o encontro pontual — nem sempre buscado com esse fim — que uniu as peças.
Aprender uma linguagem, mudar de setor
Há ainda um terceiro tipo de acaso, mais silencioso: o do conhecimento técnico específico que se torna, de uma hora para outra, o pré-requisito de um mercado inteiro. É o caso de quem, por curiosidade, decide aprender o básico de Solidity — a linguagem usada para escrever contratos inteligentes (smart contracts) em blockchains compatíveis com o padrão Ethereum — sem necessariamente ter um plano de carreira montado em torno disso.
No Brasil, esse conhecimento deixou de ser nicho por conta de uma decisão de política pública: o piloto do Drex, a moeda digital do Banco Central. Dezenas de instituições financeiras e empresas de tecnologia foram aceitas pelo Bacen para o piloto, e todas precisam de profissionais que entendam de blockchain e contratos inteligentes — o que deve fazer a demanda por desenvolvedores com conhecimento em Solidity crescer significativamente no mercado, já que essa é a linguagem usada na infraestrutura do Drex. Órgãos como Serpro e os projetos ligados ao novo RG (CIN) também já trabalham com blockchain. Hoje, uma pessoa com noções sólidas de Solidity, que resolve participar de um dos inúmeros hackathons de Web3 espalhados pelo país, tem à sua frente pelo menos três caminhos possíveis: ser contratada por um banco, uma fintech ou uma consultoria envolvida no piloto; entrar como desenvolvedora em uma das poucas startups brasileiras de infraestrutura Web3; ou usar o próprio hackathon como vitrine para lançar um negócio próprio.
Os salários acompanham esse movimento: levantamentos do setor apontam faixas que vão de R$ 5.500 a R$ 8.000 para desenvolvedores juniores e R$ 13.000 a R$ 16.000 para seniores, com variações regionais que chegam a 25% a 35% acima da média nacional em São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal. Nenhuma dessas pessoas precisou nascer programadora blockchain. Precisou, isso sim, estar disposta a aprender algo específico antes de saber exatamente para que serviria.
O chão onde esses acasos acontecem
Nada disso funciona no vácuo. O Brasil vive, neste momento, um dos ciclos mais intensos de abertura de negócios da sua história recente: o país registrou 5,1 milhões de novas empresas abertas em 2025, um recorde e um crescimento de 18,6% sobre o ano anterior, sendo que 96% desse total são pequenos negócios — microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte. A pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), conduzida no país pelo Sebrae, mostra que 31,6% dos adultos brasileiros estão envolvidos em alguma atividade empreendedora em 2025, e o Brasil mantém a segunda maior estimativa absoluta de "empreendedores potenciais" do mundo, com 42,5 milhões de pessoas que ainda não têm negócio próprio mas pretendem abrir um nos próximos três anos, atrás apenas da Índia.
Esse pano de fundo importa porque cada conversa de corredor, cada hackathon, cada curso feito por curiosidade acontece dentro de um ecossistema que está mais aberto do que nunca a transformar esse acaso em negócio formal. O "sonho de ter o próprio negócio", segundo o mesmo levantamento, saltou de 34% para 40% entre os brasileiros, passando da terceira para a segunda posição no ranking nacional de sonhos — o item que mais cresceu no período.
Contraponto — sorte não substitui método
Nem todo mundo concorda que celebrar o acaso seja saudável para quem empreende. Uma crítica recorrente à ideia de "acaso planejado" é que ela pode servir de justificativa retroativa: depois que o negócio dá certo, é fácil reconstruir a história como se cada conversa e cada curso tivessem sido passos deliberados de um plano. Pesquisadores que trabalham com viés de sobrevivência lembram que, para cada Easy Taxi ou GroupMe nascidos de um hackathon, existem milhares de projetos que surgiram do mesmo tipo de encontro casual e nunca saíram do papel.
Há também quem argumente, a partir do próprio trabalho de Granovetter e de estudos posteriores sobre contágio complexo, que laços fracos ajudam a espalhar informação simples — uma vaga, uma dica —, mas que decisões que exigem mudança de comportamento mais profunda, como trocar de carreira ou assumir o risco de um negócio próprio, dependem também do apoio de laços fortes: família, sócios, mentores de confiança. Nessa leitura, o acaso abre a porta, mas não sustenta sozinho a travessia.
O que fica para quem empreende
A lição prática de tudo isso não é esperar passivamente que o acaso apareça, mas cultivar as condições para reconhecê-lo quando ele passar. Isso significa aceitar convites que parecem fora do script profissional, manter contato com pessoas de áreas diferentes da sua, e — talvez o ponto mais concreto — investir tempo em aprender algo específico antes de ter certeza de que vai usar. Solidity, análise de dados, uma segunda língua, os fundamentos de um setor regulatório: o conhecimento adquirido por curiosidade tem o hábito de encontrar aplicação em momentos que ninguém tinha planejado.
Empreender, no fim, não é diferente da vida em geral: raramente é uma linha reta traçada do ponto A ao ponto B. É antes uma sucessão de pequenos desvios, cada um deles insignificante isoladamente, que só fazem sentido quando olhados em retrospecto. A diferença entre quem aproveita esses desvios e quem os deixa passar despercebidos não costuma ser talento nem sorte — é atenção.
Voz do Leitor
O que você achou deste artigo? Deixe sua opinião, crítica ou sugestão. Queremos tecer essa conversa com você. Suas visões são fundamentais e podem ser publicadas em nossa seção de "Cartas dos Leitores".