A Nvidia deixou de ser apenas a maior fornecedora de chips do planeta e passou a se comportar, cada vez mais, como um banco. Nos últimos meses, a empresa de Jensen Huang assumiu compromissos financeiros que somam cerca de US$ 230 bilhões em avais, garantias de valor residual e outras formas de sustentação de crédito para que seus clientes continuem comprando os processadores que movem a corrida global pela inteligência artificial1. A pergunta que passou a dominar as salas de análise em Wall Street é simples: até onde uma fabricante de semicondutores pode ir na função de financiar a própria demanda por seus produtos antes que isso vire um problema para ela mesma?
O tamanho das garantias
Segundo o levantamento do WSJ, os compromissos mais recentes incluem um aval de US$ 105 bilhões relacionado a um contrato de arrendamento da OpenAI para um data center em Ohio, além de até US$ 125 bilhões em "garantias de valor residual" firmadas em parceria com grandes gestoras de ativos de Wall Street1. Esse tipo de garantia funciona como um seguro para os credores: caso o valor dos equipamentos usados como colateral dos empréstimos caia abaixo de um patamar combinado, a Nvidia cobre a diferença.
A empresa também fechou acordos com duas companhias de computação em nuvem na Austrália, nos quais atua como cliente de última instância caso essas empresas não consigam alugar sua capacidade computacional a terceiros, recebendo em troca uma fatia da receita gerada acima de um teto pré-definido1. Fora dessa conta ficam ainda o compromisso de recomprar capacidade não vendida da CoreWeave, fechado em um acordo de US$ 6,3 bilhões, e as participações acionárias que a Nvidia mantém em clientes como a própria CoreWeave, avaliadas em US$ 72,5 bilhões ao fim do último trimestre fiscal da companhia1.
O fantasma do financiamento circular
A prática de um fornecedor financiar diretamente a demanda por seus próprios produtos não é nova, e a imprensa brasileira já vinha acompanhando o fenômeno antes mesmo dos números mais recentes divulgados pelo WSJ. Reportagens publicadas neste ano descreveram como a Nvidia investe em startups de IA e em provedoras de nuvem que, em contrapartida, se comprometem a comprar chips da própria Nvidia, um arranjo apelidado de "financiamento circular"23. Gestores de fundos internacionais argumentam que os riscos de curto prazo são limitados pela solidez dos balanços dos principais envolvidos, mas reconhecem que a natureza interconectada do ecossistema de IA é real3.
O caso da CoreWeave, ex-mineradora de criptomoedas que se tornou uma das principais "neoclouds" do setor, ilustra a fragilidade que preocupa analistas. A empresa reportou prejuízo líquido crescente, despesas elevadas com juros e fluxo de caixa livre negativo em bilhões de dólares no início de 2026, mesmo sendo uma das apostas centrais da Nvidia no setor de infraestrutura de IA4.
O que dizem os órgãos de supervisão financeira
O Banco de Compensações Internacionais (BIS), instituição multilateral que reúne bancos centrais e é conhecida como "o banco central dos bancos centrais", dedicou parte de seu relatório anual de 2026 a alertar sobre os paralelos entre o atual ciclo de investimentos em IA e episódios históricos de euforia tecnológica seguidos de reversões abruptas, citando desde a mania ferroviária britânica do século 19 até a bolha das pontocom56. Segundo a instituição, a preocupação central é que compromissos de investimento estejam crescendo mais rápido do que a comprovação de que a tecnologia gerará retorno financeiro proporcional5.
No Brasil, o Banco Central tem incluído nos Relatórios de Estabilidade Financeira análises sobre o uso de inteligência artificial no sistema bancário e riscos de concentração de crédito ligados a temas tecnológicos, ainda que o país não tenha exposição direta relevante à cadeia produtiva de chips de IA7. A exposição de investidores brasileiros ao tema ocorre principalmente pelo mercado de capitais: o BDR da Nvidia (código NVDC34) figura entre os recibos de ações estrangeiras mais negociados na B3 em 2026, ao lado de outras gigantes de tecnologia, o que significa que oscilações no valor de mercado da fabricante de chips têm efeito direto sobre carteiras de investidores individuais e fundos no país89.
Contraponto: por que a Nvidia não é a próxima Lucent
Analistas ouvidos pelo WSJ ponderam que a comparação com o colapso da Lucent Technologies, no início dos anos 2000, tem limites importantes. A Nvidia mantinha mais de US$ 80 bilhões em caixa e títulos negociáveis ao fim do último trimestre fiscal, um colchão financeiro muito superior ao de qualquer fornecedora de telecomunicações da era pontocom1. Além disso, a maior parte dos analistas do setor ainda projeta que a oferta de chips de IA deve permanecer abaixo da demanda por pelo menos mais um ou dois anos, o que sustenta o argumento de que os riscos, embora reais, são de médio e longo prazo1.
Para Chris Caso, analista da Wolfe Research, a questão decisiva é se esse modelo de negócio se tornará permanente: uma coisa é a Nvidia oferecer avais pontuais, outra é essa prática se consolidar como a principal forma de viabilizar a construção de data centers no setor1.
Perguntas frequentes
O que é o "financiamento circular" no setor de inteligência artificial?
É o arranjo no qual uma empresa, como a Nvidia, investe em clientes ou oferece garantias financeiras a eles, e esses mesmos clientes usam os recursos ou o crédito obtido para comprar produtos dessa mesma empresa. O modelo levanta dúvidas sobre até que ponto a receita gerada reflete demanda real de mercado ou é sustentada artificialmente pelo próprio fornecedor23.
Quanto a Nvidia já comprometeu em garantias e avais financeiros?
Segundo apuração do Wall Street Journal, a soma de avais de arrendamento e acordos de garantia de valor residual chega a cerca de US$ 230 bilhões, valor que não inclui participações acionárias em clientes nem acordos de recompra de capacidade, como o firmado com a CoreWeave1.
Investidores brasileiros têm exposição a esse risco?
Sim, principalmente por meio de BDRs negociados na B3, como o NVDC34, que replica ações da Nvidia, e de fundos e ETFs internacionais com posições relevantes na empresa. Como a Nvidia é uma das companhias mais valiosas do mundo, oscilações em seu valor de mercado tendem a afetar carteiras diversificadas de investidores brasileiros89.
Isso significa que a Nvidia corre risco imediato de insolvência?
Não há indicação disso no curto prazo. A empresa mantém um caixa robusto e a demanda por chips de IA segue superior à oferta. O risco apontado por analistas é estrutural e de médio prazo: a concentração crescente de exposição financeira ao próprio ecossistema que a Nvidia ajuda a criar, o que poderia amplificar o impacto de uma eventual desaceleração no setor de IA1.