A Nvidia decidiu que não bastava vender as pás e picaretas da corrida do ouro da inteligência artificial. Segundo reportagem do Wall Street Journal, a fabricante de chips fechou um acordo avaliado em cerca de US$ 6 bilhões com a startup Poolside para licenciar tecnologia e incorporar mais de cem engenheiros ao seu programa de modelos abertos Nemotron, somando ainda um investimento direto de US$ 1 bilhão na empresa, avaliada em US$ 12 bilhões antes do aporte.[1] O movimento é lido pelo mercado como a tentativa mais ambiciosa dos Estados Unidos de erguer um concorrente doméstico à altura dos modelos abertos chineses DeepSeek, Kimi K3 e Qwen.
O acordo com a Poolside, cujos fundadores permanecem à frente da startup enquanto o time de engenharia migra para a Nvidia, deve alimentar a versão mais robusta já planejada do Nemotron, com rumores de mercado apontando para um modelo de mais de um trilhão de parâmetros.[2] Trata-se de uma mudança de postura relevante para uma empresa que, até aqui, construiu seu império bilionário fornecendo a infraestrutura de hardware por trás dos grandes modelos de linguagem, sem disputar diretamente esse território com OpenAI, Anthropic e Google.[3]
O fator chinês
A pressa da Nvidia tem endereço certo. Em janeiro de 2025, a chinesa DeepSeek chocou o mercado ao lançar um modelo de baixo custo e peso aberto com desempenho comparável a sistemas fechados ocidentais, provocando queda expressiva no valor de mercado de fabricantes de chips e questionando a lógica de que apenas orçamentos bilionários garantiriam liderança em IA. Desde então, outras companhias chinesas ampliaram essa frente: a Moonshot AI liberou os pesos completos do Kimi K3, modelo de 2,8 trilhões de parâmetros, enquanto a Alibaba consolidou a família Qwen como uma das mais baixadas do mundo entre desenvolvedores.[4]
Diante desse avanço, o debate em Washington sobre restringir o uso de modelos abertos chineses ganhou força dentro do governo do presidente Donald Trump, sob a justificativa de risco à segurança nacional e de que empresas chinesas estariam se apropriando de técnicas de laboratórios americanos por meio de destilação de modelos. Um grupo de 25 empresas americanas, entre elas Nvidia, Meta e Microsoft, chegou a enviar carta às autoridades pedindo que nenhuma restrição fosse imposta, argumentando que o efeito prático seria concentrar ainda mais poder em poucos desenvolvedores fechados.[1]
A carta que dividiu o Vale do Silício
Em 24 de julho de 2026, o CEO da Nvidia, Jensen Huang, usou sua primeira publicação na rede social X para divulgar a carta "Open Weights and American AI Leadership", hospedada nos servidores da própria empresa. O documento defendia que a liderança americana em IA não será medida por um único modelo de fronteira, mas pela capacidade de construir um ecossistema aberto que se difunda por toda a economia.[5] A publicação começou com 25 signatários, dobrou para 50 em 24 horas e, uma semana depois, ultrapassava 200 organizações, incluindo posteriormente OpenAI e Google.[6]
Nem todos aderiram. Anthropic e Amazon permaneceram fora de todas as versões da lista, e a Anthropic publicou nota própria dias depois reconhecendo o valor dos modelos abertos, mas defendendo cautela redobrada em relação a modelos chineses especificamente.[7] Três dias depois da carta, a Nvidia formalizou a Open Secure AI Alliance (OSAA), aliança setorial voltada à segurança de sistemas de IA que nasceu com cerca de 37 organizações fundadoras e, segundo o TechCrunch, já somava mais de 120 empresas na primeira semana de agosto, entre elas Microsoft, Cisco, Hugging Face, IBM e a Linux Foundation. OpenAI, Google e Anthropic também não integram essa aliança técnica.[8]
Como a imprensa estatal chinesa vê o movimento
O aceno da Nvidia à abertura não passou despercebido em Pequim. Em editorial publicado no fim de agosto, o jornal estatal Global Times, veiculado também pelo People's Daily em sua edição em inglês, descreveu a aposta bilionária da Nvidia como uma tentativa de "copiar a lição de casa da China" e afirmou dar boas-vindas ao movimento, argumentando que a força do open source chinês já provou que abertura não enfraquece a competitividade tecnológica.[9] O texto também classificou como "mentalidade de Guerra Fria" os esforços de setores da segurança americana para restringir modelos chineses e acusou OpenAI e Anthropic de usar a narrativa de segurança nacional para proteger seus próprios modelos de negócio baseados em assinatura.[9]
É importante contextualizar a fonte: como veículo oficial do Partido Comunista Chinês, o Global Times tem histórico de usar sua seção editorial para promover a narrativa tecnológica e geopolítica do governo chinês, o que não invalida os fatos concretos do acordo Nvidia-Poolside, mas exige que a leitura da interpretação política seja feita com o distanciamento crítico apropriado a qualquer fonte estatal, seja ela chinesa, americana ou de qualquer outro país.
Contraponto: a abertura também tem custos
Nem todo o setor de IA americano compra a tese de que modelos abertos são, por si só, mais seguros ou mais estratégicos. Executivos de laboratórios fechados argumentam que pesos de modelo publicamente disponíveis podem ser adaptados por qualquer ator, inclusive para fins maliciosos, sem as camadas de moderação e monitoramento presentes em sistemas acessados via API.
A própria Casa Branca já acusou publicamente desenvolvedores chineses, caso do Kimi K3, de terem se beneficiado de técnicas de destilação a partir de modelos fechados americanos, argumento central para quem defende restrições comerciais.[1] Para essa corrente, a decisão da Nvidia de investir pesadamente em um concorrente aberto não resolve o dilema de segurança nacional, apenas o desloca para dentro das fronteiras americanas, e o verdadeiro teste será se o Nemotron consegue reduzir a dependência de modelos chineses sem abrir novas vulnerabilidades para agentes autônomos de IA, tema que motivou a própria criação da OSAA após incidentes de segurança envolvendo agentes da OpenAI e um ataque à Hugging Face.[8]
O que muda para o Brasil
A disputa entre modelos abertos e fechados tem consequências práticas fora do eixo Washington-Pequim, inclusive no Brasil. Levantamento do Cetic.br, braço de pesquisa do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), mostrou que o uso de inteligência artificial por empresas brasileiras saltou de 13% em 2024 para 17% em 2025, com adoção entre grandes empresas avançando de 38% para 50% no mesmo período.[10]
O mesmo levantamento revelou que oito em cada dez empresas brasileiras que usam IA optam por soluções prontas, e seis em cada dez dependem de fornecedores externos para gerir essas ferramentas, com baixa interação com universidades e centros de pesquisa nacionais.[11] Nesse contexto, modelos de peso aberto, sejam eles chineses ou eventualmente americanos, tendem a ser especialmente relevantes para empresas brasileiras de menor porte, já que permitem rodar sistemas de IA localmente, com custo de operação mais baixo e sem depender de assinaturas internacionais cobradas em dólar.
O que vem a seguir
Para a Nvidia, o retorno do investimento na Poolside dependerá, no curto prazo, de vendas de chips, no médio prazo, do desempenho técnico do Nemotron, e, no longo prazo, de a empresa conseguir construir uma comunidade de desenvolvedores genuinamente engajada, e não apenas usar o discurso de abertura como ferramenta de marketing para gerar pedidos de hardware. Esse é justamente o ceticismo levantado até por analistas americanos favoráveis à iniciativa, que ponderam que gastar bilhões é a parte fácil da equação.[9]
Enquanto isso, a corrida segue em aceleração dos dois lados do Pacífico. Se a promessa de Jensen Huang de que "o mundo precisa tanto de modelos fechados quanto de modelos abertos" vai se traduzir em um ecossistema americano tão vibrante quanto o chinês, ou se o Nemotron corre o risco de virar, nas palavras do próprio editorial chinês, "uma casca cara", é algo que só os próximos lançamentos técnicos poderão responder.
Nota de transparência editorial: este artigo foi produzido a partir de reportagem original do O Tecido com base em múltiplas fontes internacionais independentes. Um editorial do Global Times, republicado pelo People's Daily, é citado e contextualizado como uma das vozes do debate, mas não foi traduzido ou reproduzido integralmente, e sua natureza de veículo estatal chinês foi explicitada no texto.
Perguntas frequentes
Quanto a Nvidia está investindo para competir com modelos abertos chineses?
A Nvidia fechou um acordo avaliado em cerca de US$ 6 bilhões para licenciar tecnologia da startup Poolside, somado a um investimento direto adicional de US$ 1 bilhão na empresa, que passou a ser avaliada em US$ 12 bilhões antes do aporte. O pacote inclui a migração de mais de cem engenheiros da Poolside para o programa de modelos abertos Nemotron, da própria Nvidia.
O que é um modelo de peso aberto (open-weight)?
É um modelo de inteligência artificial cujos parâmetros treinados são publicados abertamente, permitindo que qualquer desenvolvedor faça download, customize e execute o sistema em sua própria infraestrutura, ao contrário de modelos fechados que só podem ser acessados por meio de uma interface de programação (API) controlada pela empresa desenvolvedora.
Por que OpenAI, Google e Anthropic não assinaram a carta de Jensen Huang?
OpenAI e Google acabaram aderindo à carta "Open Weights and American AI Leadership" dias após seu lançamento. A Anthropic, no entanto, permaneceu fora de todas as versões da lista e publicou posicionamento próprio defendendo maior cautela específica em relação a modelos abertos desenvolvidos na China, sem se opor à ideia de modelos abertos em geral.
Como essa disputa entre Estados Unidos e China afeta empresas brasileiras?
Segundo o Cetic.br, 17% das empresas brasileiras já usavam IA em 2025, mas a maioria depende de soluções prontas e fornecedores externos. Modelos de peso aberto, sejam americanos ou chineses, tendem a reduzir custos de operação e aumentar a autonomia de empresas de menor porte que não podem arcar com assinaturas internacionais de modelos fechados.