Aos 58 anos, o químico alemão Benjamin List carrega um incômodo antigo com a imagem pública da sua área. Vencedor do Nobel de Química de 2021 ao lado do britânico David MacMillan pela descoberta da catálise organocatalítica assimétrica, List afirma que os profissionais do setor costumam ser vistos como uma força obscura, quase tóxica, quando na prática sustentam boa parte dos avanços médicos e ambientais das últimas décadas. Em entrevista concedida ao jornal espanhol El País antes de uma conferência na Fundação Ramón Areces, em Madri, o cientista voltou a defender o potencial da química para enfrentar o maior desafio coletivo da atualidade: a crise climática.
A descoberta que mudou a forma de produzir moléculas
A organocatálise assimétrica, prêmio que List recebeu em conjunto com MacMillan, resolveu um problema antigo da síntese química: como produzir apenas a versão útil de uma molécula, sem gerar sua imagem espelhada, muitas vezes inútil ou até perigosa. O caso mais lembrado é o da talidomida, medicamento dos anos 1950 e 1960 cuja versão quiral indesejada provocou graves malformações em recém-nascidos. Ao usar pequenas moléculas orgânicas como catalisadores, sem depender de metais pesados, List e MacMillan abriram caminho para produzir compostos farmacêuticos mais seguros, baratos e com menor impacto ambiental.
Especialistas brasileiros reforçam a dimensão da descoberta. Adriano Andricopulo, professor da Universidade de São Paulo (USP), descreveu o método como uma revolução para as indústrias farmacêutica e agroquímica, destacando vantagens como baixa toxicidade, estabilidade e a possibilidade de preparar catalisadores a partir de produtos naturais de baixo custo[2].
Fotossíntese artificial: a aposta para decompor CO2 em escala
Na entrevista, List reconhece os limites da química diante de um problema da magnitude das mudanças climáticas, cuja escala envolve bilhões de toneladas de gás carbônico, muito além da capacidade atual de qualquer processo catalítico isolado. A saída que ele considera mais promissora é a fotossíntese artificial: decompor o CO2 em carbono e oxigênio para depois reaproveitar o carbono em outros processos industriais ou devolvê-lo ao solo. Ainda assim, o próprio pesquisador admite que a tecnologia está distante da maturidade, embora mais próxima do que outras apostas históricas da ciência, como a fusão nuclear.
O que isso significa para o Brasil
O debate sobre captura e uso de carbono já tem tração concreta no país. Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria, o potencial de captura brasileiro pode chegar a cerca de 190 milhões de toneladas de CO2 por ano, considerando apenas o atual nível de produção industrial e geração de energia[6]. Em 2023, o Brasil já figurava como o segundo país com maior capacidade de captura, utilização e armazenamento de carbono (CCUS) do mundo, tendo capturado cerca de 10,6 milhões de toneladas no período[7]. Pesquisadores da USP também têm explorado rotas alternativas de captura direta, como muros de contenção feitos com resíduos de demolição capazes de reter carbono da atmosfera[7].
A base científica para esse tipo de avanço não é nova no país. Um levantamento publicado na revista Química Nova mapeia grupos consolidados de catálise assimétrica em instituições como Unicamp, UFSC, USP–São Carlos, UFRJ e UFC, com financiamento recorrente da FAPESP para o desenvolvimento de novos organocatalisadores aplicados à síntese orgânica[3][4]. Um desses projetos, coordenado por pesquisadores da UFSCar, já investigou organocatálise em CO2 supercrítico, unindo diretamente o campo consagrado por List a desafios ambientais[5].
Contraponto: a química não resolve tudo sozinha
Especialistas em política industrial ponderam que a aposta na fotossíntese artificial e em tecnologias de CCUS ainda enfrenta barreiras de custo, escala e infraestrutura de armazenamento. O próprio setor químico brasileiro vive um momento de fragilidade: fechou 2025 com déficit comercial recorde de US$ 56,8 bilhões e operou com apenas 64% da capacidade instalada, o que limita investimentos em rotas mais sofisticadas de descarbonização no curto prazo[8].
Relatórios do setor também apontam que o Brasil ainda carece de marco regulatório específico para CCUS e de conhecimento técnico consolidado sobre locais seguros de armazenamento geológico, o que tende a adiar a escala prometida por tecnologias como a defendida por List[6].
Ciência, competição e o peso da reputação
List também refletiu sobre a cultura de competição acadêmica, que segundo ele leva pesquisadores a priorizar ser os primeiros a publicar em vez de colaborar abertamente. Ele relacionou essa reflexão a uma experiência pessoal: em 2004, seu filho ficou horas desaparecido durante o tsunami que atingiu o Sudeste Asiático, episódio que o levou a repensar prioridades diante da fama, do reconhecimento e até do próprio Nobel.
Perguntas frequentes
O que é organocatálise assimétrica?
É uma técnica de química orgânica que usa pequenas moléculas naturais, sem metais, para acelerar reações e produzir apenas a versão útil de um composto, evitando a formação de moléculas espelhadas indesejadas.
Por que Benjamin List ganhou o Nobel de Química?
List recebeu o prêmio em 2021, junto com David MacMillan, por descobrir de forma independente que aminoácidos simples, como a prolina, podiam catalisar reações químicas complexas sem depender de metais ou enzimas.
Como a catálise pode ajudar a enfrentar as mudanças climáticas?
Uma das apostas é a fotossíntese artificial, processo que decompõe o CO2 em carbono e oxigênio, permitindo reaproveitar o carbono em outros usos industriais ou devolvê-lo ao solo, em escala potencialmente compatível com o volume de emissões globais.
O Brasil também pesquisa organocatálise e captura de carbono?
Sim. Grupos de pesquisa em universidades como USP, Unicamp, UFSC e UFRJ desenvolvem organocatalisadores com apoio da FAPESP, enquanto o país já é o segundo maior em capacidade de captura, uso e armazenamento de carbono (CCUS) do mundo.
Qual é o principal desafio para essas tecnologias avançarem no Brasil?
Especialistas apontam a falta de marco regulatório específico para CCUS, a escassez de estudos sobre locais seguros de armazenamento geológico e o momento de baixa competitividade da indústria química nacional como principais entraves.