Política · Justiça Internacional

Navanethem Pillay recebeu a notícia do Nobel da Paz em 9 de outubro e, poucas horas depois, viu os Estados Unidos sancionarem a instituição em que trabalhou como juíza. A coincidência de datas resume o momento que a jurista sul-africana de 85 anos descreve em entrevista concedida ao jornal espanhol EL PAÍS, publicada nesta terça-feira (20): a ordem jurídica internacional está sob ataque direto de quem tem mais poder para sustentá-la ou derrubá-la.

Na conversa com a correspondente Isabel Ferrer, em Haia, Pillay reafirma o ponto que fez dela alvo de Washington e de Tel Aviv: o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, deve ser investigado e julgado por genocídio. Para ela, a maior ameaça ao direito internacional hoje é o recurso à força pelas grandes potências, que encontram aliados dispostos a acompanhá-las enquanto a maioria da população mundial quer paz e justiça.

Pontos-chave
  • Navi Pillay ganhou o Nobel da Paz de 2026 por promover a paz e o direito internacional; a cerimônia será em Oslo, em 10 de dezembro.
  • Em 2025, a comissão da ONU que ela presidia concluiu que Israel cometeu genocídio em Gaza e apontou Netanyahu, Isaac Herzog e Yoav Gallant.
  • No mesmo dia do prêmio, os EUA sancionaram o Tribunal Penal Internacional como instituição, uma escalada inédita.
  • O Brasil interveio formalmente no caso de genocídio movido pela África do Sul na Corte Internacional de Justiça, que deve se arrastar até pelo menos 2029.

Quem é Navi Pillay

Nascida em Durban em 1941, numa família de origem tâmil, Pillay cresceu sob o apartheid. Abriu o próprio escritório de advocacia em Natal em 1967, defendeu presos políticos que cumpriam pena em Robben Island e, mais tarde, tornou-se a primeira mulher não branca a integrar a Suprema Corte da província. Ao EL PAÍS, ela conta que escolheu o direito porque, ainda criança, queria entender quais eram os direitos das pessoas num país que negava esses direitos à maioria. Lembra também que os advogados antiapartheid recorreram a mecanismos externos, escrevendo a líderes mundiais, para furar o isolamento informativo do regime.

A carreira internacional começou em 1995, como juíza do Tribunal Penal Internacional para Ruanda, que ela presidiu a partir de 1999. Seguiram-se o Tribunal Penal Internacional, entre 2003 e 2008, o cargo de Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, entre 2008 e 2014, e uma atuação como juíza ad hoc da Corte Internacional de Justiça no caso movido pela Gâmbia contra Mianmar pela perseguição aos rohingyas. Ao anunciar o prêmio, o Comitê Norueguês do Nobel, presidido por Jørgen Watne Frydnes, resumiu a escolha numa frase curta: "a paz requer justiça".

O relatório que mudou o tom do debate

Em 16 de setembro de 2025, a Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre o Território Palestino Ocupado, criada pelo Conselho de Direitos Humanos em 2021, concluiu que Israel cometeu genocídio em Gaza. O documento analisou ataques e declarações de autoridades israelenses entre 7 de outubro de 2023 e 31 de julho de 2025 e identificou quatro dos cinco atos tipificados pela Convenção de 1948: matar membros do grupo, causar danos físicos ou mentais graves, impor condições de vida calculadas para destruí-lo e adotar medidas para impedir nascimentos. A comissão atribuiu a responsabilidade ao Estado de Israel e apontou o presidente Isaac Herzog, Netanyahu e Gallant por incitação.

Na entrevista, Pillay defende o método. Segundo ela, as equipes trabalharam como um tribunal, analisaram tanto os ataques do Hamas quanto a resposta israelense e só incluíram provas verificadas. A intenção genocida, elemento mais difícil de demonstrar nesse crime, teria sido deduzida da combinação entre os atos contra a população e as declarações de líderes, num raciocínio que ela compara à experiência acumulada em Ruanda. A jurista diz que aceitaria corrigir passagens do texto se alguém demonstrasse que determinado fato não ocorreu, mas que a reação recebida foram ataques pessoais, vindos apenas de Israel e dos EUA, sem discussão do mérito.

"São os civis que mais perdem vidas na guerra moderna."Navi Pillay, em entrevista ao EL PAÍS

A ofensiva contra o Tribunal Penal Internacional

As sanções anunciadas pelo secretário de Estado Marco Rubio em 9 de outubro marcam uma mudança de escala. Até então, Washington mirava pessoas: a ordem executiva de fevereiro de 2025 abriu caminho para punir o procurador Karim Khan, e em agosto de 2026 a presidente da corte, Tomoko Akane, também entrou na lista. Agora, o alvo é a instituição. A medida bloqueia ativos do TPI sob jurisdição americana e dá seis meses para que empresas e cidadãos dos EUA encerrem relações com o tribunal. Rubio pediu que aliados da Otan e o Japão acompanhassem a decisão e prometeu desmontar a corte "tijolo por tijolo".

O tribunal respondeu que "a história julgará este momento", e a União Europeia pediu a retirada das medidas. Pillay classificou as sanções como inaceitáveis e sem precedentes, por punirem juízes em razão de decisões judiciais, e disse à BBC que existe ansiedade real sobre a continuidade dos tribunais internacionais. O impacto prático vai além do simbólico: uma corte que depende de bancos, fornecedores de tecnologia e serviços com vínculos americanos pode ter dificuldade para pagar salários, manter sistemas e proteger testemunhas.

Ruanda e o precedente da violência sexual

O outro marco da trajetória de Pillay é de 1998. Em 2 de setembro daquele ano, a Câmara de Julgamento I do tribunal de Ruanda, da qual ela fazia parte, condenou Jean-Paul Akayesu, ex-prefeito da comuna de Taba. Foi a primeira condenação por genocídio proferida por um tribunal internacional com base na Convenção de 1948 e a primeira a reconhecer que estupro e violência sexual podem constituir atos de genocídio quando cometidos com a intenção de destruir um grupo. Depois da sentença, a juíza declarou que o estupro deixava de ser um troféu de guerra.

Ao EL PAÍS, ela explica a demora histórica: esses crimes simplesmente não eram tratados como crimes. Cita manuais militares americanos da Guerra do Vietnã que estimulavam soldados a ver mulheres locais como recompensa e desmonta a ideia de que vítimas se recusavam a testemunhar. O problema, diz, era o método de quem perguntava. Com proteção adequada às testemunhas, os depoimentos vieram e as condenações também.

O ângulo brasileiro

Por que o Brasil tem mais em jogo do que parece

O Brasil não é espectador nesse debate. Em 23 de julho de 2025, o Itamaraty anunciou a intervenção formal no caso movido pela África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça, citando a plausibilidade, reconhecida pela própria corte em 2024, de que os direitos dos palestinos à proteção contra o genocídio estivessem sendo violados de forma irreversível. A manifestação foi publicada na mesma semana do relatório da comissão de Pillay.

A natureza dessa participação merece precisão. Como observou análise publicada na Conjur, o Brasil não foi a Haia acusar Israel diretamente: interveio para oferecer sua leitura da Convenção contra o Genocídio, sustentando que os palestinos são um grupo protegido pelo tratado. O peso político, porém, é inequívoco.

Há ainda um vínculo constitucional. O Brasil é parte do Estatuto de Roma desde 2002, e a Emenda Constitucional nº 45, de 2004, incluiu no artigo 5º a submissão do país à jurisdição do Tribunal Penal Internacional. Sanções que dificultem o funcionamento da corte atingem, portanto, uma instituição que o Estado brasileiro incorporou à própria Constituição, e colocam o país diante de uma escolha que Rubio tornou explícita ao cobrar aliados.

Contraponto

Os argumentos de quem contesta o relatório e o prêmio

Israel rejeitou categoricamente as conclusões da comissão, qualificando o relatório como distorcido e falso, e o embaixador israelense na ONU em Genebra acusou o painel de selecionar dados de forma tendenciosa. O governo israelense sustenta que suas operações têm como alvo o Hamas, responsável pelo ataque de 7 de outubro de 2023 que matou cerca de 1.200 pessoas em Israel, e não a população de Gaza. Na Corte Internacional de Justiça, Israel contestou a própria jurisdição do tribunal em sua contestação apresentada em março de 2026.

Há também argumentos jurídicos de fundo. A comissão de inquérito é um órgão de investigadores independentes e não fala em nome da ONU como organização; suas conclusões não equivalem a uma sentença. A jurisprudência da Corte Internacional de Justiça, desde o caso Bósnia contra Sérvia, de 2007, exige que a intenção genocida seja a única inferência razoável a partir das provas, um patamar elevado que a corte ainda não examinou no mérito do caso sobre Gaza. Segundo a AFP, o próprio Comitê Nobel tomou distância das conclusões do relatório ao justificar o prêmio.

Washington, por sua vez, argumenta que nem os EUA nem Israel ratificaram o Estatuto de Roma e que o TPI não teria legitimidade para processar seus cidadãos. Defensores da corte respondem que a jurisdição sobre Gaza decorre da adesão da Palestina ao estatuto, em 2015, e que o princípio de que ninguém está acima da lei é justamente a razão de ser do tribunal.

O que vem a seguir

O calendário é longo. Pela decisão de maio de 2026, a África do Sul tem até 22 de novembro de 2027 para responder à contestação israelense, e Israel terá até 22 de maio de 2029 para a tréplica, segundo o Mail & Guardian. Até lá, seguem em vigor as três ordens de medidas provisórias emitidas desde janeiro de 2024. No TPI, os mandados de prisão contra Netanyahu e Gallant, expedidos em novembro de 2024, continuam válidos, enquanto as sanções institucionais passam a produzir efeito pleno no início de 2027.

Em Oslo, em 10 de dezembro, Pillay pretende falar sobre o ataque ao Estado de direito e sobre países ricos que demonizam os pobres, segundo a entrevista ao EL PAÍS. O discurso terá um público atento em Brasília: a forma como governos médios, entre eles o brasileiro, reagirem à pressão americana sobre o TPI dirá muito sobre a capacidade de sobrevivência das instituições criadas no pós-guerra para julgar os crimes mais graves.

Perguntas frequentes

Quem é Navi Pillay, vencedora do Nobel da Paz de 2026?

Jurista sul-africana de 85 anos, foi advogada de militantes antiapartheid, presidente do Tribunal Penal Internacional para Ruanda, juíza do TPI, Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos e presidente da Comissão de Inquérito da ONU sobre o Território Palestino Ocupado.

Por que ela ganhou o prêmio?

O Comitê Norueguês do Nobel a premiou em 9 de outubro de 2026 por seus esforços para promover a paz e o direito internacional, num momento em que tribunais internacionais estão sob pressão.

O que concluiu o relatório sobre Gaza?

Que Israel cometeu genocídio, com quatro dos cinco atos previstos na Convenção de 1948, e que Netanyahu, Herzog e Gallant incitaram esses atos. Israel rejeita as conclusões, e o relatório não equivale a uma decisão judicial.

O que as novas sanções dos EUA mudam para o TPI?

Pela primeira vez a instituição inteira foi sancionada: ativos sob jurisdição americana ficam bloqueados e transações com a corte passam a ser proibidas após um período de transição de seis meses.

Qual é a posição do Brasil?

O Brasil interveio no caso da África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça para defender uma interpretação da Convenção contra o Genocídio. É também Estado parte do Estatuto de Roma, com previsão constitucional de submissão ao TPI.

Este artigo foi elaborado a partir da entrevista de Isabel Ferrer com Navi Pillay publicada pelo jornal EL PAÍS em 20 de outubro de 2026, complementada por apuração própria em fontes institucionais e jornalísticas. Trechos atribuídos à entrevista foram resumidos e traduzidos livremente; o texto original pode ser lido no site do EL PAÍS.

Referências

  1. FERRER, Isabel. Navi Pillay, premio Nobel de la Paz: "Netanyahu debe ser juzgado por genocidio". EL PAÍS, 20 out. 2026. elpais.com
  2. Instituto Nobel Norueguês. Anúncio do Prêmio Nobel da Paz 2026 (via ABC News), 9 out. 2026.
  3. Escritório do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (OHCHR). Israel has committed genocide in the Gaza Strip, UN Commission finds, 16 set. 2025.
  4. Nações Unidas. Arquivo do Tribunal Penal Internacional para Ruanda: julgamento de Jean-Paul Akayesu (ICTR-96-4-T), 1998.
  5. Associated Press, via Diário do Grande ABC. EUA sancionam TPI em ofensiva para desmantelar a corte, 9 out. 2026.
  6. AFP, via O Tempo e Diário do Nordeste. Cobertura das sanções ao TPI e do Nobel da Paz, 9 out. 2026.
  7. BBC News Brasil, via A Gazeta. Ganhadora do Nobel da Paz reage contra sanções dos EUA ao TPI, 10 out. 2026.
  8. Poder360 / Agência Brasil. Brasil ingressará em ação movida contra Israel por genocídio em Gaza, 23 jul. 2025.
  9. Conjur. Brasil intervém no processo África do Sul v. Israel sobre genocídio, set. 2025.
  10. Mail & Guardian. ICJ sets next phase of South Africa's Gaza genocide case, 3 jun. 2026.
  11. ThePrint. Nobel Peace Prize: Navi Pillay's 5-decade journey from apartheid-era courts to international justice, out. 2026.
  12. Constituição da República Federativa do Brasil, art. 5º, § 4º (EC nº 45/2004).