Caderno Opinião
Eu estava em Santiago poucas semanas depois de Michelle Bachelet vencer a eleição de dezembro de 2013, que a levaria de volta a La Moneda para um segundo mandato, quando vi a primeira marcha contra um governo que nem tinha tomado posse. Não eram opositores ressentidos com a derrota. Muitos ali tinham votado nela, e diziam isso sem constrangimento. Carregavam cartazes sobre educação pública gratuita, a promessa central da campanha, e o recado era direto: a vitória não encerrava a conversa, abria a conta.
Para um brasileiro, a cena parecia quase ofensiva. Protestar contra quem você acabou de eleger soa, por aqui, como deslealdade ou arrependimento. Com o tempo entendi que no Chile aquilo não era exceção nem crise. Era método. E é esse método, mais do que qualquer reforma institucional, que o Brasil deveria estudar.
Ninguém recebe carta branca em La Moneda
A lista de episódios é longa e atravessa todo o espectro ideológico. Em 2006, poucas semanas depois da primeira posse de Bachelet, estudantes secundaristas ocuparam escolas pelo país na chamada Revolução dos Pinguins, a maior mobilização estudantil em décadas, contra uma presidente de centro-esquerda que boa parte deles via com simpatia. Em 2011, foi a vez de Sebastián Piñera, de centro-direita, enfrentar o movimento universitário e ver sua aprovação desabar ainda no primeiro mandato.
No segundo governo Bachelet, o chamado caso Caval, que envolvia um negócio imobiliário ligado ao filho e à nora da presidente, derrubou sua popularidade entre os próprios apoiadores. Em 2019, o estallido social levou milhões às ruas contra Piñera, então no segundo mandato, e a pesquisa nacional do Centro de Estudios Públicos registrou uma aprovação de apenas 6%.7 Gabriel Boric, eleito em 2021 por uma esquerda que nasceu justamente daqueles protestos, viu seu eleitorado rejeitar, em setembro de 2022, a proposta de nova Constituição que seu governo apoiava. Um ano depois, os chilenos rejeitaram também a proposta seguinte, redigida por um conselho de maioria conservadora.8
Agora é José Antonio Kast quem experimenta a mesma lógica. Empossado em março de 2026 com a vitória mais expressiva da direita chilena desde a redemocratização, ele chegou aos seis meses de governo com 34% de aprovação na pesquisa Plaza Pública, do instituto Cadem. Mais revelador que o número é a pergunta sobre expectativas: 62% dos entrevistados disseram que o governo está sendo pior do que esperavam, e a nota média atribuída à gestão foi 3,4, numa escala de 1 a 7.1 Alta de combustíveis, crescimento fraco e desemprego aparecem entre os erros apontados. Ninguém está julgando o caráter de Kast. Estão julgando a entrega.
No Chile, o primeiro protesto contra um presidente pode vir de quem votou nele. No Brasil, essa possibilidade ainda é tratada como traição.
A alternância como pedagogia
Há uma estatística que resume a cultura política chilena melhor do que qualquer ensaio. Desde 2010, nenhuma coalizão conseguiu eleger o próprio sucessor. Bachelet entregou a faixa a Piñera, Piñera devolveu a Bachelet, que devolveu a Piñera, que passou a Boric, que passou a Kast. São cinco alternâncias consecutivas. A Constituição proíbe a reeleição imediata, mas a regra só explica parte do fenômeno. A outra parte é o eleitor, que não transfere automaticamente sua confiança para o herdeiro de quem o decepcionou.
A medição da aprovação também ajuda a moldar esse comportamento. O Cadem publica sua pesquisa toda semana, e o desempenho do governo vira assunto cotidiano, como a inflação ou a previsão do tempo. A edição mais recente mostra um detalhe interessante: os entrevistados reconhecem em Kast atributos como responsabilidade (45%) e liderança (40%), mas o reprovam em empatia e proximidade com as pessoas, ambas em 29%, e mantêm 60% de desaprovação geral.2 Ou seja, o eleitor chileno consegue reconhecer uma qualidade pessoal e, ao mesmo tempo, reprovar a gestão. Essa separação, que parece elementar, é justamente o que o debate brasileiro perdeu.
No Brasil, a política virou sobrenome
Os cientistas políticos Felipe Nunes e Thomas Traumann deram nome ao nosso problema no livro Biografia do Abismo: calcificação.4 A preferência política deixou de ser uma avaliação que muda conforme os fatos e passou a funcionar como identidade, como time de futebol ou religião. Quem é lulista ou bolsonarista não mede o governante pelo que ele faz. Mede os fatos pela lealdade que tem ao governante.
A pandemia foi o teste mais doloroso dessa lógica. O Brasil registrou mais de 700 mil mortes por covid-19.6 A CPI instalada no Senado concluiu seus trabalhos pedindo o indiciamento do então presidente Jair Bolsonaro por uma série de crimes relacionados à condução da crise sanitária.5 Ainda assim, uma parcela expressiva do eleitorado manteve apoio incondicional, inclusive famílias que perderam parentes. A crítica, quando aparecia, era tratada como ataque da imprensa ou da oposição, nunca como informação a ser avaliada.
O mesmo reflexo existe do outro lado. Durante anos, parte do eleitorado petista tratou cada denúncia de corrupção nos governos do partido como perseguição antes mesmo de qualquer análise dos fatos. As condenações de Lula foram depois anuladas pelo Supremo Tribunal Federal por razões processuais, mas a defesa incondicional veio antes de qualquer decisão judicial, e é essa ordem das coisas que importa aqui. Quando a conclusão precede a evidência, o eleitor deixou de fiscalizar e passou a militar.
A eleição de 2026 escancara o fenômeno. De um lado, Lula, aos 80 anos, busca o quarto mandato sem que seu campo tenha construído um sucessor viável. Do outro, a candidatura da direita foi transmitida como herança familiar: Flávio Bolsonaro foi indicado pelo pai, que está preso e inelegível após ser condenado pela tentativa de golpe de Estado. A pesquisa Datafolha divulgada em 17 de setembro mostra os dois em empate técnico no primeiro turno, com 39% e 36%.3 São dois projetos que, na prática, não existem sem uma pessoa ou um sobrenome. É o oposto do que se vê em Santiago.
O modelo chileno também tem custos
Seria ingênuo transformar o Chile em exemplo sem ressalvas. A desconfiança permanente produz volatilidade: governos perdem apoio tão rápido que dificilmente conseguem sustentar reformas de longo prazo, e o país rejeitou duas propostas constitucionais seguidas depois de anos de debate. O estallido de 2019 não foi apenas cobrança cívica; houve violência, destruição de patrimônio e graves denúncias de abusos por parte das forças de segurança. A confiança nos partidos chilenos está entre as mais baixas da região, e o ciclo de punição a quem governa pode abrir espaço para candidaturas antissistema.
Do lado brasileiro, nem toda fidelidade é culto. Parte do eleitorado vota por razões concretas, como programas sociais, segurança ou valores, e parte vota sobretudo para impedir a vitória do adversário. O voto negativo é uma resposta racional a um sistema polarizado, ainda que ajude a perpetuar a polarização. Cobrar governantes exige instituições que funcionem e informação confiável, não apenas disposição do eleitor.
Funcionário, não mito
O que o Chile tem a ensinar não é uma técnica, é uma postura. O presidente chileno é visto como alguém contratado por quatro anos para executar um programa. Se não entrega, é reprovado, inclusive por quem o contratou. No Brasil, tratamos o presidente como um líder a quem se deve gratidão e lealdade, e a cobrança vira ato de oposição.
A primeira lição é que a crítica mais eficiente é a que vem do próprio eleitor. Um governante pode ignorar a oposição, porque ela sempre vai criticar. Não pode ignorar a própria base quando ela se mobiliza. É por isso que os protestos chilenos contra presidentes recém-eleitos funcionam: eles mudam o cálculo político de quem governa.
A segunda lição é separar pessoa e política. É possível simpatizar com um líder e reprovar o preço dos combustíveis, a fila do hospital ou a condução de uma crise. Quando a avaliação de uma política depende de quem a assina, o debate público deixa de ser sobre resultados.
A terceira é aceitar a alternância como sinal de saúde, e não de derrota. Nenhum projeto político é tão bom que dispense a ameaça real de perder o poder. É essa ameaça que obriga governos a entregar.
A doze dias da urna
O primeiro turno acontece em 4 de outubro. O voto é uma escolha entre opções imperfeitas, não uma declaração de amor. Seja quem for o vencedor, o teste mais importante da maturidade política brasileira virá depois, no primeiro erro do novo governo, quando saberemos se os seus próprios eleitores terão coragem de cobrá-lo em público.
Enquanto essa cobrança parecer traição, o Brasil continuará elegendo ídolos e colhendo os resultados de governos que ninguém fiscaliza por dentro. O Chile não resolveu todos os seus problemas. Mas resolveu um que ainda nos paralisa: lá, quem governa sabe que trabalha para o eleitor. Aqui, o eleitor ainda age como se trabalhasse para quem governa.
Perguntas frequentes
Por que os chilenos protestam contra presidentes que acabaram de eleger?
Porque tratam o voto como um contrato com metas, não como um endosso pessoal. Movimentos como a Revolução dos Pinguins, em 2006, e o estallido social, em 2019, surgiram contra governos de diferentes orientações ideológicas, inclusive com participação de quem votou neles.
Qual é a aprovação do presidente José Antonio Kast?
Na pesquisa Plaza Pública do Cadem divulgada em 20 de setembro de 2026, 36% aprovavam e 60% desaprovavam sua gestão. Na medição de seis meses de governo, 62% disseram que o governo estava sendo pior do que esperavam.
O que é a calcificação da política brasileira?
É o conceito usado por Felipe Nunes e Thomas Traumann para descrever preferências políticas que se tornaram identidades rígidas, pouco sensíveis a fatos novos, como o desempenho de um governo ou evidências de erro.
O modelo chileno é melhor que o brasileiro?
Não sem ressalvas. A cobrança constante mantém governos sob pressão, mas também gera volatilidade, dificuldade de sustentar reformas e desconfiança generalizada em partidos. O ponto central do artigo é a postura do eleitor diante do governante, não a superioridade do sistema.
Este é um artigo de opinião e reflete a visão do autor. Os dados sobre a avaliação do governo chileno têm como fonte principal a reportagem do Publimetro Chile sobre a pesquisa Cadem de seis meses de governo Kast, complementada por fontes brasileiras e chilenas listadas nas referências.