A promessa dos vestíveis sempre foi transformar o corpo em painel de controle. Primeiro vieram os passos, depois os batimentos cardíacos, o sono e a variabilidade da frequência cardíaca. A próxima fronteira, segundo a startup americana Neurable, é a atividade elétrica do cérebro. A empresa de Boston apresentou o Neurable One, primeiro fone de ouvido com hardware próprio da marca, equipado com 12 sensores de eletroencefalografia (EEG) nas almofadas. O aparelho custa US$ 499 e será vendido a partir de outubro pelo site da empresa, de acordo com a Wired.[1]
O lançamento interessa menos pelo aparelho em si e mais pelo que ele sinaliza. Dados cerebrais estão deixando o ambiente clínico e entrando no varejo de eletrônicos, numa categoria que não passa pelo crivo de agências sanitárias e que, na maior parte do mundo, inclusive no Brasil, ainda não tem proteção legal específica.
O que é o Neurable One e o que ele promete medir
A principal mudança em relação às gerações anteriores é o monitoramento passivo. Nos modelos antigos, o usuário precisava abrir uma sessão no aplicativo para que a captura começasse. No Neurable One, a leitura começa assim que o fone é colocado na cabeça, numa lógica que o cofundador e CEO Ramses Alcaide compara à de uma pulseira Fitbit, segundo a Wired.[1]
Com o sinal captado, o sistema interfere na rotina do usuário. Quando identifica dispersão, emite um aviso sonoro para trazer a atenção de volta. Quando interpreta sinais de esgotamento, sugere uma pausa. Em sessões de meditação guiada, a narração silencia se o algoritmo detecta que a pessoa entrou em estado de concentração e retorna quando ela se dispersa. Para cochilos, o volume das paisagens sonoras diminui à medida que o sono se aproxima. Os sensores podem ser desligados, e nesse caso o aparelho funciona como um fone comum.[1]
O novo aplicativo organiza a leitura em oito indicadores. A tabela abaixo resume cada um a partir da descrição atribuída pela empresa:
| Indicador | O que a Neurable diz medir |
|---|---|
| Idade cerebral | Comparação entre uma "idade" estimada do cérebro e a idade cronológica do usuário |
| Bateria cerebral | Reserva de energia mental disponível ao longo do dia |
| Velocidade | Rapidez no processamento de informações |
| Foco | Estabilidade da atenção durante uma tarefa |
| Carga | Esforço cognitivo exigido pela atividade |
| Estresse | Nível de tensão associado à tarefa |
| Sonolência | Proximidade de um estado de sono |
| Pico alfa | Frequência dominante do ritmo cerebral em repouso, que a empresa compara à variabilidade cardíaca |
O aplicativo também oferece uma checagem sob demanda, chamada Cognitive Snapshot, com recomendações como meditações e pequenos jogos, além de relatórios semanais e mensais. Alcaide relatou à Wired que usa os dados para decidir quando ir para a sauna e dormir mais cedo, e para concentrar o trabalho mais difícil nos horários em que sua "velocidade cerebral" aparece mais alta.[1]
Do licenciamento ao produto próprio
Até aqui, a Neurable operava como fornecedora de tecnologia. Em setembro de 2024, lançou com a marca de áudio Master & Dynamic o MW75 Neuro, apresentado como o primeiro fone de consumo com interface cérebro-computador integrada.[2] O modelo chegou ao mercado americano por US$ 699, segundo o site especializado Wareable.[3] No início de 2026, a empresa mostrou na CES um headset gamer em parceria com a HyperX, com dois sensores de EEG.[1] Até 2024, a startup havia captado mais de US$ 30 milhões, de acordo com comunicado divulgado pela Business Wire.[4]
A decisão de lançar hardware próprio foi justificada por Alcaide como forma de acelerar melhorias e demonstrar o potencial da tecnologia.[1] Há também uma leitura de negócio. Quem controla o aparelho controla a cadeia inteira do dado, do sensor ao aplicativo, e captura a margem que antes era dividida com o parceiro. O novo modelo é US$ 200 mais barato que o MW75 Neuro, o que indica uma aposta em volume. A parte de áudio foi desenvolvida com uma marca que a empresa preferiu não identificar. As especificações incluem drivers de berílio de 40 mm, cancelamento ativo de ruído e autonomia de 22 horas, que cai para 12 horas com os sensores de EEG ligados.[1]
O que a ciência sustenta e o que ainda é promessa
O EEG mede variações elétricas produzidas por populações de neurônios e registradas na superfície da cabeça. É uma técnica consolidada em hospitais e laboratórios há décadas. O desafio dos aparelhos de consumo está na forma de captação. Equipamentos de pesquisa usam dezenas de eletrodos distribuídos pelo couro cabeludo, enquanto um fone concentra poucos sensores ao redor das orelhas. Em reportagem do Lifehacker, o pesquisador Muñoz, associado ao Centre for Neurotechnology and Law, no Reino Unido, lembra que a eficácia e a precisão dos dispositivos vendidos diretamente ao consumidor estão em debate há anos e que a qualidade do sinal depende do posicionamento dos eletrodos, às vezes por diferenças de milímetros.[5] Movimentos musculares, como mastigar ou franzir a testa, geram interferências maiores que o próprio sinal cerebral.
A Neurable sustenta que seu hardware é confiável. A empresa afirma que, em 2021, conduziu 45 experimentos com 132 participantes em 337 sessões, comparando um protótipo com um sistema de EEG de uso clínico, e que validou o algoritmo de foco com o laboratório da Força Aérea dos Estados Unidos.[6] São resultados divulgados pela própria empresa.
Para o Neurable One especificamente, porém, não há dados novos. A Wired registra que a empresa não tinha pesquisas próprias sobre a eficácia do novo modelo e que segue citando um estudo anterior com a Mayo Clinic. Nesse estudo, usuários do headset teriam apresentado aumento de 30% no foco em comparação com quem usava a técnica Pomodoro ou métodos semelhantes, além de queda de cerca de 10% no esgotamento ao fim do dia.[1]
Há ainda uma questão conceitual. "Foco" e "estresse" são construções psicológicas, não grandezas físicas. O que o fone registra são padrões de frequência, e é o algoritmo que traduz esses padrões em uma nota. Indicadores como "idade cerebral" e "bateria cerebral" não têm definição clínica padronizada. Como o produto não é classificado como dispositivo médico, e a empresa afirma que ele não serve para diagnosticar, tratar ou monitorar doenças,[1] a validade desses índices não é examinada por nenhuma agência reguladora.
Um índice proprietário de "bateria cerebral" não é uma medida, é uma interpretação. E interpretações apresentadas como medidas tendem a orientar o comportamento de quem as consulta.
Dados neurais: o ativo que ninguém sabe precificar
A Neurable diz que não vende os dados que coleta, não os usa para publicidade e que cada usuário mantém controle sobre suas informações. Alcaide também afirma que empresas compram os fones em lote para melhorar a produtividade dos funcionários, não para monitorá-los, e compara a prática à oferta de academia como benefício corporativo.[1]
O compromisso é relevante porque o setor tem histórico frágil. Um levantamento da Neurorights Foundation, organização dedicada à proteção contra o uso indevido de neurotecnologia, analisou 30 empresas que vendem produtos desse tipo pela internet e concluiu que 29 tinham acesso aos dados cerebrais dos usuários sem limitações relevantes. Quase todas podiam compartilhar essas informações com terceiros, segundo a KFF Health News.[7]
A resposta regulatória começou pelas bordas. O Chile foi o primeiro país a incluir os neurodireitos na Constituição, em 2021. Nos Estados Unidos, Colorado, Califórnia e Montana aprovaram leis para proteger dados neurais coletados fora do ambiente médico. Colorado e Califórnia alteraram suas leis gerais de privacidade do consumidor, enquanto Montana ampliou sua lei de privacidade genética.[7] Em novembro de 2025, os Estados-membros da Unesco adotaram a primeira Recomendação sobre Ética da Neurotecnologia, que estabelece que as regras de proteção ao consumidor se aplicam integralmente a esses produtos e alerta para riscos nos contextos educacional e de trabalho, segundo análise do escritório Covington.[8]
A escala do problema pode crescer rapidamente. A Neurable divide o mercado com outras empresas, como a NextSense, e a Apple registrou em 2023 um pedido de patente para AirPods capazes de medir atividade cerebral, de acordo com a TechRepublic.[9] Se a tecnologia chegar a fones de grande circulação, a coleta de dados neurais deixará de ser nicho de entusiastas.
E no Brasil?
A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) classifica como sensíveis os dados de saúde, biométricos e genéticos, entre outros, mas não menciona dados neurais de forma expressa. Se um registro de EEG de consumo se enquadra como dado de saúde depende de interpretação, e a questão já é objeto de pesquisa acadêmica, como em trabalho da UFRGS que discute a classificação desses dados como sensíveis.[10]
- PL 522/2022 (Câmara dos Deputados): altera a LGPD para definir dado neural, exigir consentimento específico e destacado e proibir o compartilhamento entre controladores com objetivo de vantagem econômica.[11]
- Emenda Constitucional nº 85/2023 do Rio Grande do Sul: promulgada em dezembro de 2023, incluiu a proteção da integridade mental na Constituição estadual, uma iniciativa pioneira no país.[12]
- PL 4/2025 (Senado, reforma do Código Civil): dedica um capítulo aos neurodireitos, com privacidade mental, liberdade cognitiva, integridade mental, continuidade da identidade pessoal e proteção contra discriminação baseada em dados cerebrais, segundo a Rádio Senado.[13]
O ponto mais sensível para o Brasil, porém, está no ambiente de trabalho. Desde 26 de maio de 2026, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 obriga empresas a incluir os riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais, conforme a Portaria MTE nº 1.419/2024, segundo o portal Contábeis.[14] A pressão por provar que a saúde mental está sendo gerida cria um incentivo para que empresas adotem ferramentas que produzam números, e um fone que mede "estresse" e "esgotamento" se encaixa bem nesse discurso.
Há dois problemas nessa equação. O primeiro é jurídico: o consentimento de um empregado diante do empregador dificilmente é plenamente livre, dada a relação de subordinação, o que fragiliza a base legal para tratar dados tão íntimos. O segundo é conceitual: a NR-1 mira fatores organizacionais, como metas, jornada, assédio e falta de autonomia. Medir o cérebro de cada trabalhador desloca a atenção da organização do trabalho para a biologia do indivíduo, transformando um problema coletivo em desempenho pessoal.
Os argumentos de quem vê valor na tecnologia
Defensores da neurotecnologia de consumo argumentam que o EEG é um método não invasivo, sem riscos físicos, e que fones com sensores não são, em essência, mais intrusivos que relógios que já medem batimentos, sono e variabilidade cardíaca. A Neurable afirma que os dados permanecem com o usuário e que não são vendidos nem usados para publicidade.[1] O esgotamento profissional é um problema real, e ferramentas de autoconhecimento podem ajudar pessoas a perceber padrões que passariam despercebidos.
Há também o argumento econômico. Na discussão da lei do Colorado, representantes da indústria sustentaram que a regra era excessivamente onerosa, sobretudo para empresas que precisam lidar com diversas leis estaduais de privacidade.[15] Na Califórnia, empresas de tecnologia conseguiram restringir o texto aos dados cerebrais que identificam indivíduos. Para esse grupo, regular cedo demais pode inibir uma área ainda em formação.
O que observar nos próximos meses
Três sinais vão indicar se o Neurable One representa um avanço ou apenas uma embalagem nova. O primeiro é a publicação de estudos independentes, revisados por pares, que avaliem o novo aparelho, e não apenas protótipos anteriores. O segundo é a política de privacidade efetiva do produto: onde os dados são processados, por quanto tempo são guardados e o que acontece com eles em caso de venda da empresa. O terceiro é a resposta regulatória brasileira, em especial o andamento da reforma do Código Civil e a eventual manifestação da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) sobre o enquadramento dos dados neurais.
Até lá, a pergunta que o produto coloca não é técnica. É sobre quem define o que significa estar focado, cansado ou estressado, e quem fica com esse registro.
Perguntas frequentes
O que é o Neurable One?
É um fone de ouvido da startup americana Neurable com 12 sensores de eletroencefalografia (EEG) nas almofadas. Ele monitora continuamente indicadores como foco, estresse, sonolência e "bateria cerebral" e custa US$ 499 nos Estados Unidos.
Fones com EEG conseguem medir o foco com precisão?
Não há consenso. O EEG é uma técnica consolidada, mas fones usam poucos sensores em posição limitada, e o sinal sofre interferência de movimentos musculares. A Neurable cita estudos próprios e uma pesquisa anterior com a Mayo Clinic, mas não apresentou dados novos sobre o Neurable One.
O Neurable One é um dispositivo médico?
Não. A empresa afirma que o produto não foi projetado para diagnosticar, tratar ou monitorar doenças, por isso não passa pela avaliação de eficácia exigida de equipamentos médicos.
Dados cerebrais são protegidos pela LGPD?
A LGPD não menciona dados neurais expressamente. Eles podem ser enquadrados como dados de saúde, que são sensíveis, mas isso depende de interpretação. O PL 522/2022 e a reforma do Código Civil (PL 4/2025) propõem proteção específica.
O que são neurodireitos?
É um conjunto de garantias que busca proteger a mente diante das neurotecnologias, incluindo privacidade mental, liberdade cognitiva, integridade mental e continuidade da identidade pessoal. O Chile os incluiu na Constituição em 2021, e o Rio Grande do Sul aprovou emenda estadual sobre integridade mental em 2023.
Empresas brasileiras podem usar fones com EEG para monitorar funcionários?
Não há regra específica. O tratamento de dados sensíveis exige base legal, e o consentimento em relações de trabalho é considerado frágil por causa da subordinação. A NR-1, em vigor desde maio de 2026, foca em fatores organizacionais de risco psicossocial, não em monitoramento individual.