Caderno Política · Guerra na Ucrânia
Em resumo
- Zelensky afirmou ao Financial Times que Putin ordenou, em setembro, o abandono das restrições na campanha aérea contra a Ucrânia, com base em interceptações que Kiev ainda não tornou públicas.
- A ONU verificou 2.222 civis mortos de janeiro a agosto de 2026, alta de 55% sobre o mesmo período de 2025.
- Drones com motor a jato, mais rápidos que os Shahed, reduziram a taxa de interceptação ucraniana para cerca de 57%, segundo o próprio presidente.
- O Kremlin nega atacar escolas e hospitais. A acusação não foi verificada de forma independente.
- Para o Brasil, o episódio reabre a tensão entre a defesa do Direito Internacional Humanitário e a dependência de fertilizantes russos.
A acusação feita dentro de um abrigo escolar
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou que Vladimir Putin determinou aos comandantes militares russos que deixassem de lado as restrições que, até então, orientavam a campanha aérea contra o país. A declaração foi feita em entrevista concedida na quinta-feira (1º) ao correspondente Christopher Miller, do Financial Times, dentro do abrigo antiaéreo de uma escola de Kiev que acabara de ser atingida por um drone russo com motor a jato1.
Segundo o relato do FT, Zelensky atribuiu a informação a agências de inteligência ucranianas, que teriam obtido inclusive comunicações interceptadas de autoridades do Kremlin. A ordem, de acordo com ele, foi dada em setembro, no mesmo período em que os bombardeios sobre a capital passaram a atingir com mais frequência escolas, hospitais e centros de dados1. O governo ucraniano não divulgou o conteúdo das interceptações, e o material não pôde ser verificado de forma independente, ressalva registrada pelo Kyiv Post2.
"Ele disse que agora não há regras."
Volodymyr Zelensky, em entrevista ao Financial Times (tradução livre)
A escola escolhida como cenário não foi acidental. De acordo com a diretora Valentyna Chorna, ouvida pelo FT, 104 alunos e 60 professores sobreviveram porque conseguiram descer ao abrigo subterrâneo antes do impacto, registrado pouco depois das 9h no horário local1. Autoridades ucranianas informaram que a ogiva do drone, de cerca de 50 quilos, perfurou o piso sem detonar, mas o impacto danificou o prédio e provocou um incêndio2.
A lógica militar que Kiev atribui a Moscou
Na leitura do presidente ucraniano, a mudança tem relação direta com o campo de batalha. Ele sustentou ao FT que, nas fases anteriores da guerra, a Rússia concentrou seus ataques de longo alcance em instalações de energia e alvos militares, padrão ao qual a Ucrânia respondeu de forma semelhante. Como as forças russas não conseguiram conquistar o Donbas, argumentou, Moscou teria passado a apostar em ataques maciços contra a população para assustar civis, esvaziar as cidades e corroer a capacidade ucraniana de sustentar o esforço de guerra1.
Zelensky também disse que a Rússia se prepara para intensificar os ataques às maiores cidades ucranianas com o objetivo de isolá-las do restante do país com a chegada do inverno1. O portal ucraniano LIGA.net relatou que as avaliações de inteligência apontam Kiev, Kharkiv e Odessa como os alvos prioritários3. Nos dias anteriores à entrevista, um drone russo atingiu a Academia Nacional de Ciências, no centro de Kiev, e ataques repetidos danificaram a ponte Pivdennyi, uma das travessias do rio Dnipro, enquanto um bombardeio em 23 de setembro afetou centros de dados e interrompeu o acesso à internet de parte dos moradores2.
O Kremlin rejeita a acusação. O porta-voz Dmitry Peskov declarou ao FT que as forças russas não atacam escolas nem hospitais2.
O que os números independentes mostram
A existência de uma ordem formal de Putin é, por enquanto, uma alegação. A escalada de danos a civis, não. A Missão de Monitoramento de Direitos Humanos da ONU na Ucrânia (HRMMU) verificou 2.222 civis mortos e 13.058 feridos entre janeiro e agosto de 2026, um total 55% superior ao do mesmo período de 2025. Segundo a missão, os oito primeiros meses deste ano já produziram mais vítimas civis do que todo o ano anterior4.
Fontes: HRMMU/ONU, relatórios mensais de junho e agosto de 2026 e comunicado de 24 de setembro de 2026; briefing ao Conselho de Segurança da ONU (julho). Elaboração: O Tecido.
Os dados mensais desenham a curva. Maio havia registrado 282 civis mortos, junho chegou a 293 e julho bateu 437, o pior mês desde maio de 2022, segundo números apresentados ao Conselho de Segurança e reportados pelo Euromaidan Press5. Em agosto foram 372 mortos e 2.349 feridos, e quase metade das vítimas foi causada por mísseis e drones de longo alcance em centros urbanos distantes da linha de frente4.
Setembro, o mês em que Zelensky localiza a suposta ordem, aparece nos registros da ONU como um ponto de inflexão para a capital. Em comunicado de 24 de setembro, a HRMMU contabilizou ao menos 200 civis mortos e 1.234 feridos no país até aquela data, em números preliminares, e informou que Kiev teve vítimas civis em 16 dos 24 primeiros dias do mês, frequência sem precedente na cidade desde o início da invasão em larga escala6. A chefe da missão, Danielle Bell, destacou tanto a frequência quanto a variedade de instalações civis atingidas, de moradias a hospitais e comércio6.
O acumulado também pesa. Desde fevereiro de 2022, a ONU confirmou ao menos 17.257 civis mortos, número que a própria organização considera subestimado por limitações de acesso5. O Ministério da Educação ucraniano registra mais de 4.700 ataques a instituições de ensino desde o início da invasão, e a Organização Mundial da Saúde verificou mais de 3.000 ataques que afetaram estruturas de saúde2. A Human Rights Watch, em seu Relatório Mundial 2026, já classificava muitos ataques russos a áreas densamente povoadas como possíveis crimes de guerra7.
Há uma distinção analítica importante aqui. Os números da ONU não provam que exista uma ordem explícita do Kremlin; uma escalada desse porte pode resultar de maior volume de armamentos, de mudanças tecnológicas ou de regras de engajamento mais frouxas sem comando formal. Mas a prova de uma ordem teria peso jurídico próprio, porque transforma um padrão estatístico em indício de intenção e de responsabilidade de comando, dois elementos centrais em qualquer acusação de crime de guerra.
Drones a jato e o limite da defesa aérea
A dimensão tecnológica ajuda a explicar a pressão sobre as cidades. Segundo o relato da entrevista publicado pelo Kyiv Post, Zelensky disse que a Rússia lançou cerca de 500 drones em um único dia, aproximadamente metade deles com motor a jato. A Ucrânia teria derrubado em torno de 57% desses modelos mais rápidos, contra 85% a 90% dos drones convencionais do tipo Shahed2. Dados da Força Aérea ucraniana indicam que o uso de drones a jato cresceu oito vezes entre junho e agosto2.
Ao FT, Zelensky afirmou que os caças F-16 de fabricação americana têm sido eficazes contra os novos drones, mas que cerca de metade da frota passa longos períodos na Europa para reparos e manutenção. Ele também apontou um rombo orçamentário que impede o desenvolvimento e a produção em massa de armas defensivas1. Kiev testa cinco modelos de drones interceptadores de alta velocidade, e um deles poderia alcançar produção de cerca de 400 unidades até o fim de outubro, com escassez de motores e de financiamento como principais gargalos2. Questionado se os parceiros ocidentais fazem tudo o que podem, respondeu que não, que é insuficiente1.
O que diz o Direito Internacional Humanitário
O núcleo jurídico da acusação é o princípio da distinção, previsto no Protocolo Adicional I às Convenções de Genebra, do qual a Rússia é parte. Ele obriga os beligerantes a diferenciar, em todas as circunstâncias, combatentes de civis e objetivos militares de bens civis. O mesmo protocolo estabelece que, em caso de dúvida, um bem normalmente destinado a uso civil, como uma escola, deve ser presumido como não utilizado para fins militares.
O Estatuto de Roma, que criou o Tribunal Penal Internacional (TPI), tipifica como crime de guerra dirigir intencionalmente ataques contra edifícios dedicados à educação e contra hospitais, desde que não sejam objetivos militares. A Rússia não reconhece a jurisdição do tribunal, mas a Ucrânia aderiu ao Estatuto, o que permite ao TPI investigar crimes cometidos em seu território. O tribunal já emitiu mandados de prisão contra Putin, em 2023, pela deportação de crianças ucranianas, e contra comandantes russos por ataques à infraestrutura elétrica. Uma ordem de abandono das regras de guerra, se comprovada documentalmente, seria o tipo de evidência que costuma faltar nesses processos: a ligação direta entre o padrão de ataques e a cadeia de comando.
O ângulo brasileiro: princípios declarados e interesses concretos
A Constituição de 1988 lista, entre os princípios das relações internacionais do Brasil, a prevalência dos direitos humanos, a não intervenção e a solução pacífica dos conflitos. A diplomacia brasileira tem tentado acomodar os três diante da guerra na Ucrânia. O padrão das notas do Itamaraty ilustra o método: quando o hospital pediátrico Ohmatdyt, em Kiev, foi bombardeado em julho de 2024, o governo condenou o ataque e exortou as partes a cumprir o Direito Internacional Humanitário, mas sem nomear a Rússia, reiterando três princípios de desescalada, segundo o Poder3608.
Em maio de 2026, a revista Crusoé apontou que o Itamaraty não se manifestou sobre um dos maiores ataques aéreos da guerra, que deixou ao menos 24 mortos, no mesmo dia em que o chanceler Mauro Vieira se reuniu com Sergei Lavrov e acertou uma visita a Moscou com ênfase no fornecimento de fertilizantes9. Os defensores da linha brasileira argumentam que a equidistância preserva a capacidade do país de atuar como interlocutor em eventuais negociações e evita alinhamentos automáticos a blocos.
O interesse material é mensurável. O Brasil importa mais de 85% dos fertilizantes que consome, segundo o setor10. Entre janeiro e julho de 2025, a Rússia respondeu por 28,2% do volume importado, de acordo com dados do MDIC compilados pela Datagro e publicados pelo Agrolink11. No acumulado de janeiro a outubro de 2025, a China passou a Rússia como principal fornecedora, por margem estreita, segundo levantamento da CNA citado pela Revista Oeste12. Juntas, as duas respondem por quase metade das compras externas do insumo.
A acusação de Zelensky coloca essa equação sob nova luz. Se a ordem for comprovada, o Brasil, que é parte do Estatuto de Roma, terá mais dificuldade em tratar ataques a escolas e hospitais como episódios isolados de um conflito entre "as partes". Se não for, a linha de cautela do Itamaraty ganha argumento. Em qualquer dos cenários, a questão para o debate público brasileiro é menos de alinhamento geopolítico e mais de coerência: em que ponto a defesa declarada do Direito Internacional Humanitário exige nomear quem o descumpre.
O que observar nas próximas semanas
Três indicadores permitirão avaliar a acusação com mais precisão. O primeiro é o relatório consolidado de setembro da HRMMU, previsto para meados de outubro, que dirá se a alta preliminar se confirma. O segundo é a eventual divulgação, total ou parcial, das interceptações citadas por Zelensky, ou o seu compartilhamento com o TPI e com aliados. O terceiro é o comportamento dos ataques com a chegada do inverno: uma concentração em pontes, energia, comunicações e serviços das grandes cidades seria coerente com a estratégia de isolamento descrita por Kiev.
Perguntas frequentes
O que Zelensky disse sobre Putin e as regras de guerra?
Em entrevista ao Financial Times concedida em 1º de outubro de 2026, Zelensky afirmou que, segundo a inteligência ucraniana, Putin ordenou em setembro o abandono das restrições na campanha aérea, o que teria elevado os ataques a escolas, hospitais e centros de dados.
A ordem atribuída a Putin foi comprovada?
Não. As comunicações interceptadas não foram divulgadas nem verificadas de forma independente, e o Kremlin nega atacar escolas ou hospitais. Os dados da ONU, porém, mostram aumento expressivo de vítimas civis em 2026.
Quantos civis morreram na Ucrânia em 2026, segundo a ONU?
A HRMMU verificou 2.222 civis mortos e 13.058 feridos entre janeiro e agosto de 2026, alta de 55% sobre o mesmo período de 2025. Até 24 de setembro, foram ao menos 200 mortos e 1.234 feridos no mês, em números preliminares.
Atacar escolas é crime de guerra?
Escolas são bens civis protegidos, e o Estatuto de Roma tipifica como crime de guerra dirigir intencionalmente ataques contra edifícios dedicados à educação e hospitais que não sejam objetivos militares. A responsabilização depende de investigação sobre intenção e circunstâncias.
Qual é a posição do Brasil?
O Itamaraty costuma condenar ataques à infraestrutura civil e pedir respeito ao Direito Internacional Humanitário sem nomear a Rússia, defendendo desescalada e negociação. A posição convive com a dependência brasileira de fertilizantes importados, dos quais a Rússia é uma das maiores fornecedoras.
Referências
- MILLER, Christopher. Putin has told military leaders to abandon rules of war, Zelenskyy says. Financial Times, Kiev, out. 2026. Disponível em: https://www.ft.com/content/c2ad4cd1-a08a-4f55-8d57-fa83dbfa98af
- Kyiv Post. 'No Rules Now': Putin Orders Civilian Attacks, Zelensky Says. 2 out. 2026.
- LIGA.net. "There are no rules now." Zelenskyy said that Putin had lifted restrictions on strikes against Ukraine. Out. 2026.
- Missão de Monitoramento de Direitos Humanos da ONU na Ucrânia (HRMMU). Protection of Civilians in Armed Conflict: August 2026. 16 set. 2026.
- Euromaidan Press. Eight months of 2026 brought more Ukrainian civilian casualties than all of last year, UN says. 24 set. 2026.
- HRMMU. Russian Attacks Against Ukraine Have Reached a New Level of Intensity. Comunicado, 24 set. 2026.
- Human Rights Watch. Relatório Mundial 2026: Ucrânia.
- Poder360. Brasil condena ataque a hospital na Ucrânia, mas não cita Rússia. Jul. 2024.
- Crusoé. Itamaraty silencia mais uma vez sobre ataques russos a civis ucranianos. Mai. 2026.
- Agrolink. Brasil projeta recorde de entregas de fertilizantes em 2025 (Simpósio Sindiadubos NPK 2025).
- Agrolink / Datagro / MDIC. Brasil importa o maior volume de fertilizantes do ano. 2025.
- Revista Oeste / CNA. China supera Rússia e lidera exportação de fertilizantes ao Brasil. 2025.