Um foguete Falcon Heavy da SpaceX decolou neste domingo (30) do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, levando a bordo o telescópio espacial Nancy Grace Roman, a mais ambiciosa missão astrofísica lançada pela NASA em anos. O lançamento ocorreu por volta das 8h26 no horário de Brasília, e o telescópio se separou do segundo estágio do foguete cerca de meia hora depois, seguindo agora rumo ao ponto de Lagrange L2, a 1,5 milhão de quilômetros da Terra, onde já opera o telescópio James Webb. A missão promete atacar simultaneamente dois dos maiores enigmas em aberto da física contemporânea: a natureza da matéria escura e da energia escura, que juntas respondem por cerca de 95% de tudo que existe no universo.
O espelho principal do Roman tem 2,4 metros de diâmetro, exatamente o mesmo tamanho do espelho do veterano Hubble. Mas a semelhança para por aí. Graças a um desenho óptico diferente, com espelho secundário mais próximo e uma câmera principal maior, o novo telescópio consegue observar uma área de céu ao menos 100 vezes maior do que o Hubble em cada exposição, com resolução comparável. Na prática, uma única imagem do Roman equivale a cerca de cem fotografias do telescópio veterano, ou ao equivalente a 500 mil televisores 4K enfileirados, segundo comparação usada pela própria equipe da missão.
Um telescópio de sondeo, não de detalhe
Enquanto o James Webb foi projetado para mergulhar em detalhes finíssimos de regiões pequenas do céu, o Roman foi concebido para fazer o oposto: varrer áreas enormes repetidamente, catalogando bilhões de objetos e voltando ao mesmo ponto do céu várias vezes para flagrar mudanças ao longo do tempo. A engenheira espanhola Begoña Vila, do Centro Goddard da NASA e corresponsável pelo Sensor de Guiado Fino do telescópio, descreveu a lógica da missão como complementar à do Webb: o Roman faz o mapeamento amplo, e os alvos mais interessantes encontrados por ele podem depois ser observados em detalhe pelo Webb e pelo Hubble, segundo relato à reportagem do jornal espanhol El País[1].
O instrumento científico principal, o Wide Field Instrument, é uma câmera de mais de 300 megapixels capaz de observar tanto no visível quanto no infravermelho próximo. Ao longo de sua missão nominal de cinco anos, prorrogável por mais cinco, o Roman deve gerar cerca de 500 terabytes de dados por ano, mais do que o Hubble acumulou em 35 anos de operação.
"Não estamos comprendendo como funciona fundamentalmente o espaço em que vivemos", resumiu Julie McEnery, cientista-chefe do projeto, ao comentar as recentes inconsistências no modelo cosmológico padrão.
Matéria escura e energia escura: os dois alvos principais
A matéria escura corresponde a cerca de 85% de toda a matéria do universo, mas nunca foi observada diretamente: sua existência só é inferida pelo efeito gravitacional que exerce sobre galáxias e aglomerados visíveis. A energia escura, ainda mais misteriosa, é o nome dado à força responsável pela expansão acelerada do cosmos. Para investigar as duas, o Roman fará um levantamento cobrindo mais de 5 mil graus quadrados do céu, cerca de 12% do total, catalogando mais de um bilhão de galáxias em cerca de um ano e meio.
A técnica central é a chamada lente gravitacional fraca: ao atravessar regiões com concentração de matéria escura, a luz de galáxias distantes sofre uma leve distorção em sua trajetória. Comparando essas distorções em milhões de galáxias, os cientistas conseguem reconstruir um mapa indireto da distribuição da matéria escura no universo. A isso se soma a busca por dezenas de milhares de supernovas, usadas como referência para medir a taxa de expansão cósmica em diferentes épocas da história do universo.
A urgência científica não é apenas teórica. Nos últimos anos, três fissuras incômodas apareceram no modelo cosmológico padrão: o universo parece se expandir mais rápido do que os modelos preveem, a matéria está distribuída de forma mais uniforme do que o esperado, e o instrumento DESI, no Arizona, encontrou indícios de que a própria energia escura poderia estar perdendo força ao longo do tempo, conforme apurado pelo El País[1].
Como o Roman vai apontar com tanta precisão
Parte da precisão do telescópio depende de um instrumento pouco falado: o Sensor de Guiado Fino, responsável por manter o observatório perfeitamente estável enquanto capta imagens de longa exposição. No Webb, o sistema se guia por uma única estrela de referência. No Roman, por causa do campo de visão muito mais amplo, são usadas 18 câmeras simultâneas, cada uma travada em uma estrela diferente, e pela primeira vez a missão vai testar o guiamento por espectros de luz dispersa, e não apenas por pontos estelares.
A caça a 100 mil novos mundos
O segundo grande objetivo científico do Roman são os exoplanetas. A expectativa da NASA é encontrar cerca de 100 mil novos planetas fora do Sistema Solar ao longo da missão. Para efeito de comparação, o Arquivo de Exoplanetas da NASA registrava 6.336 mundos confirmados em sua atualização de 6 de agosto de 2026[2], número construído ao longo de três décadas desde a descoberta do primeiro exoplaneta, em 1995.
A maior parte das novas detecções deve vir do método de trânsito, que identifica a leve queda de brilho de uma estrela quando um planeta passa à sua frente, já bastante usado por missões como Kepler e TESS. Mas o Roman vai explorar de forma inédita em grande escala a técnica de microlente gravitacional, que aproveita o alinhamento casual entre duas estrelas: a luz da estrela mais distante é amplificada pela gravidade da mais próxima e, se essa estrela tiver um planeta, sua gravidade deixa uma segunda assinatura sutil nessa amplificação. A técnica permite detectar até planetas com massa menor que a de Mercúrio, além de planetas órfãos, que vagam pelo espaço sem estrela própria.
O Brasil já tem experiência acumulada para aproveitar os dados
Diferente de muitos grandes observatórios, os dados do Roman serão liberados para toda a comunidade científica mundial sem período de exclusividade, incluindo estudantes. Essa política de dados abertos é especialmente relevante para o Brasil, que já acumula experiência em projetos internacionais de mapeamento cósmico de grande escala.
O Laboratório Interinstitucional de e-Astronomia (LIneA), sediado no Rio de Janeiro, coordena desde 2010 a participação brasileira em levantamentos como o Dark Energy Survey (DES), por meio do consórcio DES-Brazil, e no Observatório Vera Rubin, sucessor natural desses projetos[3][4]. Pesquisadores ligados ao LIneA, ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) e-Universo, à Universidade de São Paulo, à Unicamp e ao Observatório Nacional já contribuíram diretamente para análises cosmológicas do DES, incluindo o estudo e validação de matrizes de covariância usadas para estimar parâmetros do universo, com financiamento da FAPESP, do CNPq, da CAPES e da FINEP[4].
Essa infraestrutura acumulada em quase quinze anos de participação em consórcios internacionais coloca o país em posição favorável para explorar o volume de dados que o Roman deve produzir, ainda que o Brasil não tenha, até o momento, financiamento formal e dedicado à colaboração científica direta com a missão da NASA, diferentemente do que ocorre com o DES e o Rubin.
Contraponto: ceticismo sobre os prazos e o retorno científico
Nem todos os cosmólogos tratam os indícios de enfraquecimento da energia escura, sugeridos por observações do DESI, como um sinal definitivo de que o modelo padrão está errado. Parte da comunidade argumenta que esses resultados ainda dependem de mais dados e de análises independentes antes de justificar uma revisão da chamada constante cosmológica, e que grandes missões como o Roman tendem historicamente a levar anos até produzir resultados cosmológicos maduros e revisados por pares, mesmo depois de as primeiras imagens científicas chegarem, previstas para o início de 2027. Há também quem questione se o investimento em observatórios de bilhões de dólares deveria competir com missões mais baratas e focadas, dado o orçamento científico sob pressão em diversos países, incluindo os Estados Unidos.
Perguntas frequentes
O que é o telescópio Nancy Grace Roman?
É um telescópio espacial infravermelho da NASA, lançado em 30 de agosto de 2026 a bordo de um foguete Falcon Heavy, projetado para mapear grandes áreas do céu com um campo de visão cerca de 100 vezes maior que o do Hubble, mantendo resolução comparável.
Qual a diferença entre o Roman e o James Webb?
O Webb foi feito para observar em alto detalhe regiões pequenas do céu no infravermelho. O Roman foi feito para varrer áreas muito maiores do céu de forma repetida, funcionando como um telescópio de sondeo que depois indica alvos interessantes para observação detalhada pelo Webb.
Por que o telescópio vai para o ponto L2?
O ponto de Lagrange L2, a cerca de 1,5 milhão de quilômetros da Terra, oferece uma órbita gravitacionalmente estável e bloqueia boa parte da luz do Sol e da Terra, condição ideal para observações infravermelhas de longa duração. O James Webb já opera na mesma região.
Quantos exoplanetas o Roman deve encontrar?
A NASA estima cerca de 100 mil novos exoplanetas ao longo da missão, um número muito superior aos 6.336 exoplanetas confirmados registrados no Arquivo de Exoplanetas da NASA em agosto de 2026.
O Brasil participa da missão Roman?
Não há, até o momento, financiamento formal brasileiro dedicado à missão. Mas pesquisadores ligados ao LIneA e a universidades brasileiras já têm experiência em projetos irmãos, como o Dark Energy Survey e o Observatório Vera Rubin, e devem poder acessar os dados do Roman assim que forem liberados publicamente, sem período de exclusividade.