Política · Geopolítica
Banqueiros ocidentais hesitam em comparecer, neste mês, à Future Investment Initiative, o grande fórum anual de investimentos da Arábia Saudita. O motivo é concreto: o aeroporto internacional de Riade virou alvo. Entre 6 e 11 de outubro, mísseis e drones lançados pelos houthis do Iêmen atingiram aeroportos em Riade, Abha, Jazan e Najran, e um projétil danificou também o de Dammam, segundo a cronologia do jornal The National. Só o ataque de 10 de outubro ao Aeroporto Internacional King Khalid deixou 12 mortos e mais de 300 feridos, e aconteceu sem que o sistema saudita de alerta disparasse, conforme relato da Reuters.
Um reino que figura entre os maiores compradores de armas do planeta não consegue proteger a porta de entrada de sua capital contra um movimento rebelde de um dos países mais pobres do mundo. Para o colunista Janan Ganesh, do Financial Times, o episódio não é uma anomalia. É o retrato de uma época em que os Golias tropeçam com frequência cada vez maior diante de adversários menores.
Um padrão que deixou de surpreender
A lista que Ganesh reúne é longa. A Ucrânia, sem arsenal nuclear e muito menor que a Rússia, sustenta a resistência há quase cinco anos. Os Estados Unidos, que esperavam ver o Irã ceder sob bombardeio, enfrentam desgaste: a guerra iniciada por americanos e israelenses em 28 de fevereiro de 2026 passou por um cessar-fogo em abril, mediado pelo Paquistão, e voltou a esquentar em julho, de acordo com o histórico consolidado do conflito. As bases americanas no Golfo, lembra o colunista, mostraram-se tão vulneráveis quanto estratégicas. E a França encerrou em 2022 uma década de contrainsurgência no Sahel sem o resultado pretendido.
No século 20, a derrota de dois impérios, o francês e depois o americano, para forças vietnamitas aparentemente inferiores foi recebida como choque. Depois de Iraque e Afeganistão, observa Ganesh, esse tipo de virada tornou-se quase rotina.
Não é só uma questão de drones baratos
Seria tentador atribuir tudo à tecnologia militar. Mísseis, drones e sistemas de guiagem ficaram mais eficientes e mais baratos, o que permite ao pequeno atormentar o grande. Mas o argumento central do texto do FT é que o mesmo padrão aparece na diplomacia, onde não há drone envolvido.
O caso mais recente é a Groenlândia. Depois de meses de ameaças de anexação por parte de Donald Trump, Estados Unidos, Dinamarca e o governo groenlandês assinaram em 22 de setembro, à margem da Assembleia Geral da ONU, um acordo de segurança que amplia a presença militar americana, mas reafirma a soberania dinamarquesa e o direito de autodeterminação da ilha, como registrou a Al Jazeera. Um país de 343 milhões de habitantes negociou com outro de 6 milhões sobre um território de 57 mil pessoas e obteve, na leitura de Ganesh, bem menos do que pretendia.
O outro exemplo vem do Pacífico. Em 2020, depois que Camberra defendeu uma investigação internacional sobre a origem da Covid-19, Pequim impôs barreiras a cevada, vinho, carne e madeira australianos. A Austrália não recuou, não retaliou na mesma moeda e levou o caso à Organização Mundial do Comércio. A análise publicada pelo East Asia Forum resume o desfecho: Pequim concluiu que a campanha prejudicava mais a si mesma do que mudava a política externa australiana. As sanções foram sendo retiradas a partir de 2023.
O problema de "quem pode mais, chora menos" é que se mede o poder apenas pelo tamanho do arsenal, do PIB e da população.
Três razões para a agonia de Golias
Ganesh propõe três explicações, que vale examinar uma a uma.
1. Todo mundo tem alguma alavanca
Quase nenhum ator é desprovido de trunfos. Pode ser o controle de um estreito, como os houthis no Mar Vermelho; uma empresa sem substituto, como a holandesa ASML no mercado de máquinas de litografia para chips; ou simplesmente conhecimento acumulado. A Ucrânia, depois de anos de guerra de drones, transformou experiência de campo em moeda de troca com aliados. O conceito de poder, argumenta o colunista, costuma ser definido de forma estreita demais.
2. Muito do poder duro é inutilizável
Uma invasão da Groenlândia teria um custo moral e diplomático do qual os Estados Unidos dificilmente se recuperariam. Se uma opção não pode ser exercida, em que sentido ela existe? Pequim poderia ter apertado mais a Austrália, mas perderia confiança regional. O benefício da dúvida moral raramente fica com a parte mais forte. Daí a formulação de Ganesh de que a Arábia Saudita está armada até os dentes, e ao mesmo tempo não está.
3. Talvez não existam titãs de verdade
A terceira hipótese é a mais provocadora. Os Estados Unidos têm hoje uma fatia da produção mundial muito menor que a do pós-guerra, e a da China é menor ainda. Quando um dos dois aplica sanções, o alvo encontra outros compradores. Aliados como Riade não podem ser sustentados sem limite, porque armas, inteligência e capital diplomático são finitos. Ninguém detém o monopólio nuclear há quase oito décadas.
A lente da inteligência artificial distorce o mapa
Por que, então, a impressão de que vivemos sob duas superpotências absolutas? Ganesh sugere que o olhar está contaminado pela tecnologia. Em inteligência artificial, de fato, há apenas dois países relevantes: a IA exige capital imenso e mercados grandes o bastante para remunerá-lo, e Estados Unidos e China dominam o campo. O colunista recorre à ironia britânica para dizer que ser a terceira potência em IA é uma posição pouco invejável.
Só que essa concentração não se traduz automaticamente em poder geopolítico. A hiperescala tecnológica é uma vantagem enorme, mas dentro da tecnologia. No mundo físico, de estreitos, aeroportos, minas e eleitorados, outras variáveis pesam. É um alerta útil num momento em que boa parte do debate estratégico, inclusive no Brasil, tende a reduzir tudo à corrida dos chips.
E o Brasil nessa história?
O texto do FT não menciona o Brasil, mas o país oferece um caso de teste em tempo real. Em julho de 2025, Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, justificada em parte pelo julgamento de Jair Bolsonaro. O governo Lula insistiu na soberania e na negociação, e chegou a tratar os minerais críticos como ativo estratégico: "Por que eu vou deixar para outro pegar?", disse o presidente, segundo a RTP.
Os números de 2025 dão razão parcial à tese de Ganesh sobre a dispersão do poder econômico. Segundo a Secex/MDIC, as exportações brasileiras somaram o recorde de US$ 348,7 bilhões, com mais de 40 mercados batendo recordes de compra. As vendas aos Estados Unidos caíram 6,6%, concentradas entre agosto e dezembro, enquanto as destinadas à China subiram cerca de 6% e chegaram a US$ 100 bilhões. Ao longo do ano, as negociações ampliaram a lista de exceções à tarifa.
A pressão, porém, mudou de forma em vez de desaparecer. Em julho de 2026, o escritório do representante comercial americano (USTR) aplicou uma sobretaxa de 25% com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, citando temas como o Pix, e outra de 12,5% sob alegação de controle insuficiente contra mercadorias feitas com trabalho forçado, conforme o Brasil de Fato. Os ministros Márcio Elias Rosa e Mauro Vieira mantêm uma mesa de negociação com Washington, que passou pela reunião preparatória do G20 em Milwaukee no início de outubro.
A experiência brasileira ecoa o argumento que Mark Carney levou ao Fórum Econômico Mundial de Davos em janeiro. O primeiro-ministro canadense alertou que grandes potências passaram a usar tarifas, finanças e cadeias de suprimento como instrumentos de coerção, e resumiu o dilema das potências médias numa frase que circulou o mundo: quem não está à mesa, está no cardápio, segundo a cobertura do The Logic. Ganesh observa que essa era das potências médias já está meio instalada, com uma ressalva incômoda: muitas delas não são democracias liberais.
Para o Brasil, o ponto prático é identificar quais alavancas o país tem de fato. Escala agrícola, reservas de minerais críticos, matriz energética limpa e um mercado interno de mais de 200 milhões de consumidores são ativos reais. Mas, como mostra a própria lógica do artigo, alavanca só funciona quando o outro lado percebe que o custo de ignorá-la é maior que o de negociar.
O que observar nos próximos meses
- Golfo: se os Estados Unidos entrarão diretamente nos ataques sauditas contra os houthis, possibilidade que Trump disse estar em avaliação.
- Groenlândia: a ratificação do acordo pelos parlamentos da Dinamarca e da Groenlândia, condição para que ele entre em vigor.
- Brasil e EUA: o resultado das rodadas com o USTR antes da cúpula do G20 em Miami, marcada para dezembro.
- Potências médias: se a retórica de coalizão proposta por Carney ganha forma institucional ou permanece como discurso.
Perguntas frequentes
O que significa dizer que vivemos uma era dos Davis na geopolítica?
A expressão, usada pelo colunista Janan Ganesh no Financial Times em outubro de 2026, descreve um padrão em que países ou grupos aparentemente mais fracos frustram os objetivos de potências maiores, tanto na guerra quanto na diplomacia. Ucrânia, houthis e Groenlândia são os exemplos centrais.
Por que grandes potências nem sempre conseguem impor sua vontade?
Porque quase todo país tem alguma alavanca, porque boa parte do poder militar é inutilizável pelo custo moral e diplomático, e porque nenhuma potência atual concentra a fatia da economia mundial que os EUA detinham após 1945. Quem sofre sanções encontra alternativas.
O que é uma potência média?
É um Estado com peso econômico, demográfico ou diplomático relevante, mas sem capacidade de moldar sozinho a ordem internacional. Canadá, Austrália, Coreia do Sul, Turquia, Indonésia e Brasil costumam ser enquadrados nessa categoria.
Como o Brasil se insere nesse cenário?
O país enfrentou tarifa de 50% dos EUA em 2025 e novas sobretaxas de 25% e 12,5% em julho de 2026. Mesmo assim, exportou o recorde de US$ 348,7 bilhões em 2025, com a China absorvendo 28,7% das vendas. A diversificação reduziu a eficácia da coerção, sem eliminar perdas setoriais.
Ser pequeno virou vantagem nas relações internacionais?
Não. Os Davis conseguem evitar a derrota, mas pagam caro. O que mudou foram os limites do poder bruto, não a existência da assimetria entre países.
Ewerton Lopes — Curador Editorial, O Tecido